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Comentários ‘Cultura’

A presidenta da SBPC, Helena Nader, fala do desafio de obter recursos para financiamento de projetos científicos no paísArquivo/Agência Brasil

De hoje (22) a domingo, a cidade de Rio Branco (AC) sedia um dos maiores fóruns para a difusão dos avanços da ciência e para debates de políticas públicas do país, a 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Às vésperas do evento, que ocorre desde 1948, a presidenta da entidade, Helena Nader, conversou com a Agência Brasil.

Para ela, a participação de indígenas e extrativistas nesta edição do encontro será fundamental. Depois de 14 anos de espera, a comunidade científica vê avançar no Congresso um projeto de lei que trata do acesso à biodiversidade. O projeto foi encaminhado pelo Executivo no fim de junho e deve tramitar em regime de urgência. “O momento é ideal, porque essa legislação influencia diretamente a esses dois grupos”, defende a presidenta a SBPC.

Durante a entrevista, ela citou a falta de financiamento como o principal entrave da ciência brasileira nos dias atuais. “Enquanto nós investimos 1,1% do PIB [Produto Interno Bruto], a China investe mais de 3%”, afirmou a cientista. “Se não tiver recursos, o Brasil não vai dar o salto”, disse a presidenta da SBPC destacando que a ciência também precisa do aporte do setor empresarial.

Helena Nader ressaltou ainda os preparativos para levar a reunião ao extremo oeste do país. Os voos estão esgotados, assim como as reservas nos hotéis. No entanto, até a semana passada, o encontro tinha menos inscritos que edições de anos anteriores. Até o momento, são 4,5 mil inscritos contra 22,9 mil no ano passado, no Recife (PE), e 11,9 mil, em São Luís (MA), em 2012. O número ainda pode crescer. A expectativa dos organizadores é reunir de 10 a 12 mil pesquisadores.

Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista concedida por Helena Nader à Agência Brasil.

Agência Brasil: Quais são as novidades da 66ª Reunião da SBPC e qual será a importância da participação de indígenas e extrativistas?

Helena Nader: Este ano, teremos o Dia da Família na Ciência [ou SBPC Família]. Queremos trazer a família para dentro da SBPC, com atividades voltadas para esse público. Queremos desmistificar a ciência, mostrando para todos que ela está presente no dia a dia. Teremos palestras, atividades lúdicas, isso é uma novidade. A SBPC Indígena ocorre já há dois anos. A gente tem trazido as populações tradicionais para mais perto da comunidade científica com mais frequência. Nesta edição isso será especialmente importante porque recentemente, depois de 14 anos, o projeto de lei de acesso à biodiversidade foi encaminhado ao Congresso. Infelizmente, com um rótulo de regime de urgência. A gente espera que isso seja retirado. O projeto é bom, traz avanços, mas tem que ser melhor discutido. O momento é ideal para ter essas duas reuniões [SBPC Indígena e SBPC Extrativista], porque essa legislação influencia diretamente esses dois grupos.

Agência Brasil: Por que a escolha do Acre? Como estão os preparativos?

Helena Nader: São os estados e as universidades que se candidatam, o Acre pediu para sediar o que chamou de a maior das copas, a da educação e da ciência. A organização está fantástica. As pessoas da cidade estão muito envolvidas. Infelizmente, não tem mais pessoas vindo porque estourou o número de acomodações, embora muita gente esteja sendo acomodada em casas de estudantes e em casas de família. A enchente do Rio Madeira bloqueou o acesso a Rio Branco, que depende de uma balsa. Há hotéis novos que estão prontos, mas faltam algumas etapas. Há móveis que não conseguiram chegar. Mas isso não impede de fazermos uma grande reunião. Vamos ver a importância da Amazônia. O estado do Acre foi o que menos desmatou, mas nos últimos anos, 2012 e 2013, no Brasil, o desmatamento que vinha caindo, cresceu. Isso é um sinal vermelho. Vai precisar ter o desmatamento em alguns lugares, isso é óbvio, porque tem que dar condições de vida para a população, mas tem que fazer isso com equilíbrio.

Agência Brasil: Na pauta da ciência e tecnologia, qual o maior desafio atual?

