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Comentários ‘cinema’

Josefa, personagem da atriz Eva Todor na novela “O Cravo e a Rosa”, da Rede Globo – Foto: Divulgação

Aos 95 anos e celebrando 80 anos de carreira, Eva Todor sonha em voltar a atuar. A atriz veterana, que vive no Rio de Janeiro e sofre com alguns sintomas da idade e do Parkison, reforça sua paixão pela arte.

“Eu tenho vontade de continuar a trabalhar, mas isso depende de Deus. Se eu tivesse saúde, você nem imagina como eu tenho vontade”, contou a atriz por telefone ao UOL, apresentando dificuldades na fala.

Nascida na Hungria, Eva veio para o Brasil com a família em 1929. Ela começou a trabalhar no teatro em 1934 no espetáculo “Quanto Vale uma Mulher”, de Luiz Iglesias, seu primeiro marido. Na TV, ela estrelou algumas novelas na TV Tupi antes de atuar em “Locomotivas” (1977), na Globo. Na trama, era Maria Josefina, uma ex-vedete dona de um salão de beleza que já mostrava seu dom para a comédia.

De lá pra cá, emprestou sua imagem para vários personagens, entre eles, a Morgana de “Top Model” (1989), a Josefa de “O Cravo e a Rosa” (2000) e Miss Jane, de “América” (2005).

“Dezenas de personagens marcaram a minha vida. A esses personagens eu agradeço a minha estabilidade”, disse ela. O mais recente papel da atriz na televisão aconteceu em 2012, como a Dália, de “Salve Jorge”.

Nesta segunda-feira (17), Eva Todor vai receber uma homenagem no Teatro Leblon, na zona sul do Rio, pelos 80 anos de carreira e 95 de idade, completados no último dia 9.

“Quero ver se depois dessa homenagem eu ainda consigo, no ano que vem, se o físico, a idade e a saúde permitirem, voltar ao trabalho. Quero chegar aos 100 anos. Estou sensibilizada com a homenagem, só peço a Deus que não seja a última. Só espero que ela não seja a minha despedida. Se eu não morrer, vocês vão me ver trabalhar ainda”, reforçou a veterada com a voz embargada.

Eva Todor é viúva, não tem filhos e vive com empregados. A Globo custeia uma assistência domiciliar que conta com a ajuda de cuidadores e enfermeiros, além de tratamentos com fisioterapia e fonoaudiologia.

Marcos Otaviano, motorista da atriz há 25 anos, contou ao UOL que ela continua muito vaidosa: “Ela costuma sair para ir a médicos e ao cabeleireiro, onde passa duas, três horas. É muito vaidosa, ela que faz a própria maquiagem diariamente”, disse ele, por quem a artista tem um carinho de filho.

A atriz enfrenta dificuldades para se locomover e está com a fala e audição comprometidas. Durante o dia, ela gosta de ver novelas e de se rever em algumas reprises.

As atrizes Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell em 1968, durante a passeata dos cem mil, em protesto contra a ditadura militar no Brasil, no Rio de Janeiro

Sobre a carreira

Eva Todor nasceu em Budapeste, na Hungria, em 9 de novembro de 1919 e fixou residência em São Paulo com a família em 1929, no período pós-primeira guerra.

Ainda criança começou a estudar balé e, quando a família se mudou para o Rio de Janeiro, continuou seu aprendizado com Maria Olenewa — fundadora da primeira escola de dança do país.

A atriz conheceu seu primeiro marido, Luis Iglesias, no teatro, e ficou casada por mais de 20 anos. Depois de ficar viúva, Eva casou-se novamente com o empresário Paulo Nolding, que passou a cuidar de sua carreira. O casamento com ele durou 25 anos, até seu falecimento em 1989.

No teatro, ela se destacou em muitas peças, entre elas “Senhora da Boca do Lixo” (1966), “De Olho na Amélia” (1969) e “Quarta-Feira Lá em Casa, Sem Falta” (1977).

No cinema seu último papel foi em 2008 como Dona Marly, a “vovó do pó” em “Meu Nome Não É Johnny”.

Na TV, ela atuou em mais de 30 novelas e séries, entre elas “Locomotivas” (1977), “A Gata Comeu (1985) e “Caminho das Índias” (2009).

Do UOL

Bem-vindo a Nova York. Welcome To New York. 2014.  França, EUA. Direção: Abel Ferrara.

Bem-vindo a Nova York.
Welcome To New York. 2014.
França, EUA.
Direção: Abel Ferrara.

Em Bem-vindo a Nova York, o diretor Abel Ferrara explicita escândalo que derrubou presidente do FMI, favorito para vencer a eleição presidencial francesa em 2012

O cineasta francês Abel Ferrara (Olhos de Serpente, Os Chefões) conseguiu trazer para a telona filme de conteúdo raro. O material de base em que se inspirou para construir Bem-vindo a Nova York (Welcome To New York  França – EUA – 2014) trata de episódio recente envolvendo o ex-diretor do FMI e então candidato à presidência da França, Dominique Strauss-Kahn, mundialmente conhecido pelas iniciais do seu nome, DSK. Acusado de violentar a camareira do hotel em que se hospedou em Nova Iorque, foi preso pela polícia americana, dentro do avião que o levaria de volta a Paris. O caso ganhou as manchetes do mundo, especialmente nos Estados Unidos e na França, e destruiu por completo as suas chances na eleição francesa de 2012 em que se apresentava como favorito. Praticamente entregou a faixa presidencial ao segundo na hierarquia do Partido Socialista, François Hollande, que efetivamente disputou e venceu o pleito sem maiores dificuldades, tendo em vista o desgaste do presidente que disputava a reeleição pelo partido gaulista, Nicolas Sarkozy.

Sinistra Obsessão

O filme se destaca pela habilidade com que o diretor usou a estética do cinema-verdade, quase documentário, para realçar a personalidade do personagem principal, trajetória polêmica, marcada por rápida e extraordinária ascensão aos cargos mais importantes do universo financeiro contemporâneo, particularizando a presidência do Banco Mundial e do FMI. Enorme poder fez desabrochar temperamento marcado pela obsessão, que o levou a protagonizar escândalos marcados por conduta sexual tosca e brutal. Não satisfeito com as inúmeras prostitutas de luxo que lhe cercavam, notabilizou-se por casos de estupro, todos encobertos pelo dinheiro de sua bilionária mulher. O episódio novaiorquino expôs as vísceras do seu caráter.

