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"Ajudando as mulheres a liderar, vencer, governar." ✫Desde 2009✫

Comentários ‘comportamento’

Arte RatoFX

 A criação da internet, na forma da rede mundial de computadores (WWW, WorldWideWeb, em inglês) foi, sem sombra de dúvida, uma das maiores invenções dos últimos tempos.

No Brasil, não se espantem, a internet é apenas uma moça de 16 anos*. Embora com pouca idade, cresceu e se desenvolveu muito, e a impressão de que a conhecemos há mais tempo se dá porque ela invadiu indelével e intensamente as nossas vidas.

Quem viveu essa época, gostando ou não, precisou conhecê-la e aprender a manuseá-la. Alguns ainda contracenam timidamente, outros por pura necessidade de trabalho, mas a grande maioria caiu de amores e já não fazem feio diante da extrema habilidade dos jovens. Aliás, se ainda não se tem absoluta certeza há, no mínimo, grande desconfiança de que as crianças de hoje já chegam ao mundo com um chip implantado, tamanha identificação e intimidade que demonstram.

E pensar que antes disso uma simples carta levava dias para chegar ao seu destino, mesmo de uma capital para outra. Uma eternidade se comparada à instantaneidade que a internet nos dá em todas as suas formas e utilização.

Mas, crescer e se desenvolver tem um preço a ser pago, diretamente proporcional às facilidades e rapidez dessa troca de informações e dados. Se não bastassem todos os episódios, diga-se, que há muito já se tem notícia, de invasão de computadores de empresas privadas, órgãos públicos e até no serviço secreto dos Estados Unidos, entre outros, tão ou mais importantes, acompanhamos
recentemente, mais um capítulo que expôs a fragilidade da segurança desse sistema.

Fragilidade que no fundo, todos nós sabemos da sua existência, e a tememos, mas insistimos em não valorizá-la. Pior, continuamos, sem qualquer preocupação ou cautela, a publicar fotos, fatos e pensamentos de nossa vida particular que podem alcançar pessoas que não deveriam.

Confiamos nos níveis de segurança que os sistemas operacionais nos oferecem sem nos dar conta de que somos o nosso próprio e maior risco, pelo que colocamos à disposição do mundo.
E esse drama vivido por uma famosa atriz que teve fotos íntimas roubadas por hackers de seu computador pessoal, acontecimento, aliás, que está a anos luz de ser o último, nos leva a uma reflexão menos apaixonada da internet, para os perigos reais aos quais nos expomos.

Engenharia social é o ponto. Ponto de partida para avançarmos rumo à nossa própria proteção. Aplicada à área da informática nos leva a conhecer, e entender, os comportamentos e características que transmitimos pelos perfis que publicamos. São eles que nos põem vulneráveis aos ataques e invasões de nossos computadores.

Um engenheiro social tem técnicas e percepção privilegiada para identificar as falhas nos sistemas operacionais das empresas ou as carências imiscuídas no que as pessoas publicam em suas redes. É conhecedor das facetas humanas, reconhecendo, de pronto, quem precisa elevar a autoestima, ou quer se promover na profissão, ou quer se sentir mais querido ou útil, por exemplo.
Ele lê nas entrelinhas, decodifica as necessidades e escolhe a quem se aproximar. Se dizendo amigo, abastece o ego da sua presa e extrai, cada vez mais, informações de toda sorte.

E não acaba aí. Com as informações obtidas podem aproximar-se pessoalmente daquela pessoa ou de seus parentes ou fazer contato telefônico, se passando por
alguém do interesse da vítima.

Uma faculdade extremamente perigosa se usada para o lado negro dessa força.

Por isso recebemos emails cujos títulos nos instigam a curiosidade, justo
por anunciarem o que queremos ouvir: “eu te amo”, “lembra-se de mim”, “quanto tempo, “nossa foto”” e por aí vai, em um sem fim assustador.Abrindo-os, abrimos, também, uma porta enorme para a invasão de nossa privacidade. Copiam, apagam,alteram, plantam informações falsas, inserem vírus
que destroem os arquivos ou publicam de forma devastadora o que muito se queria guardar.

