Comentários ‘crônicas’

Trapalhadas…
Por quê? Porque minha vida parece um seriado de comédia pastelão…
Cena 1
Filha acaba com o carro. Convence a mãe a atravessar a cidade para levá-la a uma locadora de veículos porque quer ir a sua formatura no final de semana e não tem carona pra festa. Escolhe o carro. Faz cadastro.
- Senhora, a carteira de motorista, por favor.Procura na bolsa. Descobre que deixou em casa.
[black out]
Cena 2
Aeroporto lotado. Fila gigantesca.
Cenário 1: Balcão da Companhia aérea
- Carteira de identidade, por favor?Repete-se o ato da busca desesperada pelo documento. Não, ele não está lá. Volta para casa. De novo no aeroporto. Não consegue despachar a bagagem. Corre para o embarque.
Cenário 2: Detector de Metais
Apita, volta, apita, volta, passa o detector no corpo. Nada.
- Moça, se apitar com piercing eu não mostro. - Eu é que não quero ver!Risos.
- Passe de novo pela porta. - Ok.PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
- Tire o calça$%&, por favor. - O QUÊ??? A CALÇA??? Como é que eu vou andar no aeroporto sem calça? - O calçado, senhora. O cal-ça-do! - Ah, tá…Enfim, entra no avião, atrasada, sob olhares de reprovação, arrastando uma mala vermelha tamanho “esconderia-um-corpo-facilmente”.
Cenário 3: Duty Free de Buenos Aires
Óculos chiquérrimo. Perfumes. Chocolates. Câmera fotográfica. Compras acima da cota não declaradas por sugestão da vendedora.
- A senhora deixa a caixa aqui e coloca os óculos na cabeça, estilo fashion. - Ok.Nervosismo. Deve estar escrito na minha testa que estou mentindo! Passa correndo pela imigração/alfândega/pessoas-uniformizadas-com-cara-feia.
Cenário 4: Balcão do táxi
- Para onde, senhora? - San Telmo, por favor. - Quantos volumes? - … - Senhora? Olha pra um lado, olha pro outro… - Ai, meu Deus, a mala ficou na esteira. Espera só um minutinho? Imigração/alfândega/pessoas-uniformizadas-com-cara-feia: - A senhora esqueceu a mala??? - É… é… - Fica com meu cartão, vou anotar atrás o endereço da Embaixada do Brasil. Se tiver qualquer problema… - Obrigada, senhor, eu só quero a minha mala mesmo.[black out]
Cena 3
Caribe. Verão. Mar azul claro. Golfinhos. Veleiros. Margaritas. Boites. Jantares. Mergulho. Visualiza?
E que tal voos perdidos, polícia e confusão?
- Onde você estava? - Na praia. - Mas deveria ter feito check out hoje! - Não, meu voo é amanhã. - Hoje! A polícia está te procurando!!! - Hein? - Nós reportamos a senhora como turista desaparecida às autoridades! - Hein? O voo é amanhã… - Pegue sua passagem, por favor, senhora. - …. - Senhora?Senta no chão com a passagem na mão e pensa: Ah, não!!! De novo??? Não é possível!
[black out]
Isso e outras. Várias outras. Não acender os faróis no apagão. Bater com a cara em porta de vidro. Trocar o nome das pessoas em todas as situações imagináveis. Sim, todas. Comemorar o próprio aniversário em data errada. Chegar “levemente alterada”, tentar disfarçar e se entregar ao guardar o bifinho – que a mãe ofereceu – no bolso da calça jeans, dizendo que vai comer depois…
Então, Deus:
- Por favor, na próxima vida, menos…
Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa, e escreve para o Mulheresnopoder.
VII
Correu os dedos nas minhas costas provocando arrepios. Falou baixinho ao meu ouvido. Segurou minhas mãos.
Se perdeu no meu olhar. Deitou a cabeça em meu peito e suspirou. Desejou que o tempo parasse.
Contou sonhos, ideias, tristezas. Falou da mãe. Não conteve as lágrimas ao lembrar-se daquela última vez em que haviam se visto.
Entregou-se de corpo e alma por três horas inteiras. Depois disso, vestiu-se e partiu. Nunca mais nos vimos.