Helena Nader: Os principais desafios continuam sendo o financiamento e um fluxo constante de financiamento. O Brasil melhorou, mas ainda está muito aquém do que precisa para dar aquele salto. Continuamos na 13ª posição em termos de publicação em periódicos indexados [registrados e avaliados]. Nosso impacto, em termos de publicações, tem aumentado, mas ainda está aquém do que o Brasil pode fazer. Enquanto nós investimos 1,1% do PIB [Produto Interno Bruto], a China investe mais de 3%. Para que façamos nosso gol, precisaríamos chegar a 2%. Por isso, lutei tanto pelos royalties do petróleo [que foram destinados para saúde e educação]. Vou continuar lutando pelo Fundo Social [do pré-sal], 50% vai para educação e saúde. Ainda tem mais 50%, vamos tentar por 10% em ciência. Se não tiver recursos, o Brasil não vai dar o salto. O setor empresarial também tem que investir mais. O governo é o que mais investe. O investimento, em muitos lugares, está meio a meio, mas há lugares onde o governo investe 100% e o setor empresarial, zero.

Da Agência Brasil

Vestido

Vestido

Eu voltei. Como o boêmio que volta cansado, eu também voltei cansada. Parece até que viajei a pé. E voltei como o filho pródigo que atravessa o mundo pelo retorno a si mesmo. Deixei lá fora as roupas sujas de excessos que se desmancharam no sereno sob aquela linda lua cheia.

Nesse mundo de aventuras emocionais por onde andei, vi sacudidos todos os meus sentidos e em algum momento me vi cega. Vi. E voltei do escuro como Jonas volta do ventre da baleia. E voltei a ver como Tobias tira dos olhos as escamas que lhe cegavam.

Esse mundo de aventuras com suas contradições costuma ser cruel. Ele dá mas não entrega. Já eu, a ele entreguei mesmo o que não prometi. Mas não se trata de um sistema de trocas, não foi permuta o que fizemos. Então me devolvi a mim antes que eu lhe desse tudo e faltasse comigo mesma.

Como Ulisses eu voltei. E me encontrei como Penélope, a tecer e desmanchar para então refazer. Unicamente para não me perder. Teci meu próprio sudário e o desfiei para propiciar a volta. E fui Ariadne a enrolar um novelo com o fio da saída. Mas também fui Teseu que retornou depois de matar o minotauro. Eu o matei.

Eu fui a própria lua que nasce e cresce, diminui e some, mas sempre retorna àquele ponto, ao pé do horizonte, e chega ao topo do céu.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Quando sinto que estou precisando me conectar com a serenidade, com o mundo das possibilidades, busco uma leitura sobre o sagrado ou sobre a delicadeza oriental de viver. De ser. São dois caminhos que me apascentam. Imediatamente, ao sentir o primeiro micro sopro de uma folha virada, entro no campo das boas não certezas, da gentil permissão, do simples estar e deixar ser. E, acredite, as possibilidades vêm. Pelo menos por alguns instantes, tempo para que eu me respire novamente. Chegam como pássaros em revoada suave que por aqui permanecerão bicando, minuciosos, os grãos do aromático alpiste reserva que tenho, e que passo a espalhar no chão à minha volta.

Não é incomum eu me sentir recém saída de uma luta, daquelas bem lutadas, vigorosas, que gosto de assistir. Gosto estranho esse, reconheço, principalmente pra quem envolve facilmente um olhar afetivo com um papel de seda e sua transparência frágil. Quem dedica dias a uma renda fina ou compromete o dedo com uma pedra de pequena quilatagem de pura água marinha. É, posso ser aquosa, e também beiro o sangue. Aprecio, por exemplo, um Tarantino, uns goles de vinho tinto encorpado, o sabor marcante da pimenta rosa. Mas isso tem um preço.

Minha sorte é ter garantida, bem ali na estante, uma espécie de poupança em volumes que me falam de coisas outras além do corpo, dos movimentos bruscos, dos pensamentos densos e valores altos em cifrões.

Passadas as primeiras páginas, é como se a poeira de um redemoinho se assentasse e eu pudesse identificar no chão entre folhas ainda verdes, seixos simples de estrada e gravetos finos, a pequena conta de água marinha. Sigo observando, catando o que me interessa, lendo histórias, reparando em possíveis danos. E mais ainda em possíveis restauros. No chão revolvido, assim como entre as páginas do livro, nenhuma diferença faz se a folha arrancada ainda está verde ou já quebradiça de secura. Ali aprendo a silenciar a importância (ou a desimportância) das peças soltas.

