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Deliciosa comédia do cineasta Christian Vincent atiça paladares e expõe intrigas palacianas
O foco da história de Os Sabores do Palácio (Les Saveurs du Palais - França - 2012) são os inesperados pratos criados pela cozinha privada do Palácio do Eliseu, residência oficial da presidência da República da França, para o Chefe de Estado no poder. Engana-se, no entanto, aqueles que acham que o filme destina-se apenas aos que têm interesse por gastronomia. Ao contrário, o enredo, livremente inspirado em fatos reais, apresenta microcosmo de situações plausíveis que já aconteceram e podem se repetir em outros segmentos. Ou países. Nesse caso, o cineasta Christian Vincent, que também assina o roteiro, soube dosar os ingredientes psicanalíticos que fazem as engrenagens se mover. Existe, bem claro, o sentimento da inveja, que lidera o amálgama das sensações predominantes no entorno do poder.
Há ainda as neuroses, que não repudiam a realidade, apenas a ignoram. E, mais grave, a psicose que, além de repudiar os fatos, tenta substituí-los. Prevalecerá, no entanto, a energia positiva que a protagonista espalhará por onde passar. Com elegância e determinação, enfrentará e vencerá machistas empedernidos, bem como mesquinhos de todos os gêneros, burocratas medíocres que escondem a incompetência, ao procurar irregularidades onde elas não existem; no inconsciente, sabem disso. Esses são os piores.
Sinopse
O filme conta a história de Hortense Laborie (Catherine Frot), especialista em gastronomia, que vive retirada na pequena cidade de Périgord, com um tio. Súbito, é convocada para assumir a direção da cozinha que diretamente atende ao presidente da França. Meio atordoada, aceita o desafio e, com habilidade e técnicas inovadoras, conquista o paladar do presidente. O êxito lhe renderá entusiasmados agradecimentos do homem mais poderoso do seu país. E, também, claro, a falta de simpatia de dezenas de profissionais que habitam os subterrâneos do Palácio.
Direção e Fotografia
Christian Vincent acerta ao transformar narrativa intimista em saborosa comédia, onde o espectador se deparará com algumas das “obras de arte” da invencível cozinha francesa. Para ressaltar os diferenciais do filme, Vincent orientou o seu diretor de fotografia, Laurent Dailland, a usar lentes especiais e iluminação adequada para potencializar os efeitos visuais de cada um dos pratos criados por Hortense e apresentados à plateia em magníficos super closes.
Aliados e o grande admirador
Em sua odisseia, Hortense será assessorada por Nicolas Bauvois (Arthur Dupont), especialista em pâtisserie e pelo Chefe de gabinete presidencial, David Azoulay (Hippolyte Girardot). E terá o inequívoco incentivo do monsier le président, vivido pelo experiente Jean d’Ormesson, cuja enorme satisfação é ressaltada em sequência quase no final, quando ele desce à cozinha e é servido diretamente por ela.
Narrativa em flashback energiza o enredo
O filme alterna situações em Paris e na Estação Polar francesa, na Antártida, para onde Hortense vai, nos quatro anos que se seguem à sua atuação no Palácio do Eliseu. Para contar bem a história e produzir os seus deliciosos efeitos, o diretor faz o tempo regredir e voltar várias vezes.
Consultoria técnica e os fatos como eles foram
O filme contou com um consultor gastronômico seis estrelas. Ninguém menos que o chef Guy Legay, do sofisticado Hotel Ritz, de Paris. E se baseou em história efetivamente ocorrida, relacionada com a trajetória de Danièle Mazet-Delpeuch, que de fato trabalhou diretamente para o presidente François Miterrand durante parte dos quatorze anos em que ele ocupou o cargo de presidente da França (1981-1995).
Escrito pro J.Jardelino
Romain Duris, Déborah François, Bérénice Bejo lideram elenco de comédia francesa romântica inesquecível

A Datilógrafa
Título na língua original: Populaire
Direção: Régis Roinsard
Elenco: Romain Duris, Déborah François, Bérénice Bejo
Deliciosa comédia romântica e de época (ambientada em 1959), ao estilo das melhores daquela década, com Audrey Hepburn, Doris Day, Kim Novak, Grace Kelly e Marilyn Monroe, esta última inspiração declarada da atriz francesa Déborah François, protagonista de A Datilógrafa (Populaire - França – 2012). O papel masculino principal ficou com o excelente Romain Duris, flexível e talentoso, que consegue imprimir atmosfera infantil misteriosa ao seu personagem. O enredo tira do baú a velha máquina de escrever manual, bisavó dos atuais personal computers e suas impressoras, em filme que é estruturado sobre argumento eficiente.
Resultado: substância e credibilidade aos personagens de Duris (Louis Echar) e de Déborah (Rose Pamphyle).