Com as empresas ocorre o mesmo, provocando, no mínimo, insegurança, numa simplista avaliação.

A engenharia social é assunto tão sério que merece estudo aprofundado e, principalmente, uma divulgação maior do seu significado, técnicas e abrangência.
Quando se conhece o inimigo fica mais fácil combatê-lo ou evitá-lo.

Felizmente, existem pessoas muito gabaritadas que estão preocupadas com o assunto e estão a fazer um tremendo esforço para trazê-lo até nós, de forma que se dissemine, assim como um vírus, daqueles vírus bom, que nos protegem e nos salvam.

Voltaremos ao assunto, com certeza.

*http://www.brasilescola.com/informatica/internet-no-brasil.htm. Acesso em 17/05/2012.

Katia Dias Freitas

 

 

Katia Dias Freitas é advogada em Brasília.

Contato: contato@freitastotolipedrosa.adv.br

Obra Bola Murcha, de Vik Muniz, 1989 - Foto: Divulgação

- Amor, almoça comigo hoje? Preciso falar com você.
- Claro! Algo sério?
- Nada preocupante. Só saudade mesmo.
- Certo.
- Te pego 12:30.
- Te espero.
- Beijos.

Cabeça de mulher é algo surpreendente. Mil e um roteiros de filmes melodramáticos passaram pela minha mente no tempo transcorrido entre a ligação e o horário do almoço.

Ele está com câncer em fase terminal. Não, não é possível. Estaria com a voz mais triste. Arrumou outra. Batata que é isso! Canalha… Ainda quer ver a minha reação quando me falar da sirigaita. Homens não prestam mesmo. Mas ele sempre foi tão gentil. Não faria isso comigo. Não dessa maneira! Talvez seja só saudade. Se bem que ele diz todos os dias que sente saudades de mim. Pra quê me tirar da repartição? Convite formal para almoço? Tem algo errado aí. Se fosse coisa boa, era jantar. Vinho, luz de velas, quiçá uma esticadinha romântica.

- Amor?
- Sim…

Reticente, voz trêmula, olhar vago.

- Sabe o que é?
- Olha, não quero ser indelicada, mas se soubesse…
- Você e sua mania de imaginar sempre o pior!
- Não imagino o pior, mas o desconhecido nem sempre é agradável.
- Fica prolixa quando está em situação desconfortável.
- E você? Formal, diplomático. Nem parece o cara que..
- Não te chamei aqui pra brigar!
- Então desembucha, porra!
- AHN?
- Desculpe-me, escapuliu.

O garçom traz os pedidos. Silêncio sepulcral. Nos olhamos. Nenhuma palavra. Nenhum movimento.

- A comida vai esfriar.
- Eu te amo!
- Quê?
- Era isso. Queria dizer que eu te amo. Queria que fosse um momento especial, fora da correria, do dia a dia atribulado. Algo pra nos lembrarmos pra sempre, sabe?
- Deu certo. Dificilmente esquecerei esse dia. Aliás, vou até dar um nome específico pra ele: O Dia Internacional do Terrorismo Amoroso.
- Você poderia ser um pouco menos sarcástica.
- E você quer que eu diga o quê?
- Que você também me ama… Seria um bom começo.
- Eu posso até te amar de uma forma geral, mas nesse exato momento estou com ódio de você.
- Não faz assim..
- A comida vai esfriar!

Mais três doses de silêncios. Todos sepulcrais. Almoço engolido à pulso. Olhadelas discretas no relógio. Movimentos automáticos. Quase robóticos. Enfim, conta. Enfim, carro.

