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Comentários ‘Ditadura’

Iara morreu aos 27 anos durante uma ação policial em Salvador: família conseguiu provar na Justiça a tese de homicídio

Um documento da agência de Salvador (BA) do Serviço Nacional de Informação (SNI), de setembro de 1971, detalha a operação que resultou na morte de Iara Iavelberg e registra que a psicóloga e última companheira do ex-capitão Carlos Lamarca trazia na bolsa, no dia de sua morte, uma das carteiras de identidade falsas usada por Dilma Vana Rousseff durante a ditadura. De acordo com o relatório, que faz parte do acervo do Arquivo Nacional, aberto ao público desde a semana passada, ao revistar os pertences de Iara, os agentes que participaram da “Operação Pajussara”, no bairro Pituba, em Salvador, encontraram o documento e pediram informações sobre o nome “Maria Lúcia dos Santos” à Agência Rio de Janeiro (ARJ), do SNI.

A agência respondeu que o registro era de Dilma, conforme trecho do documento: “Ela (Iara) deu um tiro em si, vindo a falecer a caminho do hospital. Em sua bolsa foi encontrada a carteira de identidade da Guanabara (possivelmente falsa) de Maria Lúcia Ribeiro dos Santos.(…) Quanto a Maria Lúcia Ribeiro dos Santos, consta Maria Lúcia dos Santos, nome falso de Dilma Vana Rousseff Linhares, codinome Luiza, Estela e Maria Lúcia, filha de Pedro Rousseff e Dilma Rousseff, natural de Belo Horizonte, casada com Cláudio Galeno Linhares. Pertenceu a CMP, ao Colina e a Var-Palmares, constituindo como presa desde junho de 1970″. Documentos do SNI registram que Dilma teria usado identidade falsa com o nome de Marina Guimarães Garcia de Castro, além do Maria Lúcia dos Santos. Os codinomes Estela, Wanda e Luiza também constam nos registros.

Do Correio Braziliense

Eleonora recebe um abraço de Dilma na solenidade de posse como ministra, em fevereiro, no Planalto Foto: Correio Braziliense

A presidente Dilma Rousseff não é a única integrante do atual governo que prestou depoimento ao Conselho de Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG) relatando as torturas que sofreu no período da ditadura. Nos arquivos localizados no Edifício Maletta, no Centro de Belo Horizonte, também está guardado o processo da ministra Eleonora Menicucci, hoje com 68 anos, nomeada em fevereiro para a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Embora sem a mesma riqueza de detalhes contados por Dilma em 2001, o documento referente à ministra reforça o horror vivido pelos militantes de esquerda em Minas durante os anos de chumbo. Eleonora conta que sofreu choques elétricos e socos, além de ameaças psicológicas envolvendo a filha de um ano e quatro meses e o marido.

O depoimento de Eleonora, revelado com exclusividade pelo Correio/Estado de Minas, não foi feito pessoalmente. Em 7 de maio de 2001, ela escreveu as suas agruras ao conselho para reivindicar o direito à indenização de R$ 30 mil oferecida pelo governo de Minas aos que sofreram tortura no estado. No texto, ela relata dois momentos de terror vividos em novembro de 1971 no quartel militar de Juiz de Fora, para onde foi levada presa depois de viajar “brutalmente algemada” num camburão desde o Presídio Tiradentes, em São Paulo. Numa noite, ela foi retirada da cela. “Fui torturada no próprio quartel com choques elétricos, tapas, socos e muita ameaça psicológica de que não voltaria viva para São Paulo, que voltaria separada de Ricardo (Prata Soares, seu marido), que eles me matariam durante a viagem e depois diriam que foi um acidente, que prenderiam novamente a minha filha.”

Do Correio Braziliense

Dilma Rousseff

Colegiado pretende reunir todos os documentos existentes em Minas Gerais sobre as agressões sofridas por Dilma Rousseff durante a ditadura. Expectativa é de que existam outros depoimentos semelhantes ao prestado pela presidente, em 2001.

A Comissão da Verdade vai recolher os documentos existentes no Conselho Estadual dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Cnedh-MG) relacionados à tortura sofrida pela presidente Dilma Rousseff durante a ditadura, divulgados com exclusividade pelo Correio/Estado de Minas. A comissão também investigará os fatos relacionados ao episódio, classificado pelo coordenador da comissão, o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Gilson Dipp, como “chocante”. Em um depoimento em 2001, Dilma relata a forma em que foi agredida pelos seus algozes, quando pertencia a grupos de esquerda.