O que tenho aqui comigo, no momento, é um pequeno e precioso livro que fala da cerimônia do chá, tradicional no pequeno Japão, nascida na imensidão da China. Não o leio tanto quanto possa parecer, e nem é necessário, pois é daquelas delicadezas marcantes, que se alastram na memória em prazeroso cultivo. É doce entrar, através dele, num aposento sereno de um ritual tão importantemente singelo. E no caminho entre o alpendre de espera e a sala cerimonial leio do autor: “Vamos sonhar com o efêmero, e demoremo-nos um pouquinho mais na formosa tolice das coisas”. De repente isso faz todo o sentido e eu me sinto solta e apta a ser sangue e água. E desejo uma generosa xícara de chá.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Foto Valéria Pena Costa

Foto Valéria Pena Costa

Costumo falar de coisas leves, mas há dias em que, mesmo no inverno, nuvens aparecem. E com sorte, chovem. Vou fazer chover.

Hoje acordei com duas indagações, síntese de ontem: ‘quem disse que é fácil? Mas tinha que ser tão difícil?’ E tento rir. Sai um risinho seco. Realmente preciso fazer chover.

Ontem visitei extremos de emoções. Na primeira parte do dia agradecia à vida por um certo dom avalizado por pessoas que pontuam meu universo. Pequenas (enormes) estrelas. No fim do dia, o danado, inevitavelmente, escureceu (e mesmo com a presença das estrelas, o escuro me assustou).

Eu quis segurar o sol, mas nada pude fazer para retê-lo. Despediu-se lindo. Antes de ir, abraçou o céu inteiro, afagou o telhado e as paredes da minha casa; alisou todo o céu com as pontas dos dedos alaranjados; pintou a cidade, dos pés à cabeça, de laranja, vermelho e azul; atravessou os arcos da ponte; mergulhou no lago; coloriu minha íris e minha pele e se afastou devagar. Lambeu-me antes de ir. Um carinho inesquecível. E se foi. Ele costuma me afagar assim. Ao chegar, ao se retirar. Me encanta quando vem e deixa-me com saudades.

Quando a noite veio, tinha um humor estranho. Assustou-me, ofendeu-me, até, em um curto mas definitivo instante. Eu quis e tentei me reconciliar com ela, tentei celebrar, festejar. Não foi possível. Precisei fazê-la dormir na tentativa de mudar-lhe os ânimos. Adormecemos juntas.

Acordei tarde, depois de numerosas tentativas do dia de me despertar. As nuvens estavam lá e discutiam com o sol. Negociavam a posse do céu. Eu, daqui, até agora, tento fazer chover para dissipá-las todas.

Desenho, escrevo, falo com gente que amo, recrio o formato do dia. Desconsidero o que não merece ser cultivado. Vou me derretendo assim, um tanto melosa, e essa é minha chuva. Tento desconstruir crenças e impressões em busca de reaprender. E de repente me dou conta de que despedidas são bonitas. No drama da partida, talvez para deixar registros inesquecíveis, o que se vai tenta mostrar o melhor de si. Como o canto do cisne. A oração da extrema unção. Os finais tornam-se bem-vindos. Que sejam pequenos finais como espaços para recomeços. Podas de estações que propiciam reflorescências pródigas (numa mesma planta). Ontem se foi. (Ufa!) Ficam-me os amores e somente o que merece ser mantido na razão e no coração, que hoje em dia já não se dispõem a oferecer abrigo incondicional. Aliviada, já posso me declarar refeita. E reitero também a gratidão. Aquela mesma de ontem. O dia já passou do meio, já me reconciliei com quem amo e refaço planos com reformas imprescindíveis. Havendo ou não uma saída em ‘gran finale’ do dia e do sol, a noite há de ser doce. E estarei envolta pelo meu amor.

(Chovi)

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Lago

Lago

Estou a léguas da torre branca que parece fincada bem na quina do horizonte.

Entre nós está o lago, abrangente espelho. Mas ele está mais perto de mim que dela, no entanto, é ela que o alcança.

Ambas miramos a água. Eu a vejo refletida nesse espelho.

A torre se debruça sobre o lago, embora dele esteja tão longe.

Ela me verá?