Anatomia do complexo de inferioridade de Devereux/DSK

À medida em que a narrativa avança, o diretor vai liberando pistas que indicariam que Devereux padeceria do complexo de inferioridade, por mais paradoxal que isso pareça ao espectador. Em várias partes, ele relata a forma crua com que seu ego foi sendo esmagado. Primeiro pelos professores e chefes. Depois, pela segunda mulher, Simone, estilo destruidor da autoestima de qualquer homem. Sua arma era a isca que oferecia ao marido-vítima: poder e dinheiro. Fraco de caráter, este não teve coragem para reagir. E canalizou a energia represada aos instintos sexuais, que o levaram ao descontrole comportamental acentuado. Na fase em que ocorreu o episódio em Nova Iorque, ele certamente já apresentava dissonância cognitiva. A sua anormalidade no trato com outras mulheres era bipolar. Numa cena, ele flerta com a bela filha de diplomata africano e a conquista. Noutra parte, o instinto-mamute-desgorvernado se manifesta, quando tenta estuprar jornalista que o tinha procurado em busca de entrevista exclusiva com o então poderoso do FMI.

Gerard Depardieu e Jacqueline Bisset transportam-se para personagens reais em soberbas atuações

Viabilizar filme explosivo como aquele exigiu a criação de nome fictício para a figura principal. Nenhuma menção a DSK. Foi o ponto de partida para narrativa que focalizou um certo monsier Devereux, vivido por Gerard Depardieu. Sua atual silhueta de mastodonte serviu como recurso imagético para o diretor relatar, de forma hiperbólica, a conduta transgressora do cinebiografado. Na sequência inicial, o espectador é impactado por cenas de orgia, captadas em ambiente de clausura sádica, luz difusa, realismo quase explícito. Forma direta e crua de sinalizar o que viria durante todos os 125 minutos. O visual do ator traduziu os principais aspectos da conduta de figura repugnante, quase sem a necessidade de diálogos. Transcorrido primeiro terço, com Devereux já preso, surge a enigmática esposa, Simone (Jacqueline Bisset, atriz de enormes recursos cênicos). Mesmo contrariada, adotou o comportamento esperado de mulher rica, poderosa e obstinada, cujo único interesse era o de livrar o marido da situação constrangedora em que se encontrava. Nessa parte, destacam-se os diálogos marido/mulher,extraordinariamente bem filmados e dirigidos. A plateia passa a entender, então, as obsessões de cada um.

Estética em sintonia com a mensagem

A estética do filme privilegiou ambientes fechados quase o tempo todo, a fim de sublinhar o que pode existir de podre entre as quatro paredes de quarto de hotel ou do gabinete dos que manipulam, como depravados monarcas absolutistas, dinheiro e poder.

Depardieu deu entrevista, antes do filme começar

No início, há rápida entrevista com Gerard Depardieu. Exigência do ator para explicar o porquê dele ter aceito o desafio de representar DSK/Devereux. Serve para antecipar a crueza das sequências que protagonizou.

Teoria da conspiração: elite francesa teria contratado serviço de inteligência mercenário para implodir DSK

Três anos depois, os franceses respiram aliviados. Imaginam o transtorno que estaria sendo para a imagem do país, com alguém como DSK ocupando o Palácio do Eliseu, residência oficial do presidente francês. Dois jornalistas parisienses, usando pseudônimos, escreveram que a “Operação DSK” foi encomendada por membros da elite política e financeira da França, depois de constatarem, através de pesquisas, que o ex-presidente do FMI iria mesmo vencer Sarkozy nas eleições presidenciais de 2012. Ao estilo do antigo seriado televisivo “Missão Impossível”, elite de mercenários, formada por ex-agentes de serviços secretos ocidentais, teria armado cilada para DSK. Até a camareira, pivô do escândalo, estaria entre os recrutados especialmente para a missão.

Escrito por J. Jardelino

Magia Ao Luar. - Magic in the Moonlight. 2014.EUA. Direção: Woody Allen.

Magia Ao Luar.
- Magic in the Moonlight. 2014.EUA.
Direção: Woody Allen.

Atuação de Colin Firth conecta a plateia às melhores performances do diretor nos filmes em que dirigiu a si

Com o seu novo trabalho, Magia Ao Luar (Magic in the Moonlight - EUA - 2014), Woody Allen retoma a atmosfera do melhor dos seus filmes recentes, Meia-Noite Em Paris. A genialidade do cineasta consegue essa proeza sem perder os traços que têm marcado a essência de sua filmografia. Com certeza, o espectador observará em todos os 97 minutos do filme críticas ao modus vivendi dos célebres e poderosos nessa segunda metade do século 21. Faz isso, como sempre, de forma sarcástica e humor bem dosado, sublinhado pelos diálogos inteligentes e elenco bem entrosado, cem por cento afinado com os objetivos da trama.

Conteúdo marcante e estética valorizada por magníficas paisagens da Riviera Francesa

Em Magia Ao Luar, o ícone a ser desconstruído encarna numa jovem e bela médium, Sophie (Emma Stone). O encarregado da missão é o bem sucedido mágico londrino Stanley (Colin Firth), personalidade carregada por racionalismo neurótico, que o aproxima das performances do próprio cineasta, nos filmes em que também foi protagonista. Stanley é convidado para viajar à Riviera Francesa dos anos 20 do século passado por milionário, cujos vizinhos estavam absolutamente dominados pelos encantos e poderes de Sophie. Além do conteúdo marcado por deliciosa crítica aos ídolos de ocasião, Magia Ao Luar ainda traz como bônus paisagens que se assemelham a belos afrescos renascentistas ou aos melhores trabalhos de Auguste Renoir. As locações contribuem para sublinhar atmosfera pós-belle èpoque, especialmente o local mágico referido no título, um planetário construído em estilo retrô. O que ali acontece traz as primeiras pistas de como será o desenlace da história.

Colin Firth vive o personagem que seria do próprio Woody Allen 

Magia Ao Luar mostra, mais uma vez, o talento de atores ingleses que conseguem incorporar os trejeitos do diretor. Kenneth Branagh já havia atingido performance semelhante no ótimo Celebridades (1999), joia da filmografia de Woody Allen. Agora, o desafio coube ao multifacetado Colin Firth, o astro de O Discurso do Rei (com o qual recebeu a estatueta do Oscar de Melhor Ator em 2011). O seu desempenho se caracteriza por linguagem não verbal, marcada por tiques e atos falhos, reveladores de processos inconscientemente vivenciados pelo seu personagem. Façanha que apenas atores donos de notáveis recursos dramáticos conseguem.

Resultado: situações caricatas indescritíveis. Impossível não relaxar e se deixar envolver por inúmeras sequências de bom humor.