Sinopse
A história começa com atitude independente dela. Rompe com os planos da família, que eram de lhe proporcionar casamento com o filho de mecânico na pequena cidade onde morava, o que provoca a ira do pai machista e rude, bem ao estilo do caipira francês dos anos 50. Havia perdido a mãe; o que lhe restara da figura materna era simplória foto e esporádicas visitas ao cemitério. A adversidade lhe traria forças para superar os obstáculos da vida, especialmente por sentir-se sozinha; a figura materna jamais seria substituída. Esporadicamente encontrará pelo caminho outras mulheres que lhe darão incentivo e amparo, como a esposa do melhor amigo de Louis, Marie Taylor (Bérénice Bejo, de O Artista, indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 2012). Nunca mais terá, no entanto, ninguém à altura da mãe. O desamparo imediatamente atrairá simpatia da plateia para sua figura bela, engraçada, doce e meio desajeitada, cuja sinceridade lhe faz dizer tudo o que vem à cabeça. Seu par, Louis Echar (Duris), surge na condição de patrão no primeiro emprego que encontra, em sua trajetória de se desligar da cidade de origem. Dono de corretora de seguros, é maníaco por competições. Não gosta dela como secretária, mas fica impressionado com a rapidez com que datilografa. Ansioso, a inscreve em campeonato regional de datilografia. Não esperava que ela fosse adiante, no rumo das competições decisivas em Paris e em Nova Iorque. O roteiro levará o espectador pelos caminhos de sempre, mas com molho apimentado e original.
Jacques Lacan inspira personagem principal masculino
Louis não consegue suportar a maneira como Rose vencia obstáculos e lhe abandona no meio do caminho. A determinação dela tocava em suas vulnerabilidades inconscientes e fazia vir à tona situações infantis, juvenis e adultas mal resolvidas. Inequívoco viés lacaniano na construção do personagem, o que não é nenhuma novidade, em se tratando de filme da terra de Molière.
Primeiro filme do diretor capta influência de gigantes como
Billy Wilder e Vincente Minnelli
O filme segue o estilo das melhores comédias românticas dirigidas por Billy Wilder e Vincente Minnelli: suave, temperada por sucessivos eventos desopilantes. Descontração e boas risadas garantidas. Agrada a todas as plateias, sem ser dèja vu; ao contrário é original e se insere perfeitamente no jeito atual de fazer bons filmes. Além do caráter burlesco, chama atenção o ritmo que o cineasta Régis Roinsard imprime à narrativa, perfeito equilíbrio de estilos, o de ontem e o de agora. Extraordinária vitória, em se tratando do primeiro filme do diretor, que também é autor do roteiro.
Pausa musical nostálgica: Cha Cha Cha
O diretor Régis Roinsard conseguiu incrível performance, com toda caracterizações da época, de produção musical estruturada em ritmo cubano, que ganhou o mundo, chamada Cha Cha Cha (para as secretárias…). Deliciosa pausa, já perto do final, para permitir que a plateia “respirasse”, por conta dos “embates” alucinantes entre Rose e suas adversárias.
Escrito por José Jardelino da Costa Júnior
Suspense de conteúdo político, Linha de Ação traz denúncia sobre relações incestuosas entre construtoras e órgãos públicos

Título em português: Linha de Ação Título na língua original: Broken City Ano da produção: 2012 País de origem: EUA Direção: Allen Hughes Elenco: Russel Crowe, Mark Wahlberg, Catherine Zeta-Jones
É possível que a pouca experiência do diretor Allen Hughes tenha atrapalhado o resultado final deste suspense neonoir Linha de Ação (Broken City – EUA – 2012). No entanto, o filme tem enorme mérito: o de mostrar a barganha inescrupulosa que cerca as relações do poder público com empresas de construção civil, quando da desapropriação de áreas para edificação de condomínios de luxo. Aqui mesmo no Brasil, desde o ano passado, casos absurdos foram noticiados. Embora tenham ocorrido em várias regiões, o script de todos é quase idêntico. Anos ou décadas antes, os governos ou prefeituras fecham os olhos para ocupação de áreas longínquas por pessoas pobres. Na sequência, chegam até a doar títulos de posse dos “lotes” aos seus ocupantes. Venenosa demagogia. Tempos depois, com o crescimento desordenado dos centros urbanos, aquelas áreas se tornam valiosas. Então, surgem, do nada, os fantasmas de sempre. Ou especuladores munidos de “escritura” que atesta a propriedade das áreas, ou mesmo a própria administração, que invoca o “interesse público” e, de maneira desrespeitosa e muitas vezes brutal, “arranca” do local famílias que ali construíram vidas inteiras.
