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Comentários ‘Cultura’

Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

“Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar” *

Talvez venham outras vidas para viver amores deixados pra depois. Como eu, que me comprazo do amor alheio.
Tenho buscado dedicatórias em livros antigos. Quem dera todas fossem bilhetes de amor. É o que eu queria para compor meus velhos álbuns de recordações. Recordações que não são minhas, daquilo que nunca vivi. Uma apropriação do sentimento alheio? Acho que um testemunho.
Alguns sentimentos de afeição ficaram registrados nas primeiras páginas de livros, geralmente em belas caligrafias e boa dose de um caldo doce de romantismo e sempre que encontro essas mensagens imagino rostos, construo vidas. São muito minhas, é claro, sempre idealizadas e mantidas equilibradas das finas linhas das letras cuidadosamente desenhadas por outros. Redesenhadas por mim.

 ”Não se afobe, não
Que nada é pra já.” *

Fico me perguntando se todas as relações se concretizaram e o quanto terão perdurado. Os amores antigos eram pra sempre. Tão pra sempre que muitos continuam existindo nos meus álbuns de recordações. E continuarão. Hei de mantê-los vivos colocando a arte a seu serviço.
Mas sinto uma pitada de melancolia quando penso que muitos deles não passaram de desejo sobrescrito em páginas impares. Sem respostas. Quantos terão esperado por um tempo que não chegou, pela permissão que nunca se deu?
Gosto de garimpar declarações, encontradas, principalmente, em livros de romance, de poesias, de conteúdo que traduz o desejo dos amantes. Quantas ficções foram presenteadas para dar vida a histórias reais, muitas delas impossibilitadas por adversidades da vida? E por que o tempo engoliu amores não realizados? Vou construindo, reconstruindo, possibilitando. Vejo olhares, beijos, famílias, aniversários, casas e sorrisos. Também posso ver choros, desordem, roupas sujas e móveis riscados, imagens que aborto, afinal já tenho trabalho bastante ao construir histórias. Permitir sofrimentos seria dor em dobro. Mas tudo existe dentro dos meus contos de poucas linhas. As dedicatórias, geralmente trazem palavras leves, apresentáveis. Das paixões, cuido eu.
Mas eu diria que o amor não pode esperar em silêncio. Nem em fundos de armários ou de estantes onde será devorado pelo fungo, apagado pela acidez do tempo. Os papéis ressequidos, com sentimentos já sepultados, não duram milênios. Nem esperam outras vidas.
E certamente não existirão muitas Valérias a resgatar amores remotos.

“Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos…”*
* Chico Buarque
Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Bem-vindo a Nova York. Welcome To New York. 2014.  França, EUA. Direção: Abel Ferrara.

Bem-vindo a Nova York.
Welcome To New York. 2014.
França, EUA.
Direção: Abel Ferrara.

Em Bem-vindo a Nova York, o diretor Abel Ferrara explicita escândalo que derrubou presidente do FMI, favorito para vencer a eleição presidencial francesa em 2012

O cineasta francês Abel Ferrara (Olhos de Serpente, Os Chefões) conseguiu trazer para a telona filme de conteúdo raro. O material de base em que se inspirou para construir Bem-vindo a Nova York (Welcome To New York  França – EUA – 2014) trata de episódio recente envolvendo o ex-diretor do FMI e então candidato à presidência da França, Dominique Strauss-Kahn, mundialmente conhecido pelas iniciais do seu nome, DSK. Acusado de violentar a camareira do hotel em que se hospedou em Nova Iorque, foi preso pela polícia americana, dentro do avião que o levaria de volta a Paris. O caso ganhou as manchetes do mundo, especialmente nos Estados Unidos e na França, e destruiu por completo as suas chances na eleição francesa de 2012 em que se apresentava como favorito. Praticamente entregou a faixa presidencial ao segundo na hierarquia do Partido Socialista, François Hollande, que efetivamente disputou e venceu o pleito sem maiores dificuldades, tendo em vista o desgaste do presidente que disputava a reeleição pelo partido gaulista, Nicolas Sarkozy.