- Queria te dizer também…
- …
- Você não quer saber?
- Não quero interromper.
- Então…
- O quê?
- Você é a mulher da minha vida. É com você que me vejo envelhecer. Criar meus filhos. Ficar rabugento junto, sabe?
- Mesmo?
- Juro! Te amo muito. Nunca me senti assim antes. Já tive paixões, mas agora é pra valer. Não é frio na barriga. É amor.

Perdão instantâneo. Blecaute. Muda a cena. Olhos fechados. Igreja barroca. Coral de vozes femininas entoa Chuva de Prata. Vestido branco. Buquê pequeno. Pajem e daminha carregam as alianças.

- Amor? Você está dormindo? Já chegamos.
- Ah, estava distraída. Te vejo à noite?
- Claro.

Tarde – completamente – improdutiva. No quesito trabalho, é claro. Vida pessoal a mil. Google trabalhando a todo vapor nas pesquisas de igreja, cerimonial, vestidos, doces, bufê, locais para recepção e, é claro, lua de mel.

- Vamos tomar um chope?
- Já? Perdi a hora…
- 19:30!
- Sim, te encontro no estacionamento.

O bar de sempre. As pessoas de sempre. O horário de sempre. O olhar novo. Olhar de amor.

- Eu estava pensando sobre o nosso almoço..
- Eu também!
- Diz..
- Fala você primeiro.
- Não, fala você..
- Bom, nós nos entendemos muito bem. Nossos gostos combinam, nossos projetos de vida e tudo mais. Parece, mesmo, que a gente se completa…
- Eu também penso assim.
- Então…
- Diz..
- Acho que a gente deve terminar o nosso relacionamento por aqui.
- O QUÊ???
- É. Isso vai evitar que a gente macule o nosso amor com brigas bobas, falta de respeito e todas essas coisas que acabam acontecendo nos namoros.
- O QUÊ???
- Sei que é difícil de entender, mas é o melhor a ser feito nesse momento. No futuro, você vai me dar razão.
- O QUÊ???
- É… igual ao Pelé, sabe? Acho que a gente deve encerrar nossa “carreira amorosa” no auge.

E, desde então, odeio futebol!

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Arte RatoFX

A tradição, os costumes, nos fazem ter um dia específico para comemorar um  acontecimento. E  ter um dia dedicado às mães não é diferente. No segundo domingo de maio é chegado o dia delas.

Mãe exige pouco, quase nada.

Se dispa de todas as vestimentas e seja apenas filho, qualquer que seja a sua idade.

Se já cresceu e ganhou o mundo, não importa, demonstre o seu carinho e cuidado, mesmo para aquelas mães que orbitam, brilhantes, suas próprias trajetórias.  Estando próximo ou distante se faça presente. São tantas as possibilidades, até virtuais, hoje.

Abstraia-se do forte apelo comercial que desvirtua o verdadeiro propósito da homenagem, aliás, como nas outras datas comemorativas. O presente material é mero detalhe.

Às mães modernas, a lembrança de que não deixem que nenhum compromisso de trabalho as impeça de estar lá na escola, quando seu filho correr para lhe entregar o presente que ele mesmo fez.  É muito importante para eles. E não enviem representante para não correr o risco de ouvir que aquela festa não era pelo dia da irmã, ou da avó, e sim, pelo dia das mães, porque vai doer muito.

Há hoje um simples desenho que vem sendo compartilhado na internet[i], nas redes sociais: Uma pata completamente depenada e a seu lado 2 filhotes cobertos com suas penas dormindo serenamente, protegidos do frio e as legendas: “Ser mãe é muuuuuiiiito diferente de “ter filhos” e “Mãe um amor que não tem preço”. Disse tudo.

Mãe é a que lhe trouxe ao mundo ou aquela que lhe deu um mundo. O que conta é o amor e o desprendimento.

Mães e filhos, Feliz Dia, não somente no  segundo domingo de maio, mas  sempre.