Novaiorque, a cidade que nunca dorme
Linha de Ação tem Nova Iorque como cenário. Propositalmente, a cidade que é apresentada aos espectadores não é a Manhattan cheia de charme que os turistas conhecem, Central Park, Greenwich Village, Park Avenue, Central Station, museus, restaurantes, jazz. O ambiente em que o filme se desenrola está mais próximo do amálgama futurista e sombrio criado pelo cineasta Ridley Scott no clássico Blade Runner, O Caçador de Andróides (1982). A história começa sete anos antes dos dias atuais. O policial Billy Targgat (Mark Wahlberg) se envolve em perseguição a suspeito de ter estuprado garota de 13 anos. Atira e mata o perseguido, que teria reagido à voz de prisão e ameaçado o policial. É recebido entusiasticamente pelo prefeito Nicholas Hostetler (Russell Crowe) e pelo chefe de polícia Carl Fairbanks (Jeffrey Wright). Targgat fica sabendo que o prefeito usou seu prestígio para pressionar a justiça a favor da sua absolvição. O roteiro avança no tempo. Targgat, desligado da polícia, dedica-se à atividade de detetive particular, especialista em flagrantes de adultério. Enquanto isso, a temperatura política sobe vários graus, com as reais possibilidades do candidato de oposição, Jack Valliant (Barry Pepper), vencer o prefeito Nicholas, que iria tentar se reeleger em pleito já bem próximo.
Investigação a respeito de primeira-dama acima de qualquer suspeita
Targgat é convocado ao gabinete do prefeito, lugar onde ele não ia há sete anos. Mediante expressiva quantia, aceita o serviço oferecido: obter provas de que Cathleen Hostetler (Catherine Zeta-Jones), primeira-dama da cidade, estaria traindo o prefeito. Este deseja saber a verdade e ofuscar eventual repercussão do fato que poderia lhe custar o cargo. O detetive entra em ação e descobre o que precisa descobrir. Faz o seu relatório ao prefeito e imagina sua missão cumprida. As coisas se complicam para ele, quando Paul Andrews (Kyle Chandler), principal conselheiro do candidato oposicionista, é assassinado e Targgat formalmente acusado do crime, que ele sabe, óbvio, que não cometeu. Ao buscar provas que o absolvam, tem conversa surpreendente e reveladora com o chefe de polícia, Fairbanks. Este, àquela altura, já estava em linha de desacordo com o prefeito.
Algo de podre na prefeitura de Nova Iorque?
Targgat finalmente descobre o porquê de toda a conspiração para sacrificá-lo, ao investigar grande empresa de construção civil com projeto para construir modernoso condomínio de residências, hotéis e escritórios em bairro habitado por imigrantes, que iria ser desapropriado pela prefeitura.
Ser ou não ser suspense. Eis a questão.
A falta de experiência do diretor Allen Hughes leva o filme a derrapadas. Deixou o roteirista muito à vontade nos diálogos, que são prolixos e quase sempre redundantes. Erro fatal em se tratando do gênero suspense, quando a dedução deve comandar as falas. Estão aí os grandes personagens da literatura policial para mostrar como se faz: além de Sherlock Holmes, há Hercule Poirot (de Agatha Christie), Jules Maigret (de Georges Simenon), entre outros. Allen Hughes também não definiu o foco da trama. Claro que se pode mixar gêneros diferentes num mesmo filme (suspense, drama, romance), mas cabe ao diretor escolher a “locomotiva” e os “vagões”. Linha de Ação é, nesse ponto, indeciso. Obra inflamatória seria a sua maior virtude; no entanto, lhe faltou personalidade. Não é inflamatório-contundente (Laranja Mecânica, de Kubrick), nem inflamatório-surrealista (O Anjo Exterminador, de Buñuel), sequer inflamatório-irônico (M.A.S.H., de Altman).
Faltou o “Olá, boneca! Alguma novidade?”
O filme também sente falta de estilo, exatamente pelo excesso de diálogos. Pretende ser neonoir, mas Wahlberg (que, além de protagonista, também é, junto com Hughes, o produtor) não é nenhum Humphrey Bogart, dono de personagem imortal na trajetória do cinema noir, o cheio de charme detetive Philip Malowe (Relíquia Macabra). E o diretor Allen Hughes está a anos-luz do feelling de John Huston, Hitchcock, Otto Preminger.
Apesar das dificuldades estéticas, Linha de Ação merece a atenção do espectador. Sobretudo e principalmente pelo oportuno tema que aborda.
Escrito por J. Jardelino
Filme é refinada peça de propaganda dos Estados Unidos
Em 1970, a derrota na Guerra do Vietnã, a primeira dos Estados Unidos, já se desenhava no horizonte, o que de fato ocorreria quatro anos depois, com a patética sequência filmada e fotografada para o mundo do último helicóptero americano decolando da sitiada embaixada americana em Saigon, gente pendurada de todas as maneiras na aeronave. E outra pequena multidão desolada por não ter conseguido sair de lá.