A imagem surpreende.

Penso: o que faz a vaidade… (Ou será amor?)

O lago traz a imagem distante para provar seu poder de atração…

A torre busca o espelho distante para comprovar sua beleza…

Quem atraiu o quê? Foi o lago que trouxe a torre ou foi a torre que se buscou no lago?

Olho mais uma vez e eles permanecem juntos. Não sei se ela mergulha ou se deita sobre ele, só sei que passarão a noite nesse envolvimento. E posso notar as águas do lago num quase indecente movimento.

E por que olho insistentemente?

Porque é lindo de se ver. São contrastes que se buscam. São improváveis que se abraçam e impossíveis se contêm.

Ela é concreto, ele é líquido. Ela olha, ele mostra. Ele se esparrama e ela se ergue. Ela é contundente, mas ele, perfeitamente penetrável.

Ela branca se faz visível no mergulho quando ele se torna escuro.

Tudo se mistura, muito se confunde, algo se inverte, nada é definido nem definitivo.

Nem tento entender como tanta distância os mostra tão próximos.

Deve ser amor…

Por alguns instantes invejei um amor de torre e lago.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Eu não disse que ia voar mesmo que com os pés quase no chão?

Pois aqui estou, pairando entre o azul do céu e o vermelho da terra. Até mesmo a estrada é gentil e se estende como um tapete novo aos meus pés. E não piso nele.

Olho ao longe sabendo que não alcanço o ponto aonde vou chegar. Me encanta a falsa demarcação do horizonte, a linha imaginaria que separa o aqui do lado de lá. O lado de lá, sempre lá.

Ver a vegetação correndo em sentido contrário, na borda da estrada, me remete a observações de Robert Pirsig no seu ‘Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas’, quando defende ardorosamente as viagens de motocicleta como uma forma de estar em comunhão com o mundo. Para ele estar em um automóvel é como observar a natureza através de uma vitrine (ou algo assim). Já eu, me contento com essa proximidade e me sinto perfeitamente integrada, apesar da velocidade com que nos olhamos, a paisagem e eu. Nos amamos e não importa se não a toco ao passar. Nos fitamos e nos levamos em memória. Imagino que guarda minha expressão, tão impressionada passo por ela.

George Benson me acompanha o pensamento e com uma elegância delicada vai musicando minha viagem de forma a torná-la inesquecível. Mas não só ele. Ouço outra voz que comporá o inesquecível.

De repente tudo toma um ar encantado e me vejo no meio de uma revoada de borboletas amarelas sobre o sem-fundo azul do céu. Sinto-me pessoalmente presenteada e acredito, com menos pretensão do que fantasia, que é pra mim que se apresentam.

E então a voz de Adriana Calcanhoto traz um pouco do que vivo. Pela janela do carro vejo tudo enquadrado – e estou lá. Nas cores de Frida Kalo. A terra é vermelha como os vermelhos de Frida. O céu é azul como o azul improvável que pinta a casa de Frida. O verde é tão verde como os que estampam suas saias rodadas. Ela se deleitaria com esse percurso e se enxergaria em alguns elementos. As árvores tortas têm um quê de seu corpo torturado e belo.

De repente as coisas mal cabem em mim e sinto emoções que brotam como fluido borrifado em sentido ascendente. Estou vaporizando emoções.

E não resisto a uma última citação. É Rilke.

“Quando não há caminhos traçados, nós voamos.”

Apesar das estradas desenhadas sob meus pés, costumo voar tomando rumos inesperados. E assim, por pelo menos uma vez nesse trajeto, me perdi de verdade (não sozinha). E foi bom.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

Filme do diretor João Jardim consegue trazer 1954 para 2014

Getúlio. 2013. Brasil. Direção: João Jardim. Elenco: Tony Ramos, Alexandre Borges, Drica Moraes.

Getúlio. 2013. Brasil.
Direção: João Jardim. Elenco: Tony Ramos, Alexandre Borges, Drica Moraes.

