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Feliz Natal!

Gosto muito de resmungar e dezembro é o meu mês favorito para me transformar no Zé Buscapé. Implico com tudo. O ano que passou rápido demais sem que eu pudesse concluir todos os meus planos. Natal cada vez mais comercial e sem sentido. Festas de família, da repartição, abraços indesejados e felicitações falsas. Cheguei a receber o apelido Espírito de Porco Natalino, em casa.Minha decoração natalina resume-se a uma micro-árvore de cristal que sai da gaveta no dia primeiro de dezembro e fica em um cinzeiro, na mesa de centro da sala, até o dia 06 de janeiro.

Ah! Além da rabugice, tenho também a depressão do Natal. Sim, eu e metade do planeta. Choro, sofro e não saio de casa. Bebo piscinas olímpicas de champanha para afogar as mágoas e essas campeãs de natação continuam a me atordoar.Nem sei quando isso começou.
Aliás, não sabia nem o motivo para esse mau humor cósmico misturado a infinita tristeza aparecer sempre na mesma época. Só sei que dura mais de dez anos. E dez anos é muito tempo para não se fazer nada.

Em 2013, porque eu gosto muito do número treze, resolvi tomar uma atitude. Voltei ao projeto de Melhorias do Ser Humano. Acupuntura. Homeopatia. Conversas intermináveis com as amigas, a terapeuta, o irmão e quem estivesse disposto a me ouvir dissecar meu passado.

Ouvi muito. Refleti mais ainda. Decidi que não preciso ser o Senhor Scrooge , muito menos o Grinch.

Não que seja um passe de mágica ou coisa fácil de solucionar, mas parece que apenas o fato de admitir o problema faz com que ele seja reduzido consideravelmente. E dezembro está suportável. Acredito que poderá, um dia, ser maravilhoso. Mas suportável, por enquanto, está bom.

Desejo, então, pra vocês, leitores do Mulheres no Poder, um fim de ano especial. Cheio de alegrias, amor, harmonia, festas incríveis com muito champanha e comida gostosa, encontros dignos e – pra quem estiver na mesma busca que eu – uma boa reforma pessoal.

Que venha 2014! E… até janeiro.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa, escreve para o Mulheres no Poder, e deseja à todos boas festas!

(...)

(…)

O rapaz, por quem tenho leve apreço e venho declarando amor ultra-romântico, disse-me não. Um “não” categórico daqueles que não deixa pairar uma dúvida sequer. Sem explicações ou justificativas, apenas “não”.

Por quê?, pensei. Mas não muito, pois sei bem o porquê. No entanto, não significa que me conformei. Resolvi, então, demonstrar que a decisão dele havia sido precipitada, afinal, não me conhece tão bem e pode vir a se arrepender de ter me dispensado, assim, facilmente.

O que é amor próprio? Algo completamente desconhecido no meu Universo, não é mesmo?

Dado que o rapaz é pragmático, nada melhor do que uma explicação técnica, com fundamentação teórica, embasada em alguma estatística. Posto isto, enumero:

1 – Bom humor

Sou de riso fácil. Acho graça da vida. Aprendi a rir de mim mesma. Não sei contar piadas, isso é verdade, mas transformo minhas próprias histórias em esquetes de stand-up e em 95% do tempo (olha a estatística!) estou de bom humor.

2 – Refinamento

Sei me comportar, tanto no boteco, quanto na festa de gala. Visto-me bem, sei expressar-me com clareza e, quase nunca, envergonho o alheio. Tenho bons modos, como diria a minha avó. Uso-os, às vezes. Prefiro não revelar essa estatística.

3 – Ingenuidade

Creio. Creio. E creio. Acredito em tudo que me dizem, denotando, até, puerilidade. Talvez, patetice. Não tenho malícia. Não perdi a inocência. Beira o ridículo, visto que já passei dos trinta, mas ao mesmo tempo, pode ser encantador.

4 – Criatividade

No trabalho, no lazer, no ócio, na vida. Sempre criativa. 100% criativa! Dada às artes. Fotografia, teatro, literatura (ainda que chinfrim) e malabarismos na repartição.

5 – Resiliência

Mantenho o equilíbrio emocional. Passo por um arco-íris de emoções e sentimentos, porém torno à condição original em tempo módico. Sem exigir do alheio. Preciso, apenas, de uma boa noite de sono.

6 – Cachinhos grisalhos

Dignos e lindos! Não dá pra dizer mais nada sobre isso. Quem já viu, entende.

Depois de criar a lista, mostrei para o rapaz por quem tenho leve apreço e venho declarando amor além da vida. Ele riu. Disse que eram excelentes qualidades e que qualquer pessoa que me conhecesse encantaria-se comigo. Sugeriu, inclusive, que eu arrumasse um namorado, afirmando que gostava muito de mim e queria ver-me feliz.

