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Título em português: Nebraska. Título na língua original: Nebraska. Ano da produção: 2013. País de origem: EUA. Direção: Alexander Payne. Elenco: Bruce Dern, Will Forte, Bob Odenkirk, June Squibb, Stacy Keach.

 Nebraska. 2013. EUA.
Direção: Alexander Payne.

Entrosamento do diretor Alexander Payne com o protagonista Bruce Dern resultou num dos melhores filmes de 2013

O cineasta Alexander Payne (Sideways - 2004) realizou belo filme sobre a condição humana. Em Nebraska (Nebraska - EUA – 2013), desafiou os lugares comuns e acendeu holofote sobre a forma como famílias tratam idosos. Conseguiu abordar tema sombrio e pesado de forma leve, quase cômica. É o segredo do êxito deste seu mais recente trabalho, que concorreu às principais categorias do Oscar 2014 em condições de igualdade com rivais como 12 Anos de Escravidão, Gravidade, Trapaça e O Lobo de Wall Street. Inclusive à estatueta de Melhor filme. Logo no início, a plateia já percebe que a proposta da trama é corajosa. É filmada em preto e branco. Linguagem imagética para sublinhar o conteúdo desta fábula moderna. Narrativa convencional, sem ansiosas idas e vindas ou efeitos especiais. Apenas as sutilezas da vida. Várias delas estão no comportamento do protagonista.

Com mais de 80, Woody Grant sabia onde queria chegar

Nebraska conta a trajetória de Woody Grant (Bruce Dern), já passado dos 80. Recebe aviso de empresa de marketing promocional sugerindo que havia ganho prêmio de um milhão de dólares. No íntimo, dava pouca importância àquele pedaço de papel impresso. Sua alma buscava autodeterminação. Dela brotava a energia que usou para mostrar que, mesmo sendo considerado idoso, era o dono absoluto de sua vontade. O primeiro a perceber isso foi o filho mais novo, David (Will Forte), a quem, paradoxalmente, não tinha dado a devida atenção, no passado. Outro, na corrente de credibilidade do protagonista, era o mais velho, Ross (Bob Odenkirk). A mulher, Kate (June Squibb), com quem estava casado há seis décadas, emitia sinais de que havia desistido dele, já nas primeiras sequências. Chega a sugerir aos filhos solução corriqueira, carregada de desamor: internação em asilo para idosos. Em sua trajetória, rumo à distante cidade de Lincoln, no Estado de Nebraska, onde estava sediada a empresa que lhe daria o prêmio, terá a companhia de David. No meio do caminho, decidem visitar velhos parentes e conhecidos que não encontravam há décadas. Ingênuo, Woody deixa escapar o motivo da viagem. Imediatamente, todos no seu entorno transformam-se. Vão da indiferença aos egoísmo em rápidas passagens, com exceção de uma doce viúva, sua antiga namorada. Woody teria sido o verdadeiro amor da vida dela. De repente, cada um dos demais descobre forma de tirar proveito do futuro provável milionário. O pior de todos é o ex-sócio Ed Pegran (Stacy Keach), cujo caráter tem a proeza de reunir todos os atributos negativos dos habitantes daquela comunidade perdida no centro dos Estados Unidos. Essa é a outra qualidade de Nebraska. Sensível, o diretor Alexander Payne posiciona sua câmera de forma a mostrar o que pode existir por trás de gente pacata, simples e aparentemente inofensiva. No Brasil, na Suécia, no Irã ou no Japão, provavelmente as atitudes seriam as mesmas.