Existem pessoas que não devem se encontrar. Eu sabia disso. Ele também.
Matou-se em 15 de novembro de 1983. Vi no obituário. Surreal.
Ainda tenho a sensação de que numa noite dessas qualquer, vou entrar em um bar falando alto, gesticulando muito, escorregar e cair no colo dele. Como na primeira e única vez.
Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa, e escreve para o Mulheresnopoder.

Davi de Michelangelo
É assim que as coisas acontecem. Às vezes, é bem difícil de suportar. Tão trash. Ver o vazio do alheio. As pessoas-formiga que nos rodeiam e não são tocadas quando se deparam com a sensibilidade pura. As pessoas, em sua maioria, resumem-se a máscaras ou cascas.
Aprender a viver o momento. Isso é importante. Tem gente na nossa vida que é só um café, não queira transformá-los em jantar. São pequenos demais. Não nos alimentam. Você tem de aprender a ver a história da forma que ela é e não da maneira que gostaria que fosse. Então se adapta e não sofre tanto.
Você é bonito, interessante, inteligente. Diferente desse povo que está disponível por aí. Você é sensível e não se envergonha disso. Assume e se permite sentir. Te admiro.
A gente não sabe lidar com rejeição, despedidas e etc. Ninguém foi criado para perder. Adeus é cruel. O adeus do amor pode ser pior do que o da morte. O da morte é inevitável, num dado momento a gente consegue entender. O do amor não.
A pessoa parte e continua vivendo sem a gente. Parece que é exatamente isso que a gente não entende. Como amar tanto um alguém que vive a própria vida sem se incomodar com a nossa dor, sem notar nossa existência.
Acho importante sofrer. Digno, sabe? Acredito que a gente tem de sofrer até purgar.
Não é difícil viver, mas a gente quer controlar tudo. Quer que as coisas aconteçam do jeito que a gente imagina. E, de repente, a gente se frustra sozinho. E o universo fica lá, parado, esperando a gente voltar pro nosso rumo pra colocar as coisas boas na nossa vida de novo.
Penso que é por aí.
Se cuida.
Carolina Vianna.
Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.
Uma nova vida, pensou, enquanto calçava os sapatos já atrasada para o trabalho. A mãe ligava pela sétima vez em dois dias. Isso é hora de ligar? Coisa boa não pode ser! Deixou a ligação para a caixa postal.
Olhou a pia cheia de louças sujas com um certo remorso e saiu. Esqueceu a chave do carro, voltou. Voltou mais três vezes antes de sair definitivamente. Por que isso só acontece quando já estou atrasada? A-tra-sa-da! A palavra ecoou em sua mente.
O trânsito sempre a levava a divagações. Horas parada dentro do carro. Fazia a maquiagem e pensava. Ouvia uma música e pensava. Ajeitava o cabelo e pensava. Imaginava mil conversas, resolvia as questões mais complexas do trabalho e ainda sobrava um tempo para rir das piadas inventadas. De repente, o susto, a lembrança. Uma nova vida.
Subiu os quatro lances de escada a contragosto. Por que não consertam logo esse elevador? Encontrou trabalho atrasado em sua mesa. As gavetas transbordavam de processos e petições. Às vezes, colocava os papéis para tomar sol em cima do arquivo. Aquilo lhe dava uma sensação tremenda de produtividade. Gavetas vazias. No fim do dia voltavam todos pro mesmo lugar, mas ela se sentia mais ativa.
Naquele dia não. Naquele dia as gavetas ficariam trancadas até às seis horas. Até o escritório ficar completamente vazio.
Almoço com as amigas. Colegas seria um termo melhor. Tantos assuntos, tanta energia desperdiçada e nenhuma atenção dispensada de sua parte. Estava aérea. Assim disseram. Estava mesmo, mas não concordou. Nunca concordava com nada. Não gostava de concordar. Mais assuntos e gritinhos estridentes.
Num certo momento resolveu se pronunciar. Como mulher fala alto, não é? Voltaram-se contra ela e o que estava ruim ficou pior. Foram trinta minutos desculpando-se e se esquivando de perguntas inconvenientes. Mulher fala alto, é enxerida e tem voz irritante. Dessa vez só pensou.