Aos 79, Woody Allen mostra-se conectado a estilo que não para de evoluir e encantar novas plateias

Um dos poucos autores cinematográficos em atividade, Woody Allen surpreende de novo. O olhar de sua câmera continua focado em novos horizontes. Agora com recursos digitais que permitem molduras que vão muito além do lugar comum, os caminhos do seu cinema de vanguarda incorporam-se ao inconfundível estilo que fascina desde Um Assaltante Bem Trapalhão (1969), o primeiro filme do diretor.

Escrito por J.Jardelino 

Jersey Boys: Em Busca da Música. Título na língua original: Jersey Boys. Ano da produção: 2014. País de origem: EUA. Direção: Clint Eastwood. Elenco: Vincent Piazza, John Lloyd Young, Erich Bergen, Michael Lomenda, Christopher Walken.

Jersey Boys: Em Busca da Música. 2014. EUA. Direção: Clint Eastwood.
Elenco: Vincent Piazza, John Lloyd Young, Erich Bergen,
Michael Lomenda, Christopher Walken.

 Jersey Boys, filme sobre o grupo Four Seasons, encanta e traz de volta algumas das baladas românticas de maior sucesso em todos os tempos

 Qual o segredo de um longa sobre o início, auge e fim do Four Seasons, grupo musical que conquistou o coração de jovens e adolescentes americanos, no início dos anos 60, antes da invasão dos Beatles (1964)? Começa, claro, pelo efetivo talento do quarteto formado por Tommy DeVitto (Vincent Piazza), Frankie Valli (John Lloyd Young), Bob Gaudio (Erich Bergen) e Nick Massi (Michael Lomenda). Continua com a inclusão de personagem ficcional, um mafioso sentimental, Angelo “Gyp” DeCarlo (Christopher Walken). São a essência de Jersey Boys: Em Busca da Música (Jersey Boys - EUA – 2014). Por trás deles, Clint Eastwood, como maestro desse musical, com pitadas de drama e de comédia. Nenhuma surpresa. O diretor também foi o autor do magnífico Bird (1987), sobre a vida de um dos deuses do jazz, Charles Parker.

Jersey Boys, definitivamente, encanta a partir dos primeiros segundos, ainda nos créditos, e deve isso ao diretor.

O tipo durão e calado esconde exímio pianista, especialmente no terreno do jazz 

Há muito Clint Eastwood deixou de ser reconhecido pelo personagem sempiterno do estranho sem nome. Ou pela forma implacável com que enfrentou psicopatas e vilões variados, na pele do inspetor dirty Harry Callahan, sempre em companhia de sua Magnum e do mantra “Vá em frente… Saque a arma… Quero ganhar o meu dia!”, que costumava murmurar, segundos antes de dizimar os que estavam em sua alça de mira. O caubói/policial durão que atirava primeiro e perguntava depois foi, filme após filme, revelando características de ator e cineasta com rara sensibilidade. Talento que poderá ser comprovado nesse Jersey Boys.

Aqui, Clint Eastwood ultrapassa os limites de um diretor convencional. Atuou como “lapidador” de personagens. A partir dos diamantes brutos que encontrou nas biografias dos quatro integrantes do Four Seasons, agiu com extremo cuidado. Colocou sonda no que devem ter sido os sentimentos inconscientes de cada um e externalizou os estados psíquicos que aferiu. Faz o espectador perceber que está diante de um filmaço. Sua paixão pelo jazz certamente influenciou o jeito com que deu vida ao grupo de Nova Jersey.

Deliciosa viagem no tempo impacta a plateia já nas primeiras sequências 

A reconstituição da atmosfera da época, essencial para se compreender o porquê do grupo ter surgido, não se limitou a carros antigos, objetos de cena, figurinos e reconstituição de ambientes. Há algo a mais naquelas imagens. Uma força poderosa que leva o espectador a entender o que se passa quase sem a necessidade de diálogos. Estes surgem como coadjuvantes. Puro e mágico cinema.

O Homem que ama o Cinema 

Clint Eastwood, aos 84, continua firme, seja como ator ou diretor. Há muito faz parte do clube que um dia já teve como sócios Alfred Hitchcock, Luís Buñuel, François Truffaut, Akira Kurosawa, Billy Wilder. Tem uma qualidade rara notada em Charles Chaplin e, atualmente, em Woody Allen. Sabe como se auto dirigir. Dois dos filmes em que trabalhou como diretor e protagonista, Os Imperdoáveis e Menina de Ouro, receberam a principais estatuetas do Oscar, em 1993 e 2003. Levou para casa as de Melhor Filme e de Melhor Diretor, mas não conseguiu a de Melhor ator. Em ambas as ocasiões, havia um personagem “cego” em seu caminho: Al Pacino, em Perfume de Mulher e Jamie Foxx, em Ray.

Sequência final conecta o filme com o musical homônimo, em exibição na Broadway 

Ninguém consegue tirar os olhos da tela nos dez últimos minutos. Os quatro integrantes do Four Seasons, reencontram-se, depois de quase três décadas afastados, tendo como trilha Can’t Take My Eyes Of You. Fusão para o final, em que todo o elenco aparece unido por deliciosa coreografia. Melhor, impossível.

Escrito por J. Jardelino

A maior parte da população feminina no Brasil é negra, são 51,7%

Dados da Uerj mostram que negras não estão nos filmes nacionais de maior bilheteria

As mulheres negras* não estão nas telas de cinema, nem atrás das câmeras. Pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) mostra que pretas e pardas não figuraram nos filmes nacionais de maior bilheteria. Apesar de ser a maior parte da população feminina do país (51,7%), as negras apareceram em menos de dois a cada dez longas metragens entre os anos de 2002 e 2012. Além disso, atrizes pretas e pardas representaram apenas 4,4% do elenco principal de filmes nacionais. Nesse período, nenhum dos mais de 218 filmes nacionais de maior bilheteria teve uma mulher negra na direção ou como roteirista.

Coordenada pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Uerj, um dos mais renomados centros de estudos de ciência política na América Latina, a pesquisa A Cara do Cinema Nacional sugere que as produções para as telonas não refletem a realidade do país, uma vez que 53% dos brasileiros se autodeclaram pretos ou pardos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O prejuízo, na avaliação das autoras do estudo, é a influência de determinados valores sobre a audiência.

“Pelos dados, a população brasileira é diversa, mas essa diversidade não se transpõe para ambientes de poder e com maior visibilidade”, disse uma das autoras, a mestranda Marcia Rangel Candido. Ela acrescenta que, além da “total exclusão” nos cargos técnicos, a representação no elenco está limitada a estereótipos associadas à pobreza e à criminalidade. “As mulheres brancas exercem vários tipo de emprego, são de várias classes sociais, a diversidade é maior”, destaca.

