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"Ajudando as mulheres a liderar, vencer, governar." ✫Desde 2009✫

Comentários ‘Humor’

Foto: sony world photography awards 2008

- Meu filho, arruma seu quarto, arranja um emprego, toma jeito nessa vida! Não dá pra ficar o dia inteiro em casa sem fazer nada! Já cresceu e ainda não sabe o que quer ser na vida??? Assim não dá!!!

- É que eu ando tão triste, mãe. E as coisas não estão…

- Ô meu filho, vem cá… Você está comendo bem? É alguma garota? Te falaram alguma coisa que você não gostou? Você quer que a mamãe faça alguma coisa pra você? Deixa eu te dar um carinho…

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Caixinha de música

Tenho essa caixinha de música com um trechinho de Carmen gravada.

Isso e um Santo Antônio.

Os dois moram em cima do computador, na estação de trabalho que ocupo na repartição.

Ganhei o Santo de uma colega que me acha muito solitária.

Ensinou-me, na ocasião, que deveria tirar o menino Jesus dele e devolver apenas depois que casasse.

Colei Jesus no Santo Antônio com superbonder.

Não é desprezo é tampouco heresia. Rezo todos os dias pra ele. Só não quero correr o risco daquele menino sumir e a coisa acabar em tragédia. A caixinha foi comprada por mim num ataque de nostalgia. Toda vez que me irrito, ouço a música. É só um trecho, bem pequeno, aliás.

Mas, às vezes, o conforto vem das pequenas coisas. Um santinho, um pedaço de uma música boa, um carinho, um sorriso.

Tenho apreciado isso ultimamente e está me fazendo bem. Ao menos, é o que eu penso.

Novos desafios e possibilidades vêm por aí. Um baita frio na barriga também. Pra não pirar, surtar e nem sair correndo, giro a minúscula manivela e ouço a habanera.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Família Addams

De todas as mortes que soube ou presenciei, a minha foi a mais triste. Classifiquei-as nas seguintes categorias: tristeza, popularidade, efeito surpresa.

A da minha avó ganhou em popularidade. Velório lotado. Parecia até festa. Aliás, era festa. Meu avô contratou um carro de som e patrocinou a bebida até o dia amanhecer. Quando enterraram, os convidados contavam piadas e riam. Já haviam esquecido, há muito, o motivo da reunião.

Em efeito surpresa, minha mãe venceu. Disparado. Talvez essa merecesse ficar fora da competição. Hors Concours mesmo! AVC acrescido de infarto agudo do miocárdio às vésperas de uma visita fora de época.

Aconteceu de madrugada. Teve até ligação de delegado no meu celular para avisar. Jurei que era mentira. Fiz piada com o policial. Não, nunca tive surpresa maior do que essa.

Mas a mais triste, a morte tristíssima digna de moção, foi a minha. Sozinha e em vida. Sem fechar os olhos. Sem estancar a dor. Sem dignidade.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

 

 

Alma fria. Coração vazio. Encontro-me à espreita de uma nova emoção. Horas vagas.

O Resto...

O Resto…

Tardes inúteis. Nada toca. Não há sentido.

Direita, esquerda? Pra quê? O sentido se foi. Levou o sorriso, a alegria. Mente frívola. Coração oco.

Protesto em vão. Requeiro dignidade quando nada mais resta. Restam os restos. E os restos sou eu.

Em tantos cantos sobra amor, mas como amar o que é sobra?

O que sobra é a sombra do que se foi um dia.

Nada vale.
Vale de ilusões.

Sobejos inúteis em busca de função.

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Uma nova vida, pensou, enquanto calçava os sapatos já atrasada para o trabalho. A mãe ligava pela sétima vez em dois dias. Isso é hora de ligar? Coisa boa não pode ser! Deixou a ligação para a caixa postal.

Olhou a pia cheia de louças sujas com um certo remorso e saiu. Esqueceu a chave do carro, voltou. Voltou mais três vezes antes de sair definitivamente. Por que isso só acontece quando já estou atrasada? A-tra-sa-da! A palavra ecoou em sua mente.