De volta ao trabalho, mais quatro – intermináveis – horas. Uma vida nova? Tentou ater-se às tarefas rotineiras, mas ainda assim o tempo não passava. Os olhos corriam da tela do computador para o relógio a cada cinco minutos.
Enfim, às 17:45, quinze minutos antes do esperado chega a mensagem. Ao menos uma coisa na minha vida está adiantada! Riu. Abriu o e-mail já imaginando toda a mudança que aquela mensagem representaria em sua vida. Fechou os olhos, não queria ler. Espiou. Não conseguiu ver. Respirou fundo. E, finalmente, leu.
Resultado inconclusivo. Favor repetir em 48h.
A Carolina Vianna é fotografa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder .
IV
Acordei no meio da noite com uma ventania daquelas. As cortinas, rebeldes, voavam até a cama e voltavam à parede num movimento frenético digno de filme de terror. Levantei para avaliar o estrago. A sala estava alagada. Tive coragem apenas de fechar as janelas impedindo que o apartamento se transformasse em um aquário. Dormi novamente enquanto rezava pro mundo parar e eu poder descer.
Tenho estado aflita. Doente. Cansada. Repito padrões antigos que já não servem mais.
Enfim amanheceu. Deitei em cima do despertador, abafei o som e continuei em estado letárgico. Duas horas depois consegui abandonar a cama. Aflita. Doente. Cansada.
Peguei balde, pano e rodo. Rosnei mal-humorada. Sequei o piso. Lavei o pano e guardei o resto. Tive pena de mim mesma. Várias vezes. Autocomiseração tornou-se a companheira inseparável de todas as horas.
Tenho estado aflita. Doente. Cansada. Repito padrões antigos que já não servem mais.
Chuva, frio e dias cinza provocam-me reflexões. Devo confessar que nem sempre muito profundas. Pensei na vida. Na rotina. Em tudo que está por fazer. Fiz listas. Compras de supermercado, coisas a consertar, atitudes saudáveis que devem ser adotadas, palavras que gosto, pessoas que já namorei, erros comuns de ortografia, mazelas que me acometem.
Tenho estado aflita. Doente. Cansada. Repito padrões antigos que já não servem mais.
Lavei as louças do café. Tomei banho. Coloquei outro pijama. Voltei pra cama. Num intervalo entre uma coisa e outra liguei para o trabalho.
- O que você tem?
- Tenho estado aflita. Doente. Cansada…
V
Pensei em você o dia inteiro. Aliás, minto, você tem povoado meus pensamentos faz um tempo. Revejo nossa história quase que diariamente. A coisa começa com as borboletas. O dia no parque. Sol. Sorvete e conversa despretensiosa. Nunca imaginei que a melhor história da minha vida se iniciaria com um clichê.
O que aconteceu entre a primeira conversa e a última foi algo mágico. As mudanças, visíveis. Palpáveis. Parece que, com você, desabrochei. Floresci. Mas não é esse o ponto. Qualquer pessoa apaixonada passa mesmo por uma metamorfose. Mais um clichê.
A questão que quero trazer é a morte. Não a sua, porque você continua respirando, andando e fazendo o que sempre fez. Nem a minha, pois estou aqui tentando explicar o inexplicável. Também não é a morte do amor. Acredito que amores têm começo-meio-e-fim. Não morrem. Acabam as situações, os encontros, mas o amor fica eternizado nas lembranças.
O que morreu, na verdade, foi algo dentro de mim. Teve um clique, sabe? Um mísero clique e puf! Sumiu.
Num dia qualquer, acordei e não pensei em você de manhã. De noite ainda não tinha pensado. Não te procurei. Até hoje não sei bem o que aconteceu. Acho que foi um momento. Desses comuns. Levou você de mim da mesma forma que trouxe.
Clichê.
Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.
I
Sinto-me congelada, paralisada, esperando ao pé de uma porta que nunca se abrirá. Ouço o que se passa por trás da porta. Toco-a. Mas continua fechada. Cochichos, risadinhas e gritinhos. Elas, em frêmitos, deleitam-se.
Acaricio a porta. Estendo os dedos o máximo que consigo como se assim fosse transpor a barreira. Fecho os olhos, conto até dez. Invento truques, feitiços, encantos. Agora, agora no dez a porta desaparecerá e serei eu a cochichar, rir, gritar. Conto à exaustão. Dez vezes dez vezes dez. Quanto dá?
