"Ajudando as mulheres a liderar, vencer, governar." ✫Desde 2009✫

Comentários ‘Humor’

Foto Valeria Pena-Costa

Foto Valeria Pena-Costa

Quarta-feira, primeira chuva depois de um longo estio. Alívio para tudo o que é vivente, com frescor e umidade no ar. Preencho o dia com urgências pela necessidade de terminar a contento um trabalho especialmente importante. Setembro chegou e prometi (a alguém) estar presente nesse mês e o trabalho é, eu diria, a confirmação simbólica dessa presença. Setembro passará, a instalação permanecerá. Desse modo, lá estarei eu.

Algo não deu certo como eu previa e até agora não consegui desenvolver um mecanismo de um dos principais elementos, não consigo entrar em contato com a pessoa que executa meus projetos. Mas tenho um plano B, ir atrás de um outro técnico e usar outro objeto. Vou buscá-lo no ateliê e resolvo testá-lo lá mesmo por precaução. Ao ligá-lo na energia (elétrica) imediatamente percebo um erro e agora penso que o queimei. Saio de casa às pressas e vou atrás de conserto. Outro choque, o técnico… Bem, há uns nove meses que ele não está mais entre nós. Além do meu sincero sentimento de pesar, saio com a certeza de que preciso de um plano C. Vou pensando pelo caminho do qual me desvio atraída pelo típico aroma quente do fermento assado e me deixo seduzir pela aparência e por um nome nas prateleiras da padaria: ‘Bolo Mármore’. Decido levá-lo para meus filhos que certamente gostarão como eu. Vou para o estacionamento revirando a bolsa em busca de moedas para o simpático flanelinha e, decepcionada, percebo que não tenho nada ali, nem notas, nada. A não ser alguns pesos colombianos que ficaram como resíduos da ultima viagem e que eu poderia oferecer como souvenir, mas não ficaria bem. Penso em lhe oferecer o bolo, mas meu ‘mármore’ não… Constrangida peço-lhe desculpas por não lhe recompensar “a vigilância” e, à espera de uma cara contrariada, recebo uma encantadora expressão acompanhada de um “não tem problema, querida, vá com Deus”. E despede-se num um amplo sorriso com a falta de um ou dois dentes em posições de evidência. Mas a expressão era tão agradável que somente fixei na lembrança os olhos sorridentes. E a palavra “querida” pronunciada em um tom atencioso de carinho respeitoso. Quem recebeu uma gratificação fui eu. E voltei mais leve pra casa. Um pouco mais adiante, ali pelo meio do caminho, ao entrar numa curva fechada, meu carro deslizou no asfalto escorregadio das primeiras águas, péssima combinação com pneus ‘calvos’. Vi, num ínfimo momento, a aproximação da alta encosta da pista com detalhes da vegetação irregular, e cheguei a notar, também num átimo, uma grande falha esbranquiçada no asfalto como o desenho de um retalho arrancado e a aproximação da guia do canteiro que me separava da outra pista. Não entendo como pude ver essas coisas pois também sentia cada meia volta que o carro fazia, indo e vindo, enquanto eu o segurava e o redirecionava. Foi um instante de hiper consciência. Sentia internamente que eu dançava com ele numa pista encerada. (Quase) Rodopiávamos. Surpreendida, assustada, ao invés de bradar um nome de santo, que seria usual, exclamei um longo, lento e bem pronunciado palavrão. Nada de irritação, somente uma reação involuntária de exaltação da surpresa. Mais gíria que palavrão. Uma palavra sonora, até bonita, de sílabas fortes, bem definidas e de expressão prazerosa. Olhei pelos retrovisores e vi que não vinha carro atrás. Sorte! Ou proteção.