 A doutoranda Verônica Toste, coautora da pesquisa, diz que a baixa representatividade de mulheres em postos mais altos do cinema – elas ocupam 14% dos cargos de direção e 26% dos postos de roteiristas entre os filmes mais vistos -, além da invisibilidade das negras no elenco, são distorções da sociedade. “A ausência de mulheres, principalmente as negras, nesses papéis gera baixa representação e reproduz uma visão irreal do Brasil.” De acordo com a pesquisa, nenhuma das diretoras ou das roteiristas entre os filmes pesquisados era negra.

Para chegar ao perfil racial, a pesquisa comparou imagens de 939 atores, 412 roteiristas e 226 diretores de filmes, excluindo documentários e filmes infantis. “Usamos um modelo de identificação em que o pesquisador é que define o grupo racial ao qual pertence o sujeito”, esclareceu Marcia. Na classificação, para a comparação, foi utilizada uma escala de fotos de oito indivíduos, do mais branco para o mais preto, estabelecida em trabalhos científicos anteriores.

A lista dos filmes mais vistos no período é da Agência Nacional do Cinema (Ancine), organização que, na avaliação do premiado cineasta negro Joel Zito Araújo, deveria ter um papel ativo na promoção da diversidade no audiovisual. Ao avaliar a pesquisa do Iesp, ele disse que a agência precisa atuar. “Somente quem governa, que tem poder de criar políticas públicas, é que pode criar paradigmas para a nação e resolver essa profunda distorção”, disse.

Apesar de ter a função de fomentar e regular o setor, procurada, a Ancine informou que “não opina sobre conteúdo dos filmes, elenco ou qualquer coisa do tipo”.

* Convencionou-se chamar negros a soma dos grupos populacionais preto e pardo, seguindo classificação do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE).

Do Brasília Encontro 

O Palácio Francês. Título na língua original: Quai d'Orsay. Ano da produção: 2013. País de origem: França. Direção: Bertrand Tavernier. Elenco: Thierry Lhermitte, Raphael Personnaz, Niels Arestrup, Bruno Raffaelli, Julie Gayet.

O Palácio Francês. Título na língua original: Quai d’Orsay. 2013. França. Direção: Bertrand Tavernier. 

Filme do cineasta Bertrand Tavernier faz humor inteligente e ainda traz o sex appeal de Julie Gayet, a namorada do presidente da França

Baseado em fatos reais, O Palácio Francês (Quai d’Orsay - França – 2013) estreita o foco na trajetória do jovem e talentoso redator Arthur Vlaminck (Raphael Personnaz), no momento em que é contratado para trabalhar no Ministério das Relações Exteriores do Governo da França. De início, deixa-se entusiasmar pela chance de atuar diretamente na elaboração dos discursos do próprio ministro Alexandre Taillard de Worms (Thierry Lhermitte). A excitação com a magnífica oportunidade para alguém como ele, em início de carreira, logo nos primeiros dias, vai sendo substituída pela surpresa. O ambiente no entorno do chefe é um amálgama de personalidades e situações conflitantes.

Política tratada com sarcasmo, fina ironia e boas risadas da plateia

A cada sequência, o experiente cineasta Bertrand Tavernier, também autor do roteiro, eleva o tom do sarcasmo que predomina no filme inteiro. Humor seis estrelas. Impossível não rir quase o tempo todo. Sob o “verniz” cultural do ministro Taillard, estava personalidade ansiosa, frágil, narcisista ao extremo. O tempo inteiro citando o pensador grego pré-socrático Heráclito, marca-texto sempre à mão para assinalar frase emblemática do criador da dialética política. Para Arthur, sobravam alguns “portos-seguros”. O chefe do gabinete ministerial, Claude Maupas (Niels Arestrup, que recebeu o César — o “Oscar” do cinema francês pelo seu desempenho), era um deles. Cínico e competente, a depender do desafio que aparecesse. Resolvia as questões mais complexas, sempre. E, também, partiam dele os conselhos pragmáticos. No “front” doméstico, a vida de Arthur era lindamente colorida pela bela Marina (Anais Demounstier), companheira, culta e encarregada de lhe injetar impulsos de entusiasmo diários. Precisava deles para enfrentar gente como Stéphane Cahut (Bruno Raffaelli), assessor para assuntos aleatórios do Ministério, ou Valérie Dumonthiel (Julie Gayet. Na vida real, a atual namorada do presidente da França, François Hollande), encarregada de impregnar o Quai d’Orsay de sensualidade no limite máximo, quase erótico. Durante os 113 minutos do filme, situações na África, Europa e Extremo Oriente se entrelaçam e vão desaguar no esperado discurso do ministro na reunião do Conselho de Segurança da ONU, em Nova Iorque.

Fatos ocorridos em 2003 inspiraram o autor do livro que deu origem ao roteiro 

O diplomata francês Anthony Baudry, sob o pseudônimo de Abel Lauzac, aproveitou sua experiência no próprio Quai d’Orsay, como redator dos discursos do então ministro do exterior francês Dominique Villepin e escreveu o livro que influenciou a criação do roteiro de O Palácio Francês. O discurso de Villepin no Conselho de Segurança da ONU, em 2003, realmente ocorreu. Na condição de representante de um dos cinco países com lugares fixos no órgão político máximo das Nações Unidas (os outros quatro são Estados Unidos, Rússia, China e Inglaterra), ele condenou, com veemência, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Resultado zero. Repercussão prática nenhuma. Provavelmente, o diretor Bertrand Tavernier tenha pinçado desse detalhe a principal mensagem do filme: diplomacia é espuma, discurso com citações grandiloquentes, coquetéis, jantares. E pouco ou nada mais. Daí para decisão de fazer filme que transforma o Ministério das Relações Exteriores francês numa comédia não deve ter sido difícil para alguém com a experiência do diretor. Fez isso em Paris, mas, se quisesse, poderia ter rodado seu filme em Washington, Brasília, Londres ou Buenos Aires.

Jacques Lacan (*), onipresente nos roteiros cinematográficos da terra de Molière 

Bertrand Tavernier fez absoluta questão da grife lacaniana no roteiro. Ocorre na sequência em que o próprio pai do ministro Taillard surge diante do chefe de gabinete Claude Maupas, sem marcar audiência. Fala indiretamente em “tempo lógico” (mantra lacaniano) para a solução de algumas questões do ministério e saca do bolso do colete sugestões. Quase em seguida, o próprio ministro apresenta a Maupas as mesmas recomendações. Cínico, Maupas finge que ouve tudo com atenção. Parecia piada. Como o filme é uma comédia, era mesmo uma piada. Pertinente, inteiramente conectada à disfunção egóica do ministro.