Com cerca de 90 filmes em cartaz, além de debates com o público, começa amanhã (3), no Rio, o 9º Festival Internacional de Cinema Feminino (Femina). Até domingo (8), filmes com foco na questão da sexualidade, a maioria dirigida por mulheres, serão exibidos no Centro Cultural da Caixa Econômica Federal, no centro.
A mostra exibirá filmes brasileiros e estrangeiros selecionados entre os 800 inscritos – número recorde – e em festivais internacionais. A principal temática é a sexualidade que, de acordo com a curadora Paula Alves, apareceu espontaneamente. “Todo ano tem um tema que se destaca entre os selecionados. Este ano, especialmente, recebemos muitos filmes sobre essa questão”, explicou.
A abertura terá a pré-estreia no Brasil do longa Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, da diretora Julia Murat. Ambientado no Vale do Paraíba, narra o encontro da padeira Madalena com uma jovem fotógrafa. Já recebeu dezenas de prêmios, entre eles os de melhor filme e de melhor atriz (para Sônia Guedes) do Festival de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes.
Entre os filmes brasileiros, a curadora indica o Irina, da diretora Sabrina Greve. O filme conta a história de uma jovem que vive sozinha na cidade de São Paulo, trabalhando em uma loja de aquários, que sonha em conhecer a Rússia. Sua vida se transforma quando ela ganha um concurso para conhecer Moscou.
Dos filmes estrangeiros, a maioria inéditos no Brasil, estão entre os mais esperados o turco Zefir, sobre uma adolescente de temperamento forte, que é obrigada a viver durante um tempo com os avós, e o libanês Os Três Desaparecimentos de Soad Hosni. Ele traça um perfil da atriz egípcia que dá nome ao filme, em toda a sua complexidade e com seus paradoxos.
O Femina também apresenta um filme sobre a polêmica crítica de teatro Bárbara Heliodora, o Bárbara em Cena, cuja exibição antecede a discussão com o público sobre o tema identidade. “O filme é sobre como ela se posiciona como crítica, uma pessoa supertemida pela classe artística, e como mulher”, disse Paula Alves .
Também será tema de discussões com o público e especialistas o feminismo, após exibição de um vídeo sobre a campanha política da diretora da organização não governamental Davida e da grife Daspu, Gabriela Leite.
Dentro da programação consta ainda uma homenagem à atriz Zezé Mota, com a exibição do filme que a consagrou, Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues, domingo (8), às 18h. Uma pequena mostra para crianças e adolescentes, com temas variados, será realizada também no domingo, às14h, na Caixa Cultural. O ingresso custa R$ 2 a inteira.
A lista completa de filmes pode ser consultada no site do festival.
Da Agência Brasil
Michael Fassbender, Noomi Rapace e Charlize Theron lideram elenco afinado com roteiro magistral
Ridley Scott, aos 74, acaba de produzir e dirigir extraordinária metáfora sobre questões marcantes nesse início da segunda década do século 21. As ideologias entraram em colapso. Praticamente todo o planeta se encontra refém da incapacidade do homem responder a questões milenares. Desde os tempos imemoriais, a curiosidade humana especula respostas sobre a nossa origem e o porquê dela. A primeira das disciplinas, a Filosofia, vem tentando ordenar o debate, desde os gregos. Até hoje, não existe unanimidade acerca do assunto, talvez, porque, segundo a própria Filosofia, o conhecimento humano seria imperfeito e, portanto, incapaz de chegar à verdade que também seria absoluta. Essa é a temática de Prometheus (Prometheus - EUA – 2012), o novo e espetacular filme de Ridley Scott, que acaba de ser lançado no circuito nacional. Nele, o diretor esteve bem à vontade. Ficção científica foi o gênero que o consagrou, com Alien, O Oitavo Passageiro (1979) e Blade Runner, O Caçador de Andróides (1982). Ambos, inclusive, consolidaram as carreiras cinematográficas de estrela e astro de primeira grandeza: Sigourney Weaver e Harrisson Ford. O cineasta volta ao tema, com épico que mescla gêneros, tendência praticada hoje por 10 entre 10 diretores. Em Prometheus, predomina efetivamente a ficção científica. Craque, Scott ali introduziu fortes doses de suspense e algumas boas pitadas de terror, que mantêm a plateia de olhos bem abertos, desde o início aos créditos finais, em viagem entre galáxias que dura vários anos.