Sinistra Obsessão

O filme se destaca pela habilidade com que o diretor usou a estética do cinema-verdade, quase documentário, para realçar a personalidade do personagem principal, trajetória polêmica, marcada por rápida e extraordinária ascensão aos cargos mais importantes do universo financeiro contemporâneo, particularizando a presidência do Banco Mundial e do FMI. Enorme poder fez desabrochar temperamento marcado pela obsessão, que o levou a protagonizar escândalos marcados por conduta sexual tosca e brutal. Não satisfeito com as inúmeras prostitutas de luxo que lhe cercavam, notabilizou-se por casos de estupro, todos encobertos pelo dinheiro de sua bilionária mulher. O episódio novaiorquino expôs as vísceras do seu caráter.

Anatomia do complexo de inferioridade de Devereux/DSK

À medida em que a narrativa avança, o diretor vai liberando pistas que indicariam que Devereux padeceria do complexo de inferioridade, por mais paradoxal que isso pareça ao espectador. Em várias partes, ele relata a forma crua com que seu ego foi sendo esmagado. Primeiro pelos professores e chefes. Depois, pela segunda mulher, Simone, estilo destruidor da autoestima de qualquer homem. Sua arma era a isca que oferecia ao marido-vítima: poder e dinheiro. Fraco de caráter, este não teve coragem para reagir. E canalizou a energia represada aos instintos sexuais, que o levaram ao descontrole comportamental acentuado. Na fase em que ocorreu o episódio em Nova Iorque, ele certamente já apresentava dissonância cognitiva. A sua anormalidade no trato com outras mulheres era bipolar. Numa cena, ele flerta com a bela filha de diplomata africano e a conquista. Noutra parte, o instinto-mamute-desgorvernado se manifesta, quando tenta estuprar jornalista que o tinha procurado em busca de entrevista exclusiva com o então poderoso do FMI.

Gerard Depardieu e Jacqueline Bisset transportam-se para personagens reais em soberbas atuações

Viabilizar filme explosivo como aquele exigiu a criação de nome fictício para a figura principal. Nenhuma menção a DSK. Foi o ponto de partida para narrativa que focalizou um certo monsier Devereux, vivido por Gerard Depardieu. Sua atual silhueta de mastodonte serviu como recurso imagético para o diretor relatar, de forma hiperbólica, a conduta transgressora do cinebiografado. Na sequência inicial, o espectador é impactado por cenas de orgia, captadas em ambiente de clausura sádica, luz difusa, realismo quase explícito. Forma direta e crua de sinalizar o que viria durante todos os 125 minutos. O visual do ator traduziu os principais aspectos da conduta de figura repugnante, quase sem a necessidade de diálogos. Transcorrido primeiro terço, com Devereux já preso, surge a enigmática esposa, Simone (Jacqueline Bisset, atriz de enormes recursos cênicos). Mesmo contrariada, adotou o comportamento esperado de mulher rica, poderosa e obstinada, cujo único interesse era o de livrar o marido da situação constrangedora em que se encontrava. Nessa parte, destacam-se os diálogos marido/mulher,extraordinariamente bem filmados e dirigidos. A plateia passa a entender, então, as obsessões de cada um.

Estética em sintonia com a mensagem

A estética do filme privilegiou ambientes fechados quase o tempo todo, a fim de sublinhar o que pode existir de podre entre as quatro paredes de quarto de hotel ou do gabinete dos que manipulam, como depravados monarcas absolutistas, dinheiro e poder.

Depardieu deu entrevista, antes do filme começar

No início, há rápida entrevista com Gerard Depardieu. Exigência do ator para explicar o porquê dele ter aceito o desafio de representar DSK/Devereux. Serve para antecipar a crueza das sequências que protagonizou.

Teoria da conspiração: elite francesa teria contratado serviço de inteligência mercenário para implodir DSK

Três anos depois, os franceses respiram aliviados. Imaginam o transtorno que estaria sendo para a imagem do país, com alguém como DSK ocupando o Palácio do Eliseu, residência oficial do presidente francês. Dois jornalistas parisienses, usando pseudônimos, escreveram que a “Operação DSK” foi encomendada por membros da elite política e financeira da França, depois de constatarem, através de pesquisas, que o ex-presidente do FMI iria mesmo vencer Sarkozy nas eleições presidenciais de 2012. Ao estilo do antigo seriado televisivo “Missão Impossível”, elite de mercenários, formada por ex-agentes de serviços secretos ocidentais, teria armado cilada para DSK. Até a camareira, pivô do escândalo, estaria entre os recrutados especialmente para a missão.