(*) Jacques Lacan (1901-1981), considerado pelos franceses o criador da moderna Psicanálise, “um estágio além de Freud”, costumava, modestamente, afirmar que ele era freudiano; os seus seguidores, lacanianos.

Escrito por J. Jardelino

Título em português: Nebraska. Título na língua original: Nebraska. Ano da produção: 2013. País de origem: EUA. Direção: Alexander Payne. Elenco: Bruce Dern, Will Forte, Bob Odenkirk, June Squibb, Stacy Keach.

 Nebraska. 2013. EUA.
Direção: Alexander Payne.

Entrosamento do diretor Alexander Payne com o protagonista Bruce Dern resultou num dos melhores filmes de 2013

O cineasta Alexander Payne (Sideways - 2004) realizou belo filme sobre a condição humana. Em Nebraska (Nebraska - EUA – 2013), desafiou os lugares comuns e acendeu holofote sobre a forma como famílias tratam idosos. Conseguiu abordar tema sombrio e pesado de forma leve, quase cômica. É o segredo do êxito deste seu mais recente trabalho, que concorreu às principais categorias do Oscar 2014 em condições de igualdade com rivais como 12 Anos de Escravidão, Gravidade, Trapaça e O Lobo de Wall Street. Inclusive à estatueta de Melhor filme. Logo no início, a plateia já percebe que a proposta da trama é corajosa. É filmada em preto e branco. Linguagem imagética para sublinhar o conteúdo desta fábula moderna. Narrativa convencional, sem ansiosas idas e vindas ou efeitos especiais. Apenas as sutilezas da vida. Várias delas estão no comportamento do protagonista.

Com mais de 80, Woody Grant sabia onde queria chegar

Nebraska conta a trajetória de Woody Grant (Bruce Dern), já passado dos 80. Recebe aviso de empresa de marketing promocional sugerindo que havia ganho prêmio de um milhão de dólares. No íntimo, dava pouca importância àquele pedaço de papel impresso. Sua alma buscava autodeterminação. Dela brotava a energia que usou para mostrar que, mesmo sendo considerado idoso, era o dono absoluto de sua vontade. O primeiro a perceber isso foi o filho mais novo, David (Will Forte), a quem, paradoxalmente, não tinha dado a devida atenção, no passado. Outro, na corrente de credibilidade do protagonista, era o mais velho, Ross (Bob Odenkirk). A mulher, Kate (June Squibb), com quem estava casado há seis décadas, emitia sinais de que havia desistido dele, já nas primeiras sequências. Chega a sugerir aos filhos solução corriqueira, carregada de desamor: internação em asilo para idosos. Em sua trajetória, rumo à distante cidade de Lincoln, no Estado de Nebraska, onde estava sediada a empresa que lhe daria o prêmio, terá a companhia de David. No meio do caminho, decidem visitar velhos parentes e conhecidos que não encontravam há décadas. Ingênuo, Woody deixa escapar o motivo da viagem. Imediatamente, todos no seu entorno transformam-se. Vão da indiferença aos egoísmo em rápidas passagens, com exceção de uma doce viúva, sua antiga namorada. Woody teria sido o verdadeiro amor da vida dela. De repente, cada um dos demais descobre forma de tirar proveito do futuro provável milionário. O pior de todos é o ex-sócio Ed Pegran (Stacy Keach), cujo caráter tem a proeza de reunir todos os atributos negativos dos habitantes daquela comunidade perdida no centro dos Estados Unidos. Essa é a outra qualidade de Nebraska. Sensível, o diretor Alexander Payne posiciona sua câmera de forma a mostrar o que pode existir por trás de gente pacata, simples e aparentemente inofensiva. No Brasil, na Suécia, no Irã ou no Japão, provavelmente as atitudes seriam as mesmas.

Vontades inconfessas atestam comportamentos alojados no inconsciente coletivo daquela comunidade

O núcleo dramático de Nebraska está no reencontro do protagonista com pessoas que não via há décadas. Nesse contexto, destacam-se antológicas sequências. Logo no início, Woody Grant caminha, aparentemente sem rumo, em estrada anônima. É abordado por policial que o resgata de provável atropelamento. O segundo grande momento captura instante em que grupo de homens, jovens e idosos, estão assistindo partida de futebol. O ângulo de visão do espectador fica na direção contrária do vídeo. Ao invés de torcida e jogadores, sobressai-se o tédio abissal que domina o ambiente. Quase nenhum rosto se parece, embora sejam parentes; o sentimento predominante, no entanto, é o mesmo. Desinteresse metafórico a sublinhar a precariedade de certos laços familiares. O terceiro trecho relevante mostra, já perto do final, o diálogo de pai e filho com a atendente de empresa de marketing, responsável pela emissão da suposta carta de crédito que fez o protagonista viajar centenas de quilômetros. A atmosfera de desprezo dela é contrastada por resposta contundente do David: “Meu pai acredita em tudo que lhe dizem”. A quarta e também expressiva sequência mostra sua antiga namorada se deparando com Woody ao volante de vistosa caminhonete. Seu olhar se encanta e viaja décadas no tempo. Lindas imagens.

Sucatas humanas?

O mundo apresentado em Nebraska está cindido pelo preconceito contra pessoas idosas, mesmo que estas apresentem sinais vitais satisfatórios em suas faixas etárias. Chegam a ser consideradas sucatas humanas, como sugere, nas entrelinhas, a histriônica esposa de Woody, Kate, falando com naturalidade em “asilo para gente velha”. O paradoxo é que ela faz afirmações do gênero sem a mínima preocupação de se olhar no espelho. Woody fala com os olhos. E faz a história andar. “Ele quer algo para lutar. E não precisa de ninguém para analisar suas condições físicas e psíquicas. Quem quiser ajudar será bem-vindo” Assim disse o ator Bruce Dern na entrevista de lançamento do filme, a respeito do jeito de ser e agir do personagem que viveu.

Bruce Dern ou Jack Nicholson?

A Paramount queria Jack Nicholson como protagonista. O diretor Alexander Payne preferiu o veterano Bruce Dern, dono de extensa biografia cinematográfica, com destaque para o último filme de Hitchcock (Trama Macabra, 1976) e também para a versão de O Grande Gatsby, estrelada por Robert Redford (1974). Desta vez, JN não fez falta.