Anoitece. Elas cantam. Imagino que fazem roda. Devem estar todas de mãos dadas que – mesmo suadas – não desenlaçam. Trocam promessas de amizade eterna e se abraçam. Penso que já estão a se despedir. Não ouço mais nada. Está frio. Amanhã! Amanhã abrirão e serei eu, em frêmitos, a me deleitar.
Deito-me ao pé da porta e adormeço.
II
Excruciante saber que a escolha não me incluiu. Doloroso reconhecer que não há o que se possa fazer.
Vejo-te, cabisbaixo, carregando a opção como um peso pregado às costas. Oprimido, arrependido, perdido.
Não existe palavra no mundo para aliviar sua dor. Não há ato no mundo que corrija o curso dessa história. São duas retas paralelas que, contrariando todas as leis conhecidas, não se encontrarão no infinito.
Talvez em outra dimensão. Em alguma realidade paralela você estará sentado, sereno, à minha espera.
Eu chegarei de vestido florido, sorriso daqueles que insistem em permanecer nos lábios e te direi “vem? “.
E você se levantará para me tomar em seus braços. Não dirá uma palavra sequer, pois não existirá palavra no mundo com permissão para partilhar esse momento.
Conheceremos a felicidade plena. Numa outra dimensão. Numa realidade paralela.
Peço mais um café. Você se despede desculpando-se pela pressa.
- Dê lembranças à Renata, diga que achei o pequeno muito bonito. Qualquer dia apareço por lá.
Você se limita a sorrir.
Acendo mais um cigarro. A fantasia desfeita não torna à mente.
- Alô? Não, meu bem. Chego tarde. Não precisa me esperar para jantar.
III
Naquele tempo eu mal respirava. O corpo jazia abandonado. Os pensamentos sempre embaralhados. Sem rumo. Combalida.
Às vezes, sentia-me envolta em uma bolha. Algo como um gel a preenchia. Calava minha boca. Cessava meus movimentos. Ainda assim me movia. Trôpega, cambaleante. Uma versão patética de mim mesma. Ora lutava, ora cedia.
Outras, experimentava o mormaçho vindo do asfalto na face. As dores espalhavam-se. Impossível determinar a origem. Levantava-me débil. Desorientada.
A vida resumia-se em míseros lampejos de sobrevivência e grandes períodos de estagnação. Sensações latentes. Pusilânime, não ousava encarar o que fosse. Olhar de esguelha.
Um dia me atiro de vez, pensava. Um dia me largo e morro de desgosto. Nesse dia, decidida a deixar tudo, te encontrei.
Você, com cuidado, tirou a lama do meu rosto. Delicadamente, lavou as pústulas e fez com que secassem. Limpou as nódoas do corpo deixando-me, novamente, imaculada. Lambeu minhas feridas quando eu não tinha mais forças.
Deu colo, carinho, amor. Prometeu ficar. Jurou cuidar. Colou os meus cacos um a um.
Curou a alma.
Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.
Às vezes, a gente insiste em certas situações sem nenhuma razão aparente. Sabe-se o que vai acontecer. Não é preciso poderes sobrenaturais para conhecer esse futuro. Basta bom senso.
Mas, mesmo assim, insiste-se. A esperança, parca, guiando as ações rumo ao perfeito desastre. Teimosia fantasiada de perseverança para justificar os atos.
O que norteia os seres humanos, dotados até mesmo de uma inteligência mínima, em direção ao desastre é um mistério. Gosto por catástrofes, alguns dirão. Necessidade de aventura, podem sugerir. Aventarão inúmeras hipóteses. Talvez sirvam, talvez não.
Eu – caso particular – quando faço isso é para testar. Gosto de saber até aonde a corda estica. Desde que ela não esteja no meu pescoço, é claro. Preciso saber o que eu aguento, o que dói, quando seguir e quando parar. Preciso saber como são as pessoas com quem lido. Como se comportam com ou sem pressão. O que aguentam, o que dói, quando seguem e quando param.
Testar os meus limites e os alheios. Testo sim. Paciência, amor, desejo, raiva, tristeza…
Enfim, tudo.