Escrito por J. Jardelino

Foto: Eli Pinheiro da Silva

Foto: Eli Pinheiro da Silva

Pra lá do fim do meu jardim, um pouquinho depois da rua, ali onde meus pés alcançam, eu vi um ipê amarelo. E ao fundo, o sol. Algumas pétalas caiam. Os dois se confundiam. Pensei que o sol chovia. Pingos de lava dourada. Pepitas de ouro caindo no chão.

Mais ouro que em serra pelada, numa terra nua pela delonga da chuva. Cascalho. Seca de cerrado como seca de sertão.

No alto do céu ainda havia uma extensa faixa azul como um xale transparente sobre os ombros dourados do horizonte, da cidade delineada, branca e delicada como um recorte de papel.

Desejei ter os ombros bronzeados do horizonte, a delicadeza distanciada da cidade e gotas de ouro num colar, em forma de flores de ipê. Flores, muitas flores no olhar.

Desejei a transparência azul, solta, somente ela a revestir o corpo como aquele xale que veste sem cobrir.

A terra ainda está árida, se alterna entre a inconstância do frio e o constante calor, mas a chuva se aproxima lenta e todos os dias, lá de longe, bem longe, acena no céu, num pequeno, ínfimo sopro de vapor.

Vai lavar minhas árvores. Vai deixar no chão, pra lá do fim do meu jardim, um tapete amarelo, caminhos desenhados por pequenas enxurradas, um vestígio da estação.

E eu, mais uma vez, sentirei saudades do amarelo dos ipês.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Foto Valeria Pena-Costa

Foto Valeria Pena-Costa

Quarta-feira, primeira chuva depois de um longo estio. Alívio para tudo o que é vivente, com frescor e umidade no ar. Preencho o dia com urgências pela necessidade de terminar a contento um trabalho especialmente importante. Setembro chegou e prometi (a alguém) estar presente nesse mês e o trabalho é, eu diria, a confirmação simbólica dessa presença. Setembro passará, a instalação permanecerá. Desse modo, lá estarei eu.

Algo não deu certo como eu previa e até agora não consegui desenvolver um mecanismo de um dos principais elementos, não consigo entrar em contato com a pessoa que executa meus projetos. Mas tenho um plano B, ir atrás de um outro técnico e usar outro objeto. Vou buscá-lo no ateliê e resolvo testá-lo lá mesmo por precaução. Ao ligá-lo na energia (elétrica) imediatamente percebo um erro e agora penso que o queimei. Saio de casa às pressas e vou atrás de conserto. Outro choque, o técnico… Bem, há uns nove meses que ele não está mais entre nós. Além do meu sincero sentimento de pesar, saio com a certeza de que preciso de um plano C. Vou pensando pelo caminho do qual me desvio atraída pelo típico aroma quente do fermento assado e me deixo seduzir pela aparência e por um nome nas prateleiras da padaria: ‘Bolo Mármore’. Decido levá-lo para meus filhos que certamente gostarão como eu. Vou para o estacionamento revirando a bolsa em busca de moedas para o simpático flanelinha e, decepcionada, percebo que não tenho nada ali, nem notas, nada. A não ser alguns pesos colombianos que ficaram como resíduos da ultima viagem e que eu poderia oferecer como souvenir, mas não ficaria bem. Penso em lhe oferecer o bolo, mas meu ‘mármore’ não… Constrangida peço-lhe desculpas por não lhe recompensar “a vigilância” e, à espera de uma cara contrariada, recebo uma encantadora expressão acompanhada de um “não tem problema, querida, vá com Deus”. E despede-se num um amplo sorriso com a falta de um ou dois dentes em posições de evidência. Mas a expressão era tão agradável que somente fixei na lembrança os olhos sorridentes. E a palavra “querida” pronunciada em um tom atencioso de carinho respeitoso. Quem recebeu uma gratificação fui eu. E voltei mais leve pra casa. Um pouco mais adiante, ali pelo meio do caminho, ao entrar numa curva fechada, meu carro deslizou no asfalto escorregadio das primeiras águas, péssima combinação com pneus ‘calvos’. Vi, num ínfimo momento, a aproximação da alta encosta da pista com detalhes da vegetação irregular, e cheguei a notar, também num átimo, uma grande falha esbranquiçada no asfalto como o desenho de um retalho arrancado e a aproximação da guia do canteiro que me separava da outra pista. Não entendo como pude ver essas coisas pois também sentia cada meia volta que o carro fazia, indo e vindo, enquanto eu o segurava e o redirecionava. Foi um instante de hiper consciência. Sentia internamente que eu dançava com ele numa pista encerada. (Quase) Rodopiávamos. Surpreendida, assustada, ao invés de bradar um nome de santo, que seria usual, exclamei um longo, lento e bem pronunciado palavrão. Nada de irritação, somente uma reação involuntária de exaltação da surpresa. Mais gíria que palavrão. Uma palavra sonora, até bonita, de sílabas fortes, bem definidas e de expressão prazerosa. Olhei pelos retrovisores e vi que não vinha carro atrás. Sorte! Ou proteção.