 Uma das mais emblemáticas passagens da História do Brasil foi transformada em filme. Filmaço. Getúlio (Brasil – 2013) lança olhar cinematográfico sobre os últimos dias de Getúlio Vargas, presidente do Brasil por quase duas décadas. Quase um documentário, o filme do diretor João Jardim tem qualidades para adentrar pelos gêneros suspense e drama, com viés político inteligente. E cumpre essa missão com êxito. Ao invés de maçante cinebiografia do ex-presidente, o roteiro estreita o foco nos dias que antecederam o fim da Era Vargas. Mesmo sendo obra ficcional ambientada há sessenta anos, Getúlio consegue ser atual. Revela minúcias do ambiente político no entorno da presidência da República. Os membros do gabinete presidencial, particularizando familiares, ministros e assessores próximos do poder, a oposição e o posicionamento da mídia são apresentados quase em estilo de cinema-verdade. Desde então, pouco ou nada mudou.

Traídos pela disfunção egóica 

O filme trata do embate entre duas personalidades fortes, Getúlio Vargas e Carlos Lacerda, representantes de interesses políticos antagônicos e donos de egos hipertrofiados. A disfunção psíquica em ambiente hostil faria um e outro cair em ciladas preparadas pelos inimigos. E pela traição dos amigos. Getúlio sucumbiria em 1954, abatido pelo fogo da mídia a serviço de oligarquias incomodadas pelas políticas que colocou em prática em favor dos mais pobres. Lacerda cairia quatorze anos depois — dezembro de 1968, em seguida à decretação do AI 5 — traído pelos amigos que ajudou a encastelar no poder com o advento do regime militar iniciado em 1964.

Getúlio 

Getúlio inaugurou a era dos presidentes carismáticos. Sabia se comunicar muito bem pelo rádio. Também era dono da rara habilidade de ganhar a confiança das multidões. Nos contatos diretos com o povo, deixou registrada marca de aceno contínuo, com a mão direita indo e voltando à testa. Instintivo, agregou à sua reputação a imagem de “pai dos pobres” ao materializar benefícios até hoje em vigor para as classes trabalhadoras, como a CLT – Consolidação das Leis do Trabalho, salário mínimo, férias proporcionais. Também soube flertar com a grande classe média, se aproximando da Igreja Católica. Em sua gestão, foi construído o Cristo Redentor. E ainda estabeleceu conexões pragmáticas com certa parte das elites nacionalistas, ao criar a Companhia Siderúrgica Nacional – CSN e liderar a campanha “O Petróleo É Nosso” e posterior fundação da Petrobrás.  Contra ele, pesou a criação do famigerado DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda, eufemismo para instituir a censura à imprensa, no período em que foi ditador (1930/45). Outro lamentável episódio ligado ao seu governo foi a entrega de Olga Benário Prestes aos nazistas alemães, fato que resultaria na execução dela em câmera de gás de campo de concentração. Em 1951, voltou ao cargo de presidente da República, eleito pelo voto direto, em 30 de outubro do ano anterior.

Lacerda 

Carlos Lacerda oscilou da esquerda para a direita em espaço de tempo relativamente curto para travessia ideológica daquele porte. No biênio 32/34, foi comunista. Em 1948, guinada radical. Converteu-se ao catolicismo sob o papado conservador de Pio Doze. A nova postura incluiu intenso combate ao getulismo, com sucessivos discursos contra um governo que “chafurdava na lama da corrupção e planejava golpe que iria abortar as eleições presidenciais marcadas para 1955″. Perspicaz, entendeu a importância do novo veículo de comunicação, a televisão. Assistindo ao apresentador Fulton J. Shelton nos Estados Unidos, aprimorou técnicas que o ajudaram a dominar por completo o nova mídia. Em seus pronunciamentos televisivos, quase sempre se valia de um quadro-negro, a fim de destacar os pontos importantes de suas falas. Era o precursor do atual power point. Atraiu simpatizantes na classe média civil e militar, especialmente a abnegação de dez majores da Aeronáutica, um deles Rubens Florentino Vaz.