Escrito por José Jardelino da Costa Júnior

Caçadores de Obras-Primas. Título na língua original: Monuments Men. Ano da produção: 2014. Países de origem: Alemanha, EUA. Direção: George Clooney.

Caçadores de Obras-Primas. Título original: Monuments Men. 2014.  Alemanha, EUA. Direção: George Clooney.

Além Clooney, Caçadores de Obras-Primas tem elenco estelar: Cate Blanchett, Matt Damon, Bill Murray, Jean Dujardin, John Goodman e Bob Balaban.

 Ao assistir um filme, o espectador explicita sentimentos. Projeta-se nos personagens e situações. A conexão pode ser enviesada. Ou direta, como nos textos dos escritores rocambolescos Alexandre Dumas e Julio Verne. Caçadores de Obras-Primas (Monuments Men - Alemanha – EUA – 2014) já nasce clássico e provoca imediata simpatia da plateia para com o grupo protagonista. A narrativa é convencional, começo, meio e fim. Não há flashbacks ou sofisticados recursos de computação gráfica. A embalagem, no entanto, esconde conteúdo que pode ser considerado tesouro da Sétima Arte e merece ser avaliado com atenção. A essência do filme está nos seus inúmeros e relevantes detalhes. “O mais cruel dos sanguinários pode tentar eliminar uma civilização, começando pela matança em larga escala. Mas, ele sabe que o morticínio não será suficiente. Apenas poderá pensar em atingir seu objetivo, se conseguir destruir ou se apoderar da memória cultural e artística daquelas populações”. A reflexão do tenente do exército americano Frank Stokes (George Clooney) vai permear todos os acontecimentos que estruturarão o roteiro, a partir de então.

Aventura de se desdobra em interessante reflexão política 

Baseado em fatos reais, Caçadores de Obras-Primas conta a odisseia de grupo de especialistas em obras de arte que integravam as tropas aliadas, em 1944. Com o fim do conflito já próximo, decidem empreendimento ousado: localizar, resgatar e devolver aos legítimos donos quadros e esculturas valiosas, roubadas pelos nazistas. O acervo incluía Michelangelo, Rodin, Monet, Renoir, Da Vinci. Antes de assumir o poder, Adolf Hitler tentou ser pintor. Foi reprovado, por mediocridade acentuada. Ego transtornado, tão logo consolidou a conquista de parte da Europa, planejou criar o maior espaço cultural do planeta, na cidade alemã de Siegen. Para isso, deu carta branca a Hermann Göring, um dos seus mais próximos. Ele deveria se apoderar do acervo artístico localizado no continente europeu, que seria reunido no maior museu do planeta, a ser criado pelo Terceiro Reich. Emblemática forma de sinalizar o controle sobre a alma de povos que se opunham ao delírio esquizofrênico do predomínio da suposta raça ariana sobre o resto do mundo. Enganam-se os que vierem a pressupor que o filme adentra pelos surrados clichês do maniqueísmo rasteiro. Também sobram alfinetadas para os russos, sutilmente apresentados como os novos bárbaros que iriam instalar na área ditadura que substituiria o nazismo. E crítica afiada até para o trio de generais-comandantes das tropas aliadas, os americanos Eisenhower, Marshall e Patton, que apenas teriam valorizado a missão, quando ela descobriu, por acaso, as milhares de barras de ouro 2

que compunham o lastro econômico do Estado alemão. Teria aquela montanha de dinheiro sido usada pelos Estados Unidos em benefício dos seus interesses geopolíticos justamente para criar, depois da guerra, um programa econômico — o Plano Marshall – objetivando recuperar a economia dos países atingidos pelo conflito? Caridade, com o dinheiro dos vencidos?

Seis homens, uma mulher e um único destino Suspense, drama e aventura se fundirão na movimentada trajetória que George Clooney transformou em filmaço. Também diretor e autor do roteiro, ele contou com elenco de primeira grandeza: Cate Blanchett (que concorre ao Oscar de Melhor atriz, por sua atuação em Blue Jasmine), Jean Dujardin (o francês que recebeu a estatueta de Melhor Ator em 2012 por O Artista), mais os premiados Matt Damon, Bill Murray, John Goodman e Bob Balaban. A história avança com a chegada do grupo à Normandia, poucas semanas depois do histórico desembarque das forças aliadas. Surpreendentemente, são recebidos pelos comandos americanos com certo desprezo, traduzido de forma explícita com a não disposição para colaborar com o tenente Stokes.

Rendição da Alemanha próxima. Tempo escasso. Missão com risco de ser sumariamente encerrada

Precisaram, então, improvisar e descobrir meios heterodoxos para levar adiante a missão. Dividiram-se em grupos que iriam explorar possibilidades em cidades diferentes. O tempo estava contra eles. Tão logo viesse a ocorrer a rendição da Alemanha, a tarefa a que se propunham estaria inviabilizada. O tenente James Granger (Matt Damon) encontra a colaboração de um francês da Resistência, que tinha avião escondido em longínqua propriedade rural. Consegue chegar a Paris, onde localiza Claire Simone (Cate Blanchett), que havia sido secretária do oficial alemão encarregado por Göring de centralizar e despachar para a Áustria o acervo roubado. Embora simpática aos aliados, era uma mulher tensa, desconfiada e, sobretudo, amargurada com a perda do irmão, que acabara de ser assassinado pela SS, a polícia secreta alemã. Enquanto isso, os outros estavam fazendo descobertas periféricas, mesmo enfrentando risco de morte nos encontros com remanescentes do exército germânico. Notícias vindas da frente Leste confirmavam a chegada dos russos a Alemanha. Estava iniciada a contagem regressiva para o término da missão. Queimar etapas àquela altura seria quase impossível. Mas, era a única opção disponível. George Clooney, ex-apoiador de Obama, democrata rebelde 

Desde que se transformou em astro internacional, o americano George Clooney tem mantido postura crítica acentuada em relação à maneira como os Estados Unidos vêm agindo na cena política interna e externa. Colaborador assumido do Partido Democrata e apoiador da primeira eleição de Barack Obama, lentamente foi revendo posições. Transferiu sua produtora para a Itália. Desde então, tem mantido postura crítica acentuada em relação à forma de gestão do país. Sinaliza certa decepção com o próprio Obama. Tudo Pelo Poder, filme que também dirigiu e protagonizou em 2011, pode ser considerado como autópsia dos meios usados pelos democratas. Além de inteligente, George Clooney é refinado, culto e 3  admirado pelo público americano. Trabalha com sutilezas que a arte cinematográfica permite. Dificilmente abrirá área de confronto ao estilo Edward Snowden.