Concluo que estou passando por um período de fortes emoções. Um pessimista diria, “tenho entrado em cada enrascada!”, mas num momento de teimosia otimista eu digo: “tenho saído de cada enrascada!”. Eu que sou da fé e do sagrado creio em proteção. E assim vou passando e volto pra casa ilesa. Venho trazendo a lembrança de um inesperado sorriso desconhecido, um delicioso Bolo Mármore e a certeza de que emoções boas estão a caminho (sem derrapadas na pista de vinda, espero). Aqui sou recebida afetuosamente por dois gatinhos lindos que me oferecem olhares doces e o pelo macio pra que eu os afague e sinta a brandura da vida. Os mecanismos, ainda não sei como, arranjarei. Eu sei. Haverei de assegurar a arte e a presença marcada no mês de setembro. Certo como a Primavera.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Magia Ao Luar. - Magic in the Moonlight. 2014.EUA. Direção: Woody Allen.

Magia Ao Luar.
- Magic in the Moonlight. 2014.EUA.
Direção: Woody Allen.

Atuação de Colin Firth conecta a plateia às melhores performances do diretor nos filmes em que dirigiu a si

Com o seu novo trabalho, Magia Ao Luar (Magic in the Moonlight - EUA - 2014), Woody Allen retoma a atmosfera do melhor dos seus filmes recentes, Meia-Noite Em Paris. A genialidade do cineasta consegue essa proeza sem perder os traços que têm marcado a essência de sua filmografia. Com certeza, o espectador observará em todos os 97 minutos do filme críticas ao modus vivendi dos célebres e poderosos nessa segunda metade do século 21. Faz isso, como sempre, de forma sarcástica e humor bem dosado, sublinhado pelos diálogos inteligentes e elenco bem entrosado, cem por cento afinado com os objetivos da trama.

Conteúdo marcante e estética valorizada por magníficas paisagens da Riviera Francesa

Em Magia Ao Luar, o ícone a ser desconstruído encarna numa jovem e bela médium, Sophie (Emma Stone). O encarregado da missão é o bem sucedido mágico londrino Stanley (Colin Firth), personalidade carregada por racionalismo neurótico, que o aproxima das performances do próprio cineasta, nos filmes em que também foi protagonista. Stanley é convidado para viajar à Riviera Francesa dos anos 20 do século passado por milionário, cujos vizinhos estavam absolutamente dominados pelos encantos e poderes de Sophie. Além do conteúdo marcado por deliciosa crítica aos ídolos de ocasião, Magia Ao Luar ainda traz como bônus paisagens que se assemelham a belos afrescos renascentistas ou aos melhores trabalhos de Auguste Renoir. As locações contribuem para sublinhar atmosfera pós-belle èpoque, especialmente o local mágico referido no título, um planetário construído em estilo retrô. O que ali acontece traz as primeiras pistas de como será o desenlace da história.

