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Comentários ‘vaticano’

Bento XVI

As manchetes dos jornais nesse carnaval foram inéditas. Tirando os trios elétricos da Bahia, os ecléticos shows no palco do Marco Zero em Recife, as mulheres exageradamente siliconadas e de pernas musculosas como jogadores de futebol – nada sensuais, muito menos belas – na passarela do samba no Rio de Janeiro, a outra mesmice ficou por conta da minha preguiça e da felicidade de poder dispor de horas a fio do mais puro e animado ócio. Antes que me execrem peço perdão aos carnavalescos natos.

E de repente, o sagrado se misturou ao profano fazendo o carnaval parar por alguns instantes. O mundo parou. Perplexos, se escutou à renúncia do Papa, sem interlocutores, sem meias palavras e sem qualquer brilho, destoando completamente do espírito da festa. Pelo menos do espírito carnavalesco que transpirava e inspirava os brasileiros de norte a sul do país. Afinal, há algum tempo, para os europeus e outros povos a alegria tem estado menos alegre. A situação econômica não está nada fácil por lá, e embora não esteja fácil aqui também, carnaval é carnaval e quem sabe, depois da quarta feira de cinzas comecemos a ter uma outra percepção da realidade que nos cerca.

A coragem de Bento XVI assustou. Não é nada comum que as grandes figuras, inclusive o Papa, se dispam dos pesos e responsabilidades de seus cargos para falarem apenas em seus próprios nomes, como qualquer ser humano. Essas personalidades mundialmente importantes precisam ser reservadas e não devem manifestar emoções, convicções pessoais ou a inteira verdade por detrás das atitudes radicais. E diplomaticamente quando o fazem observam táticas e estratégias do interesse das entidades que representam.

Talvez, para nós, o sagrado e o profano não tenham se misturado à toa.

O Papa Bento XVI está visivelmente cansado, abatido e talvez muito doente, o que já lhe garantiria o legítimo direito de resignar, mas essa renúncia pode ter outras razões que vão muito além do nosso alcance, razões que podem ser muito importantes. Outros Papas, igualmente idosos, cansados e doentes cumpriram com seus papados até o final, ainda que sob nossos olhares comovidos e cientes do alto preço pessoal que por certo estavam pagando.

É verdade que a história recente da igreja católica foi marcada por escândalos inomináveis de pedofilia e corrupção. É verdade, também, que a igreja católica vem perdendo fiéis para outras religiões – que não necessariamente agem com isenção de propósitos e viés unicamente religioso – mas que vêm falando mais de perto às almas carentes. Há que encurtar a distância da Palavra entre a Igreja e seu rebanho, e tentar reconquistar ovelhas desgarradas, embora não me caiba saber a receita.

Não se assistiu, com tamanha importância, à renúncia de um técnico de futebol, de um advogado à causa, de um artista refugiando-se da fama, de um executivo declarando ter se tornado um eremita, por exemplo. Essas são corriqueiras, quase banais e o alcance dos desdobramentos restringem-se a um universo específico, e claro, infinitamente menor.

Hoje, após o susto, a ficha caiu. Foi o Papa, o P-A-P-A quem renunciou. O sucessor do apóstolo Pedro, a quem Cristo confiou a sua própria representação na Terra e a edificação da Igreja. Foi a Pedro, significando a rocha, a pedra, a fortaleza inquebrantável dos dogmas cristãos. Isso é sério.

O que estará por vir? O que os homens em nome da fé e do Pai fizeram que lhe minou as forças? Ou apenas se assiste à lucidez de um homem, plenamente cônscio do cruel descompasso entre seu corpo e sua mente e que retira-se de cena em prol da Igreja que comandou?

Seja lá como for, ao homem Joseph Alois Ratzinger, teólogo e filósofo renomado, as minhas preces e o reconhecimento da grandiosidade do seu gesto, peculiar apenas aos elevados homens de boa vontade.

E quando, em breve, se ouvir novamente “Habemus Papam”, que Deus o abençoe.