Intrigas de 1954 repaginadas para 2014 

O filme começa justamente com o assassinato do major Vaz, na rua Toneleros, em Copacabana. Na verdade, os autores do crime, ligados a Gregório Fortunato, líder da guarda pessoal de Getúlio, visavam Lacerda. O episódio daria início a uma série de erros do governo, que não estava preparado para agir com rapidez e eficiência. Os bastidores do Palácio do Catete, residência oficial de Getúlio, eram habitados por ministros e assessores que se caracterizavam ou pela incompetência ou pela explícita falta de lealdade ao presidente. Não ocorreu a ninguém ir aos subúrbios ou mesmo viajar aos Estados, a fim de conferir a excepcional popularidade que o presidente tinha, sobretudo junto às classes mais carentes. Naquele tempo, não estavam à disposição dos governantes as pesquisas de opinião. No final do filme, a exibição de imagens de arquivo da época demonstra o quanto Getúlio era querido e aprovado. Sagaz, Lacerda entendeu a vulnerabilidade predominante no núcleo do poder central e soube transformar mera fagulha em incêndio de grandes proporções. Com a mídia escancarada em seu favor, conseguiu construir cortina de fumaça entre o presidente e a realidade. De Getúlio, tirou a vontade de lutar. Sem ela, o presidente foi desmoronando, charuto em charuto, no rumo da carta-testamento.

Tony Ramos, Drica Moraes e Alexandre Borges em magníficas performances, sob a direção de João Jardim, com fotografia de Walter Carvalho 

O êxito de Getúlio pode e deve ser atribuído, em primeiro lugar, ao diretor João Jardim, que atuou como eficiente juiz em partida de futebol decisiva: deixou o jogo rolar de forma imparcial. Estudou, nos maiores e nos menores detalhes, as características de Getúlio Vargas e de Carlos Lacerda e soube passar orientações cirurgicamente precisas a Tony Ramos (Getúlio) e Alexandre Borges (Lacerda). Experientes, um e outro conseguiram materializar personagens muito próximos do que devem ter sido na realidade os próprios Getúlio e Lacerda. Drica Moraes, como Alzira Vargas, filha queridíssima do presidente, viveu talvez a melhor performance de sua carreira. Completando o círculo virtuoso, Walter Carvalho, um dos melhores diretores de fotografia do cinema brasileiro em todos os tempos, conseguiu a luz certa para cada sequência, valorizando outro atributo do filme: a linguagem imagética.

“Um filme que vale para todas as épocas” 

Segundo Tony Ramos, a sua filha, que é advogada, quando viu o filme, lhe segredou: “É um filme que propõe reflexão não só para aquela época. Vale para todas as épocas”.

Escrito por J. Jardelino

Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Eu buscava um assunto sobre o qual escrever dentre os muitos que eu pensava. Mas há assuntos a serem materializados, há assuntos a serem sentidos e há muitos outros a serem descartados. Despejados no nada. Enquanto tentava atrair algumas palavras no espremido teclado, meu gato (o tema público mais frequente em minha vida nos últimos dias) me lambia o pescoço e mordia o queixo, pousado no meu colo.

Recentemente escrevi o desejo de ter um gato na janela. Imediatamente chegou-nos à casa o exemplar mais cativante que eu poderia desejar. Como ainda é muito pequeno para janelas, senta-se em meu ombro e espia o curto mundo que alcança nas medidas do meu quarto. Ou acomoda-se em meu colo e penetra outro mundo, um pouco mais complexo, fixando meus olhos com um encantador olhar azul.

Gosto disso. Gosto dos olhos que me olham. Da expressão do rosto que parece me sorrir. Gosto da sedução do macio, do corpo quente e, principalmente, do sabê-lo delicada vida muito pulsante ao meu alcance, despertando meu desejo de cuidar e retribuir amor.

Quando falo do gato me remeto também a gente. Desse prazer de ter ao alcance dos olhos e das mãos uma presença animada cheia de olhares e expressões instigantes carregadas de afeto. Penso em uma presença pousada em meu colo penetrando meus olhos e, quem sabe, até mordiscando-me o queixo. Mas isso não é tudo. O melhor mesmo, é o que se passa entre um mundo e outro. Mundos muito desconhecidos que de repente encontram pontes que permitem intenso tráfego pra lá e pra cá em caminhadas incansáveis de exploração e conhecimento.

A vida se dá nessas pontes, nesse lá-ligado-ao-cá, e sem isso, nada tem sentido. Não numa época globalizada de sentimentos que se alimentam de intercâmbios. Salvam-se os bem nutridos.