Colin Firth vive o personagem que seria do próprio Woody Allen 

Magia Ao Luar mostra, mais uma vez, o talento de atores ingleses que conseguem incorporar os trejeitos do diretor. Kenneth Branagh já havia atingido performance semelhante no ótimo Celebridades (1999), joia da filmografia de Woody Allen. Agora, o desafio coube ao multifacetado Colin Firth, o astro de O Discurso do Rei (com o qual recebeu a estatueta do Oscar de Melhor Ator em 2011). O seu desempenho se caracteriza por linguagem não verbal, marcada por tiques e atos falhos, reveladores de processos inconscientemente vivenciados pelo seu personagem. Façanha que apenas atores donos de notáveis recursos dramáticos conseguem.

Resultado: situações caricatas indescritíveis. Impossível não relaxar e se deixar envolver por inúmeras sequências de bom humor.

Aos 79, Woody Allen mostra-se conectado a estilo que não para de evoluir e encantar novas plateias

Um dos poucos autores cinematográficos em atividade, Woody Allen surpreende de novo. O olhar de sua câmera continua focado em novos horizontes. Agora com recursos digitais que permitem molduras que vão muito além do lugar comum, os caminhos do seu cinema de vanguarda incorporam-se ao inconfundível estilo que fascina desde Um Assaltante Bem Trapalhão (1969), o primeiro filme do diretor.

Escrito por J.Jardelino 

Foto - Valéria Pena-Costa

Foto – Valéria Pena-Costa

Há muitos e muitos anos tive um sapatinho de tiras coloridas trançadas. Desses de feira. Adorava. Além do conforto me remetia a algum trechinho de um vitral que eu vira não sei onde, não sei quando. Tempos mais recentes procurei outro e só encontrei alguns muito menos delicados do que aquele que tive. Eis que minha filha, em viagem pelo nordeste, se deparou com um e me trouxe esse mimo. Ele tem andado comigo e, às vezes, por alguns lugares lindos onde achei que combinaram muito, por exemplo, as ruas delgadas e coloridas de Cartagena. Aquele par de retalhinhos coloridos trançados andando por ruas estreitas e floridas fizeram minhas caminhadas mais poéticas. É sério, de vez em quando eu olhava pros meus pés e confirmava essa impressão. A questão é que as folgas pra descanso não lhe pouparam o suficiente e tanto andamos que ele sofreu um dano, embora não aparentasse fadiga. Acabou soltando um pedacinho do solado, bem na frente, na ponta interna do pé.

Dia desses o calcei, completamente esquecida do problema. Fui a um antiquário “caçar passarinhos”, onde sou atendida por um rapaz atencioso, paciente, afável nas negociações e com nome de santo, Damião. No fim das compras (felizmente), ao subir uma escada, plac! Senti e ouvi aquele pequeno baque parecido com um estalar de língua. Então constatei que, do estrago antigo, o quadro piorara. Ri de mim mesma, do ridículo de sair à rua com sapato estragado e mostrei ao Damião o acontecido e ele, gentilmente, ofereceu-se para “dar jeito” provisoriamente. Buscou uma cola instantânea, pediu que eu tirasse o sapato e ainda o segurou pressionando por longos segundos para assegurar-se da eficácia do conserto. Não pude evitar um quadro “sapatinho de cristal” embora meu gentil amigo estivesse longe de ser meu príncipe, mas poderia ser um daqueles personagens dotados de bondade.

Parece boba a história mas não foi, porque esses pequenos atos aliviam a dureza com que nos deparamos todos os dias, seja virtual ou pessoalmente. Gente que nos atende mal em estabelecimentos comerciais não falta, gente que se antecipa com rispidez a qualquer cumprimento, também há. Assim como há pessoas como Damião. Muitos sequer se dariam conta da minha pequena tragédia e não se comoveriam com minha precariedade. Me deixariam ir meio manquitolando.

E o conserto ficou tão bom que sou capaz de me arriscar novamente a sair com ele como está.