De acordo com o ministro, há a possibilidade de existir outros documentos semelhantes que podem esclarecer outros episódios ocorridos durante o regime militar, envolvendo não apenas a presidente, mas outras pessoas. “Se o Correio e o Estado de Minas descobriram isso, deve haver outro tanto”, afirmou Gilson Dipp, que ficou impressionado com os relatos de Dilma, feita a uma equipe do Cnedh-MG quando ainda era secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. “É impressionante”, observou o coordenador da Comissão da Verdade, que desconhecia documentos semelhantes. O ministro também não sabia que a cidade de Juiz de Fora tinha sido um dos locais de tortura da ditadura.

Do Correio Braziliense

Reprodução: Correio Braziliense

A reportagem exclusiva do Correio Braziliense/Estado de Minas divulgada neste domingo (17/6) sobre as confissões da presidente Dilma Rousseff durante o período da ditadura causou repercussão internacional. O jornal La Nación do Chile destacou que “os documentos revelados adicionam informações a fatos até então desconhecidos: a situação da presidente Rousseff após ser capturada pela ditadura”.

O site ABS.es da Espanha, por meio da agência Reuters, disse que “Rousseff também sofreu espancamentos e teve um dente arrancado, segundo os jornais Correio Braziliense e Estado de Minas”.

O portal 24horas do Peru também citou a reportagem dos jornais do Diários Associados. O site lembrou que os periódicos narram uma entrevista da presidente ao Conselho de Direitos Humanos de Minas Gerais feita em 2001. “[Dilma] lembrou que as marcas da tortura são parte dela e que sua vida mudou para sempre.”

A agência de notícias EFE salientou que as sessões de torturas foram realizadas no Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna de São Paulo (DOI-CODI), o principal órgão de repressão e tortura dos opositores políticos.

Relatos

Dilma chorou. Essa é uma das lembranças mais vivas na memória do filósofo Robson Sávio, que, ao lado de uma outra voluntária do Conselho de Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG), foi ao Rio Grande do Sul coletar o testemunho da então secretária de Minas e Energia daquele estado sobre a tortura que sofrera nos anos de chumbo. Com fama de durona, moradora do Bairro da Tristeza, Dilma tirou a máscara e voltou a ter 22 anos de idade. Revelou, em primeira mão, que as torturas físicas em Juiz de Fora foram acrescidas de ameaças de dano físico deformador: “Geralmente me ameaçavam de ferimentos na face”.

Não eram somente ameaças. Segundo fez constar no depoimento pessoal, Dilma revelou, pela primeira vez, ter levado socos no maxilar, que podem explicar o motivo de a presidente ter os dentes levemente projetados para fora. “Minha arcada girou para outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente se deslocou e apodreceu”, disse. Para passar a dor de dente, ela tomava Novalgina em gotas, de vez em quando, na prisão. “Só mais tarde, quando voltei para São Paulo, o Albernaz (o implacável capitão Alberto Albernaz, do DOI-Codi de São Paulo) completou o serviço com um soco, arrancando o dente”, completou.

Dente podre

“Uma das coisas que me aconteceu naquela época é que meu dente começou a cair e só foi derrubado posteriormente pela Oban. Minha arcada girou para outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente deslocou-se e apodreceu. Tomava de vez em quando Novalgina em gotas para passar a dor. Só mais tarde, quando voltei para SP, o Albernaz (capitão Alberto Albernaz) completou o serviço com um soco, arrancando o dente”

Pau-de-arara

“…Algumas características da tortura. No início, não tinha rotina. Não se distinguia se era dia ou noite. O interrogatório começava. Geralmente, o básico era choque. Começava assim: ‘em 1968 o que você estava fazendo?’ e acabava no Angelo Pessuti e sua fuga, ganhando intensidade, com sessões de pau-de-arara, o que a gente não aguenta muito tempo”