Katia Dias Freitas

 

 

 Katia Dias Freitas, hoje, apenas filha e mãe.

[i] www.facebook.com/mulher.mae “Mulher e Mãe. A difícil e doce arte de ser”.

 

Mafalda - Quino

Como este blog se chama  mulheres no poder, entra no rol de palavra-chave “mulher” e aí tudo pode. Temos recebido mais de 40 sugestões de nota por hora anunciando algum produto ou serviços para  fazer sua mãe se sentir feliz e especial!

 Hoje em dia, Mulher e Classe C são as categorias mais cobiçadas pelo marketing.  Vem essa ordem, mas se puder cruzar as duas, melhor ainda.

Dia das mães também traz a maior inundação de encartes no jornal de domingo, folders na entrada dos estacionamentos de shoppings, afinal todo mundo tem mãe e mãe é uma só.

Aproveito então o espaço, com a devida antecipação, para dizer aos filhos que nos leem que muitas de nós não queremos presentes materiais, ou não deveríamos querer, não é colegas?

Para algumas, a simples maternidade já é o grande presente. Há um bom número de mulheres que tentam engravidar e têm dificuldade. Procedimentos caros, sucesso nem sempre garantido e muito sofrimento a cada tentativa em vão.

Há mães que geram com dificuldade, cujos bebes chegam na hora que as amigas preparavam o chá de fraldas e alguns que desistem de vir.

Há alguns dias o jornal mostrou o caso de uma menininha que nasceu aos cinco meses de gestação, Carolina, se chama, mas devia ser Vitória, tal a batalha para sobreviver.

Nem vou mencionar a questão das tantas e tantas mulheres desprovidas, mal atendidas nos hospitais, que parem nas ruas por falta de capacidade da nossa rede de saúde pública e também privada. A imprensa não noticia, mas usuárias de plano de saúde também têm historias tristes para contar.

Muito menos quero falar das que parem e atiram o filho no rio, mato ou saco de lixo. Isso é assunto bem mais sério do que possamos aqui tratar.

Quero é levantar a questão do apelo comercial da data x a necessidade efetiva de um presente para demonstrar amor.

Minha proposta é para os filhos. Aliás, mais que proposta, um desafio: e se desta vez fizéssemos diferente, não déssemos celular, perfume, bolsa, blusa ou coisa assim e passássemos o domingo (ou pelo menos a metade) todos juntos?

 Que tal começar o dia caminhando juntos, no calçadão, em volta da praça, na orla, no eixão do laser?

Se não for possível caminhar, uma massagem nos pés, um carinho no pescoço, um beijo na bochecha, enfim, dá prá escolher, de acordo com a mãe.

Nem menciono que, um almoço preparado no capricho faria o maior sucesso. Seguido de sobremesa, cafezinho e um cochilo no sofá da sala.

Evite-se o shopping, a 23 de maio, a feira do Paraguai, Miami, ou a Lojinha de 1,99 da esquina. Eles sobreviverão, não tenha dúvida.

Exceções à regra: são permitidas flores, chocolates e, dependendo da sua mãe, vinhos finos!

Feliz dia, filhos!

Gianna Xavier - Editora do Mulheres no Poder

 

 Por Gianna Xavier, mãe e editora do Mulheres no Poder

- O que a senhora deseja? - Amor.

- O que a senhora deseja?
- Amor.
- Só tenho um grande. Vai levar inteiro ou quer que tire um pedaço?
- Quanto fica se eu levar inteiro?
- Só um minuto, senhora, preciso somar. Olha, deu o total de…
- Nem precisa falar, já vi! É muito caro!
- Mas é grande, senhora. Um grande amor não sai barato, pode procurar em outros lugares. E tem mais, esse item está em falta no mercado, sabia? Quanto mais raro, mais caro. É o que dizem.
- Corta um pedaço então. Não muito grande.
- Aqui está bom?
- Acho que é pouco amor.
- Mais pra cá, então?
- É, pode ser.
- Ah, lembrei que lá no estoque tem um outro pedaço. O dono pediu para recolher porque parece que venceu. É um amor antigo, mas também é grande e bem mais barato. A senhora quer ver?
- Traz aqui. Dependendo do preço compro todo.
- Só um minuto, senhora.
- Está bem!