Katia Dias Freitas

Katia Dias Freitas é advogada em Brasília

Contato: katiafreitasadv@gmail.com

Papa Bento XVI Foto Rádio Vaticano

Nesta segunda-feira de Páscoa, Bento XVI rezou a oração do Regina Coeli com os fiéis e turistas que foram a Castel Gandolfo, a residência pontíficia nas proximidades de Roma onde o Papa está transcorrendo alguns dias para repousar.

Em sua breve catequese, antes de abençoar os fiéis, o Papa recordou que em muitos países, hoje é um dia de férias, uma ocasião para fazer um passeio no campo, visitar parentes ou se reunir com a família. Mas ressaltou que a razão deste feriado, ou seja, a Ressurreição de Jesus, é o principal mistério de nossa fé.

Por isso, o Papa recomendou que nestes dias, leiamos as narrações da Ressurreição de Cristo, nos quatro Evangelhos:

“São narrações que, de maneiras diferentes, ilustram os encontros dos discípulos com Jesus ressuscitado, e nos permitem meditar sobre este evento que transformou a história e que dá sentido à vida de cada homem”.

Bento XVI continuou explicando que as narrações começam quando, ao amanhecer do dia depois do sábado, as mulheres foram ao sepulcro e o encontraram aberto e vazio. Recebido do anjo o anúncio da ressurreição, elas correram a dar a notícia aos discípulos, e precisamente naquele momento, encontraram Jesus, caíram aos seus pés e o adoraram; e ele disse a elas: “Não temais: ide a anunciar aos meus irmãos que vão à Galiléia: lá eles me verão” (Mateus 28,10).

“Em todos os Evangelhos, as mulheres têm grande espaço na narração das aparições de Jesus ressuscitado, como também na Paixão e morte de Jesus. O testemunho das mulheres não tinha valor oficial , jurídico, mas as mulheres viveram uma experiência de ligação especial com o Senhor, que é fundamental para a vida concreta da comunidade cristã, e isto sempre, em todos os tempos, não só no início do caminho da Igreja”.

Concluindo, Bento XVI disse que Maria, a Mãe do Senhor, foi um modelo sublime e exemplar deste relacionamento com Jesus, especialmente no seu mistério pascal. E consequentemente, através da experiência transformadora da Páscoa de seu Filho, a Virgem Maria é também Mãe da Igreja, de todos os cristãos e suas comunidades.

Ao terminar seu discurso, o Papa cumprimentou os vários grupos de fiéis e concedeu a todos a sua benção.

Da Rádio Vaticano

 

O estado é laico: ainda?

Rejane Xavier

Jornalista e professora de Filosofia

rexPela Constituição federal, o estado brasileiro é laico, ou seja, a separação entre estado e Igreja é um princípio básico do nosso direito constitucional.

O acordo entre o governo brasileiro e a Santa Sé, que formaliza o estatuto jurídico da Igreja Católica no país, levanta, no mínimo, inquietações quanto ao futuro desse princípio.

A Igreja Católica – entre outras – tem uma longa tradição de influência em matéria legislativa no país. Atrasou em décadas a aprovação da lei do divórcio, tem um grande peso no tratamento da questão do aborto, interfere nas políticas públicas de educação sexual, controle da natalidade, prevenção das doenças sexualmente transmissíveis.

Embora o acordo que está em pauta procure cercar de todas as garantias a liberdade religiosa e o respeito à pluralidade de crenças, não há dúvidas de que concede à Igreja Católica uma posição peculiar, que não se estende às demais.

Argumenta-se que isso decorre do fato de que o Vaticano é um estado, o que torna possível e adequada a assinatura de um acordo, instrumento que não poderia ter paralelo com as demais religiões. O argumento revela-se frágil, entretanto, diante de uma possível alternativa: estaria o estado brasileiro disposto a aprovar um texto semelhante com a República Islâmica do Irã, assegurando ao Islã o mesmo estatuto que confere à Igreja Católica? E como ficaria a relação com o Reino Unido, onde a rainha é chefe do estado e também da Igreja Anglicana?

Se o acordo com o Vaticano não cria nada de novo ou de diferente do que já existe na legislação brasileira, sua assinatura seria no mínimo desnecessária. E pelo teor dos debates e das inquietações que vem levantando, que trazem à memória a antiga fase das concordatas, tudo indica que é inoportuno.

Ig
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