O trânsito sempre a levava a divagações. Horas parada dentro do carro. Fazia a maquiagem e pensava. Ouvia uma música e pensava. Ajeitava o cabelo e pensava. Imaginava mil conversas, resolvia as questões mais complexas do trabalho e ainda sobrava um tempo para rir das piadas inventadas. De repente, o susto, a lembrança. Uma nova vida.

Subiu os quatro lances de escada a contragosto. Por que não consertam logo esse elevador? Encontrou trabalho atrasado em sua mesa. As gavetas transbordavam de processos e petições. Às vezes, colocava os papéis para tomar sol em cima do arquivo. Aquilo lhe dava uma sensação tremenda de produtividade. Gavetas vazias. No fim do dia voltavam todos pro mesmo lugar, mas ela se sentia mais ativa.

Naquele dia não. Naquele dia as gavetas ficariam trancadas até às seis horas. Até o escritório ficar completamente vazio.

Almoço com as amigas. Colegas seria um termo melhor. Tantos assuntos, tanta energia desperdiçada e nenhuma atenção dispensada de sua parte. Estava aérea. Assim disseram. Estava mesmo, mas não concordou. Nunca concordava com nada. Não gostava de concordar. Mais assuntos e gritinhos estridentes.

Num certo momento resolveu se pronunciar. Como mulher fala alto, não é? Voltaram-se contra ela e o que estava ruim ficou pior. Foram trinta minutos desculpando-se e se esquivando de perguntas inconvenientes. Mulher fala alto, é enxerida e tem voz irritante. Dessa vez só pensou.

De volta ao trabalho, mais quatro – intermináveis – horas. Uma vida nova? Tentou ater-se às tarefas rotineiras, mas ainda assim o tempo não passava. Os olhos corriam da tela do computador para o relógio a cada cinco minutos.

Enfim, às 17:45, quinze minutos antes do esperado chega a mensagem. Ao menos uma coisa na minha vida está adiantada! Riu. Abriu o e-mail já imaginando toda a mudança que aquela mensagem representaria em sua vida. Fechou os olhos, não queria ler. Espiou. Não conseguiu ver. Respirou fundo. E, finalmente, leu.

Resultado inconclusivo. Favor repetir em 48h.
 

Carolina Vianna

 

A Carolina Vianna é fotografa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder .


O Telefone…

Ligação no meio da noite sempre traz algo inesperado. Na maioria das vezes desagradável, mas como saber, sem atendê-la?

- Sério? A gente não se vê faz tanto tempo que nem lembro mais do seu rosto. Vou pegar uma foto e fazer aqueles envelhecimentos no computador, pro caso de não te reconhecer quando chegar no aeroporto. Tô meio sem jeito, sem saber o que dizer, o que fazer. Acho que perdi o mojo, sabe?

- Não é por aí, meu bem. Eu estou com saudades, você também. Vai dar tudo certo. Acredite!

21h. Em pé no saguão. Segurando a fotografia com as mãos trêmulas. Não, ele não foi meu grande amor. Não foi o maior dos meus casos e nem o abraço que eu nunca esqueci. Teve um papel importante em determinado momento na minha vida. É especial ainda. Carinho. Acho que é isso.

Ele chega com meia-hora de atraso. Uma barriga muito maior do que a esperada. Menos cabelos. O mesmo andar. O mesmo olhar. E o jeito canalha que sempre me divertiu.

Algumas horas depois e somos os mesmos de antes, mas melhores. Sem crises. Sem cobranças Sem grandes dramas. Se houvesse um concurso de noite perfeita, essa seria imbatível, pensei. Mas Murphy não perdoa ninguém.

- Meu bem, eu tenho que ir.

- Ahn?

- É. Tenho que ir embora.

- Você viaja seis horas de avião até aqui pra me ver e não vai nem passar a noite?

- É que… – pra ser sincero – eu não vim te ver. Tinha uma conexão mais longa e te liguei pra matar o tempo.