Não sei bem porquê é uma sapatilha que me lembra sorrisos. E agora risos também.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

A presidenta da SBPC, Helena Nader, fala do desafio de obter recursos para financiamento de projetos científicos no paísArquivo/Agência Brasil

De hoje (22) a domingo, a cidade de Rio Branco (AC) sedia um dos maiores fóruns para a difusão dos avanços da ciência e para debates de políticas públicas do país, a 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Às vésperas do evento, que ocorre desde 1948, a presidenta da entidade, Helena Nader, conversou com a Agência Brasil.

Para ela, a participação de indígenas e extrativistas nesta edição do encontro será fundamental. Depois de 14 anos de espera, a comunidade científica vê avançar no Congresso um projeto de lei que trata do acesso à biodiversidade. O projeto foi encaminhado pelo Executivo no fim de junho e deve tramitar em regime de urgência. “O momento é ideal, porque essa legislação influencia diretamente a esses dois grupos”, defende a presidenta a SBPC.

Durante a entrevista, ela citou a falta de financiamento como o principal entrave da ciência brasileira nos dias atuais. “Enquanto nós investimos 1,1% do PIB [Produto Interno Bruto], a China investe mais de 3%”, afirmou a cientista. “Se não tiver recursos, o Brasil não vai dar o salto”, disse a presidenta da SBPC destacando que a ciência também precisa do aporte do setor empresarial.

Helena Nader ressaltou ainda os preparativos para levar a reunião ao extremo oeste do país. Os voos estão esgotados, assim como as reservas nos hotéis. No entanto, até a semana passada, o encontro tinha menos inscritos que edições de anos anteriores. Até o momento, são 4,5 mil inscritos contra 22,9 mil no ano passado, no Recife (PE), e 11,9 mil, em São Luís (MA), em 2012. O número ainda pode crescer. A expectativa dos organizadores é reunir de 10 a 12 mil pesquisadores.

Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista concedida por Helena Nader à Agência Brasil.

Agência Brasil: Quais são as novidades da 66ª Reunião da SBPC e qual será a importância da participação de indígenas e extrativistas?

Helena Nader: Este ano, teremos o Dia da Família na Ciência [ou SBPC Família]. Queremos trazer a família para dentro da SBPC, com atividades voltadas para esse público. Queremos desmistificar a ciência, mostrando para todos que ela está presente no dia a dia. Teremos palestras, atividades lúdicas, isso é uma novidade. A SBPC Indígena ocorre já há dois anos. A gente tem trazido as populações tradicionais para mais perto da comunidade científica com mais frequência. Nesta edição isso será especialmente importante porque recentemente, depois de 14 anos, o projeto de lei de acesso à biodiversidade foi encaminhado ao Congresso. Infelizmente, com um rótulo de regime de urgência. A gente espera que isso seja retirado. O projeto é bom, traz avanços, mas tem que ser melhor discutido. O momento é ideal para ter essas duas reuniões [SBPC Indígena e SBPC Extrativista], porque essa legislação influencia diretamente esses dois grupos.

Agência Brasil: Por que a escolha do Acre? Como estão os preparativos?

Helena Nader: São os estados e as universidades que se candidatam, o Acre pediu para sediar o que chamou de a maior das copas, a da educação e da ciência. A organização está fantástica. As pessoas da cidade estão muito envolvidas. Infelizmente, não tem mais pessoas vindo porque estourou o número de acomodações, embora muita gente esteja sendo acomodada em casas de estudantes e em casas de família. A enchente do Rio Madeira bloqueou o acesso a Rio Branco, que depende de uma balsa. Há hotéis novos que estão prontos, mas faltam algumas etapas. Há móveis que não conseguiram chegar. Mas isso não impede de fazermos uma grande reunião. Vamos ver a importância da Amazônia. O estado do Acre foi o que menos desmatou, mas nos últimos anos, 2012 e 2013, no Brasil, o desmatamento que vinha caindo, cresceu. Isso é um sinal vermelho. Vai precisar ter o desmatamento em alguns lugares, isso é óbvio, porque tem que dar condições de vida para a população, mas tem que fazer isso com equilíbrio.

Agência Brasil: Na pauta da ciência e tecnologia, qual o maior desafio atual?

