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Comentários ‘Cultura’

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Hoje saí de casa e encontrei algumas poesias por onde andei.

Em um restaurante, desses detestáveis self-services, fui atendida por um poeminha xoxo e mal educado, desmazelado na aparência e de conteúdo tosco. Quis sair dali às pressas e até evitei a comida, certamente mal feita e fria.

Já na calçada, diante de uma vitrine, levei um esbarrão de uma escrita vulgar com escancarado desejo de ser sedutora – gostosa. Moça com grandes estrofes e pouca sutileza. Com sensualidade exagerada, passou deixando um perfume excessivo e enjoativo no ar. Daqueles cheiros que grudam na gente, mesmo ao contato passageiro. Às vezes penso que grudam só de se olhar.

Passei também por odes decadentes, ainda com traços belos de um passado já muito passado, mas muito nobre.

Fui saudada com breves acenos por orações gentis em versos ligeiros e presenciei uma briga de um grupo de frases feias, adornadas com brilho arranhado de rimas sintéticas e longas métricas de ouro de baixo teor.

No horário do chá, num salão metido a fino, fui apresentada a uma dama com ar esnobe, pretensa erudita. Ainda era jovem, mas seu ar pesado em afetado rebuscamento e insistentes maneirismos lhe dava rugas entre os olhos e olhar de moça velha. Agradeci o chá e saí ainda em jejum.

Pensei que o dia estava perdido em poetagens rançosas.

Caminhei um pouco mais e me sentei, com uma pontinha de desânimo, na varanda de um café, onde pedi café, e abri um livro que me sorrira horas atrás; e então, ao virar uma página, uma pequena poesia dobrou a esquina e passou diante de mim, sorridente e leve, matinal como aquelas moças de propagandas de absorventes. Sempre (mesmo!) tão limpinhas, arejadas e ágeis, essas mocinhas.

Sempre (mesmo!) vestidas com tecidos fluidos, frescos e claros de estampas miudinhas. Uma lindeza de se ver.

Aquele tipo de poesia que olha e sorri, cumprimenta espontânea, pára pra um dedinho de prosa, fala do tempo, de um sentimento, de coisas que viu, e vai pra casa (ou pra onde quer que seja) deixando uma sensação de que crescemos juntas, que lemos os mesmos primeiros livros de escola. Vai indo diante do meu olhar de admiração e desejo de amizade sincera.

Ah, eu queria uma dessas como vizinha, irmã, melhor amiga… Ou filha, ou mãe, madrinha, comadre, ou mesmo cunhada. Sogra não, porque nesse caso eu não poderia falar mal do meu amor nem confidenciar alguma traição esquecida no passado… Deus me livre!

Mas eu queria mesmo encontrá-la novamente, e como acho que tenho idade para ser sua mãe, se ela fosse órfã eu a adotaria… E a registraria com meu sobrenome.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Foto: Valéria Pena-Costa

Foto: Valéria Pena-Costa

Quinta-feira de Abril. Era pra ser azul. Diferente disso o dia veste uma espécie de casaco felpudo e branco. Todo franjado de águas compridas que se arrastam no chão e não deixam sequer uma parte do corpo do dia à vista.

Não é a primeira vez que falo dele assim. Me parece vestido com um roupão de banho, já que associo a veste à água. Certamente seu corpo está molhado. E não evito um pensamento de que, mais tarde, talvez, quando o sol atrás das nuvens resolver se aproximar, o dia possa nos proporcionar um belo ‘striptease’. E já me adianto em fantasias.

Primeiro recolhe as franjas, joga-as displicentemente para trás, pra cima, sei lá onde as esconde. Somem. Depois vai abrindo devagar a parte inferior da roupa e o traço da cidade vai se insinuando. Daqui tenho uma visão privilegiada, me sentarei na varanda pra assistir. Então aparecerá o lago, como os tornozelos. Depois o contorno sinuoso da ponte, e já prevejo os prédios que se projetam no céu.

Então ele se detém nos indícios da cidade, antes de desnudá-la totalmente. Antes que eu possa ver o horizonte. E passa a despir os ombros. O roupão vai se dissolvendo em fiapos que voam com o vento. A pele do dia se arrepia. As árvores tremem à minha volta. O sol esquenta um pouco mais. Os passarinhos se agitam. As maritacas gritam meio histéricas, estridentes. A platéia está alvoroçada. E o céu vai se mostrando devagar em toda sua limpa exuberância. Azul profundo, com um olhar de atravessar meus olhos. Me derreto sob o sol. Por alguns segundos até desejo a chuva pra me refrescar por um instante. Mas o dia continua em seu encantamento. Não tira os olhos de mim, que hipnotizada retribuo e o fito longamente.

Será que o azul se mostrará todinho? Se exibirá totalmente nu perante o mundo? Fico envergonhada quando me lembro que nos dias de Abril me sinto abraçada. E respiro diferente. Acordo sorridente. Pratico ousados movimentos com a vida. Temos nossa própria coreografia.

E já passo a fazer planos. O que eu farei com esse dia…

Pensem o pior de mim, mas um lindo dia azul de Abril me inspira. Não há outro mês mais sensual. Talvez fevereiro se iguale em apelos. Cada um com seus encantos. Conjuração e carnaval.

Se eu fosse escolher meses como amantes, escolheria esses dois.