Depois escrevo.
Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Chuva
A chuva choveu em mim. Num dia desses, qualquer, de solidão e de calma. Molhou meu rosto, meu corpo e atingiu a alma.
Preencheu meus espaços vagos com pingos de possibilidades. Fez-me embebida em esperanças.
Assim, chovida, andei descalça pelas ruas. Acreditando ser água, chovi também. Ensopei quem me seguia. Molhei de alegria aqueles que observavam. Pinguei felicidade. E fui água.
E enquanto era água, era completa. Não por ter companhia. Pois ao me sentir água, a chuva cessou. Mas por pertencer. Era gota em oceano.
Por fim, sequei de tanto desaguar. Mas a chuva tornou a chover em mim. Disse-me que pertencia à ela. Também ao céu, à terra, ao ar e ao mar.
Choveu tanto, tanto, tanto que me desfiz. Virei chuva então. Dissipei minhas gotas displicentemente. Espalhei minha água até evaporar.
Gotas de alma caem nos mortais. Uns choram, outros sorriem. Mal sabem que a chuva é feita de almas.
Dessas que se encantam de tanto amar sem saber. Dessas que se transformam para compartilhar. Dessas que morrem para permitir a sobrevivência alheia.
Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Inveja
Eu tenho inveja da vizinha. E não é pouca, não! Sento-me à mesa, na sala, com um cálice de vinho e a observo pela janela. Ela lava e estende roupas.
Eu programo a máquina para não centrifugar. Protelando, o máximo que posso, o momento em que terei de tirar as roupas do varal, dobrá-las e, então, estender aquelas que acabaram de ser lavadas. Eu tenho inveja da vizinha. Ela não parece ter preguiça.
Eu tenho inveja do vizinho. Ele cozinha todos os dias. Observo-o enquanto escrevo no escuro de sala de jantar. A janela é a minha televisão. Ele faz comida, senta à mesa, janta e depois ainda arruma a cozinha.
Eu peço comida por telefone. Troco jantar por lanche e, até mesmo, por pão líquido. Eu tenho inveja do vizinho. Ele, também, parece não ter preguiça.
Eu tenho inveja do gato do casal de vizinhos. Ele passa o dia na janela. Não trabalha. Não sai de casa. Mia quando está com fome. Ganha carinhos e afagos quando quer.
Ele é um poço de preguiça, assim como eu. Mas ao contrário de mim, não é obrigado a fazer absolutamente nada. Eu tenho muita inveja do gato do casal de vizinhos.
Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

...
Tem certas imperfeições que a gente não confessa pra ninguém. Esses defeitinhos causariam grande estrago na auto-estima caso fossem revelados para as amigas, analista e, até mesmo, Deus. É verdade. Tem coisas que não dá pra compartilhar nem com Ele.
Mulher é bicho esquisito, dizem por aí. E, parece-me, que mais suscetível e dada a esses acanhamentos. Imagine, então, uma mulher declarar que ronca ou tem chulé?
Praticamente impossível. Cena de filme, eu pensaria, baseado em fatos completamente inverídicos.
Pois é esse o caso. Ré confessa. Eu tenho bromidrose nos pés. Enfeitei, não é mesmo? Procurou no Google? É isso. Chu-lé!
Suor excessivo. Suor excessivo causado por nervosismo, às vezes.
E se a confissão terminasse por aqui o vexame era mínimo, mas não. Nada na minha vida tem proporções mínimas.
Bar da moda, pretinho básico, meia 7/8, scarpin escândalo. Visualizou? Figurino perfeito, devo admitir.
A imagem no espelho era tão agradável que resolvi ser generosa. Esticada de happy hour para danceteria. O mundo merecia me ver!
Nem meia-hora de Rebolation e surge um pretê interessante. Aprovado em todos os quesitos.
Carona com direito a beijinhos de despedida.
- Aceita um cafezinho? - A essa hora? - Você está com sono? - Nadinha… - Então… Sobe?Aceitei. Preciso descrever as cenas seguintes? Acho que não.
Talvez… talvez apenas uma.
- Deixa eu tirar esse seu sapatinho pra você ficar mais à vontade… - NÃO!!!!! - Ahn? - É… é fetiche!