Palmatória

“Se o interrogatório é de longa duração, com interrogador ‘experiente’, ele te bota no pau-de-arara alguns momentos e depois leva para o choque, uma dor que não deixa rastro, só te mina. Muitas vezes também usava palmatória; usava em mim muita palmatória. Em SP usaram pouco esse ‘método’. No fim, quando estava para ir embora, começou uma rotina. No início, não tinha hora. Era de dia e de noite. Emagreci muito, pois não me alimentava direito”

Tortura psicológica

“Tinha muito esquema de tortura psicológica, ameaças. Eles interrogavam assim: ‘me dá o contato da organização com a polícia?’ Eles queriam o concreto. ‘Você fica aqui pensando, daqui a pouco eu volto e vamos começar uma sessão de tortura’. A pior coisa é esperar por tortura”

Do Correio Braziliense

Foto: Orlando Brito

Tomam posse hoje (16) os sete integrantes da Comissão da Verdade. Nomeado na semana passada pela presidenta Dilma Rousseff, o grupo terá dois anos para apurar violações aos direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, período que inclui a ditadura militar.

Os integrantes da comissão foram escolhidos pela própria presidenta a partir de critérios como conduta ética e atuação em defesa dos direitos humanos. Fazem parte da comissão o ex-procurador-geral da República Cláudio Fonteles, o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Gilson Dipp, o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, o jurista José Paulo Cavalcante Filho, a psicanalista Maria Rita Kehl, o professor Paulo Sérgio de Moraes Sarmento Pinheiro, que participa de missões internacionais da Organização das Nações Unidas (ONU), inclusive a que denunciou recentemente violações de direitos humanos na Síria, e a advogada Rosa Maria Cardoso Cunha – que defendeu Dilma durante a ditadura militar.

Deverão estar presentes à cerimônia de instalação os ex-presidentes José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

A lei que cria a comissão foi sancionada em novembro do ano passado. De acordo com o texto, a comissão tem o objetivo de esclarecer fatos e não terá caráter punitivo. O grupo vai aproveitar as informações produzidas há 16 anos pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e há dez anos pela Comissão de Anistia.

Após a posse, os membros da comissão vão fazer a primeira reunião para definir a agenda e os planos de trabalho. Também devem escolher o presidente do colegiado.

 Da Agência Brasil

Dilma em interrogatório; ao fundo, oficiais cobrem o rosto - Foto: Reprodução/Revista Época

A presidente Dilma Rousseff disse que gosta da foto em que aparece sendo interrogada, aos 22 anos, na década de 1970, na Auditoria Militar, informa a coluna de Mônica Bergamo, publicada na Folha desta quarta-feira.

Sabe por que eu gosto daquela foto? Porque ela é verdadeira. Foi o que aconteceu”, disse Dilma Rousseff à colunista na terça-feira (6), ao receber, em São Paulo, o prêmio Personalidade do Ano, da revista “Istoé Gente”.

A presidente, que tinha passado por torturas, está no centro. Os militares que a interrogam encobrem a face. Dilma diz que não sabe quem são eles. “Mas me lembro de seus rostos.” A foto, divulgada há alguns dias, está num livro sobre a sua vida que será lançado neste mês.

A vida girou, e hoje a presidente tem a atribuição exclusiva de indicar os integrantes da Comissão da Verdade que investigará violações aos direitos humanos cometidas durante a ditadura militar. “Oportunamente”, respondeu, ao ser questionada pela Folha sobre o dia em que divulgará os nomes. “Eu gosto desse advérbio: oportunamente!”

Da Folha.com

A presidente Dilma Rousseff - Foto: AP

A Comissão da Verdade será sancionada nesta sexta-feira (18/11) pela presidente Dilma Rousseff e deve começar a funcionar a partir de abril. O Palácio do Planalto quer evitar a coincidência da agenda do grupo com o período eleitoral. O colegiado ficará responsável por investigar violações de direitos humanos entre 1946 e1988. Há receio de que o assunto seja usado nas eleições.

Tema caro à presidente, Dilma tem mantido a “sete chaves” os nomes dos integrantes da comissão. A expectativa é de que ela indique os membros até meados de dezembro e, a partir daí, as atividades comecem a ser planejadas. A presidente tem rejeitado sugestões e indicações de nomes.