Seus olhos acostumam-se à penumbra da loja. Vasculha as prateleiras em busca de algo um pouco mais barato que pudesse substituir a sua necessidade de ter um grande amor. Situação difícil. Encontra em um vidro sujo, meio largado, amor em pedaços. O preço é realmente menor. Fica intrigada. Leva o pote para o balcão.

Continua a procurar. Ele retorna. O amor antigo era ainda maior do que o novo. Ela mal consegue conter o sorriso.

- Pronto, senhora, aqui está.
- Quanto custa esse?
- Um terço do preço do outro.
- Mas por que essa diferença toda? Não é um grande amor?
- É, mas é antigo.
- Um amor passado?
- Pode-se dizer que sim.
- Por isso que ele está esverdeado nas bordas?
- É, quando os amores perdem seu prazo de validade ficam assim. Depois de um tempo tornam-se completamente verdes. No começo a cor é escura, verde musgo. No fim, ficam claros, num tom de verde água.
- Então vira um amor mofado?
- Não, vira saudade. Quanto mais escura a cor, mais forte. Igual aquela da vitrine.
- Saudade?
- Isso mesmo.
- Ela brilha.
- Porque é pura. Não está misturada com mágoa e nem ressentimento. É a mais cara da loja.
- Nunca tinha visto uma saudade assim.
- Eu já experimentei. Não existe nenhuma sensação que se compare a isso. A saudade pura é, também, plena.
- As bordas do amor antigo não brilham.
- Não, acho que está misturado com um pouco de sofrimento. Só saberemos quando terminar a transformação. Posso embrulhar?
- Ah, eu não vou querer um amor antigo que já se perdeu no tempo e, ainda por cima, está se transformando em saudade. Aí eu teria que levar tristeza e melancolia para acompanhar. E ainda correria o risco de ter sofrimento junto.
- É verdade, mas posso fazer um desconto. Esses estão em promoção. Tem tanto por aí que quase ninguém mais procura.
- Não, definitivamente não! Quanto custa esse do pote de vidro? É pequeno, mas ao menos não mudou de cor.
- Ah, esse a senhora não vai gostar. Eu não gostaria!
- Só por causa do tamanho? Se não posso ter um grande amor, me contento com um pouco menos, porém ainda é amor.
- Mas esse é despedaçado.
- Despedaçado?
- O nome correto é: Amor estraçalhado. A senhora conhece?

Ficou muda. Seus olhos umedeceram. Uma lágrima desceu suavemente a face pálida. Baixou a cabeça. Limpou o rosto. Voltou a procurar. Ele guardou o pote embaixo do balcão. Ofereceu-lhe um copo d’água.

- Quer vender?
- O quê?
- Lágrimas sinceras. Não temos há muito tempo. Acredito que poderíamos ganhar alguns clientes com isso.
- Não, obrigada.
- Tem certeza?
- Sim, são raras. Quase nunca choro.
- Por isso…
- Não, não consigo.
- Posso lhe mostrar o pote novamente e..
- NÃO!
- Desculpe-me, senhora, não quis lhe ofender.
- Não ofendeu. Eu é que peço desculpas. É que…
- Sim?
- Eu realmente conheço o amor estraçalhado.
- Comprou-o por engano?
- Não. Vendi.

 

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Arte RatoFX

Daqui a pouco pego as cortinas. Compro mais um varão. Mais tecido. Escolho uma mesa de jantar. Organizo os malditos papéis que se amontoam nas gavetas. Daqui a pouco passo as roupas. Aquelas enfiadas de qualquer jeito nos pequenos baús. Encontro o lençol que lavei na semana anterior.