Abril é charmoso, amplo, sorridente. É arejado, claro, livre e me chama pra rua e pro céu. Se eu quisesse praticar aventuras, seria em Abril. É aquele que sopra endorfina no meu rosto.

Já fevereiro é palpável, moreno, vibrante. É quente e exuberante e me faz querer ficar em cantos aconchegantes com ele, porque pode chover. Me encharca de serotonina.

Mas voltamos a Abril, quinta-feira, e meu dia ainda está vestido. Recatado. Se estou no meio do turno, esperei até agora, penso que ainda não é tarde para acontecer meu espetáculo. Já sigo feliz por saber que em algum momento o azul me chegará. Vou deixar que me abrace. E é possível que sejamos vistos soltos por aí, ele com esse espírito aventureiro e naturista e eu desejando sinceramente que ele se expanda, se alongue e me alcance, me envolva.

Ainda me encontro na varanda à espera da abertura de alguma fresta nas nuvens, onde eu possa atravessar a mão para acariciar aquela carne etérea do vazio azul. Pode ser até que eu toque uns lampejos de sol. E a chuva cai à minha volta, cai como cascata do beiral, se joga farta nos galhos do ipê produzindo um som repetido de gargalhada. Acho mesmo é que ri zombando de mim. É que Abril parece meio ausente, ele ainda não veio pra ficar.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Foto: Valéria Pena-Costa

Foto: Valéria Pena-Costa

Eu queria um gato na janela, como aquele que vi numa tarde melancólica, seca e fria, na pequena cidade medieval ao sul da França. Tanta coisa eu pensei quando o vi, quando parei para fotografar. Ele estava ali, abrigado do frio de fim de inverno, na janela alta, no interior da casa em meia luz.

Imagino a sala aquecida, quem sabe, por uma lareira acesa. A casa, de tão antiga, tinha ares de esquecida… Silenciosa, fitava, com o gato, a rua calada e vazia, na tarde que ameaçava partir. Fantasio que o bichano sorvia o resto de luz natural que, imagino, deve guardar nas pupilas pra refleti-la depois, como lanterna, na escuridão.

Para mim aquela era uma tarde quase triste, pois era hora de despedida. Mas era também um último registro de estada, de visita amorosa a uma outra casa cheia de vida, de luz, de lembranças protegidas pela construção também antiga, em paredes que não podem ser medidas com um palmo, nem com uma régua escolar. Verdadeira fortaleza erguida entre as dóceis heras trepadeiras, que recuam e se recolhem no inverno, e o ruidoso e inclemente Mistral que leva consigo e devora tudo o que vê.

Dizem que é vento de enlouquecer velhinhos, os solitários, quase surdos, mas que ainda ouvem nele seus fantasmas, cobradores de prazeres incompletos, de amores não realizados, de saudades guardadas em caixas gastas com chaves que se movem pelas madrugadas antes da ventania soprar.

Talvez o gato pressinta o vento. Por isso todos os idosos deveriam ter gatos atentos. O olhar perdido, na verdade, se concentra nos sinais do tempo. Do tempo que levará os donos, do que trará fantasmas, o grito do Mistral, o lamento do passado. Então, me pergunto: à sua aproximação, o que fará o bichinho? Será que se agita? Não tive tempo para observar um movimento sequer. Parecia uma estátua, um bicho empalhado, mas seus olhos eram acesos e seu pelo tinha o brilho das coisas vivas. Era, na verdade, um guardião dos mistérios do vento. Por isso eu queria ter um gato.

Quero um gato na janela
Numa tarde fria de tempo seco
De outono/inverno no cerrado
Sem vento, sem fantasmas,
Numa terra e casa ainda novas,
Onde não houve tempo de eu me perder no tempo.
Não houve tempo de eu me perder dos meus amores
Que ainda rondam sedutores, como os próprios gatos tropicais.
Ainda fazem serenatas em janelas não tão altas, com vidraças virtuais,
Em lembranças não tão velhas, ainda deixam rosas nos umbrais.

Observo, do interior da sala, em plena luz da tarde, meu felino imaginário, absorto em mistérios invisíveis de uma rua sem segredos, de uma vizinhança que não se fecha em paredes grossas, onde o Mistral nunca ventou, sequer a passeio. Talvez meu bichano se ocupe em armar planos para pegar o filhote recém chocado no ninho do ipê. Talvez pressinta a morte do velho cão a quem serve de guia, e pensa em fugir, pois essa perda ele não suportará. Embora seja considerado como distante e frio, meu gato é amoroso, protetor do que seria seu possível inimigo, andam juntos como irmãos.

Enquanto aqui dentro o cachorro em seus arroubos de saliência senil, se agita, faz festa e participa com os últimos sentidos que lhe restam, o gato ali, meio corpo pra fora, parece que vai voar…

Não alcanço seu pensamento. Me encanto com seu porte elegante, pelo negro em pequenos arrepios, e a longa e fina cauda que se move lentamente, raramente, como se ela é que estivesse a planejar a fuga.

Tão real minha imagem nessa tarde de março que já ameaça partir. O que penso nesse momento singelo, sem a pompa medieval do sul da França, é que quero um gato na janela.

