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Comentários ‘crônicas’

cor

coração

Tenho um coração bandido que me trai a todo instante. Dispara quando não deve, se entrega quando não pode, congela sem dar explicações.

É de fazer vergonha. Quase sai pela boca e depois faz cara de paisagem. Nem se dá o trabalho de se fazer entender. Coração bipolar, é isso que tenho.

Bandido, leviano, distraído, safado. Parece gato de armazém. Qualquer afago, o menor agrado, já o tem.

Arisco, arredio, desconfiado. Se paira uma dúvida, já se vai.

Fechado, solitário, taciturno? Não. Na verdade, emburrado. Um mimo, um dengo, um charme e já está na pista novamente.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Castelos…

Era uma vez um menino doce que morava num castelo. Esse menino não tinha irmãos, nem convivia com outras crianças, pois só havia adultos no castelo. Os dias dele eram preenchidos pelas mais diversas atividades para que não sentisse falta de companhia ou brincadeiras.

Doce e azulado, assim ele era. De um azul tão claro que parecia fazer carinho em quem o olhava. Transpirava bondade, generosidade e compaixão.

Um dia esse menino tornou-se adulto. E permaneceu azul e doce. Simples e altruísta. Passou, então, a conviver com adultos de outra forma. De igual pra igual, pensava.

Mas o convívio agora era muito diferente do passado. Os adultos não o tratavam da mesma maneira, afinal ele continuara azul quando todos os outros se tornaram cinza com o passar dos anos.

Aquele azul cintilante que outrora inspirara calma passou a irritar os demais. A docilidade os enojava. Eles eram cinza, amargos, ácidos, salgados, picantes. Nunca azuis. Nunca doces.

Sem entender o que acontecia, quis parar de brilhar. Sem sucesso, resolveu evitar o contato com o mundo cinza. Voltou para o castelo. Isolou-se.

Aos poucos, sem contato com qualquer outro ser, sua cor foi mudando. Entendeu, então, como deveria agir para ser aceito. Hoje, é quase todo cinza, pouquíssimo doce. Mantém apenas uma manchinha azulada, brilhante, que raríssimas vezes deixa ser vista.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

3

Parece que depois que a coisa engrena fica ainda mais banal. A gente mal se compromete em uma relação e ” pluft” o cérebro desaparece.

Cinema, pipoca, restaurante da moda, programas culturais, mensagens ao acordar, ligações intermináveis madrugada adentro.

Horas e horas e horas de “desliga você primeiro. Não, desliga você!”

Casa dos pais no domingo, viagens, Natal em família “uma vez com a minha, outra com a sua”, restaurante barato, sexo morno, DR madrugada adentro.

Horas e horas e horas de ” Foi você! Não, foi você!”

E mesmo assim é lindo. Porque é amor. É uma história. A minha história que, aliás, ia muito bem até pintar o terceiro elemento.

Por que, diabos, quando tudo está dentro da normalidade ocorre sempre um fato trágico?

Carolina Vianna

Carolina Vianna

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

II

S2

O moço da sombrinha ocupou meus pensamentos por uns bons dias. Maus também, confesso. Diálogos imaginários eram o meu novo passatempo.

Imaginava o que poderia dizer a cada ato meu. Mas ele não dizia nada. Era apenas um moço na chuva desaparecendo no retrovisor.

Isso até aparecer com uma fatia de melancia e dois garfos na barraca de frutas que fica embaixo do prédio em que trabalho.

Sim. Exatamente desse jeito. Colocou a fruta na mesa e empurrou o garfo na minha direção. Dei um pulo da cadeira, tamanho o susto.

- Tem medo de melancia também? – Não, alergia.

Riu e pediu outra fruta pra mim. Recusei, satisfeita.

- Você é sempre assim, difícil? – Não, só com gente que come melancia.

Pediu abacaxi. Dei meu telefone na hora. Afinal, gente que come abacaxi após o almoço é, definitivamente, confiável.

Antes que eu pudesse pegar o elevador, uma ligação. Sorri sem motivo. Atendi o número desconhecido dizendo sim para todas as possibilidades de amor que povoavam minha imaginação.

- Não, obrigada, eu não quero um cartão de credito!

Por que, diabos, eles levam tanto tempo pra ligar depois que damos o telefone, hein?

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

<3

<3

I

Eu preciso escrever uma história de amor. Dessas com começo, meio e fim. Aliás, a minha história de amor. Que teve tudo isso e foi linda.

Difícil começar. Talvez pelo dia em que nos conhecemos. Mas isso é tão banal. Todas as histórias começam pelo início. Assim, sem-graça. Assim, banais. A nossa história, que foi a mais bela que houve até hoje, deveria ter um princípio especial. Ao menos, no papel.

Mas não escrevo em papel. E não tenho como retroceder no tempo para apagar os fatos e fazê-los magníficos.

Foi uma chuva. Ou um guarda-chuva. Rolou no chão com o vento. Bateu em meus pés. Ele veio correndo apanhar. Desculpou-se. Ofereceu-se para me levar ao carro protegida da chuva. Tenho medo de sombrinhas, respondi, já encharcada. Isso não é uma sombrinha, é um guarda-chuva, corrigiu-me.