Surpresa…

Nem sempre tão doce quanto o chocolate.

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Obrigação ou merecimento?

Num domingo qualquer, fui almoçar na casa de uma amiga. Aliás, minto, convidei-me à casa de uma conhecida. Tipo a amiga do primo da namorada do amigo, entende? Ela é inteligente, bem relacionada e, extremamente, divertida. Eu simplesmente não podia perder a chance.

A conversa estava pra lá de animada. Copos espalhados pela mesa e as pessoas terminando de comer. Tentava, sem muito sucesso, me imiscuir nos assuntos. Particularmente, acho um luxo gente que – levemente alcoolizada – consegue inserir “coaduna” no meio de uma frase. Eufemismo, sim, mas só para os queridos.

Papo-cabeça. Filosofia. Existencialismo. Novos males do século. Ou o velho Mal no novo século. Sexo. Amor. Depressão. Comportamento. Tudo ao mesmo tempo. Com e sem direção. Se não fosse um bando de intelectuais, poderia chamar de balbúrdia.

Lá pelas tantas, uma das convidadas lança uma pergunta: Ereção é obrigação ou merecimento?

Empate. Dois prá lá, dois pra cá. A provocadora aguardou a polêmica para, então, defender seu ponto de vista.

Merecimento! Merecimento, sim. Afinal, não é justo que o homem tenha um trabalho de horas e horas em preliminares para deixar a parceira no clima e seja obrigado a chegar pronto.

Pior ainda se for a primeira vez. Não precisa nem ser A Primeira Vez. Uma experiência inicial com a mocinha já serve. Em fração de segundos a racionalidade vai pro espaço e leva junto a você-sabe-o-quê.

O coitado tem de dar conta de deixar a digníssima à vontade e com vontade, conseguir a famigerada ereção e garantir a performance. Corre o risco, também, de se tornar o alvo de chacotas da turma no dia seguinte. É preciso apenas um deslize.

Por outro lado, alguém contrapôs, a mulher também chega pronta. Pode ser que não esteja pronta imediatamente para o ato, mas se esforçou aos montes até chegar na cama.

Se esforçou? Indagaram.

- Claro que sim! É preciso muito empenho para ficar linda e, sobretudo, sentir-se linda.

A mulher quando vê uma possibilidade, mesmo remota, do encontro ter um Grand Finale já começa a preparação dias antes.

Faz depilação, sobrancelhas, unhas, compra roupa nova, discute a ideia com o terapeuta, faz acupuntura para reduzir a ansiedade, liga para as amigas, lê revistas femininas com dicas quentes de sexo.

E mais. Escolhe lingerie sexy, experimenta em casa, inventa poses na frente do espelho. Faz tudo isso sabendo que as minúsculas peças não vão durar mais do que dois minutos no corpo.

Portanto, ereção, meu bem, é obrigação!

Daí pra frente virou algazarra. O academicismo deu lugar às experiências pessoais. Atropelos, acertos e risadas. O assunto ficou sem conclusão, mas rendeu uma das tardes mais divertidas que tive até hoje.

E você… o que acha?

Carolina Vianna

 

 Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Escher

Escher

A individualidade, que trata daquilo que é próprio da pessoa, versus o individualismo, que se traduz na tendência em pensar unicamente em si.

Lendo assim – uma frase solta – é fácil tomar partido logo de cara. Afirmaria, então, que manter a individualidade é bom, mas ser individualista, não.

Isso porque somos orientados – quase sempre – a procurar o bem e o mal em todas as coisas. Não é por aí… Cabe uma análise mais profunda que, no momento, não vem ao caso, pois “legislarei em causa própria”.

É só mais um ponto de vista sobre as coisas, as pessoas e a relação destas com o meu umbigo.

Acho digno ser original. Não sou de tribos. Permeio por vários grupos, mas evito a descaracterização da personalidade. Não sou mistura homogênea. Acredito na assimetria. Não sei bem de onde surgiu isso, ainda assim, reforço sempre que posso. É qualidade.