E quero outro par de olhos,

Na mesma tarde fria,

Olhando em mim o que não vejo,

Vendo em mim até o que eu mesma desconheço.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Entre orquídeas e ipês, azaleias e jasmins, há sempre um canto de passarinho, um movimento de formiga, uma abelha em voo lento. Há sempre uma folha seca, uma flor caída, uma pedra largada. Sempre há, também, o meu olhar e minhas mãos, sentindo aqui, colhendo ali.

Costumo levar flores para dentro de livros velhos, onde guardo também folhas rendilhadas que recolho no chão, tão ressecadas quanto as antigas páginas que carregam os textos impressos.

Com o tempo as flores ressequidas parecem tornadas em papeis de seda coloridos e finos, de toque breve e quebradiço, e ainda emitem um sussurro curto quando se quebram – o mesmo das louças partidas.

Visto assim, os canteiros parecem forrados de cacos de louças pintadas. São mosaicos de retalhos ruidosos e leves que voam com o vento.

No interior dos meus livros a vida se dá em ciclos de uma outra forma. As flores prensadas se apegam às páginas e reconstroem suas histórias (é assim que quero ser ao envelhecer). São como ilustrações de passado e acima de tudo são textos poéticos ditados pelo jardim, como notas acrescidas à espera de uma nova edição.

Esse lugar fértil é um autor atento que compõe com habilidade invejável suas crônicas, poesias e contos. Passeio por ele ouvindo histórias, lendo-lhe livros e, ao seu interesse, até falando de mim.

Entre uma sombra e outra há sempre um Drummond aberto e um Borges fechado (onde recosto minha cabeça à espera de ouvi-lo e ao alcance de sonhá-lo).

Meus autores prediletos são tantos que comporiam canteiros exuberantes, e são como iluminuras nesse meu pedaço de terra, nesse canto que me remete ao quintal de onde vim.

Meu jardim me leva a Matos, Campos e Prados.

Aqui planto e colho Florbelas, Rosas e Marguerites. Tenho Carvalhos, Pinheiros e Oliveiras. Por aqui costumam passar Pessoas, Anjos, Santos e Reis.

E entre todas as flores, semeio meus amores. Aqui amores-perfeitos são cultivados.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

A bailarina Luana estudará engenharia elétrica no MIT – Foto Arquivo Pessoal

A bailarina mineira Luana Lopes Lara, 17, aguarda ansiosamente o próximo mês. Em abril, a jovem vai conhecer a universidade em que estudará pelos próximos quatro anos a partir de agosto: o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos.

A estudante soube da notícia na última sexta-feira (14) e já se decidiu. Vai deixar a Escola do Teatro Bolshoi, em Joinville (SC), onde mora e estuda há três anos, para se dedicar ao curso de engenharia elétrica em uma das instituições mais conceituadas e concorridas do mundo.

“Eu sempre amei dançar e, por vezes, cheguei a pensar em ser bailarina profissional, mas também sempre quis estudar numa universidade de engenharia e fazer algo que pudesse mudar o mundo e ajudar as pessoas”, disse Luana, que recebeu a notícia de sua aprovação em Salzburgo, na Áustria, onde apresenta “O Lago dos Cisnes” com os integrantes brasileiros do balé russo Bolshoi.

“Nossa, eu estava ansiosa na sala da minha casa esperando [o resultado]. Daí li metade da carta de aprovação e já sai gritando. Comecei a chorar, abracei minhas amigas e liguei pros meus pais”, relembra.

A estudante recebeu uma bolsa de 20% e tentará mais um auxílio da Fundação Estudar, instituição sem fins lucrativos que apoia a formação de jovens brasileiros. Segundo ela, o gasto anual do curso é de cerca de 63 mil dólares.

Rotina, estudos e o balé

Luana soma em seu currículo uma série de títulos, como medalhas de ouro e bronze na Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (2013) e na Olimpíada de Matemática de Santa Catarina (2012), respectivamente; prêmios de melhor aluna de seu colégio em Joinville; e melhor nota no curso escola avançada de engenharia mecatrônica da USP (Universidade de São Paulo).

O bom desempenho escolar da jovem é resultado de pouquíssimas horas de sono. “Tinha vezes que eu chegava a dormir 7 horas por semana. Meus pais ficavam super preocupados. Me mandavam dormir”, conta.

Em geral, das 7h20 às 12h30, a jovem fazia o ensino médio em uma escola particular focada nas áreas de ciência e tecnologia. Por volta de 13h15 ela chegava na sede do Bolshoi e saia de lá só às 19h45. Apesar do cansaço, a estudante tentava aproveitar todos os momentos livres durante a semana para estudar. Assim, conseguiria ter tempo livre nos finais de semana para sair com os amigos, ir ao cinema, assistir televisão.

Na época do vestibular, a estudante não focou muito na preparação para as provas brasileiras. Preferiu estudar para os exames de conhecimentos gerais SAT (Scholastic Aptitude Test) e para o de proficiência em inglês Toefl (Test of English as a Foreign Language), ambos exigidos pelas universidades norte-americanas.

“Desde pequena eu sonhava em estudar fora, mas foi depois de visitar minha irmã no campus da North Carolina State University [a irmã passou um ano estudando lá por meio do programa Ciência sem Fronteiras] que decidi que era isso que eu queria”, explica.