Concluo que estou passando por um período de fortes emoções. Um pessimista diria, “tenho entrado em cada enrascada!”, mas num momento de teimosia otimista eu digo: “tenho saído de cada enrascada!”. Eu que sou da fé e do sagrado creio em proteção. E assim vou passando e volto pra casa ilesa. Venho trazendo a lembrança de um inesperado sorriso desconhecido, um delicioso Bolo Mármore e a certeza de que emoções boas estão a caminho (sem derrapadas na pista de vinda, espero). Aqui sou recebida afetuosamente por dois gatinhos lindos que me oferecem olhares doces e o pelo macio pra que eu os afague e sinta a brandura da vida. Os mecanismos, ainda não sei como, arranjarei. Eu sei. Haverei de assegurar a arte e a presença marcada no mês de setembro. Certo como a Primavera.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Gatos

Gatos

Era um gato, eram dois, eram três. O primeiro, assim como apareceu, se foi; o segundo veio e o terceiro busquei. Três encantos, suaves passos, majestosas expressões. Equilíbrio invejável, doçura infinita. Com eles aprendo a arte da serenidade e da concentração.

Há quem não goste de gatos, mas entendo que somente quem não os conhece muito bem. São amigos, nos recebem na porta, nos esperam na janela, nos acariciam com lambidas. Pedem carinhos, imploram por atenção. Conquistam, os lindos felinos de olhos marcantes e pelos macios que agradam as mãos.

Meus bichanos se deitam em mim em lentos e alongados cochilos. Viro cama, almofada e cobertor. Brincam estridentes comigo, viro presa, bolinha e mordedor. Fico arranhada, mas feliz. Prefiro mil vezes as mãos mastigadas, o pescoço mordido, a pele marcada que um corpo intacto pela distância dos meus bichinhos.

Recentemente ambos estiveram fora, internados, contrariados pela distância. Eles e eu. A pequeninha esteve tão frágil quanto uma pecinha de porcelana e o maior esteve tão inconformado como uma pequena fera enjaulada. E eu sofri. Eu que nunca tinha tido gatos antes não sabia o quanto poderia ser intenso esse sentimento que hoje conheço.

Ziggy tem cinco meses e chegou aqui bem pequeno, parecia uma miniatura de coleção. Tinha um olhar redondo de gato miúdo e meigo, daqueles que informam que aquela vidinha ainda está vaga e tem espaço infinito pra afeto. Amélie tem dois meses (supostos) e foi pelo miado que a encontrei. Eu passava pela calçada e ouvi um chamadinho fino, como quem me dizia “oi, olhe pra mim”! Ela sabia que se eu olhasse seria amor imediato, como de fato foi. Estava numa gaiolinha e, tão pequena, subia pela grade lateral como se quisesse escapar. Segui adiante, fui cumprir uma obrigação, mas aquele “miiiuu” me seguiu e fisgou meu coração. Voltei com a certeza de que a levaria pra casa. Adotei. Seus olhinhos, menos redondos do que os do Ziggy, são tão charmosos quanto os de gatinhas de desenhos e animações.

Quando ela estava doentinha, eu a segurei por longo tempo encostada em meu colo e como respirava bem fraquinho senti vontade de emprestar pra ela meu coração. Ficou molhadinha de lágrimas e entendeu perfeitamente que tomava um banho de amor. Assim, contrariando expectativas científicas, resistiu e tem vindo passar as noites em casa enquanto, durante o dia, ainda volta pra clínica para cuidados especiais. Está uma fofura e já “sorri e conversa” com a gente. Ainda não pode ter contato com o “irmão” que mia longamente na porta do quarto, provavelmente dizendo que a quer logo de volta nas suas brincadeiras desajeitadas e em longas lambidas que lhe alongam o pelo.

Estou ansiosa para que tudo volte logo ao normal. Fiz até promessa pra São Francisco, com direito a velas e orações. Rezaremos, os três, muitas ladainhas e talvez entoemos miados e cantos no dia de devoção do nosso amoroso protetor. Ele já sabe o quanto é grande a minha gratidão. E hoje, mais que nunca, ao seu exemplo, sou irmã do sol e da lua, das plantas e das pedras e de cada bichinho que povoa essa imensidão chamada Vida.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

 

Mais do mesmo

Mais do mesmo

Diário gerúndio:

Perdendo muito tempo pensando naquele que levou A Piece of My Heart e nunca devolveu.