“O sucesso desta comissão vai depender dos integrantes e esse é o problema da presidente. Se ela fizer boas indicações, terá um papel histórico. Caso aconteça o contrário, o fracasso cairá na conta dela”, afirma um interlocutor do Palácio, explicando o delicado dilema da presidente. Dilma tem encontrado resistência tanto do lado dos familiares de mortos e desaparecidos políticos, que cobram nomes comprometidos com a causa, quanto dos militares, que pressionam pela escolha de figuras independentes para evitar o clima de revanchismo.

A comissão, vinculada à Casa Civil, será formada por sete pessoas, escolhidas com base na conduta ética e atuação em defesa da democracia e dos direitos humanos. Outros 14 servidores irão trabalhar na área administrativa e serão responsáveis por coordenar os trabalhos, inclusive com os comitês estaduais.

Transparência

Na mesma cerimônia de sanção da comissão da verdade, Dilma assinará também a Lei de Acesso à Informação. A medida — que vale para os Três Poderes da União, estados e municípios — entrará em vigor 180 dias depois da publicação no Diário Oficial da União. A partir daí, nenhum documento poderá ser mantido em sigilo eternamente. Até aqueles considerados ultrassecretos, com informações imprescindíveis à segurança do Estado, estarão protegidos por um prazo máximo de 50 anos. No caso de documentos relativos às violações de direitos humanos, não haverá mais qualquer possibilidade de segredo.

Todos os órgãos serão obrigados a dar transparência aos atos da administração pública, além de responder a questionamentos dos cidadãos. O órgão responsável deverá conceder o acesso imediato à informação ou orientar como o cidadão poderá obtê-la em até 30 dias — em caso de recusa será necessário informar os motivos para a decisão.

DO Correio Braziliense
Do Blog Luis Nassif Online
Por raq_uel

‘Somos um país racista e homofóbico’

EntrevistaMargarida Pressburger, do Subcomitê de Prevenção da Tortura da ONU

A advogada Margarida Pressburger fez o curso de direito nos primeiros anos da ditadura militar, de abril de 1964 a dezembro de 1968. “Entrei com a ‘gloriosa’ e saí com o AI-5″, brinca a carioca de 67 anos que há um mês assumiu, em Genebra, uma vaga no Subcomitê de Prevenção da Tortura (SPT), da Organização das Nações Unidas (ONU).

É a primeira vez que o Brasil integra o subcomitê. Criado em 2002 para fiscalizar presídios e outras instituições de privação de liberdade suspeitas de práticas de tortura e maus tratos, ele também denuncia a aplicação de penas cruéis ou degradantes. Este ano, o subcomitê vai inspecionar três países: Ucrânia, Mali e Brasil.

Margarida comemora a aprovação, pelo governo brasileiro, da proposta da ONU de investigar violações de direitos humanos no Irã. É uma crítica da decisão do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se recusou, em novembro de 2010, a apoiar resolução que pediu o fim de pena de apedrejamento naquele país. Para ela, Lula excedeu-se no “jogo de cintura” da política externa.

No Brasil, a abertura dos arquivos da ditadura é uma de suas bandeiras. Indagada sobre a nota do Brasil em direitos humanos, foi curta e direta: “De um a dez? Um. Somos um país homofóbico, racista.”

Qual será sua primeira missão como integrante do Subcomitê de Prevenção da Tortura?

Estou indo para a Ucrânia no dia 14 de maio. Lá vamos fazer inspeções e visitas a locais de privação de liberdade. Este ano três países serão visitados: Ucrânia, Mali e Brasil. No Brasil eu não me envolvo. Os três países sabem, não é mistério. O mistério é só sobre as datas, que são mantidas por enquanto em sigilo, com exceção da Ucrânia, que já foi comunicada.

O que vai ser investigado na visita à Ucrânia?

A denúncia é a mesma em todo o mundo: tortura em locais de privação de liberdade. Torturas físicas em delegacias, presídios, carceragens. Também vamos a asilos, manicômios, abrigos. Enfim, em todos os lugares onde existe algum tipo de tortura, seja física ou psicológica. Eu já ouvi de agentes brasileiros: “Se não torturar, ninguém fala nada.” Essa é a mentalidade. O presidente (dos EUA, George W.) Bush, na sua biografia, diz que salvou a vida de milhares de cidadãos norte-americanos porque utilizou a tortura. É a cultura da tortura. A gente tem de entender que cultura não é tortura. Mahmoud Ahmadinejad (presidente do Irã) acha normal apedrejar uma mulher até a morte. A gente aqui não acha. A presidente Dilma não aprovou o procedimento do presidente Lula ao se abster na ONU.