Em todo caso, decidiu fazer o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e conseguiu pontuação suficiente para estudar engenharia elétrica na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Para ela, a paixão pelo balé e pela engenharia provavelmente ajudou no processo de aceite do MIT. “Acho que o maior diferencial foi eu ser uma menina que dança balé e quer fazer engenharia [risos]“, brinca.

Com base em suas duas paixões, Luana pretende se especializar na área de robótica e deseja usar o que aprendeu com o balé para desenvolver movimentos robóticos mais orgânicos.

Mesmo tendo que deixar a escola do Bolshoi, ela faz questão de dizer que pretende continuar dançando. “Vou fazer aula no campus ou em alguma escola próxima”, destaca. “Quero que agosto chegue logo! Acho que vai ser bem difícil [no começo] e vou estranhar um pouco, mas acho que depois de um tempo vou conseguir acompanhar.”

Do Uol

 

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Uma mesa nova pra escrever e desenhar diante da janela como eu sonhava! Diante do lago, da cidade, do campo de golfe, do palácio presidencial e… Cupins! Descobri agora, no meu primeiro dia de desenho diante da janela, que uma importante peça de madeira da casa está infestada de cupins. Ai, meu Deus, como alguém pode ter a mente tranqüila pra deixar a inspiração fluir quando já no primeiro momento vê uma parte dessa inspiração sendo corroída por esses diabinhos? E pior, ficam ali em plena atividade enquanto eu fico paralisada diante de péssimas previsões: homens que querem meter a mão na carteira da madame, dando altíssimos orçamentos que não condizem com o serviço – e chamam mesmo a gente de madame! Ou, pior ainda, doutora! Geralmente esses são os mais cínicos. Querem dar a entender que se a dona da casa tem uma casa, e se essa casa tem cupins, então tem o que gastar! É a lógica, “ou a senhora mata os bichos ou os bichos matam a senhora”.

Praga… O cupim e o explorador. Acho até que são sócios.

Pois é, e sinto inveja dos cupins. Não cansam nunca do trabalho enquanto eu me esgoto só de pensar em como exterminá-los. Minha mão se recusa a fazer qualquer desenho porque perdeu o pique, está trêmula de surpresa e apavoramento com a fome abissal dos bichinhos que podem, como nos desenhos animados, consumir uma casa inteira em segundos. E eles tocam a vida indiferentes. Nem se dão conta da minha presença ou se dão, me esnobam.

Sinto minha energia ir pro espaço. Um problema a mais eu não preciso, definitivamente. Mas não posso ignorá-lo, também, definitivamente.

Fico os observando. Esses indecentes não param pra descansar um segundo sequer. São extremamente produtivos! Procriam e trabalham fora. Pela agitaçãozinha parecem trabalhar com prazer, posso ver a expressão de contentamento em algumas carinhas que antes eu supunha carrancudas. Imaginava-os com cara de maus. Só faltava agora sorrirem pra mim, acenar, me chamar pelo nome…

Penso tanto neles que começo a não ter coragem de matá-los assim, pura e simplesmente. Ainda que me esnobem descaradamente já fantasiei uma relação amistosa. Mais que isso, afetuosa.

E se eu os tirasse dali e os levasse pra casa do vizinho? Assim eles não ficariam sem lar.

Mas certamente meu vizinho ficaria, então não seria justo.

E se eu os levasse pro meio do cerrado? Ai, não quero imaginá-los comendo meu amantíssimo cerrado, mesmo sabendo que é seu hábitat natural…

Eu poderia construir-lhes uma casinha, daquelas de terra, o cupinzeiro, ali num canto livre do jardim… Mas não, eles são muito vorazes e rapidinho retomariam posição nos meus pilares.

Tenho que matá-los, nunca tive escrúpulos com esse tipo de extermínio. Logo eu que já fui alvo de protestos em passeatas de três crianças indignadas por eu matar formigas e lesmas diante de uma câmera em nome da arte! E eu poderia fazer um novo trabalho.

Matar cupins seria um prazer!

Sinto um choque com essas palavras. Preciso pensar em algo eficaz e ético ao mesmo tempo…

E preciso ser rápida, a Madeira está bem danificada.

Claro, tenho que contratar alguém para fazer o serviço sujo e eu saio de casa no dia. Não vejo, não sofro e não poderei ser acusada por não estar na cena do crime.

Está decidido.

Agora só uma coisa me amola, vejo o homem da dedetização cumprindo com seu ritual profissional: examina de um lado, do outro, como se pudesse enxergar mais profundamente que qualquer outro humano e lentamente vai dizendo, como quem não quer nada, “É… Tá difícil… Já estão muito profundos, têm muitas galerias, provavelmente uma grande colônia. É do tipo que não morre fácil… Vai me dar trabalho! Além do mais o veneno é muito forte. Não gosto de trabalhar com ele. (Dá uma risadinha) Acaba com a saúde! Mas eu vou fazer! O valor é… “

Fico surda de repente. Só um zunido me envolve. É psicossomático. Desenvolvi essa surdez que me aparece toda vez que vou ouvir um orçamento em casa. Já houve situações em que a vista turvou também…

Depois virá o carpinteiro pra reparar o dano… E novo lapso de surdez.

Mas terei que ser forte, pois os cupins já estão me corroendo. E como se não bastasse o dano material, esses atrevidos são pura eficiência! Ai que inveja!