Filme evita clichês e revive 2001, de Kubrick
Nem Spielberg ou George Lucas. Também nada a ver com James Cameron e outros avatares adolescentizados. Com Prometheus, Ridley Scott refez o contato com o maior filme de ficção científica de todos os tempos, 2001, Uma Odisséia no Espaço, obra-prima do magistral Stanley Kubrick em aliança com o escritor Arthur Clarke. Além das questões de ordem filosófica, Ridley Scott trouxe de volta robô enigmático, agora chamado David, que tem papel preponderante na evolução da trama. Exatamente como o inescrutável HAL 2000 do filme de Kubrick, cuja sigla é formada exatamente pelas letras do alfabeto ocidental atrasadas em uma casa, que dariam origem a mais poderosa marca de computadores de então — HAL/IBM (Seria um merchandising?). O HAL de agora não pisca, nem é feito de metal; é um ser como os demais tripulantes — apenas “não tem alma”, como é explicado no começo. Para vivê-lo, Scott escalou um dos atores de maior evidência do momento, ninguém menos que Michael Fassbender, que acabara de conseguir a proeza de interpretar, em um mesmo ano (2011), dois personagens difíceis: o doutor Carl Jung em Um Método Perigoso e o insaciável (sexualmente) publicitário novaiorquino Brandon, em Shame. Prometheus é um filme para ser assistido com olhar atento. Nada ali é previsível. Muito menos o desfecho. Numa só palavra, genial.
Duas belas em performances dramáticas inesquecíveis
Além de Fassbender, duas atrizes, em confronto permanente, lideram a narrativa. Noomi Rapace, que já havia atuado na primeira produção (sueca) de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (2008) — aliás, bem mais fiel ao texto original do que a recém-lançada versão americana. Agora, ela é a doutora Elizabeth Shaw, cientista cuja descoberta em remota caverna de ilha escocesa vai dar origem à missão rumo às origens da raça humana. Seu contraponto: a poderosa e estonteante Meredith Vickers (Charlize Theron), inatingível objeto de desejo de quase todos os homens que formam a tripulação. Caráter nenhum, é dona de segredo que pode significar o êxito ou o fracasso da missão.
Fotografia e música em sintonia com a dimensão do filme
Impossível não deixar de admirar a sequência inicial repleta de panorâmicas arrebatadoras. Todas elas. Trabalho do diretor de fotografia Dariusz Wolski, que contou com a trilha sonora assinada pelo premiado Arthur Fenn para potencializar o material captado. Isso acontece nos primeiros minutos. Já a partir dai, o espectador, inconscientemente, passa entender que terá nas duas horas seguintes um filmaço.
Lawrence da Arábia, indício para a chave do “enigma David“
Durante os anos que a nave leva para chegar ao seu destino, apenas um personagem se mantém ativo: o robô David (Fassbender). Sua maior diversão, nesse período, é ver e rever o filme Lawrence da Arábia (1962), que é “reprisado” em longas sequências. Faz do personagem-título o seu ídolo, inclusive lhe imitando os trejeitos, corte de cabelo e modo de falar. Além de permitir às novas plateias uma pequena visão do extraordinário trabalho de Peter O´Toole, como T.E. Lawrence, Ridley Scott revela importante indício de como o “robô sem alma” se comportará nas sequências finais.
Em busca dos “engenheiros” que conceberam a raça humana
A narrativa é iniciada em 2089, quando dois cientistas descobrem, em longínqua ilha escocesa, indícios que poderiam localizar, em definitivo, seres inteligentes que, em passado distante, teriam criado a raça humana. Tal descoberta desperta o interesse de gigantesca (e misteriosa) corporação que decide financiar missão à galáxia onde estariam os “engenheiros” que nos criaram. Além de sofisticadíssimos equipamentos, carregavam na bagagem enorme quantidade de perguntas. Simples assim. Tal e qual os dois astronautas de 2001, que buscavam em misterioso monolito negro asolução para o enigma da vida, os tripulantes de 2094 também irão se deparar com situações absolutamente imprevisíveis.