Querendo ser Simples.

Ouvindo Joplin, Jagger e, também, Gal. Sendo inconveniente sem autocensura. Sonhando com máquinas futuristas capazes de fazer voltar ao passado. Assistindo Barbarella.

Chorando pelo leite derramado sem nem gostar de leite. Resmungando sem cessar. Imaginando cenas fantásticas com diálogos incríveis que nunca terão a oportunidade de acontecer no mundo real.

Crendo. Sendo. Fazendo.

Esticando os últimos minutos da fantasia. Prometendo o impossível. Testemunhando o fracasso. Testando limites. Sorrindo sem motivo.

Aprendendo a viver.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

 

 

"XOZODOV"

“XOZODOV”

O episódio é banal. Atendo o celular, como de hábito, sem os óculos. Aperto um olho daqui, estico o braço até onde posso, e eis que identifico a letra “L”. Na bucha, confiante: – Olá Leiloca! E do outro lado. – Aqui não é a Leila, é a Letícia. Ufa, minha nora, peço desculpas com metade do constrangimento. Ela é de casa, sabe que sou mestre nessa façanha. Perdoada, conversamos e desligamos.

Dizem que o pior cego é aquele que não quer ver. Ou o pior cego será o que vê, mas não quer enxergar? Não, certamente o pior cego é aquele que vê, enxerga, mas, ainda assim, teima em fazer vistas grossas.

Vandalismos, a quebradeira do patrimônio público, a insegurança, a afronta ao estado de direito. A cena do linchamento da autoridade policial. A violência dos mascarados – verdadeiros BANDIDOS, que como tal deveriam ser tratados – intimidando as manifestações legítimas e pacíficas. É quase surreal o poder paralisante que essa turba exerce, deixando a polícia, atônita, quase inerte, até mesmo para proteger o oficial que os comandava. É surreal a inércia dos governantes.

Já pus os óculos, mas continuo não enxergando. A visão está embaçada, turva. A minha visão, a nossa visão e, pior, a visão da polícia, a visão do Estado. Preocupante.

É preciso tratar a miopia dos que fazem vistas grossas. Olhar só para o próprio umbigo pensando nas eleições no próximo ano vem desencadeando – a olhos vistos – crescentes distúrbios na ordem e na segurança, difíceis de serem pacificados, quando se quiser puxar a corda.

Se num antigo programa humorístico o marido era cego – daquele cego que não quer ver – e o aconselhavam a voltar para casa para tomar conta da sua bela mulher, está na hora, também, de se colocar um belo par de óculos, com grau suficiente para fazê-los ver no que o país está se tornando. A não ser que a ideia seja exatamente essa.

Não duvidem, quando os gatos saem, os ratos fazem a festa.

O que tem a ver o frango com tudo isso? Nada, absolutamente nada. Foi só para mostrar que sem os óculos e, com os olhos desfocados, cometi o equívoco, como disse banal – e sem consequências – ao trocar os nomes. E cometi outro, embaralhando as letras na hora de escrever no teclado virtual do celular, e um simples frango “cozido”, se tornou, para o meu pessoal me perturbar para sempre, frango “xozodov”. Aqui na minha casa tudo isso pode.

Lá nos Palácios, desvio da atenção e vistas grossas? Jamais!

Katia Dias Freitas

Katia Dias Freitas

Katia Dias Freitas é advogada em Brasília

Contato: katiafreitasadv@gmail.com

O fenômeno das fotos infantis no Facebook está em pauta. Vou tentando conhecer opiniões de cada um que se manifesta à minha vista.

Há aquelas ostensivamente desagradáveis, o que aborta meu interesse, já, outras, são formidáveis. Pelo menos quanto à cadência estimulante da leitura.