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Foto - Valéria Pena-Costa

Foto – Valéria Pena-Costa

Estou muito bucólica. Tentei de muitas formas escrever e descrever os dias passados no campo de modo um pouco mais “cerebral”, mas só me saem expressões que beiram ao lirismo. Então me dou conta de que estou mesmo é num momento Rococó. Sou a própria moça do balanço daquela pintura de Fragonard. Envolta por flores e folhagens exuberantes, grama verde, sombras doces, cachoeiras e cascatas e os mais variados cantos de passarinhos, como posso querer um texto que não seja essa calda entornada, saída diretamente do canavial que cresce animado ao alcance dos meus olhos? Eu admito, estou impressionada. Não sei quando vou me refazer desse choque de prazer, dessa overdose de romantismo rural que experimento. Não quero me refazer, não quero retomar a vida como era. Eu nasci na fronteira entre o urbano e o rural, com o tempo fui me mudando para cidades maiores e passei a me sentir revestida de concreto e pavimentada com massa asfáltica. Mas isso é antiecológico para a minha alma, e por isso a chuva, quando cai, forma poças sem escoamento e passo a me sentir alagada. Depois crio bolor e, por fim, o musgo me cobre até que volte o sol. Aqui no campo, não. Há vazão para os excessos.

E há muito ainda que me surpreende e me dá prazer.

É delicioso acordar antes do despertador com o canto do galo, machucar o pé num jardim rochoso com caliandras nativas na beira do rio, escorregar em uma pedra limosa da cachoeira, pisar num espinho de juá.

O vagalume ainda existe e não tem quedas de energia, não se apaga quando a chuva chega.

O Canarinho não mora em gaiolas e canta e come muito perto da gente. Canta por que quer, com prazer, e não porque tem que defender a ração de cada dia num cubículo insalubre.

A rolinha faz ninho na pilastra da varanda e enquanto cuida dos filhotes não teme os cachorros nem os donos da casa. Ao contrário, olha pra gente com ar indiferente como quem pergunta: ” Tá olhando o quê, nunca viu uma mãe com a ninhada?” Quase lhe respondi, quando, muito perto dela, me senti indagada: “Não. Assim, nessa serenidade nunca vi. Nem eu fui tão segura quando choquei cada um dos meus três ovinhos.”

Há um constante barulho acetinado vindo das árvores. Um contínuo movimento lento, sem pressa de cidade. E quando venta pra valer, elas têm sua própria chuva de folhas e flores. Chovem folhas do imenso fícus, pingam flores de quaresmeira, dançam os galhos do flamboyant. Quase tempestade. E foi assim que vi substituídos os confetes desse último carnaval.

E embora pareça embriagada, não volto com ressaca. Ao contrário, quero minha metade campestre. Levo comigo re-despertada na alma a memória da minha natureza há muito intocada.

Eu sempre soube que sou quase um bicho do mato ou uma árvore do cerrado.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

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‘Seu’ Manoel é meu vizinho de muro, muro de adobe, de barro. Sua casa é um sítio bucólico com muitas plantas, bichos de terra e passarinhos. No meio do terreno ele cultiva, cuidadosamente, um extenso canteiro de pensamentos onde constantemente desabrocham coloridas palavras.

D. Cecília mora na esquina e a vejo muito na janela. Tem lindos olhos de olhar longo e muitas fotos antigas na parede. Habilidosa, faz rendas de versos ‘pra fora’. Costura suas próprias roupas, sempre bordadas de flores, luas e sentimentos.

Seu Mario é meu queridinho, vive sozinho ali no hotel. Mas diz que nunca se sente só, porque junta muitas lembranças na cabeça, inclusive de fantasmas que vêm constantemente lhe visitar. Não guarda o que acumula e distribui suas valiosidades com a mesma generosidade com que elas crescem em seu coração. Sei que muita gente gostaria de viver ao lado dele.

O Carlos (ele não gosta de ser chamado de senhor), que mora na casa mais alta, costuma sentar-se num banco da praça e observa tudo e todos. Tem um olhar aguçado que engole calmamente as coisas que passam ao seu redor. Quando se recolhe leva consigo os sabores das impressões degustadas e descreve cuidadosamente os ingredientes que sua fina escrita decanta.

E a D. Cora… Ai que velhinha linda! Delicada e leve. Tenho vontade de sentá-la no meu colo e cochichar meu carinho nos seus ouvidos que parecem ser muito sensíveis e nada surdos. Queria que fosse minha avó. Queria costurar na sua velha máquina de pedal, cerzir toalhas de mesa e lavar seus panos de prato. E comeria seus doces e devoraria seus contos.

Minha vizinhança é maior, muito maior ainda. Há muita gente que ainda usaria as palavras ‘supimpa’, ‘friúra’, ‘rasto’, ‘quincúncio’, e outros encantos vivendo perto de mim.

Minha casa fica em uma pracinha onde há um grande tanque de areia pra meninada brincar. Tem um parquinho antigo de pintura desgastada nas barras de ferro, mas que ainda atrai enxames de crianças. Tem também bancos em pontos escurinhos que ficam ocupados todas as noites por namorados agarradinhos. Tantas vezes achei que era somente um e ao passar por perto, percebi que eram quase dois… Mas não posso comprovar, porque não olhei.