Daqui a pouco pego as caixas de frutas. Peço antes, aliás. E lixo. E pinto. E envernizo, se existir esse verbo. Daí, monto uma estante. Tiro os livros das caixas de mudanças. Daqui a pouco compro um sifão novo. Termino de montar a pia. Ligo pro cara do box ou quebro o piso do banheiro todo, mais uma vez.

Daqui a pouco limpo os restos de epoxi que ficaram no piso. Nas paredes. Em tudo. Até aquele perfil de alumínio, tão lindo no mundo das ideias, mas que só serve pra acumular sujeira. Limpo tudo de uma vez só. Instalo o telefone pros cobradores, finalmente, me acharem. Paro, um pouco, de xingar as mães dos pedreiros. Daqui a pouco resigno-me.

Daqui a pouco entrego as tintas, as toalhas, as roupas, a mesa, a sapateira, a mala e a televisão para os novos donos. Resisto à vontade de continuar dando tudo que tenho. Rápido. Antes que fique sem lugar para dormir. Daqui a pouco me acalmo.

Daqui a pouco compro comida pra não sobreviver (só) de delivery. Pra mim e pro gato. Arrumo a cozinha. Guardo as louças. Conserto o filtro. Não tomo mais água em conta-gotas. Daqui a pouco pego as tralhas que trouxe de outra vida.

Daqui a pouco descubro o que fazer com tantos enfeites, bibelôs, estatuetas e outros mimos que não tem sentido algum. Conserto o barômetro. Penduro o espelho. Restauro os móveis. Daqui a pouco decido qual moldura colocar na tão esperada (?), sonhada (?), almejada (?) gravura.

Daqui a pouco canso de brigar com a orientadora. Escrevo uma monografia. Peço o diploma da faculdade finda no século passado. Declaro os impostos. Rendo-me à burocracia. Daqui a pouco me adapto.

Daqui a pouco converso. Dirijo. Como. Bebo. Durmo. Danço. Canto. Trabalho. Vivo.

Daqui a pouco.

Agora eu preciso deitar. Olhar para o teto. Imaginar o vazio. Respirar lentamente. Escutar o silêncio da minha alma.

Até as lágrimas cessarem.

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Broken Watch Foto: Mark Miller

Não te pedi muito mais do que cinco minutos. Você negou. Assim como negou atenção, carinho e dedicação durante todo o tempo em que estivemos juntos. Sobrevivi de migalhas de amor. Igual aos pombos da praça que catam farelos de pão no chão. Dia a dia eu catava qualquer resto de sentimento que você jogasse fora.

Um esboço de sorriso. Mesmo que não fosse pra mim. Fantasiava que era. Um beijo soprado. Uma palavra doce.

Mas a gente é feito de carne. De osso. De anseios. De ímpetos de egoísmo e pequenos momentos de compaixão. De intenções. Às vezes, más intenções.

Instinto. A gente é puro instinto. E isso não é bom. Nem mau. É a realidade. É a necessidade de sobrepujar o outro. A necessidade de agradar o outro. É tudo isso, cara!

E, de repente, passa um tempo e você nem se reconhece mais. É o cotidiano que te engole. Num dia você é aquela figura interessante e todos os caras te olham. No outro, você está beijando os pés de um babaca que esquece teu aniversário e justifica dizendo que datas são importantes apenas para os professores de história.

E você olha pra trás e tenta entender como chegou nesse ponto. E não consegue sair do limbo. Porque se acostumou ao limo. É sórdido. E real. É rastejar na lama mantendo seu saco de suprimentos amarrado ao corpo sem saber Como é!

Então você culpa o outro. Mas a culpa está refletida no espelho. Quem erra? O dominador ou o dominado? O opressor ou o oprimido?