Valeria Pena-Costa

Valeria Pena-Costa

Vejo defesas poéticas, antipatias arrebatadas, vestígios psicanalíticos em trechos profundos – interpretações para o bem e para o mal, coisas como resgate e regressão, catarse, fuga e negação…

Porém as opiniões que me conquistam disposição e tempo são as que tratam o tema com humor.

Não raro, mesmo que eu discorde do que está posto, reconheço com prazer a qualidade da forma como é dito. Sorrio enquanto leio, converso com os autores pela imaginação. E chego a esperar que escrevam mais, pois dá gosto o jeito com que constroem argumentos pra lá de engraçados e muito bem elaborados. Me agrada a ironia sofisticada, a graça bem construída e a dose de elegância colocada – que em qualquer crítica sempre será fundamental, além de ser mais eficaz que uma simples implicância (isto, sim, birra de criança chata e mimada).

Li comentários espirituosos de amigos que tratam esse “alastramento” de criancice como uma praga por aqui. Também noto pessoas que parecem meio ofendidas pela tal infantilidade contagiante, e confesso que não consigo entender tanto adulto emburrado, saindo do “play” no auge da brincadeira. E não se contentam em sair, o que podiam, certamente, fazer calados. Esses estraga prazeres se afastam pisando duro, chutando areia, fazendo pirraças, botando língua e fazendo caretas para os que querem continuar na diversão.

Há por aí muito grito e sapateio…

Hahahha

E a imaturidade é das crianças…

Mas sobre aqueles com quem desejei esticar conversa é que quero falar um pouco mais. E registro aqui minhas palavras, como se conversasse com algum deles:

“Não há como não curtir seu argumento, admirável amigo*!

Ainda que, ao registrar meu comentário, eu venha a nos impor o constrangimento de uma fotografia da minha hipotética busca pelo tempo perdido (embora eu costume preferir meus momentos atuais).

Mas tenho que defender meu retratinho. Repare como é inocente minha expressão! Esta é uma brincadeirinha que realmente arranca, de uns tantos, boas gargalhadas e faz revelar pontinhas de afeto. Como não gostar de um bebê??? Ainda que feinho!!! rs

Seria, então, um flagrante de carências? Um apelo do querer se fazer admirado a qualquer custo???

Realmente a exposição surfa em ondas de diversas procedências nas redes sociais…

Os guaranis-kaiowás viraram bebês – agora de diferentes etnias.

Os Anonymous e Black blocs se despem temporariamente da expressão – presumida – de um olhar desafiante, e se entregam à doçura pueril de outras máscaras: as tiradas dos álbuns de família (talvez ainda continuemos sem saber quem são…). Voltam a uma época em que os protestos se davam por brinquedos.

No entanto, essa infância é bem mais provisória e em questão de dias vai passar. E reconheçamos que para alguns a militância continua, mesmo por detrás da aparência de inocentes expressões.

Engraçado mesmo é ver um monte de nenéns “politizados”, postando indignações, esbravejando contra governos e desgovernos, falando como vão votar ou como anularão seus votos na próxima eleição. Ou vê-los sábios conselheiros, esotéricos, poéticos, intelectuais… Tão precoces! Que futuro brilhante esses prodígios terão…

Tudo é comovente em bebês, ao mesmo tempo em que pode ser patético.

Doce “patetice”…

E esta celebração anual, aparentemente, veio pra ficar. Como o Halloween (que se aproxima) que a muitos assombrou, invadiu e tomou parte do nosso calendário cultural, o dia das crianças invade o território adulto das redes sociais. Menos mal.

Ao invés de traquinagens, doces sorrizinhos a serem distribuídos em janelas e portas de perfis.

E, sobretudo, a mim soa como uma versão lúdica do ‘Namastê’ (“A divindade que habita meu coração saúda a divindade que habita seu coração”):

‘A criança que habita meu coração brinca com a criança que habita você!’

Não gostar por que? Se incomodar com o quê? Que hostilidade será aquela?