Ir contra a corrente… Será que valeu a pena?

Na sequência final de Caçadores de Obras-Primas, o tempo avança para 1977. Lá está o já aposentado tenente Frank Stokes, na companhia de um neto, visitando museu com algumas das obras resgatadas por seu grupo, trinta e três anos antes. Em pensamento, pergunta e responde: “Será que valeu o sacrifício? Claro que valeu!”. Mais uma sutileza do ator-cineasta e roteirista, que permite inúmeras ilações.

Além Clooney, Caçadores de Obras-Primas tem elenco estelar: Cate Blanchett, Matt Damon, Bill Murray, Jean Dujardin, John Goodman e Bob Balaban.

 Escrito Por J.Jardelino

12 Anos de Escravidão. Título original: 12 Years A Slave. – 2013. Grã-Bretanha, EUA.- Steve McQueen. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong’o, Paul Giamatti, Sarah Paulson.

Elenco afinado tem Michael Fassbender, Chiwetel Ejiofor, Lupita Nyong’o, Paul Giamatti e Sarah Paulson em atuações fabulosas. Drama concorre às principais estatuetas do Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor.

A crise de confiança na monarquia inglesa, provocada pela instabilidade da relação entre princesa Diana e a rainha Elizabeth II foi aparentemente encerrada no acidente que vitimou a primeira. Restaram, no entanto, sentimentos recalcados dos súditos contra a soberana. Anos depois, o cineasta inglês Stephen Frears realizou Rainha, filme magnificamente interpretado pela inglesa Helen Mirren. Recebeu a estatueta do Oscar de Melhor atriz pelo papel e contribuiu para restabelecer o prestígio da instituição monárquica na Grã-Bretanha. A ajuda que deu à realeza mereceu convite especial da própria Elizabeth, para inusual chá de agradecimento, em bucólica tarde no Palácio de Buckingham. Assunto superado, quase ninguém fala mais no caso.

Os Estados Unidos da América do Norte, maior potência do Ocidente, parecem ter despertado para o mea culpa pela escravidão que patrocinaram apenas depois de eleger o primeiro presidente afro-descendente. Ao contrário da Santa Madre Igreja de Roma, que agiu de forma direta através das palavras corajosas do Papa João Paulo II: pediu desculpas formais ao mundo pela perseguição que a Inquisição promoveu contra Galileu.

O grande vizinho do Norte tem suas peculiaridades. Às vezes, age de forma enviesada. O pedido de desculpas pelo patrocínio do comércio de seres humanos foi delegado à poderosa indústria cinematográfica. Com acesso a pesquisas qualitativas que aferem sentimentos — e não apenas opiniões — Hollywood começou a trabalhar desde o ano passado, pelas mãos competentes de Steven Spielberg, um dos seus mais autênticos representantes. Fez um filmaço, Lincoln, cujo foco foi exatamente a aprovação da lei que aboliu a escravidão no país.

Steve McQueen eleva a temperatura na abordagem dos malefícios da escravidão

Lincoln, no entanto, não foi suficiente para amenizar sensação atávica de culpa. O comentário de Manohla Dargis, crítica de cinema do maior jornal americano, o New York Times, sinaliza o sentimento ainda predominante: “É o primeiro filme que torna impossível para nós continuar vendendo mentiras e mistificações, por mais um século“. Não era a Lincoln que se referia, mas a 12 Anos de Escravidão (12 Years A Slave - Grã-Bretanha – EUA – 2013), do cineasta inglês e afro-descendente Steve McQueen, craque quando é preciso focar a câmera na alma dos personagens, esmiuçar traumas, perversões e complexos, para expô-los, quase crus, à análise da plateia. Já tinha conseguido essa façanha com o ótimo “Shame/Vergonha” (2011), quando tratou dos conflitos internos poderosos do publicitário novaiorquino Brandon (Michael Fassbender), viciado em sexo. Realizou trabalho bem diferente do dinamarquês Lars von Trier, autor do recém-lançado Ninfomaníaca, que tratou de tema parecido. Nesse cotejo, conseguiu resultado mais refinado.

História real e cruel, que precisa ser bem contada, para não se repetir, com outros pretextos

12 Anos de Escravidão, é baseado na autobiografia do violinista Solomon Northup, (bem) interpretado por Chiwetel Ejiofor. Casado, duas filhinhas, cidadão livre, cai numa cilada quando fazia concerto em Nova Iorque, nos Estados Unidos de meados do século XIX. Sequestrado, tem seu nome trocado para “Platt”. Na sequência, é vendido como escravo no Estado sulista de Louisiana. Lá, submetido aos maus tratos de sempre. Com a conivência de homens e mulheres de comportamento omisso ou perverso. A câmera do diretor Steve McQueen mostra-se eficiente em captar sofrimentos de alma — não apenas de corpos. E apimenta a narrativa, com a ênfase nos estupros que o senhor branco Edwin Epps (Michael Fassbender, magnífico, em nova aliança com o diretor) comete diuturnamente na jovem e bela escrava Patsey (Lupita Nyong’o). A sequência adquire importância nessa Casa Grande e Senzala americana, porque sublinha o comportamento subalterno e covarde de mulheres da elite, como a bela branca Mistress Epps (Sarah Paulson).

Esta sabe das escapadas do cônjuge na direção da escrava. E, claro, não o enfrenta. Prefere açoitar o objeto de desejo sexual do marido, em atitude de transferência de sentimentos recorrente naqueles tempos atrasados. E, ainda hoje, apenas de maneira menos explícita. Outra atuação soberba: Paul Giamatti, como o notório Freeman.

Alguns portugueses na contramão

O filme-denúncia de Steve McQueen foi bem recebido pelo público e pela crítica em escala mundial, com algumas histéricas exceções em Portugal. No blog CineCartaz, os gajos, em ato-falho quase explícito, reafirmam sentimento atávico de culpa; vários antepassados deles repetiram, aqui no Brasil, comportamentos iguais ou piores aos do casal Epps. Mas, aparentemente, se esqueceram disso. E preferem criticar, de maneira tosca, o filme, com avaliações risíveis: “A montanha pariu um rato — Paulo Pinto“; “Foi só (!!!!) espancamento e chicote… filme booring — Luís Felipe“; “Esse rapaz (o diretor Steve McQueen) sofre de profunda crise de identidade… Há quem diga (Quem, cara pálida?) mesmo que, pela forma como retrata a escravatura, já não sabe sequer se é negro ou branco. Não haverá por aí um psiquiatra disponível? Não precisa ser barato, pois esse filminho esquizofrênico… Luís Telles“. Impossível saber se são jornalistas ou medíocres anônimos. Infelizmente, o comportamento preconceituoso atravessou o Atlântico e contaminou textos de colunista português, a quem grande jornal brasileiro concede generoso espaço.