Título em português: Prometheus Título na língua original: Prometheus Ano da produção: 2012 País de origem: EUA Direção: Ridley Scott Elenco: Michael Fassbender, Noomi Rapace, Charlize TheronEscrito por José Jardelino da Costa Júnior
Com temática universal mesclada por situações locais, o cineasta Asghar Farhadi conquista a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro e chega onde o Brasil nunca chegou
A Odisséia de um cineasta no regime dos Aiatolás – O cineasta iraniano Asghar Farhadi, autor do (bom) À Procura de Eli, já podia ser considerado vencedor bem antes da conquista do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, semana passada. Aliás, a primeira estatueta do Irã. Seu mais novo trabalho, Separação (Jodaeiye Nader az Simin, Irã – 2011) conseguiu a proeza de ser um filme bem realizado, inesquecível. Driblando as prováveis, talvez muitas, restrições impostas à atividade cinematográfica vigentes em país sob a tutela de padrões religiosos ortodoxos, ele apresentou ao mundo drama marcante, enriquecido por interpretações irrepreensíveis. Mirou sua câmera na intimidade de duas famílias de condições sociais distintas, na Teerã dos tempos atuais. E conseguiu lapidar história envolvente, não-maniqueísta, que poderia ter ocorrido em Nova York, Los Angeles, Buenos Aires ou Rio de Janeiro. Seu jeito de fazer cinema é universal, portanto. Em vez de formular pedagogia contra os excessos do regime, Farhadi constrói situações cotidianas nas quais a voz dos personagens, de forma melodramática, explicita situações absurdas, como a da diarista que precisa telefonar para um parente a fim de saber se seria pecado fazer o asseio em idoso com incontinência urinária. O filme segue emocionando e surpreendendo, ao tratar no mesmo nível de importância os personagens masculinos e femininos.
Resumo da história - Famílias que aparecem nos filmes do Irã de hoje devem sempre ser compostas pelo casal e, pelo menos, por um filho. É a maneira de sublinhar ensinamento basilar do Alcorão, que é taxativo ao se referir ao objetivo da união entre um homem e uma mulher: a procriação. Dessa situação, Farhadi extrai o argumento que vai segurar a narrativa até o final, que é o medo de uma adolescente, Termeh (Sarina Farhadi), de 11 anos. Sofre com a perspectiva da separação de seus pais, pessoas de classe média, com certas posses e confortos. A mãe, médica, Simin (a bela Leila Hatami), no entanto, determinada, dá um tempo na relação com o marido bancário, Nader (Peyman Moadi), e vai morar com os pais. E leva junto a esperança de que ele libere a filha. Seu desejo: ambas irem morar no exterior. A ideia não desagrada Nader. Mesmo assim, ele apresenta obstáculo intransponível para deixar o país. O seu pai (Ali-Asghar Shalbagi) padece de demência em estado avançado. “Ele já nem se lembra do seu nome, muito menos quem é você”, arremata Simin. “Acontece que eu sei que ele é meu pai. E ponto final”. A saída de cena de Simin obriga Nader a contratar uma diarista. Surge, Razieh (Saret Bayat), mulher pobre, humilde, sempre acompanhada de filhinha (Kimia Hosseini), com menos de seis anos. O que Nader não sabe é que o marido de Razieh, Hodjat (Shabat Hosseini), um sapateiro desempregado e cheio de dívidas, ignora a iniciativa da mulher de procurar emprego. Rude e autoritário, sinaliza que jamais a deixaria trabalhar. É nesse jogo de desencontros que o filme se estrutura e vai até o final, impulsionado por medos, vaidades, arrogância e egoísmo, latentes e recalcados. No final, a platéia pergunta como tudo vai se resolver. Qual será a sentença final, justa ou injusta? Como acontece com o cinema de Farhadi, todas as portas continuam abertas.
O primeiro grande mérito do diretor - Mesmo oriundo de país marcado por situação política complexa, Farhadi é hábil escultor de temas universais, aos quais junta certo tempero iraniano. Em A Separação, contrapõe desejo de mãe — mulher esclarecida, que almeja dias melhores para a família — e filha adolescente que, como a grande maioria das pessoas naquela faixa etária(em escala mundial), tende a se considerar culpada por eventual separação dos pais. Certamente, bem mais tarde, já adulta e tendo ela mesma vivenciado suas próprias experiências, bem ou mal sucedidas, Termeh irá constatar que seu desejo (passado) de manter os pais juntos de qualquer jeito estava desconectado da realidade. Mas, Termeh, no filme, tem apenas 11 anos.
O segundo grande mérito do diretor - Urdiu situação baseada em conflitos domésticos, onde as partes envolvidas se sentiam injustiçadas não por estarem sendo responsabilizadas pelo que cometeram, mas, sobretudo, por aquilo que não foram capazes de controlar. Agradou pelas sutilezas com que tratou os ângulos agudos de situações aparentemente intransponíveis. Sem discriminação cultural ou demagogia. E conseguiu ser o preferido dos mais de seis mil jurados do Oscar. Quase todos americanos.
Universalidade, o caminho para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
A Argentina, de O Segredo dos Seus Olhos, já sabe que os jurados do Oscar raramente se encantam por produções com foco em situações exclusivamente locais. Também já o sabem Áustria, Holanda, Japão, Israel, Líbano, México, Espanha, Suécia, além, evidente, da França e da Itália. E, agora também o Irã, com litígios aparentemente insolúveis com os Estados Unidos. Resta saber quando o Brasil, de enormes talentos como Walter Salles e Fernando Meirelles, vai entender isso de uma vez por todas. Pelo visto, ainda vamos esperar (muito) pela sonhada estatueta. Nosso representante nesse ano foi Tropa de Elite 2, de José Padilha. . .