Helena Nader: Os principais desafios continuam sendo o financiamento e um fluxo constante de financiamento. O Brasil melhorou, mas ainda está muito aquém do que precisa para dar aquele salto. Continuamos na 13ª posição em termos de publicação em periódicos indexados [registrados e avaliados]. Nosso impacto, em termos de publicações, tem aumentado, mas ainda está aquém do que o Brasil pode fazer. Enquanto nós investimos 1,1% do PIB [Produto Interno Bruto], a China investe mais de 3%. Para que façamos nosso gol, precisaríamos chegar a 2%. Por isso, lutei tanto pelos royalties do petróleo [que foram destinados para saúde e educação]. Vou continuar lutando pelo Fundo Social [do pré-sal], 50% vai para educação e saúde. Ainda tem mais 50%, vamos tentar por 10% em ciência. Se não tiver recursos, o Brasil não vai dar o salto. O setor empresarial também tem que investir mais. O governo é o que mais investe. O investimento, em muitos lugares, está meio a meio, mas há lugares onde o governo investe 100% e o setor empresarial, zero.

Da Agência Brasil

Vestido

Vestido

Eu voltei. Como o boêmio que volta cansado, eu também voltei cansada. Parece até que viajei a pé. E voltei como o filho pródigo que atravessa o mundo pelo retorno a si mesmo. Deixei lá fora as roupas sujas de excessos que se desmancharam no sereno sob aquela linda lua cheia.

Nesse mundo de aventuras emocionais por onde andei, vi sacudidos todos os meus sentidos e em algum momento me vi cega. Vi. E voltei do escuro como Jonas volta do ventre da baleia. E voltei a ver como Tobias tira dos olhos as escamas que lhe cegavam.

Esse mundo de aventuras com suas contradições costuma ser cruel. Ele dá mas não entrega. Já eu, a ele entreguei mesmo o que não prometi. Mas não se trata de um sistema de trocas, não foi permuta o que fizemos. Então me devolvi a mim antes que eu lhe desse tudo e faltasse comigo mesma.

Como Ulisses eu voltei. E me encontrei como Penélope, a tecer e desmanchar para então refazer. Unicamente para não me perder. Teci meu próprio sudário e o desfiei para propiciar a volta. E fui Ariadne a enrolar um novelo com o fio da saída. Mas também fui Teseu que retornou depois de matar o minotauro. Eu o matei.

Eu fui a própria lua que nasce e cresce, diminui e some, mas sempre retorna àquele ponto, ao pé do horizonte, e chega ao topo do céu.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Quando sinto que estou precisando me conectar com a serenidade, com o mundo das possibilidades, busco uma leitura sobre o sagrado ou sobre a delicadeza oriental de viver. De ser. São dois caminhos que me apascentam. Imediatamente, ao sentir o primeiro micro sopro de uma folha virada, entro no campo das boas não certezas, da gentil permissão, do simples estar e deixar ser. E, acredite, as possibilidades vêm. Pelo menos por alguns instantes, tempo para que eu me respire novamente. Chegam como pássaros em revoada suave que por aqui permanecerão bicando, minuciosos, os grãos do aromático alpiste reserva que tenho, e que passo a espalhar no chão à minha volta.

Não é incomum eu me sentir recém saída de uma luta, daquelas bem lutadas, vigorosas, que gosto de assistir. Gosto estranho esse, reconheço, principalmente pra quem envolve facilmente um olhar afetivo com um papel de seda e sua transparência frágil. Quem dedica dias a uma renda fina ou compromete o dedo com uma pedra de pequena quilatagem de pura água marinha. É, posso ser aquosa, e também beiro o sangue. Aprecio, por exemplo, um Tarantino, uns goles de vinho tinto encorpado, o sabor marcante da pimenta rosa. Mas isso tem um preço.

Minha sorte é ter garantida, bem ali na estante, uma espécie de poupança em volumes que me falam de coisas outras além do corpo, dos movimentos bruscos, dos pensamentos densos e valores altos em cifrões.