Qual o significado da posição do Brasil de aprovar uma investigação sobre violação de direitos humanos no Irã?

O rumo mudou, isso deu para perceber no primeiro dia do governo Dilma, que, ao contrário do que alguns pregavam, não é a continuação do governo Lula. Vai ser o governo Dilma, vai deixar a marca dela. E Dilma, ainda mais por ter sido uma ativista política, uma “subversiva” que sofreu os piores tipos de tortura imagináveis, não vai ter aquele jogo de cintura que o Lula teve.

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Do Correio Braziliense

Denise Rothenburg

Numa manhã de julho de 1964, o comandante-geral do IV Exército, general Olímpio Mourão Filho, recebeu a visita da jovem Ana Lúcia. De fala mansa e educada, ela pediu: “Vou me casar e o senhor deve saber como é importante para uma filha a presença do pai. Por isso, estou aqui”. O general mostrava-se reticente. Há poucos dias, naquele nascedouro da ditadura militar no Brasil, Mourão tinha declarado que, se dependesse dele, “comunista não saía da cadeia”. Quando Mourão disse que entendia a situação porque também tinha uma filha, outro general reagiu dizendo que, se houvesse manifestação no casamento, estariam todos presos. A jovem de olhos vivos não aquiesceu: “Não estou pedindo a presença de um preso político. Estou pedindo o direito de uma filha: que seu pai compareça ao casamento”, declarou a moça, com a mesma firmeza com que havia acompanhado o pai, Miguel Arraes, na política. O casamento de Ana Lúcia Arraes com Maximiniano Campos Acioly foi celebrado na capela da Base Aérea de Recife, em 9 de agosto de 1964, cercada por soldados. O governador cassado, Miguel Arraes, chegou num avião da FAB e, mal terminou a cerimônia, foi novamente recolhido à prisão em Fernando de Noronha.

Para aquela menina que, aos 17 anos, enfrentou os generais para ter a presença do pai num dos dias mais importantes de sua vida, liderar, hoje, os 38 deputados do PSB ou mesmo os 68 do bloco PSB-PCdoB-PTB é bem mais fácil. Filha de um dos políticos mais importantes do seu tempo e mãe do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, Ana Arraes só subiu à ribalta da política em 2006, aos 59 anos, quando o filho deixou o Congresso para concorrer ao governo do estado. Foi candidata porque o partido considerou necessário ter o sobrenome Arraes no palanque, já que Eduardo não carrega a grife política na sua assinatura. Quando ele nasceu, em agosto de 1965, o nome Arraes era sinônimo de perseguição.

Dona Ana, como alguns a chamam, só teve notícias do pai quando Eduardo nasceu porque um amigo da família o viu desembarcando no aeroporto Santos Dumont, quando Arraes foi transferido para o Rio de Janeiro, até seguir para o exílio, na Argélia. A reaproximação da família só ocorreu mesmo em 1979, quando Arraes voltou ao Brasil e foi para a casa da filha.

Nos palanques

A convivência mais próxima levou dona Ana de volta aos palanques. Ela só se formou em direito depois que o marido morreu, em 1998. Em 2006, quando foi candidata, o pai não estava mais vivo para ver a filha obter 178,4 mil votos e estrear no Congresso. “Quando me elegi, falei para Eduardo: ‘Pronto. E, agora, o que eu faço?’ Ele apenas beijou minha mão e disse: ‘Você vai tirar de letra’”, conta

Com a política no sangue e o sobrenome Arraes, não foi difícil para ela circular no Parlamento. Na Comissão de Defesa do Consumidor, Ana Arraes já chegou com a lista de municípios pernambucanos que não tinham acesso à telefonia celular. Apresentou um projeto de desoneração da cesta básica e ainda participou da Comissão Especial da Reforma Tributária. Aprendeu rápido sem deixar de andar pelo sertão nordestino nos fins de semana. Tomou tanto gosto que percorreu 120 mil quilômetros na campanha do ano passado, o que ajudou a multiplicar a votação de 2006. Foram 387.581 votos em 2010, colocando-a entre as campeãs em todo o Brasil.