Quem não gosta de criança, cachorro e passarinho, alguma coisa estranha deve esconder…

A gente até releva tanta baboseira que corre solta por aí, e se sente também compreendida naquelas que venha a postar.

É como se ecoasse, pela própria rede, o velho apelo:

‘Perdoe-os, eles (ainda) nem sabem o que fazem…’

Namastê, amigo!

E a diversão continua…

* Somos amigos, pelo menos, virtuais.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Texto e foto de Valéria Pena-Costa 
Valéria é Artista plástica  atualmente às voltas – e encantada! – com a recém assumida condição de “do lar”. Mineira em Brasília.

 

A Família Título na língua original: The Family/Malavista Ano da produção: 2013 Países de origem: EUA, França Direção: Luc Besson

A Família
Título na língua original: The Family/Malavista-  2013
 EUA, França Direção: Luc Besson

Sátira sobre a máfia tem o cineasta Luc Besson como roteirista e diretor e se passa na região da Normandia

Elenco de estrelas em grandes performances: Robert De Niro, Michelle Pfeiffer e Tommy Lee Jones

O experiente cineasta e roteirista francês Luc Besson (Joana D’Arc) extrai de clichês de filmes sobre a máfia hilariantes situações, em comédia extraordinariamente bem elaborada. Roteiro ancorado no carisma de Robert De Niro, Michelle Pfeiffer e Tommy Lee Jones provoca boas risadas em ininterruptos 111 minutos. Sátira inteligente, diretamente conectada a ícones do porte de M.A.S.H. e de Máfia no Divã. O enredo desconstrói sequências antológicas de produções do gênero e leva a plateia para passeio em montanha russa de refinado bom humor. Além do elenco estelar, o que faz A Família (The Family/Malavista – EUA/França – 2013) funcionar bem são os diálogos inesperados que temperam acontecimentos absolutamente improváveis em pequena cidade francesa na Normandia. Junte-se a isso, o choque de costumes e os cacoetes excêntricos dos personagens. O resultado: diversão com algo a mais. Aliás, muito mais.

Encrenca à vista: família de mafioso novaiorquino vai morar em pequena cidade da Normandia

O mafioso Giovanni Manzoni (De Niro), a mulher Maggie (Michelle Pfeiffer) e os casal de filhos adolescentes, Belle (Dianna Agron) e Warren (John D’Leo) entram no programa da justiça americana de proteção a testemunhas, ganham novas identidades e novo lar, do outro lado do Atlântico, exatamente em bucólica cidade da região francesa da Normandia. Tudo sob a supervisão do veterano agente do FBI, Stanfield (Tommy Lee Jones). Decidem mudar de vida, mas levam na bagagem cacoetes do passado recente, o que significa usar o modus operandi da máfia para resolver questões corriqueiras. Uma vez instalados, voltam a ser o que sempre foram. Maggie, sentindo-se rejeitada por ser americana, reage de forma bem humorada, não sem antes explodir a mercearia onde a rejeição ocorreu. Warren adapta-se rapidamente ao liceu onde é matriculado. Sentese à vontade e em poucos dias já domina várias atividades ilícitas dentro dos muros escolares. Belle, linda, decide seduzir o professor de Matemática. E Giovanni, surpreendentemente, descobre-se escritor, ao achar velha máquina de escrever no porão da casa que passam a ocupar. A nova atividade intelectual não o impede de recaídas, sempre que contrariado, seja por reles encanador ou pelo poderoso dono de indústria de fertilizantes que polui a água potável do lugar. Ao introduzir os personagens e seus trejeitos, Luc Besson vale-se de cirúrgicas doses de humor negro, ao melhor estilo da Família Adams. Primeira sequência de gargalhadas. Enquanto isso, em Nova Iorque, os ex-companheiros denunciados por Manzoni, contratam assassino cruel para ir no encalço dos delatores. Tensão à vista. Mas, lentamente esmagada por roteiro carregado de boas porções do mais puro e requintado deboche. A trama avança para o final, com a exacerbação das caricaturas de cada um dos personagens. O nível de qualidade das situações se mantém, no entanto. Besson tem firmeza. Sabe onde deve chegar. E chega bem.