Por José Jardelino da Costa Jr.
A Invenção de Hugo Cabret é uma fantástica e surpreendente declaração de amor ao Cinema
Scorsese em ritmo de aventura – O cineasta Martin Scorsese adentra em terreno inédito. Saem de cena os psicopatas e esquizofrênicos de todos os gêneros que habitaram vários dos seus magníficos filmes (Táxi Driver, Touro Indomável, Infiltrados, Cassino, O Aviador, Cabo do Medo). Em A Invenção de Hugo Cabret (Hugo – EUA – 2011), eles foram substituídos por referências aos tipos imaginados por Victor Hugo, Alexandre Dumas e Júlio Verne, em ambiente compatível: Paris do início do século vinte. Mais especificamente, a estação de trem da Cidade-Luz, onde quase toda a trama se desenvolve. A conexão com três dos maiores autores literários franceses vai se desdobrar em citação aos Irmãos Lumière. Eles inventaram o cinematógrafo, que surpreendeu os franceses e o mundo com as antológicas imagens em movimento de cotidiano trem chegando numa estação. Nascia o cinema. Com esses elementos, Scorsese construiu o argumento de história fantástica e surpreendentemente não-maniqueísta. O personagem-protagonista que inspira o título, um menino-órfão, agirá no sentido de despertar sentimentos inconscientes nos adultos com quem irá interagir e lhes modificará para sempre as suas vidas.
Resumo da história – Hugo Cabret (Asa Butterfield) é um menino esperto, mal chegado à adolescência. E órfão, numa Paris encantadora nas aparências, mas crudelíssima com quem teve a desventura de perder precocemente o pai e cair nas mãos de tio quase sempre bêbado, cuja função era a de manter os relógios da estação de trem de Paris em funcionamento e sincronizados. A alternativa seria ir para um orfanato, perspectiva que apavorava o garoto. Submete-se às sempre crescentes ausências do tio e começa, ele mesmo, a controlar os relógios da estação. É lá onde mora em cubículo esquecido, no qual conserva inusitado legado de seu pai (Jude Law), relojoeiro habilidoso e sonhador. Era um simulacro de andróide que se movimentava a partir dos mesmos mecanismos dos relógios de corda. Para fazer a engenhoca funcionar teria que contar com a ajuda de outro relojoeiro, dono de pequena loja no local, o ranzinza Georges Méliès (Ben Kingsley), que esconde passado inimaginável. Com a ajuda da afilhada deste, Isabelle (Chloe Moretz), Hugo chegará a segredos cuidadosamente camuflados. Eles estarão entrelaçados com a solução de que precisa para fazer o seu “robô” voltar a funcionar. Vencer as resistências do sorumbático Méliès não será o único desafio para a sagacidade de Hugo. Ele terá que se livrar da perseguição do guarda da estação (Sacha Baron Cohen), mutilado de guerra, com perna mecânica e cachorro (Maximillian) hostil, que perseguirá Hugo com persistência semelhante a do inspetor Javert no encalço de Jean Valjean — ambos personagens de “Os Miseráveis”, de Victor Hugo. A vida pregressa de Méliès, a ser descoberta por Hugo, será a deixa para Scorsese fazer bela homenagem aos pioneiros da arte cinematográfica. Com imagens digitais em 3D, decifrará para o espectador os segredos mágicos dos primeiros filmes, em sequências extraordinariamente bem dirigidas e produzidas.No final, o diretor ainda encaixará reflexão filosófica-existencialista na fala do adolescente Hugo: “O mundo é uma grande máquina que não dispõe de peças sobressalentes. Se você (dirigindo-se a Isabelle) e eu estamos aqui, é por algum motivo”. Instigante fecho para a fabulosa aventura de menino sonhador, apaixonado pelo futuro. Aqui o adjetivo “fabulosa” se desvincula de outros laudatórios, como grandiosa, magnífica, para sublinhar ligação com bela fábula, o que realmente o filme é.
Scorsese encontra Spielberg e o francês Michel Hazanavicius no mesmo Oscar – Três ótimas produções que concorrem à estatueta de melhor Filme e Melhor Diretor no Oscar do próximo domingo têm seus enredos entrelaçados. A Invenção de Hugo Cabret apresenta argumento semelhante ao de O Artista, de Michel Hazanavicius: magnífica homenagem ao Cinema e aos extraordinários talentos que o conceberam e aperfeiçoaram. Ambos também se estruturam em roteiros rocambolescos, exatamente como Cavalo de Guerra (dirigido por Steven Spielberg), que concorre no mesmo páreo (Melhor Filme e Melhor Diretor). Mais: a Primeira Guerra Mundial, que move o herói equino de Spielberg, será a resposta para as perguntas sobre o mistério do enigmático Méliès. Nunca antes na história do Oscar houve situação parecida.