E meu gatinho, tão pequeno, já me traz bonitinhas reflexões sobre o viver afetivo. E enquanto escrevo, olho-o em uma de suas infinitas carinhas graciosas, que não faz o menor esforço para ser o encanto personificado. É o encanto em forma de gato. Ele cochila de um modo inusitado, cabecinha pendente no vazio, vai em movimento muito lento caindo para trás enquanto fecha os olhos, e então se dá conta de que nada o apara. Leva um pequeno susto e se recompõe com uma carinha de riso. Sempre penso que ele me sorri. E lá vai procurar posição mais confortável pra mais uma das centenas de cochilos, sempre encostado ao meu corpo, buscando o calor acolhedor. E eu, tanto quanto lhe aqueço, me abasteço nesse querer tão doce do ronronado que, nesse exato instante, escala meu corpo para acomodar-se no vão do meu pescoço (e me ajeito pra permiti-lo e continuar escrevendo). Meu peito capta a vibração dessa engraçada expressão. É a hora em que ele se acalma. Eu também me acalmo embalada pela maciez do som, pela tranquilidade com que adormece confiante em meu sentimento, sobre meu peito, tão ao alcance dos meus olhos que posso tocá-lo e posso oferecê-lo (meu sentimento) a alguma gente. E vou misturando as vidas. A minha e as muitas que me ensinam sobre o prazer do assunto que julguei merecedor de ser registrado. Porque é de amor que falo.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

O Palácio Francês. Título na língua original: Quai d'Orsay. Ano da produção: 2013. País de origem: França. Direção: Bertrand Tavernier. Elenco: Thierry Lhermitte, Raphael Personnaz, Niels Arestrup, Bruno Raffaelli, Julie Gayet.

O Palácio Francês. Título na língua original: Quai d’Orsay. 2013. França. Direção: Bertrand Tavernier. 

Filme do cineasta Bertrand Tavernier faz humor inteligente e ainda traz o sex appeal de Julie Gayet, a namorada do presidente da França

Baseado em fatos reais, O Palácio Francês (Quai d’Orsay - França – 2013) estreita o foco na trajetória do jovem e talentoso redator Arthur Vlaminck (Raphael Personnaz), no momento em que é contratado para trabalhar no Ministério das Relações Exteriores do Governo da França. De início, deixa-se entusiasmar pela chance de atuar diretamente na elaboração dos discursos do próprio ministro Alexandre Taillard de Worms (Thierry Lhermitte). A excitação com a magnífica oportunidade para alguém como ele, em início de carreira, logo nos primeiros dias, vai sendo substituída pela surpresa. O ambiente no entorno do chefe é um amálgama de personalidades e situações conflitantes.

Política tratada com sarcasmo, fina ironia e boas risadas da plateia

A cada sequência, o experiente cineasta Bertrand Tavernier, também autor do roteiro, eleva o tom do sarcasmo que predomina no filme inteiro. Humor seis estrelas. Impossível não rir quase o tempo todo. Sob o “verniz” cultural do ministro Taillard, estava personalidade ansiosa, frágil, narcisista ao extremo. O tempo inteiro citando o pensador grego pré-socrático Heráclito, marca-texto sempre à mão para assinalar frase emblemática do criador da dialética política. Para Arthur, sobravam alguns “portos-seguros”. O chefe do gabinete ministerial, Claude Maupas (Niels Arestrup, que recebeu o César — o “Oscar” do cinema francês pelo seu desempenho), era um deles. Cínico e competente, a depender do desafio que aparecesse. Resolvia as questões mais complexas, sempre. E, também, partiam dele os conselhos pragmáticos. No “front” doméstico, a vida de Arthur era lindamente colorida pela bela Marina (Anais Demounstier), companheira, culta e encarregada de lhe injetar impulsos de entusiasmo diários. Precisava deles para enfrentar gente como Stéphane Cahut (Bruno Raffaelli), assessor para assuntos aleatórios do Ministério, ou Valérie Dumonthiel (Julie Gayet. Na vida real, a atual namorada do presidente da França, François Hollande), encarregada de impregnar o Quai d’Orsay de sensualidade no limite máximo, quase erótico. Durante os 113 minutos do filme, situações na África, Europa e Extremo Oriente se entrelaçam e vão desaguar no esperado discurso do ministro na reunião do Conselho de Segurança da ONU, em Nova Iorque.