Outra grande qualidade do filme está no produtor. Ninguém menos que Martin Scorsese

A presença do cineasta Martin Scorsese garante qualidade de origem à produção. Desde a escolha do elenco, capitaneado pelo amigo de várias empreitadas bem sucedidas, Robert De Niro, passando por Luc Besson, o filme atinge a todos os objetivos a que se propõe. E ainda de dá ao luxo de homenagear o produtor. Numa das sequências, Manzonni, visto pela população da cidadezinha como escritor e intelectual, é convidado para debate sobre filme americano no salão de cultura local. Na telona: Bons Companheiros.

Outra homenagem: Sergio Leone, o cineasta italiano que lançou Clint Eastwood na cena mundial

A sequência da chegada de trem com assassinos de aluguel é diretamente inspirada nos faroestes que Sergio Leone realizou nos desertos espanhóis. Mais: a música que serve como trilha daquela seguência é exatamente um grande sucesso da banda Gorillaz, curiosamente chamado de “Clint Eastwood”. Jeito carinhoso de tratar lenda que está viva e em plena atividade (Clint) e outra (Leone), responsável por um dos mais belos filmes sobre a imigração italiana para os Estados Unidos e consequente surgimento da máfia, Era Uma Vez na América, cujo personagem principal foi vivido por Robert De Niro.

Filme foi realizado na Hollywood francesa, recém inaugurada, nos subúrbios de Paris

Chama-se “Cité du Cinéma” o complexo cinematográfico de 6 hectares, onde A Família foi realizado. Inaugurado no ano passado, em Seine-Saint- Denis, subúrbio de Paris, o empreendimento demandou investimento de 180 milhões de euros. Foi idealizado por Luc Besson e aproveitou instalações de antiga central elétrica. Representa enormes possibilidades para o cinema francês da geração pós-Truffaut e Godard.

Essência lacaniana na construção dos personagens

A contribuição do pensamento do psicanalista Jacques Lacan para o trabalho dos roteiristas franceses continua marcante. Em A Família, não foi diferente. Giovanni e Maggie são dois “simpáticos” psicóticos, porta-vozes, cada um, do “seu real”. Warren inspira-se na trajetória paterna para fazer o que faz na escola. E Belle assume narcisismo caricato, autoestima ancorada em estonteante beleza, tão frágil quanto uma Vênus de vidro.

 Escrito por J. Jardelino

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Então, ele me traiu. Pior do que isso. Traiu e deixou que eu descobrisse. É! Deixou mesmo. Quem quer fazer escondido, faz e pronto. Ainda teve a audácia de brigar comigo, acredita? Falou que mexer em celular, revistar carteira e procurar mensagens suspeitas no notebook era invasão de privacidade, pode?

Fiquei perplexa duas vezes. A primeira, quando encontrei os indícios. Aliás, a confirmação. A segunda, com a briga. Invasão de privacidade uma ova! Terminou o namoro antes que eu pudesse rodar a baiana. O que só aumentou meu ódio, devo confessar.

Mas já tinha anotado todos os dados daquelazinha. E tinha planos de vingança… Sórdidos!

Passadas três semanas, o assunto ainda fervilhava na minha cabeça. Resolvi mandar um e-mail para a bonitinha. Marquei encontro pra conversar. Ah! Usando o endereço de e-mail dele, é óbvio. A pessoa é tão banal que esqueceu de trocar a senha.

Enfim nos encontramos. Eu, toda digna, cara a cara com a perua. E não é que a vagabunda era bonita mesmo?

Não gritei, nem fiz o barraco que estava pensando. Ela tinha uma voz tão doce, tão suave. Um jeito especial que parecia entender a minha dor. Conversamos por horas a fio. Até entendi porque ele havia me traído. Ela era realmente especial.