Prestígio em ascensão rumo à consolidação do status de autor

Com 12 Anos de Escravidão, Steve McQueen se afirma na cena planetária do Cinema com as credenciais de futuro autor. Suas obras até agora têm conseguido transmitir o sentido de várias das múltiplas facetas da condição humana.

Parafraseando o psicanalista carioca Waldemar Zusman (Os Filmes Que Eu Vi Com Freud - Editora Imago), os trabalhos dirigidos por McQueen “são extraordinários campos de objetivação e observação dos funcionamentos mentais”.

Escrito por José Jardelino da Costa Júnior

Intersection, Uma Escolha, Uma Renúncia. Título na língua original: Intersection. 1993. – EUA. Direção: Mark Rydell.

Richard Gere, Sharon Stone e Lolita Davidovich juntos pela primeira e única vez num filme. Cineasta Mark Rydell estrutura roteiro inteligente, com final que ninguém adivinha.

Desde o êxito da narrativa em flashback que marcou a estética inovadora de Cidadão Kane (1941), o recurso voltou a ser aplicado com sucesso pelo mestre absoluto Billy Wilder em dois outros magníficos filmes, um suspense (Pacto de Sangue, 1944) e um drama (Crepúsculo dos Deuses, 1950). Estruturar o filme de forma a que um trecho do final apareça logo nos primeiros minutos potencializa a atenção do espectador; este fica colado na poltrona e ansioso por saber o porquê da situação que acaba de assistir. A tática exige muito do diretor. Alguns segundos a mais ou a menos podem fazer a diferença. E fazem mesmo. O cineasta americano Mark Rydell (Num Lago Dourado) reafirmou seu talento ao montar um dos seus melhores trabalhos, Intersection, Uma Escolha, Uma Renúncia (Intersection - EUA - 1993) todo com idas e vindas, três anos para trás, ou retorno ao presente. Conseguiu movimentar bem a trama, apenas sinalizando o tempo através da cor dos cabelos do protagonista Vincent Eastman (Richard Gere).

Bela refilmagem do filme francês Les Choses De La Vie

A estética bem construída precisou de conteúdo. E teve. Aliás, conteúdo ligado aos mais profundos sentimentos dos protagonistas. Na verdade, um triângulo do qual ainda fazem parte ninguém menos que Sharon Stone, em sua primeira performance depois de Instinto Selvagem, e a sexy Lolita Davidovich. Quem pensar que irá encontrar o trivial, o folhetim novelesco, terá enorme surpresa. A primeira grande qualidade do filme é a sua imprevisibilidade. Ninguém advinha o final. A segunda grande característica de Intersection está no tema. Existe uma palavra que resume tudo o que o protagonista faz e porque: dilema. Para a plateia, era mais do que óbvia a decisão que ele deveria tomar. Para ele, não. E o diretor apenas permite que o espectador vá encaixando as peças do quebra-cabeças da trajetória de Vincent aos poucos. Serve menu degustacion cinematográfico em que cada fase do roteiro representa surpresa com sabor diferente. Poucos filmes podem receber o adjetivo de “marcante”. Intersection é um deles. Mérito do chef cinematográfico Mark Rydell.

Entre dois amores

Intersection apresenta trecho relevante da vida do arquiteto Vincent Eastman. Havia se casado com a bela Sally (Sharon Stone), também arquiteta. O escritório que montaram juntos obteve êxito muito acima das melhores expectativas dos dois. “Eu planejo e você cria”, afirmava ela para o marido, contabilizando e organizando bem a retaguarda dos negócios. Ainda tinham uma filha. No filme, Meaghan (Jennifer Morrison) já é pósadolescente, promissora no balé clássico. Família perfeita, como avaliou o sócio Neal (Martin Landau). Acostumado com as linhas retas e curvas previamente planejadas, Vincent se descobre interessado em outra mulher, a jornalista Olivia Marshak (Lolita Davidovich), que havia conhecido num

leilão. Do flerte inicial, paixão intensa, velocidade de fórmula 1. O clima com a esposa esfria. Ambos percebem atmosfera não identificada invadir relacionamento que sempre havia funcionado bem. A obsessão por Olivia toma conta de Vincent e o faz supor que sua esposa não lhe tinha mais afeto. Certo dia, quando lhe conta oficialmente que existe outra, assiste, com enorme surpresa, Sally, sempre racional e aparentemente fria, desabar, sob forma de ataque histérico. Estava criado o dilema de Vincent.

Entregava-se à nova relação? Ou voltava para a mulher e tentava reconciliação? Para complicar ainda mais sua posição, a filha, claro, tomou partido da mãe. Vincent teria que passar por algumas situações, inclusive noite mal dormida dentro do próprio carro para dar um mergulho dentro de si e descobrir o que efetivamente lhe traria felicidade. Os primeiros sinais de que estaria próximo da conclusão que mudaria sua vida começam a aparecer em seu olhar. De repente, numa parada em longínqua estrada, ele encontra garotinha de cinco anos que ajudava o avô a entregar pães caseiros. Esta lhe oferece um doce. Ele aceita. Olha pra menininha, sorri. E toma a decisão de sua vida. O avô ainda lhe bate no ombro para perguntar se ele estava perdido. “Não mais”, é a resposta de Vincent, que vem junto com o sorriso de quem acaba de saber o que será melhor para si. Mas, a vida não funciona como no seu escritório de arquitetura; linhas previamente traçadas podem encontrar obstáculos inesperados e intransponíveis.

Desfecho inteligente, um dos melhores já apresentado pelo Cinema.

A sequência final é magistral. Mark Rydell constrói epílogo repleto de imagens que emocionam e adentram nos sentimentos da plateia. A forma como resolve a equação da vida de Vincent é uma das mais bem elaboradas da história do cinema romântico.

Elenco magistral

O trio protagonista esteve perfeito. Cada um muito bem situado com relação ao personagem que interpreta. Richard Gere é Richard Gere. Dispensa apresentações. Sharon Stone surpreende em performance dramática que é oposto do seu personagem-fatal em Instinto Selvagem, aqui elegantérrima ao estilo channel. E Lolita Davidovich ruiva, sexy, insinuante.

Escrito por José Jardelino da Costa Júnior

Ig
dezembro 2014
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