A praça é rodeada por muitas casas antigas e novas, lares de senhores e senhoras, de filhos, netos e sobrinhos. Há um hotel familiar que serve o melhor café da manhã num perímetro de 460 km, pelo menos. É aquele onde vive Seu Mario. Ali trabalham moços que sabem contar amenidades e novidades da cidade e, se preciso, têm até alguma piadinha leve de balcão. Tudo pra fazer sentir-se em casa quem chega de fora. E quem chega de fora não quer mais sair.

Além dos moços, tem a D. Maria, que não é escritora, mas sabe cantar hinos sacros e declamar orações diante do seus santos. Suas musas. Na cozinha, é um primor. Faz especialmente um pão de queijo impossível de ser esquecido e uma coalhada com gosto de infância em interior. Quem não sabe o que é isso deveria provar essa delícia com uma colherinha de açúcar (nunca adoçante) ali naquele hotel, e terá uma experiência de um realismo fantástico da vida em torno de uma praça de onde se ouve o sino da igreja, os ensaios das fanfarras de colégios de blocos de carnaval. Uma praça por onde passam imensas procissões e até cortejos fúnebres com muita gente a pé, mulheres de véu negro e homens de chapéu. Lá, até estouro de boiada já aconteceu! Ninguém reclama. Nenhum velhinho dali é ranzinza, de não gostar de barulho.

Rezo à vida pra que eu largue por aqui, enquanto é tempo, um pouquinho da minha ranzinzice precoce pra que eu possa aproveitar essas bondades de se conviver. E peço mais ainda, aí é um milagre da vida: que eles, meus vizinhos, vivam e durem muito e me esperem chegar ao ponto em que estão – em todas as formas de idade. Gostaria de não ser vista como “menina” (o que já não sou há muuuuito tempo) ou a caçula da praça (já passei da idade de ser caçula, embora seja um delicioso termo amoroso). Não quero ser a que busca água, atende à porta, leva recados e vai à padaria comprar pão. Sabe por que? Enquanto faço isso, perco maravilhosos momentos dessas companhias, perco chances preciosas de ouvir suas conversas, interpretar seus pensamentos e tentar adivinhar o que sentem, ou pesquisar de onde vem tanta riqueza de saber ser.

Quero ser da turma. Jogar biriba com eles (primeiro eu teria que aprender). Quero, sim, ter a idade que eles têm, alcançá-los. Quero mesmo essa a incrível capacidade de trazer as imagens e expressões da vida para o fundo do olho. Tão fundo a ponto de deixá-los escorregar pelas veias, baterem no ritmo do coração e se espalharem pelo corpo, saindo em forma de movimento ou palavras impressas em papéis (e em ouvidos). Ou em olhares e mãos. Porque às vezes sinto vontade de virar palavras que podem ser tocadas e levadas para mundos desconhecidos.

Na verdade ainda não sei o que eu mais gostaria, ser poeta ou ser a própria poesia.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Caçadores de Obras-Primas. Título na língua original: Monuments Men. Ano da produção: 2014. Países de origem: Alemanha, EUA. Direção: George Clooney.

Caçadores de Obras-Primas. Título original: Monuments Men. 2014.  Alemanha, EUA. Direção: George Clooney.

Além Clooney, Caçadores de Obras-Primas tem elenco estelar: Cate Blanchett, Matt Damon, Bill Murray, Jean Dujardin, John Goodman e Bob Balaban.

 Ao assistir um filme, o espectador explicita sentimentos. Projeta-se nos personagens e situações. A conexão pode ser enviesada. Ou direta, como nos textos dos escritores rocambolescos Alexandre Dumas e Julio Verne. Caçadores de Obras-Primas (Monuments Men - Alemanha – EUA – 2014) já nasce clássico e provoca imediata simpatia da plateia para com o grupo protagonista. A narrativa é convencional, começo, meio e fim. Não há flashbacks ou sofisticados recursos de computação gráfica. A embalagem, no entanto, esconde conteúdo que pode ser considerado tesouro da Sétima Arte e merece ser avaliado com atenção. A essência do filme está nos seus inúmeros e relevantes detalhes. “O mais cruel dos sanguinários pode tentar eliminar uma civilização, começando pela matança em larga escala. Mas, ele sabe que o morticínio não será suficiente. Apenas poderá pensar em atingir seu objetivo, se conseguir destruir ou se apoderar da memória cultural e artística daquelas populações”. A reflexão do tenente do exército americano Frank Stokes (George Clooney) vai permear todos os acontecimentos que estruturarão o roteiro, a partir de então.

Aventura de se desdobra em interessante reflexão política 

Baseado em fatos reais, Caçadores de Obras-Primas conta a odisseia de grupo de especialistas em obras de arte que integravam as tropas aliadas, em 1944. Com o fim do conflito já próximo, decidem empreendimento ousado: localizar, resgatar e devolver aos legítimos donos quadros e esculturas valiosas, roubadas pelos nazistas. O acervo incluía Michelangelo, Rodin, Monet, Renoir, Da Vinci. Antes de assumir o poder, Adolf Hitler tentou ser pintor. Foi reprovado, por mediocridade acentuada. Ego transtornado, tão logo consolidou a conquista de parte da Europa, planejou criar o maior espaço cultural do planeta, na cidade alemã de Siegen. Para isso, deu carta branca a Hermann Göring, um dos seus mais próximos. Ele deveria se apoderar do acervo artístico localizado no continente europeu, que seria reunido no maior museu do planeta, a ser criado pelo Terceiro Reich. Emblemática forma de sinalizar o controle sobre a alma de povos que se opunham ao delírio esquizofrênico do predomínio da suposta raça ariana sobre o resto do mundo. Enganam-se os que vierem a pressupor que o filme adentra pelos surrados clichês do maniqueísmo rasteiro. Também sobram alfinetadas para os russos, sutilmente apresentados como os novos bárbaros que iriam instalar na área ditadura que substituiria o nazismo. E crítica afiada até para o trio de generais-comandantes das tropas aliadas, os americanos Eisenhower, Marshall e Patton, que apenas teriam valorizado a missão, quando ela descobriu, por acaso, as milhares de barras de ouro 2