Aí você fecha os olhos e repete pra si mesmo. Baixinho. Deitado em sua cama. O mantra do Mestre. Que seja doce! E acredita que será. Crê piamente que amanhã será um dia melhor. Porque cresceu escutando que dias melhores virão e o amanhã à Deus pertence. E mãe, você sabe, não mente.

Um dia as migalhas ficam escassas. E, nesse dia, você percebe que não sobrevive mais sem elas. E para de esperar que elas caiam pelo chão. E começa a implorar por elas. Num completo estado de mendicância afetiva.

Em total desespero. Em estado de abandono. Beirando a inanição. Brada num ato de rebeldia. Pede cinco minutos. Apenas cinco minutos. Recebe, neste momento, o silêncio final. De um alguém que não possui nem a hombridade de te dizer tchau. Mas que você daria a vida para ter novamente. Mesmo que fosse por cinco minutos.

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

O nível de gratificação das mulheres que mantinham apenas uma atividade era menor do que o das que acumulavam várias Foto: Shutter Stock/Terra

As mães de hoje, filhas de uma geração de mulheres que já assumiam postos no mercado de trabalho, lidam de forma diferente com o fato de a mulher ser chefe de família. Acumular funções de mãe, profissional e esposa não é novidade para elas, e traz, inclusive, satisfação para a maioria delas.

Uma pesquisa de 2012 da International Stress Management Association (Isma) do Brasil – entidade que pesquisa o stress – entrevistou 220 mulheres de 20 a 60 anos, e concluiu que o nível de gratificação das mulheres que mantinham apenas uma atividade era menor do que o das que acumulavam várias.

“Hoje, o ideal de ser esposa e mãe exclusivamente não existe para a maior parte das mulheres, que quer mesmo é ser mãe, esposa e ter liberdade econômica”, afirma a antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mirian Goldenberg.

Valor de comandar a própria vida

Essa clareza do valor de ser chefe de família também é percebida pelos filhos que veem a mãe como a pessoa que lutou para criá-los. “Nas entrevistas com jovens, não vejo ressentimento por a mãe sair de casa para trabalhar. Vejo respeito, admiração e valorização pela figura da mulher que tem força. Reconhecem que é a mãe que sustenta e que também cuida, dá carinho, atenção”, diz Mirian.

Para se adaptarem a esse modelo familiar, o relacionamento entre mãe e filho mudou. Os diálogos de família, por exemplo, passaram da mesa de refeições para a carona até a escola, uma ida ao cinema ou durante um lanche na frente da TV. Mesmo que fique a impressão de que o formato não é o mais adequado, a antropóloga acredita que os pais querem e valorizam os momentos de conversa sejam eles quais forem. “A dedicação dos pais com os filhos nunca foi tão grande. A qualidade e quantidade de conversa aumentaram muito com pais mais focados nas crianças”.

Mirian acredita que as mães chefes de família se relacionam com seus filhos com mais lucidez, pois sabem o que é realmente importante, sabem avaliar melhor o que é prioritário para a criança e para ela e aprendem permanentemente a negociar interesses e vontades. “Com uma visão mais ampla do mundo, elas enxergam que errar faz parte da maternidade”, finaliza Mirian.

Do Terra

Arte RatoFX

Pra ele, me guardo.
Ria de mim, mas estou aqui
parada, bêbada, pateta e ridícula,
só porque no meio desse lixo todo
procuro o verdadeiro amor.
Cuidado, comigo: um dia encontro.
(Caio Fernando Abreu – Dama da Noite)

Enquanto o grande amor não acontece. Enquanto as horas passam vazias. Enquanto os dias se repetem. Te encontro.

Na mesma esquina. As mesmas conversas. O mesmo sorriso amarelo. Aquele beijo conhecido. O gosto de sempre. O olhar de sempre. As mãos precisas percorrendo os caminhos invariáveis.