Fatos ocorridos em 2003 inspiraram o autor do livro que deu origem ao roteiro 

O diplomata francês Anthony Baudry, sob o pseudônimo de Abel Lauzac, aproveitou sua experiência no próprio Quai d’Orsay, como redator dos discursos do então ministro do exterior francês Dominique Villepin e escreveu o livro que influenciou a criação do roteiro de O Palácio Francês. O discurso de Villepin no Conselho de Segurança da ONU, em 2003, realmente ocorreu. Na condição de representante de um dos cinco países com lugares fixos no órgão político máximo das Nações Unidas (os outros quatro são Estados Unidos, Rússia, China e Inglaterra), ele condenou, com veemência, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Resultado zero. Repercussão prática nenhuma. Provavelmente, o diretor Bertrand Tavernier tenha pinçado desse detalhe a principal mensagem do filme: diplomacia é espuma, discurso com citações grandiloquentes, coquetéis, jantares. E pouco ou nada mais. Daí para decisão de fazer filme que transforma o Ministério das Relações Exteriores francês numa comédia não deve ter sido difícil para alguém com a experiência do diretor. Fez isso em Paris, mas, se quisesse, poderia ter rodado seu filme em Washington, Brasília, Londres ou Buenos Aires.

Jacques Lacan (*), onipresente nos roteiros cinematográficos da terra de Molière 

Bertrand Tavernier fez absoluta questão da grife lacaniana no roteiro. Ocorre na sequência em que o próprio pai do ministro Taillard surge diante do chefe de gabinete Claude Maupas, sem marcar audiência. Fala indiretamente em “tempo lógico” (mantra lacaniano) para a solução de algumas questões do ministério e saca do bolso do colete sugestões. Quase em seguida, o próprio ministro apresenta a Maupas as mesmas recomendações. Cínico, Maupas finge que ouve tudo com atenção. Parecia piada. Como o filme é uma comédia, era mesmo uma piada. Pertinente, inteiramente conectada à disfunção egóica do ministro.

(*) Jacques Lacan (1901-1981), considerado pelos franceses o criador da moderna Psicanálise, “um estágio além de Freud”, costumava, modestamente, afirmar que ele era freudiano; os seus seguidores, lacanianos.

Escrito por J. Jardelino

Este é o ano dos livros escritos por mulheres. Não sou eu quem digo, mas uma campanha organizada pela escritora e artista Joanna Walsh, que tem o objetivo de incentivar a leitura de escritoras no mundo inteiro. Fazendo uso da hashtag #readwoman2014, diversos meios de comunicação estrangeiros estão se movimentando para elaborar listas, dicas, dar espaço a novas e antigas autoras, que, muitas vezes, ficam à margem do noticiário literário. É só dar uma olhada em um levantamento divulgado pelo The Guardian, o qual mostra que, em 2012, na New York Review of Books, só 22% dos livros resenhados foram de escritoras. Pouco, né? O número se repete com pequena variação em todos os mais importantes suplementos literários do mundo.

“E eu com isso”? Cara leitora e amiga, ao que tudo indica, o livro no Brasil é das mulheres. Sim, nós, brasileiras, lemos mais do que os homens. Segundo pesquisa do Instituto Pró Livro, cerca de 52% dos leitores deste nosso Brasil de meu Deus são mulheres. Portanto, se somos nós que escolhemos as linhas das histórias que levamos na sacola de praia, no busão ou antes de dormir, por que não dar mais chances para nossas companheiras escritoras? Vejam: essa campanha – que foi endossada pelo bimestral norte-americano The Critical Flame – não quer que a gente pare de ler homens. Imagina ter de largar os autores xodós!? Não ia dar certo, é só questão de equilíbrio. Dar uma mexidinha nessa engrenagem – que parte dos editores, passa pela divulgação e chega aos leitores -, que acaba deixando a mulherada de lado. Trata-se de encorajar mais palavras femininas na nossa imaginação. Para mulheres e também homens. Ou você se lembra quando foi a última vez que deu um livro de uma escritora para seu marido/irmão/pai?

Como já sabemos, existe um montão de autoras sensacionais. De todo o tipo de literatura: fantástica, suspense, leve, pesada, cabeça. Em todos os gêneros também: não-ficção romance, contos, crônicas. Como aderi à campanha do #readwomen2014, compartilho com os leitores e leitoras do Sem Retoques meus livros de cabeceira escritos por mulheres. Elegi 15 e, claro, muitos ficaram de fora. Espero que gostem.

Do Blog Sem Retoques,

por Marilia Neustein

Ig
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