Chorei copiosamente por vários dias. Sofri de verdade. Encontrei-o, novamente, dois meses depois, em uma festa de família. Família dele, que fique registrado. O seu irmão, meu atual namorado, nos apresentou. Eu quis rir, mas ele permaneceu sério.

Nunca mais falou comigo.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

 Carolina Vianna é fotografa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Mais do mesmo

Mais do mesmo

Diário gerúndio:

Perdendo muito tempo pensando naquele que levou A Piece of My Heart e nunca devolveu.

Querendo ser Simples.

Ouvindo Joplin, Jagger e, também, Gal. Sendo inconveniente sem autocensura. Sonhando com máquinas futuristas capazes de fazer voltar ao passado. Assistindo Barbarella.

Chorando pelo leite derramado sem nem gostar de leite. Resmungando sem cessar. Imaginando cenas fantásticas com diálogos incríveis que nunca terão a oportunidade de acontecer no mundo real.

Crendo. Sendo. Fazendo.

Esticando os últimos minutos da fantasia. Prometendo o impossível. Testemunhando o fracasso. Testando limites. Sorrindo sem motivo.

Aprendendo a viver.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

 

 

Faxina

Para esquecer um amor precisa-se de concentração. Deve-se evitar remoer histórias do passado. As fotografias têm destino certo: o lixo. Rasgadas, de preferência. Os presentes podem ser encaixotados até que o laço não exista mais e possam ser usados novamente.

Livros ajudam no processo também. Mas cuidado! Não é qualquer livro. Fuja de poesias. Prefira os técnicos, mas não muito chatos. Qualquer um que tenha for dummies no título, servirá.

Aprenda um trabalho manual que requeira atenção. Enfie miçangas numa linha com auxílio de uma agulha. Use uma linha muito fina, fácil de se romper. Você terá a chance de passar horas catando as miçangas no chão sem se distrair com qualquer pensamento indevido.

Não beba! A correlação da bebida com os telefonemas desesperados para o ex-amor de madrugada é altíssima, quase perfeita. Se necessário, utilize comprimidos e durma, durma, durma.

Faça faxina. A alma gosta de limpeza, o coração também. Limpe banheiros, armários, cozinha e tudo o que puder. Quando – enfim – terminar, recomece. Experimente limpar o rejunte da cerâmica usando uma escova de dentes, água e saponáceo. É relaxante.

Encontre um novo amor. Se for muito difícil, engane-se com uma pessoa qualquer fingindo que é um novo amor. Se, ainda assim, não conseguir, aumente suas possibilidades. Entendeu?

Essa receita é válida para amores em geral. Não sei se funciona para esquecer um grande amor. Não foi testada. Falta-me a experiência.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Elementos

Elementos

É preciso escutar as folhas que balançam com a brisa. É preciso ouvir o sibilar do vento. É preciso abrir bem as janelas para o redemoinho entrar. É preciso parar, observar, sentir. Ser vento. Ser livre. Voar.

É preciso chorar até a fonte de lágrimas secar. É preciso suar e purgar aquilo que não mais serve. É preciso enfiar os pés na lama e perceber que a sujeira é composta também de algo limpo. É preciso fundir-se, misturar-se, perder-se. Ser água. Ser parte. Desaguar.

É preciso escolher o que se deseja e plantar. É preciso cuidar da base. É preciso semear, regar, defender. É preciso fincar as raízes no solo, ser firme, ter força. Ser terra. Ser fértil. Alimentar.

É preciso queimar as amarras. É preciso aquecer-se nas chamas. É preciso perder-se no crepitar da fogueira sem objetivos. É preciso deixar-se purificar pela fumaça perfumada do turíbulo. É preciso arder, inflamar, incendiar-se. Ser fogo. Ser transformador. Iluminar.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa, e escreve para o Mulheres no Poder

cor

coração

Tenho um coração bandido que me trai a todo instante. Dispara quando não deve, se entrega quando não pode, congela sem dar explicações.

É de fazer vergonha. Quase sai pela boca e depois faz cara de paisagem. Nem se dá o trabalho de se fazer entender. Coração bipolar, é isso que tenho.

Bandido, leviano, distraído, safado. Parece gato de armazém. Qualquer afago, o menor agrado, já o tem.

Arisco, arredio, desconfiado. Se paira uma dúvida, já se vai.

Fechado, solitário, taciturno? Não. Na verdade, emburrado. Um mimo, um dengo, um charme e já está na pista novamente.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Castelos…

Era uma vez um menino doce que morava num castelo. Esse menino não tinha irmãos, nem convivia com outras crianças, pois só havia adultos no castelo. Os dias dele eram preenchidos pelas mais diversas atividades para que não sentisse falta de companhia ou brincadeiras.