Hoje, a casa de dona Ana em Brasília é cenário de encontros políticos importantes, como as conversas entre o PSB e José Eduardo Dutra nos tempos de montagem do governo Dilma. A eleição da primeira mulher presidente da República empolgou a advogada ao ponto de ela se apresentar para uma das vagas da Mesa Diretora. Não conseguiu porque surgiu a liderança, aonde ela chega com ares de quem deseja contornar a disputa velada entre o filho e os Ferreira Gomes — Cid e Ciro —, do Ceará, e desonerar a cesta básica. “Temos que estar de olho na pauta do povo. Não é possível um quilo de açúcar ter 40% de tributo.”

Mas com um jeito de quem quer chegar sem alarde, da mesma forma que chegou, há 46 anos, ao general Mourão. E que ninguém se engane: se precisar, ela arregalará os olhos e responderá com firmeza, como fez com o outro general. Afinal, Ana Arraes não pegou em armas como Dilma, mas também enfrentou a ditadura.

O Globo revela com exclusividade processo contra presidente eleita

O passado de Dilma, segundo a Ditadura

Sob tortura, presidente eleita confessou que grupo cometeu atentado a bomba

Evandro Éboli e Jailton de Carvalho

Dilma na época em que foi presa

Dilma na época em que foi presa

Liberados para consulta ontem pelo Superior Tribunal Militar (STM), os dezesseis volumes de documentos com páginas já amareladas e gastas que contam a história do processo movido pela ditadura militar contra a presidente eleita Dilma Rousseff descrevem a ex-militante como uma figura de expressão nos grupos em que atuou, que chefiou greves e “assessorou assaltos a bancos”, e nunca se arrependeu.

Na denúncia oferecida pelo Ministério Público Militar contra os integrantes do grupo de esquerda VAR-Palmares, Dilma é chamada de “Joana D’Arc da subversão”.

“É figura feminina de expressão tristemente notável”, escreveu o procurador responsável pela denúncia.

O GLOBO teve acesso aos autos a partir de autorização do presidente do STM, ministro Carlos Alberto Marques.

A decisão foi assinada no mesmo dia em que o plenário da corte liberou o acesso dos autos ao jornal “Folha de S.Paulo”, que antes da eleição tentara consultar o processo.

Em depoimento à Justiça Militar, em 21 de outubro de 1970, Dilma contou ao juiz da 1ª Auditoria da 2 Circunscrição Judiciária Militar que foi seviciada quando esteve presa no Dops, em São Paulo.

O auditor não perguntou quais tinham sido as sevícias. No interrogatório, Dilma explicou ao juiz porque aderiu à luta armada. O trecho do depoimento é este:

“Que se declara marxista-leninista e, por isto mesmo, em função de uma análise da realidade brasileira, na qual constatou a existência de desequilíbrios regionais de renda, o que provoca a crescente miséria da maioria da população, ao lado da magnitude riqueza de uns poucos que detém o poder e impedem, através da repressão policial, da qual hoje a interroganda é vítima, todas as lutas de libertação e emancipação do povo brasileira. Dessa ditadura institucionalizada optou pelo caminho socialista”.

Os arquivos trazem ainda cópia do depoimento que Dilma prestou em 1970 ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops), delegacia em que ela ficou presa e foi torturada.

No interrogatório realizado no dia 26 de fevereiro daquele ano, Dilma, sob intensa tortura, listou nomes de companheiros, indicou locais de reuniões, e admitiu que uma das organizações da qual fazia parte, o Colina, fez pelo menos três assaltos a banco e um atentado a bomba.

Mas ressalvou que nem ela nem o então marido, Cláudio Galeno de Magalhães Linhares, tiveram “participação ativa” nas ações.

No interrogatório no Dops, Dilma contou que o atentado a bomba foi praticado na casa do interventor do Sindicato dos Metalúrgicos em Minas Gerais, e que atingiu também a casa do delegado Regional do Trabalho. As residências eram contíguas.

Em um trecho do depoimento, Dilma disse que uma de suas funções em organizações de combate à ditadura era organizar células de militantes. Teria sido encarregada de distribuir dinheiro aos grupos. O dinheiro teria sido arrecadado em ações dos movimentos.

Ig
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