Uma taça de vinho. Outro cigarro. A marca da unha nos ombros. Dedos emaranhados nos cabelos. Uma mordida na nuca. Pernas entrelaçadas.

A reação esperada. O gemido rouco. O grito sufocado. O abraço vazio. O cheiro, o suor, as lágrimas. Tudo revisitado.

Você está impresso em mim assim como estou impressa em você. Mas isso não é o amor.

Lascívia. Desejo. Concupiscência.

Hábito, talvez.

Enquanto o verdadeiro amor não chega.

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

 

Dia 2 de Abril, Dia Mundial de Consciência sobre o Autismo

Hoje, 2 de abril, é o Dia Mundial de Consciência sobre o Autismo. Dia para tentar incluir aproximadamente 2 milhões de brasileiros, que de alguma forma são portadores desta síndrome. E a conscientização começou neste domingo, na Praça das Bandeiras, em Santos, quando cerca de 150 parentes de autistas se mobilizaram pela causa.

Para a maioria das pessoas – médicos, inclusive – autismo é uma síndrome com difícil diagnóstico. Ana Lucia Felix, santista e mãe de um autista de 14 anos, Carlos Alberto, conta que procurou oito pediatras, cinco psicólogos e dois neurologistas para tentar entender o porque de seu filho, na época com 4 anos, recusar alimentação.

“Disseram que ele era mimado, que tinha pais velhos e que eu não sabia dar comida, antes que fosse diagnosticado o autismo”, conta ela. Pensando em evitar esse tipo de desgaste – para os pais e principalmente para os filhos – ela se uniu no Facebook a outras quatro mães de portadores da síndrome: Eliana Pereira, Rosana Vicente, Jane Galdino e Abigail Bueno. Trabalhando em conjunto, em 20 dias, elas conseguiram mobilizar mais de 150 pessoas em torno de um objetivo comum: conscientizar não só os parentes de autistas, mas toda a comunidade.

Partiu dos encontros do grupo, que passou a se chamar Acolhe Autismo, a iniciativa da mobilização de ontem, cujo objetivo foi distribuir folhetos e informações sobre a síndrome. O trabalho de conscientização continua hoje às 15horas, no mesmo local.

A jornalista Carla Zomignani, mãe de uma adolescente autista, comenta que cada criança apresenta um comportamento diferente da outra.

Sua filha de 17 anos, por exemplo, é exímia em interpretar ritmos e dançar. Mas tem dificuldades em entender números e letras. “Não é um conteúdo prático, ela não entende o significado, a aplicação daquilo”.

Pessoas autistas sentem o mundo de forma diferente da maioria das outras pessoas. Para elas, é difícil interagir e se expressar com palavras. Muitas pessoas discriminam os portadores da síndrome, tachando-os de birrentos ou mal educados, segundo Abigail Bueno.

A birra é uma característica do autista, assim como a tendência ao isolamento e as “manias” individuais. Abigail conta que seu sonho é que as pessoas consigam identificar os autistas e passem a tratá-los com respeito. Para ela, um grande aliado neste trabalho é o quadrinista Maurício de Souza, que criou um personagem autista, o André.

“André pode ajudar muito as famílias de autistas que não conhecem a síndrome e seus sinais”.

Como são os autistas:

Os autistas compreendem as coisas no sentido literal

Eles geralmente não gostam de mudanças, seja na rotina ou no ambiente

Com frequência se isolam, principalmente de outras crianças

Costumam gostar de objetos que giram

Às vezes parecem não escutar

Podem não demonstrar medo de coisas potencialmente perigosas

Gostam de ficar se balançando ou mexendo com as mãos, como se fossem voar

Podem se irritar com coisas aparentemente insignificantes

Embora pareçam indiferentes, são sensíveis e respondem – a seu modo – ao afeto

Fonte: Altamir e Eliane do Carmo Meira, pais de Matheus, de 14 anos, autista

Do Jornal A Tribuna