Aprendi a respeitar a individualidade alheia. Procuro não me imiscuir em assuntos que não me são próprios. Tento não invadir, arguir, inquirir. O que sobra? Eu!

Eu, meu umbigo e os assuntos que me interessam.

Logo, minhas conversas tratam apenas disso.

Penso que se alguém precisa desabafar ou quer falar de si, deve fazê-lo espontaneamente. Não me eximo de ouvir. Dou conselhos. Vibro e, até, sofro junto. Compartilho idéias e emoções, só não faço muitas perguntas. Ou perguntas muito pessoais. Creio que é isso.

Fantástico na teoria. Na prática, nem tanto…

- Você só fala de você!
- Falar dos outros é o mesmo que fazer fofoca.
- Você não pergunta de mim!
- Não gosto de inquérito sobre a minha vida pessoal e não faço com os outros o que não quero que façam comigo.
- Você é egoísta!
- Respeitosa!
- Hupmf!
- Humpf!

Às vezes, acho que o mundo é injusto, outras… tenho certeza!

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

RatoFX

Responde, por favor.

Responde!

Eu não concordo com a terapeuta, juro. Continuo indo lá porque a minha família me obriga. Escreve alguma coisa. Diz que…

Diz qualquer coisa, vai.

Suspeitava que se te contasse a visão dela você sumiria, mas temia que fosse verdade. Acho que é uma espécie de premonição. Sinto quando algo errado está para acontecer.

Nesse tempo de silêncio, relembrei todas as nossas conversas. Refleti. Entendi que não devo ser tão exigente comigo e nem ter expectativas em relação aos outros. Minhas decepções estão sempre relacionadas a uma ou à outra. Exigência e Expectativa. Assim, com letra maiúscula, pra dar medo mesmo.

Sinto sua falta. Sabia que você é o mais próximo que eu tenho de uma relação real nos últimos 5 anos? A terapeuta indicou um médico. Psiquiatra. Remédios. Não entendi porquê. Tinha certeza que teria alta na sessão que ela sugeriu isso. Minhas premonições só funcionam com coisas ruins. É incrível.

Mas chega de falar da terapeuta. Quero saber de você. O que tem feito. Onde tem andado. E do juízo que você faz de mim!

Sinto-me vazia sem suas palavras.

Não vou desistir fácil.

Volta.

Responde.

Por favor.

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Arte RatoFX

Então…

A terapeuta disse a mesma coisa que você. Disse que fujo dos temas importantes e me perco em banalidades. Voltamos, portanto, ao início. Voltamos à estranheza que a vida dos comuns me causa.

Eles andam, conversam e até pensam, eu acredito. Eu não me conecto. Não entendo. Não me insiro. Não sustento. Não me misturo. Sinto-me alheia o tempo inteiro. Representando um papel. Uma personagem. Uma mera figurante. Só existo quando estou só.

Você também se sente desse jeito? Será que existe mais gente que passa por isso?

Ela – a terapeuta – falou também que o nosso vínculo me faz mal. E que me torna ainda mais introvertida. Não sei se é verdade. Prometi não te escrever mais. Mas se não escrevo, penso. Imagino, a cada situação, o que você responderia. Qual seria sua análise. Seu conselho. Direcionamento.

E, no fim da noite, sozinha em meu quarto, não resisto. Volto a escrever. As cartas diminuem a angústia. Suas respostas me acalentam, ao menos no momento em que chegam. Mesmo quando brigamos. Nunca tive alguém tão íntimo. Parece que você faz parte de mim.

Gosto e preciso de ti, Mas quero logo explicar, Não gosto porque preciso. Preciso sim, por gostar.”

(Mário Lago)

A citação pode ser considerada uma declaração de amor. Assim, pode-se dizer que sei expressar sentimentos. Não sou tão fria, tão alheia, tão indiferente quanto pensam. Sei me relacionar, apena não faço questão. Tenho você, não é verdade?

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.