Scorcese dá novo e bem-vindo tom para a aventura no Cinema – A Invenção de Hugo Cabret tem como (bom) atributo a simplicidade; não é uma história nervosa e cheia de detalhes que deixam a platéia tonta. Também foi cuidadosamente editado para evitar conotação pessimista, por mais tristes que sejam alguns eventos. Os personagens, por sua vez, vivem situações improváveis, mas, bem dirigidos, têm aparência “humana”, e ficam a anos-luz dos tipos caricatos. A simplicidade do roteiro, no entanto, traz embutida tema complexo e profundo: a guerra, como devastadora de sonhos e de vidas. Essa mistura faz o filme decolar, tal e qual os primeiros arquétipos de foguetes imaginariamente dirigidos para a Lua.
Filme diz muito, sem mostrar pouco – Além do maestro Scorsese na direção, A Invenção de Hugo Cabret conta com elenco raro: Ben Kingsley repete performances que o notabilizaram (Ghandi, Fatal). O menino Asa Buterfield passa autenticidade a personagem determinado e discretamente otimista. Tem na garota Chloe Moretz o contraponto ideal para sua performance. Há ainda o impagável Sacha Baron Cohen (Borat), como o guarda da estação, que consegue a proeza de fazer o que faz, sem parecer cem por cento ridículo ou abominável. Elenco de apoio, com astros como Jude Law (o pai), Emily Mortimer (a florista da estação, que encanta o guarda) e Helen McCrory como, Mama, a esposa de Méliès, aparentemente resignada, mas dona de força inesperada para induzir mudanças comportamentais surpreendentes no marido, formam conjunto sem o qual Scorsese não poderia ter avançado como avançou em sua já magistral filmografia.
Escrito por José Jardelino da Costa Júnior
com a colaboração de Camila Costa.
Atriz já foi indicada 17 vezes ao maior prêmio da indústria. Ela venceu por sua interpretação de Thatcher em ‘A dama de ferro’.
Ovacionada de pé por seus colegas, a norte-americana Meryl Streep ganhou na noite deste domingo (26) o terceiro Oscar de sua carreira. O prêmio de melhor atriz veio por sua interpretação da primeira-dama britânica Margaret Thatcher no filme “A dama de ferro” – as duas vitórias anteriores aconteceram em 1980, quando levou o prêmio de atriz coadjuvante por “Kramer vs. Kramer”, e em 1983, quando venceu a categoria de melhor atriz por seu trabalho em “A escolha de Sofia”.
Ela abriu seu discurso agradecendo o marido, por medo de que o limite de tempo a impedisse de dizer seu ‘obrigada’ a ele. E encerrou declarando que queria aproveitar para agradecer a todos os seus colegas e amigos, “porque acho que nunca mais estarei aqui de novo”.
Meryl Streep é a atriz mais vezes indicadas ao Oscar na história, tendo concorrido 17 vezes, recorde que demonstra sua credibilidade dentro da indústria. A marca, no entanto, tem um lado amargo – com tantas disputas, Streep é também a atriz que mais vezes esperou em vão ter seu nome chamado. O fato foi notado pelo apresentador Billy Cristal, que aproveitou para fazer uma piada, dizendo que só por ter tido que aguentar tantos discursos de agradecimento de outros atores ela já merecia um Oscar.
Do G1
A atriz norte-americana Meryl Streep, recordista de indicações ao Oscar com 17 nomeações, recebeu, nesta terça-feira (14) um Urso de Ouro honorário no Festival de Berlim em homenagem a seus 40 anos de carreira.
Streep está em Berlim para divulgar seu mais recente filme, A Dama de Ferro, que não concorre na mostra principal da Berlinale. Sua atuação como Margaret Thatcher no longa lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar – a atriz é uma das favoritas a vencer a categoria, pela terceira vez.
Na tarde desta terça, durante uma concorrida entrevista coletiva de divulgação de A Dama de Ferro, Streep foi surpreendida por um buquê de flores entregue por um repórter austríaco e uma coleção de bonecas russas desenhadas com seu rosto e trajes de seus personagens marcantes.
Mesmo acostumada às glórias das premiações, a atriz garantiu na entrevista que ainda sente “borboletas no estômago” a cada novo reconhecimento. “É muito estranho estar numa posição em que as pessoas chegam pra você e dizem: ‘eu acho que você vai ganhar’ ou ‘esse ano você não ganha’. Parece um esporte, um jogo que você não pediu pra participar. Me sinto me preparando para o Super Bowl!”