Essa é minha história de amor. A mais bonita história de amor de todos os tempos. Estamos juntas há quinze anos.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Cine Holliúdy Ano da produção: 2013 País de origem: Brasil Direção: Halder Gomes Elenco: Edmilson Filho, Miriam Freeland, Roberto Bomtempo, Falcão

Em exibição apenas no Nordeste. Lançamento nacional previsto para o final de setembro.

Elogiado por Fernando Meirelles, filme inova na forma, com legendas em português, para traduzir o “cearês”. Conteúdo enaltece postura de moradores de pequena e distante cidade do interior e o seu amor pelo cinema

Há muito um filme brasileiro não toca em nossas melhores emoções de maneira direta e leve.

Autêntica sessão de bom humor e gargalhadas. Made in Ceará. E falado em “cearês”, com direito a legendas em português. Assim é Cine Holliúdy, do cineasta nascido em Senador Pompeu, Halder Gomes, protagonizado pelo ator, também cearense, Edmilson Filho. O traço nordestino prevalece em todo o enredo e não deixa de lembrar as melhores passagens de O Alto da Compadecida, de Ariano Suassuna, e O Bem Amado, de Dias Gomes. Com uma (grande) vantagem. A história estreita foco na quixotesca luta das salas de cinema no interior, lá pelos anos de 1970, contra a chegada da televisão. Isso torna o filme único. Mistura conteúdo sólido com formato popular, que encanta e diverte.

Ceará, terra de grandes comediantes, faz caricatura conectada a sentimentos nordestinos autênticos.

Cine Holliúdy é comédia nascida no Estado brasileiro que deu de presente ao Brasil Chico Anísio e Renato Aragão. Tem qualidade de origem, portanto. E coragem para assumir identidade nordestina, com rara autenticidade: “É diferente das tentativas de mostrar o cearense através de personagens que não têm nada a ver com o Ceará e com o Nordeste. Tentar inserir sotaque que não é de ninguém, com trejeitos que não pertencem a nenhum de nós”. A crítica do cineasta Halder Gomes tem endereço certo: algumas novelas nacionais, focadas em temas nordestinos, que produzem resultados deslocados e até preconceituosos.

Fernando Meirelles: “O protagonista Edmundo Filho é um gênio”

Além de enorme sucesso de público e de crítica no Nordeste, onde acaba de ser lançado, Cine Holliúdy prepara-se para conquistar o resto do país. Essa é a opinião de Fernando Meirelles, o cineasta brasileiro mais internacional do momento, diretor de Ensaio Sobre a Cegueira e O Jardineiro Fiel: “O ator Edmundo Filho é gênio. O Brasil não vê comediante popular como ele desde “Oscarito”.

Era uma vez, em pequena cidade do interior nordestino…

No início dos anos de 1970, a televisão chegou aos mais distantes lugares brasileiros, “via Embratel”. No interior do Ceará, Francisgleydisson (Edmundo Filho), apaixonado por cinema, decide sair do sítio onde morava para empreender viagem de alguns dias em emblemática Chevrolet Veraneio amarela. Seu destino era a pequena cidade mais próxima. A missão, instalar sala de cinema, para concorrer com a televisão, cuja chegada já estava anunciada. Em sua empreitada, leva a mulher, Maria das Graças (Miriam Freeland) e o primogênito Francisgleydisson Filho (Joel Gomes), ótimos em seus papéis. Ao chegar, se deparam com lugarejo nordestino típico: o prefeito-coronel Olegrio Elpdio (Roberto Bomtempo) precário e demagogo, liderando cidadãos-arquétipos do interior do Nordeste, à época. Tudo sob o lema da luta “contra o comunismo”, seja lá o que aquilo significasse. Duas sequências antológicas. Ainda no caminho, Francisgleydisson é abordado por guarda rodoviário e instado a explicar de onde vinha. O primeiro grande momento para boas gargalhadas. Na cidade, tenta obter a licença de funcionamento para sua futura sala de cinema. Ouve relação quase interminável de providências, recheadas por carimbos de todos os tipos. Nova grande sequência cômica, que serve também para reflexão: boa parte daqueles procedimentos “sobreviveram” e ainda hoje são exigidos por quem decidir empreender… Mais: Falcão, sempre engraçadíssimo, interpreta cego que acha que irá a filme pornô. Detona outras várias situações de delicioso humor. Não apenas ele, mas todos os que estarão no caminho de Francisgleydisson.