que compunham o lastro econômico do Estado alemão. Teria aquela montanha de dinheiro sido usada pelos Estados Unidos em benefício dos seus interesses geopolíticos justamente para criar, depois da guerra, um programa econômico — o Plano Marshall – objetivando recuperar a economia dos países atingidos pelo conflito? Caridade, com o dinheiro dos vencidos?

Seis homens, uma mulher e um único destino Suspense, drama e aventura se fundirão na movimentada trajetória que George Clooney transformou em filmaço. Também diretor e autor do roteiro, ele contou com elenco de primeira grandeza: Cate Blanchett (que concorre ao Oscar de Melhor atriz, por sua atuação em Blue Jasmine), Jean Dujardin (o francês que recebeu a estatueta de Melhor Ator em 2012 por O Artista), mais os premiados Matt Damon, Bill Murray, John Goodman e Bob Balaban. A história avança com a chegada do grupo à Normandia, poucas semanas depois do histórico desembarque das forças aliadas. Surpreendentemente, são recebidos pelos comandos americanos com certo desprezo, traduzido de forma explícita com a não disposição para colaborar com o tenente Stokes.

Rendição da Alemanha próxima. Tempo escasso. Missão com risco de ser sumariamente encerrada

Precisaram, então, improvisar e descobrir meios heterodoxos para levar adiante a missão. Dividiram-se em grupos que iriam explorar possibilidades em cidades diferentes. O tempo estava contra eles. Tão logo viesse a ocorrer a rendição da Alemanha, a tarefa a que se propunham estaria inviabilizada. O tenente James Granger (Matt Damon) encontra a colaboração de um francês da Resistência, que tinha avião escondido em longínqua propriedade rural. Consegue chegar a Paris, onde localiza Claire Simone (Cate Blanchett), que havia sido secretária do oficial alemão encarregado por Göring de centralizar e despachar para a Áustria o acervo roubado. Embora simpática aos aliados, era uma mulher tensa, desconfiada e, sobretudo, amargurada com a perda do irmão, que acabara de ser assassinado pela SS, a polícia secreta alemã. Enquanto isso, os outros estavam fazendo descobertas periféricas, mesmo enfrentando risco de morte nos encontros com remanescentes do exército germânico. Notícias vindas da frente Leste confirmavam a chegada dos russos a Alemanha. Estava iniciada a contagem regressiva para o término da missão. Queimar etapas àquela altura seria quase impossível. Mas, era a única opção disponível. George Clooney, ex-apoiador de Obama, democrata rebelde 

Desde que se transformou em astro internacional, o americano George Clooney tem mantido postura crítica acentuada em relação à maneira como os Estados Unidos vêm agindo na cena política interna e externa. Colaborador assumido do Partido Democrata e apoiador da primeira eleição de Barack Obama, lentamente foi revendo posições. Transferiu sua produtora para a Itália. Desde então, tem mantido postura crítica acentuada em relação à forma de gestão do país. Sinaliza certa decepção com o próprio Obama. Tudo Pelo Poder, filme que também dirigiu e protagonizou em 2011, pode ser considerado como autópsia dos meios usados pelos democratas. Além de inteligente, George Clooney é refinado, culto e 3  admirado pelo público americano. Trabalha com sutilezas que a arte cinematográfica permite. Dificilmente abrirá área de confronto ao estilo Edward Snowden.

Ir contra a corrente… Será que valeu a pena?

Na sequência final de Caçadores de Obras-Primas, o tempo avança para 1977. Lá está o já aposentado tenente Frank Stokes, na companhia de um neto, visitando museu com algumas das obras resgatadas por seu grupo, trinta e três anos antes. Em pensamento, pergunta e responde: “Será que valeu o sacrifício? Claro que valeu!”. Mais uma sutileza do ator-cineasta e roteirista, que permite inúmeras ilações.

Além Clooney, Caçadores de Obras-Primas tem elenco estelar: Cate Blanchett, Matt Damon, Bill Murray, Jean Dujardin, John Goodman e Bob Balaban.

 Escrito Por J.Jardelino

Desenho de Lucia Pena Costa

Desenho de Lucia Pena-Costa

Contei uma historinha pra uma querida amiga recentemente. Mas tenho mais. Envolvem nomes e atos simbólicos e premonitórios. Aquilo que nos dizem na infância e nos fazem acreditar.