Passadas as primeiras páginas, é como se a poeira de um redemoinho se assentasse e eu pudesse identificar no chão entre folhas ainda verdes, seixos simples de estrada e gravetos finos, a pequena conta de água marinha. Sigo observando, catando o que me interessa, lendo histórias, reparando em possíveis danos. E mais ainda em possíveis restauros. No chão revolvido, assim como entre as páginas do livro, nenhuma diferença faz se a folha arrancada ainda está verde ou já quebradiça de secura. Ali aprendo a silenciar a importância (ou a desimportância) das peças soltas.

O que tenho aqui comigo, no momento, é um pequeno e precioso livro que fala da cerimônia do chá, tradicional no pequeno Japão, nascida na imensidão da China. Não o leio tanto quanto possa parecer, e nem é necessário, pois é daquelas delicadezas marcantes, que se alastram na memória em prazeroso cultivo. É doce entrar, através dele, num aposento sereno de um ritual tão importantemente singelo. E no caminho entre o alpendre de espera e a sala cerimonial leio do autor: “Vamos sonhar com o efêmero, e demoremo-nos um pouquinho mais na formosa tolice das coisas”. De repente isso faz todo o sentido e eu me sinto solta e apta a ser sangue e água. E desejo uma generosa xícara de chá.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Foto Valéria Pena Costa

Foto Valéria Pena Costa

Costumo falar de coisas leves, mas há dias em que, mesmo no inverno, nuvens aparecem. E com sorte, chovem. Vou fazer chover.

Hoje acordei com duas indagações, síntese de ontem: ‘quem disse que é fácil? Mas tinha que ser tão difícil?’ E tento rir. Sai um risinho seco. Realmente preciso fazer chover.

Ontem visitei extremos de emoções. Na primeira parte do dia agradecia à vida por um certo dom avalizado por pessoas que pontuam meu universo. Pequenas (enormes) estrelas. No fim do dia, o danado, inevitavelmente, escureceu (e mesmo com a presença das estrelas, o escuro me assustou).

Eu quis segurar o sol, mas nada pude fazer para retê-lo. Despediu-se lindo. Antes de ir, abraçou o céu inteiro, afagou o telhado e as paredes da minha casa; alisou todo o céu com as pontas dos dedos alaranjados; pintou a cidade, dos pés à cabeça, de laranja, vermelho e azul; atravessou os arcos da ponte; mergulhou no lago; coloriu minha íris e minha pele e se afastou devagar. Lambeu-me antes de ir. Um carinho inesquecível. E se foi. Ele costuma me afagar assim. Ao chegar, ao se retirar. Me encanta quando vem e deixa-me com saudades.

Quando a noite veio, tinha um humor estranho. Assustou-me, ofendeu-me, até, em um curto mas definitivo instante. Eu quis e tentei me reconciliar com ela, tentei celebrar, festejar. Não foi possível. Precisei fazê-la dormir na tentativa de mudar-lhe os ânimos. Adormecemos juntas.

Acordei tarde, depois de numerosas tentativas do dia de me despertar. As nuvens estavam lá e discutiam com o sol. Negociavam a posse do céu. Eu, daqui, até agora, tento fazer chover para dissipá-las todas.

Desenho, escrevo, falo com gente que amo, recrio o formato do dia. Desconsidero o que não merece ser cultivado. Vou me derretendo assim, um tanto melosa, e essa é minha chuva. Tento desconstruir crenças e impressões em busca de reaprender. E de repente me dou conta de que despedidas são bonitas. No drama da partida, talvez para deixar registros inesquecíveis, o que se vai tenta mostrar o melhor de si. Como o canto do cisne. A oração da extrema unção. Os finais tornam-se bem-vindos. Que sejam pequenos finais como espaços para recomeços. Podas de estações que propiciam reflorescências pródigas (numa mesma planta). Ontem se foi. (Ufa!) Ficam-me os amores e somente o que merece ser mantido na razão e no coração, que hoje em dia já não se dispõem a oferecer abrigo incondicional. Aliviada, já posso me declarar refeita. E reitero também a gratidão. Aquela mesma de ontem. O dia já passou do meio, já me reconciliei com quem amo e refaço planos com reformas imprescindíveis. Havendo ou não uma saída em ‘gran finale’ do dia e do sol, a noite há de ser doce. E estarei envolta pelo meu amor.

(Chovi)

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Ig
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