Filme explora estrutura diferente da televisão

O ponto culminante da odisseia do cineasta Halder Gomes localiza-se exatamente na solução criativa, inteligente e inesperada de realizar cinema, com liturgia própria. Originalidade bem-vinda. E distante do padrão, repleto de clichês, de nossas redes de televisão.

Escrito por J. Jardelino

Espanto… Foto AFP PHOTO/VANDERLEI ALMEIDA

Foi extremamente educado. Mostrou-me todos os produtos da loja tomando o cuidado de explicar, detalhadamente, como cada um funcionava. Ofereceu-me condições comerciais diferenciadas. Parcelamento, desconto e brinde. Só não conseguiu disfarçar a cara de espanto quando perguntei-lhe onde ficava o provador.

- Não existe isso em Sex Shop, senhor?

 

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotografa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Boas ideia…

Desisti, enfim. Como desisto todos os dias e também diariamente recomeço.

Drosophila Melanogaster, a antiga mosca da fruta. Foi isso que apareceu. Ah! Junto com uma tremenda dor de cabeça, é claro. Duzentos cigarros. Água, muita água. Diversas vezes interrompida pela mosca mental.

Por que, Deus, eu não consigo ter uma ideiazinha sequer? Fecho os olhos, respiro fundo, vejo uma tela negra com letras garrafais brancas. Não está nítido. Permaneço assim por um tempo. Concentro-me em decifrar a mensagem. Drosophila Melanogaster, é o que está escrito.

Nova pausa. Volta olímpica pela casa.

Imagino, então, merecer a medalha da corrida quarto-cozinha-com-obstáculos. O isqueiro sumiu. Acendo os cigarros e queimo os cílios no fogão enquanto perscruto o ambiente em busca de inspiração.

Manual técnico de tortura para principiantes: Capítulo 63 – Como obter a verdade e nada mais que a verdade de um escritor?

1. Faça-o pensar que tudo já foi escrito, lido, representado, feito, mostrado, visto, aplaudido.
2. Quando ele entender que não há nada novo a ser dito, coloque-o sentado em frente a um computador, com as mãos livres e peça um texto.
3. Tela branca, cursor piscando, piscando, piscando…
4. Acrescente crueldade e diga que o tema é livre.

Outro cigarro. Achei o isqueiro.

Ah! Uma fagulha de sorte… o jogo vai virar.

MmMmMMHoHAOahoAHahahahHAHAHaH (onomatopeia ridícula para risada maligna)

Ou não. Estava vazio.

Quem dizia Oh vida, oh azar? nos desenhos animados? Estou com essa sensação como coisa real por dentro e plagiando Pessoa descaradamente como coisa real por fora. Dentro do carro havia um isqueiro, havia um isqueiro dentro do carro. Imitação chinfrim daqueles que admiro.

Ao menos a Srta. Melanogaster se foi. Dizem, os entendidos de insetos, que a vida delas tem duração curta. Penso que Drosó morreu. E não vai receber honras fúnebres, nem mesmo imaginárias.

Que fixação dos diabos em insetos! Para onde foram as personagens e suas histórias?

Era uma vez…

Era uma vez um escritor que queria-porque-queria começar um texto com era uma vez. Eu também queria, mas não consigo.

Termino por aqui, afirmando que foram felizes para sempre!

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

Carolinna Vianna é fotografa, poderosa e escreve para o Mulheres  no Poder.

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