Doce e azulado, assim ele era. De um azul tão claro que parecia fazer carinho em quem o olhava. Transpirava bondade, generosidade e compaixão.

Um dia esse menino tornou-se adulto. E permaneceu azul e doce. Simples e altruísta. Passou, então, a conviver com adultos de outra forma. De igual pra igual, pensava.

Mas o convívio agora era muito diferente do passado. Os adultos não o tratavam da mesma maneira, afinal ele continuara azul quando todos os outros se tornaram cinza com o passar dos anos.

Aquele azul cintilante que outrora inspirara calma passou a irritar os demais. A docilidade os enojava. Eles eram cinza, amargos, ácidos, salgados, picantes. Nunca azuis. Nunca doces.

Sem entender o que acontecia, quis parar de brilhar. Sem sucesso, resolveu evitar o contato com o mundo cinza. Voltou para o castelo. Isolou-se.

Aos poucos, sem contato com qualquer outro ser, sua cor foi mudando. Entendeu, então, como deveria agir para ser aceito. Hoje, é quase todo cinza, pouquíssimo doce. Mantém apenas uma manchinha azulada, brilhante, que raríssimas vezes deixa ser vista.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Coisas da Vida

Coisas da Vida

Disse que não me queria. Entre um beijo e outro falou que não podia. Negou sentimentos enquanto tirava a minha roupa. Tentou permanecer frio e distante. Quase considerei possível. Não fosse aquele olhar terno ao me ver adormecendo em seus braços, acreditaria na farsa.

E assim você se foi. Saiu dos meus pensamentos, das minhas intenções. Mudou-se para qualquer lugar bem distante do meu radar. Resolveu me querer logo quando deixei de me interessar. As pessoas certas nas alturas erradas.

Preciso, agora, encontrar um novo objeto da paixão. Não vivo se não estiver apaixonada. Esse sentimento é tão necessário para a minha sobrevivência quanto o ar. Sem ele fico murcha, não crio, não existo.

Tenha uma boa vida, pensei, enquanto me dirigia ao balcão das paixões impossíveis. Sim, prefiro as impossíveis. Alimentam-me por mais tempo.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Copacabana

Ontem dancei sozinha em casa até às quatro da manhã. Foi ótimo. Ritual de banimento, sabe? Pra espantar o que estava dando errado.

Lembrei de quando fazíamos isso juntas. Eu era tão pequena. Você me pegava pelos braços e rodopiávamos pela sala até cairmos exaustas no chão.

Nesses dias, que você ainda não tinha sido acometida pelo cansaço e pela doença, brincávamos até amanhecer. A sombra da morte não nos espreitava.

Era o tempo em que pensava que você duraria para sempre. Ou mais um pouco. Não sei. Acho que não pensava nisso.

Então você se foi. Deixou-me sozinha. Partiu antes de me ensinar a me maquiar, me vestir e me comportar como mocinha.

Não teve tempo de explicar como seriam os meninos, a vida e as escolhas. Não disse que de onde vem o riso, também viriam as lágrimas.

Restou essa lembrança. Essa lembrança que não é real, mas poderia.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa, e escreve para o Mulheres no Poder

2

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Então, ele me traiu. Pior do que isso. Traiu e deixou que eu descobrisse. É! Deixou mesmo. Quem quer fazer escondido, faz e pronto. Ainda teve a audácia de brigar comigo, acredita? Falou que mexer em celular, revistar carteira e procurar mensagens suspeitas no notebook era invasão de privacidade, pode?

Fiquei perplexa duas vezes. A primeira, quando encontrei os indícios. Aliás, a confirmação. A segunda, com a briga. Invasão de privacidade uma ova! Terminou o namoro antes que eu pudesse rodar a baiana. O que só aumentou meu ódio, devo confessar.

Mas já tinha anotado todos os dados daquelazinha. E tinha planos de vingança… Sórdidos!

Passadas três semanas, o assunto ainda fervilhava na minha cabeça. Resolvi mandar um e-mail para a bonitinha. Marquei encontro pra conversar. Ah! Usando o endereço de e-mail dele, é óbvio. A pessoa é tão banal que esqueceu de trocar a senha.

Enfim nos encontramos. Eu, toda digna, cara a cara com a perua. E não é que a vagabunda era bonita mesmo?

Não gritei, nem fiz o barraco que estava pensando. Ela tinha uma voz tão doce, tão suave. Um jeito especial que parecia entender a minha dor. Conversamos por horas a fio. Até entendi porque ele havia me traído. Ela era realmente especial.

Essa é minha história de amor. A mais bonita história de amor de todos os tempos. Estamos juntas há quinze anos.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Ig
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