Tenho medo, mesmo assim. De guarda-chuva. De gente carrancuda. De sim e de não. Ser indiscreta ou forçar intimidade. Cachorro preto. Escuro. Ficar louca. Solidão. Fantasmas. Terremotos. Ternos cinza. Dias calmos. Tenho medo.

Muitos medos, observou. E de café? Perguntou sorrindo. Café, eu gosto, respondi rápido ansiando por um convite. Que bom, disse, acabando com as minhas esperanças. Perguntou-me se eu tinha telefone ao me deixar no carro. Respondi-lhe que sim e parti.

É o tipo de coisa que não se faz, sabe? O arrependimento chegou segundos depois. Mas não voltei. Não voltaria. A cena valia mais do que a ligação.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Fingir que se importa é quase o mesmo que se importar.

Horas

Tudo em mim foi naufrágio.

Pensa em Pessoa.

Pessoa foi importante.

Tão importante quanto o momento.

Memória cristalizada.

Tudo é eterno enquanto existir lembrança.

A imagem some.

Esvai-se na velocidade do pensamento.

Tudo é efêmero quando a vontade é contrariada.

Contraditórios são os sentimentos.

O ônibus branco parou em seu último ponto.

Só ela não desceu.

O lugar vazio.

Espera infinita inundada de referências.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotografa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Trim….

X

Liguei pra lhe dizer: Olá, como vai? Para ouvir sua voz sempre educada, firme, responder: Bem, muito obrigado. Nem queria saber da sua vida ou das novidades em seu trabalho, apenas me fazer presente.

Você foi o assunto da manhã. Desmancharam-se em elogios. Fiquei toda orgulhosa e com algum ciúme. Permaneci em silêncio, mas senti saudades.

Lembrei-me do seu jeito doce incentivando-me a falar mais e mais sobre os meus planos mirabolantes para conquistar o mundo. Lembrei-me dos seus olhos que, quando pousavam nos meus, pareciam sorrir. Lembrei-me do silêncio constrangedor quando nossas mãos se tocaram, quase sem querer, e sabíamos que não podíamos.

O telefone chamou por diversas vezes até não tocar mais. Ficou mudo, assim como você ficou quando lhe pedi pra não gostar de mim do jeito que eu gostava de você.

Foi aí que percebi que você já havia se despedido há muito tempo. Entendi a distância, a ausência. Sofri com certo atraso e o que não tinha nexo fez sentido.

O rádio que toca dentro da minha cabeça sintonizou uma estação brega que executava canções de amor com finais tristes. O locutor contava histórias de desamor dos ouvintes e mandava mensagens de apoio, carinho e perseverança.

Será que se condoeria ao ouvir a minha? Ou simplesmente diria que é uma questão hídrica. Mania de fazer tempestade em copo d’água.

Pudesse eu desligar esse rádio, pensei, enquanto ouvia Ana Carolina perguntar mais uma vez em qual rua a minha vida vai encostar na tua.

Mas não. Não é possível desligar nada. Só sentir. Até esquecer. Até emudecer.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotografa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Vivend

I

- Você não faz mais sentido para mim.

Ele disse.

Saiu e bateu a porta como um qualquer. Era um qualquer que morava em mim há dois anos.

Repeti aquelas palavras todos os dias, religiosamente, por um mês. Como se fosse encontrar algum significado oculto naquela frase.

Quando não tinha mais forças para tentar entender, chorei. Como um pano de chão que a gente torce até não cair mais nenhuma gotinha de água suja, chorei.

Chorei e chorei mais ainda. Chorei até pensar que nunca mais sorriria.

- Você não faz mais sentido para mim.

Ele disse.

Sem explicações, desapareceu no barulho de uma porta se fechando num quarto vazio. Deixou a dor, o espaço, a solidão.

Houve um tempo em que nada fez sentido para mim.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotografa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Espanto… Foto AFP PHOTO/VANDERLEI ALMEIDA

Foi extremamente educado. Mostrou-me todos os produtos da loja tomando o cuidado de explicar, detalhadamente, como cada um funcionava. Ofereceu-me condições comerciais diferenciadas. Parcelamento, desconto e brinde. Só não conseguiu disfarçar a cara de espanto quando perguntei-lhe onde ficava o provador.

- Não existe isso em Sex Shop, senhor?

 

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotografa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Quebra gelo

Eu sou tímida. Ninguém acredita. Nem eu, às vezes. Mas sou. Isso ou envergonhada. Ou os dois. Então, não conheço rapazes facilmente.

Digo tudo isso para justificar o meu cadastro num site de relacionamentos. Enfim, a ideia era fazer amizades, conversar e talvez encontrar uma pessoa legal para sair.

Mas a timidez manteve-se mesmo no mundo virtual. Os moçoilos queriam conversa. Eu não sabia o que dizer.

Resolvi, então, utilizar um recurso do site chamado Quebra Gelo. Frases interessantes para iniciar o bate-papo. Ótimo!

O problema é que além de tímida, sou “espírito-de-porco” (segundo a minha família) ou tenho um senso de humor muito peculiar, segundo minha própria definição.

- Você já colheu maçãs?

Ri tanto sozinha que realmente acreditei que seria a melhor forma de iniciar um diálogo. Ri sozinha. Preciso explicar o resto?

Carolina Vianna

Carolina Vianna

Carolina Vainna é fotografa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Ig
dezembro 2014
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