Publiquei um texto e ela comentou com a gentileza e carinho que lhes são próprios: “Danada… é boa na pena”. Respondi com a tal historinha, introduzindo-a com um trocadilho, um dos muitos que meu nome incita: “Tenho a pena no nome”…

“Aprendi” a escrever e a desenhar com minha mãe, de quem herdei esse sobrenome, ou pelo menos fui muito incentivada por ela, que fazia ambas as coisas muito bem. Passava horas desenhando comigo com um prazer visível, que dava gosto. Me ensinava pequenos truques/técnicas, alguns macetes e mostrava como ela marcante o seu… estilo (não gosto desse termo assim aplicado, mas vá lá). Tentava me ensinar a colorir fazendo ‘bolinhas’ ou pequenos movimentos circulares e leves com o lápis, e isso dava uma gradação e textura lindas ao colorido. Nunca consegui. Ainda bem, cada uma criou seu caminho. Mas tentei, é verdade. Tanto que cheguei a desenvolver uma antipatia ao experimento sem sucesso. Ela insistia. Me dava generosamente algo que acreditava dar certo, um atalho. Mas não foi o meu. Sobre a escrita, também passava longo tempo comigo elaborando ‘composições’ que iam como ‘deveres de casa’ – termos para ‘redação’ e ‘trabalho de casa’, usados quando eu era criança. Me despertava para expressões e palavras novas. Me ensinava a compor a cena e desenvolver a ação. Depois de um tempo passei a acha-la muito sentimental e muito doce, meio piegas, o que ela assumia sem constrangimento. Eu, de novo, fiz outro caminho. Mas também peco por traços dessas características adquiridas, tanto no desenho quanto na escrita e me vigio quando escrevo. Não sou doce como ela era em atitudes e personalidade, portanto não me cabe uma capa açucarada. Alterno inconscientemente e retomo a postura conscientemente. Mas maneirismos nos perseguem e desses, sim, busco me livrar. Intenso exercício de reconhecimento e lapidação.

Minha mãe era prendada, especialmente com os lápis e canetas. E tudo começou, acreditávamos, porque meu avô tinha o (talvez pretensioso) costume de determinar aos filhos, de forma poética, as habilidades que lhes desejasse. Isso me lembra as fadas madrinhas da ‘Bela adormecida’ lhe presenteando dons. Quando os filhos nasciam ele colocava a primeira unha cortada em algum lugar/objeto relacionado ao que lhes destinasse como talento. A de uma tia, colocou em uma máquina de costura e ela costurou primorosamente. De outra, colocou-a entre folhas de um livro para que se apegasse à leitura, e a de um dos tios, dentro de um caderno de contabilidade, visando a maestria matemática. Dos outros eu não sei. Já penso que se fosse eu, queria ter unhas espalhadas, distribuídas em muitas “ferramentas” (mas só valia para uma).

A pequena unha da minha mãe foi colocada em um tinteiro. E ela desenhava e escrevia com gosto. Seu sobrenome também tinha Pena, mas isso é só uma coincidência. Eu poderia falar muitas outras coisas a respeito do seu lindo nome, Lucia, que significa Luz, mas isto também daria contos à parte.

Mas ela cresceu incentivada e acreditou no que ouviu. Ou realmente seria assim com ou sem lascas de unhas mergulhadas em tinta. Amo essa história. E amo outra que é minha.

Um senhor cego visitava semestralmente nossa casa, vindo de uma cidade vizinha, para arrecadar uma pequena contribuição financeira que minha mãe destinava a um certo Instituto de Cegos de Uberaba. Vinha com sua esposa e passavam o dia nessa coleta pré acertada. Muito cerimoniosos, talvez também sem muito tempo, esperavam no alpendre ou no passeio. E enquanto minha mãe ia buscar o dinheiro eu ficava por ali, observando e tentando entender a cegueira. A dele era tão lúcida que não parecia lhe faltar nada. E realmente não lhe faltava, tanto é que se dispunha a ajudar outros se deslocando em longas viagens, sendo o deslocamento, em minha pequena mente, um dos maiores desafios de um deficiente visual.

Nos curtos intervalos de espera ele pacientemente conversava comigo, que tinha uns cinco ou seis anos quando esse diálogo se deu:

- Como é seu nome?
- Valéria
- Valéria de quê?
- Valéria Mundim Pena Costa
- Ahhh, que nome bonito… Então você, Valéria, é um mundo pequeno com uma pena nas costas!

Acreditei!!! Me vi, me esbocei: o globo terrestre com uma pluminha grudada. Me engrandeci. E uma peninha me bastava para voar. Eu voava solta no universo, flutuava como os planetas que passeiam na imensidão. Eu vi. E nunca mais esqueci. Me lembrei disso todas as vezes em que me perguntaram “Valéria de quê?”. Muitas vezes tive vontade de dizer: “mundo pequeno com uma pena nas costas”.

Recorri a isso sempre que me senti presa, diminuta diante de situações que me oprimiram. E também quando tendi a sentir pena de mim. Ou a achar que estava sendo punida fosse lá porquê. Penas. A minha seria para voar.

E com essa asa voei tantas vezes na vida… Às vezes tive até que ser chamada de volta à órbita e em seguida ao solo. Ainda hoje acontece. Mas pensar assim sempre valeu a pena. (rs)

Mais tarde aprendi outra vez que meu nome me daria forças, que foi um presente de uma das fadas e ainda que eu adormecesse por tempos indeterminados eu acordaria, retomaria minhas asas e recomeçaria.

Aprendi que valeria a pena…

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Ig
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