Vontades inconfessas atestam comportamentos alojados no inconsciente coletivo daquela comunidade

O núcleo dramático de Nebraska está no reencontro do protagonista com pessoas que não via há décadas. Nesse contexto, destacam-se antológicas sequências. Logo no início, Woody Grant caminha, aparentemente sem rumo, em estrada anônima. É abordado por policial que o resgata de provável atropelamento. O segundo grande momento captura instante em que grupo de homens, jovens e idosos, estão assistindo partida de futebol. O ângulo de visão do espectador fica na direção contrária do vídeo. Ao invés de torcida e jogadores, sobressai-se o tédio abissal que domina o ambiente. Quase nenhum rosto se parece, embora sejam parentes; o sentimento predominante, no entanto, é o mesmo. Desinteresse metafórico a sublinhar a precariedade de certos laços familiares. O terceiro trecho relevante mostra, já perto do final, o diálogo de pai e filho com a atendente de empresa de marketing, responsável pela emissão da suposta carta de crédito que fez o protagonista viajar centenas de quilômetros. A atmosfera de desprezo dela é contrastada por resposta contundente do David: “Meu pai acredita em tudo que lhe dizem”. A quarta e também expressiva sequência mostra sua antiga namorada se deparando com Woody ao volante de vistosa caminhonete. Seu olhar se encanta e viaja décadas no tempo. Lindas imagens.

Sucatas humanas?

O mundo apresentado em Nebraska está cindido pelo preconceito contra pessoas idosas, mesmo que estas apresentem sinais vitais satisfatórios em suas faixas etárias. Chegam a ser consideradas sucatas humanas, como sugere, nas entrelinhas, a histriônica esposa de Woody, Kate, falando com naturalidade em “asilo para gente velha”. O paradoxo é que ela faz afirmações do gênero sem a mínima preocupação de se olhar no espelho. Woody fala com os olhos. E faz a história andar. “Ele quer algo para lutar. E não precisa de ninguém para analisar suas condições físicas e psíquicas. Quem quiser ajudar será bem-vindo” Assim disse o ator Bruce Dern na entrevista de lançamento do filme, a respeito do jeito de ser e agir do personagem que viveu.

Bruce Dern ou Jack Nicholson?

A Paramount queria Jack Nicholson como protagonista. O diretor Alexander Payne preferiu o veterano Bruce Dern, dono de extensa biografia cinematográfica, com destaque para o último filme de Hitchcock (Trama Macabra, 1976) e também para a versão de O Grande Gatsby, estrelada por Robert Redford (1974). Desta vez, JN não fez falta.

Escrito por José Jardelino da Costa Júnior

Caçadores de Obras-Primas. Título na língua original: Monuments Men. Ano da produção: 2014. Países de origem: Alemanha, EUA. Direção: George Clooney.

Caçadores de Obras-Primas. Título original: Monuments Men. 2014.  Alemanha, EUA. Direção: George Clooney.

Além Clooney, Caçadores de Obras-Primas tem elenco estelar: Cate Blanchett, Matt Damon, Bill Murray, Jean Dujardin, John Goodman e Bob Balaban.

 Ao assistir um filme, o espectador explicita sentimentos. Projeta-se nos personagens e situações. A conexão pode ser enviesada. Ou direta, como nos textos dos escritores rocambolescos Alexandre Dumas e Julio Verne. Caçadores de Obras-Primas (Monuments Men - Alemanha – EUA – 2014) já nasce clássico e provoca imediata simpatia da plateia para com o grupo protagonista. A narrativa é convencional, começo, meio e fim. Não há flashbacks ou sofisticados recursos de computação gráfica. A embalagem, no entanto, esconde conteúdo que pode ser considerado tesouro da Sétima Arte e merece ser avaliado com atenção. A essência do filme está nos seus inúmeros e relevantes detalhes. “O mais cruel dos sanguinários pode tentar eliminar uma civilização, começando pela matança em larga escala. Mas, ele sabe que o morticínio não será suficiente. Apenas poderá pensar em atingir seu objetivo, se conseguir destruir ou se apoderar da memória cultural e artística daquelas populações”. A reflexão do tenente do exército americano Frank Stokes (George Clooney) vai permear todos os acontecimentos que estruturarão o roteiro, a partir de então.

Aventura de se desdobra em interessante reflexão política 

Baseado em fatos reais, Caçadores de Obras-Primas conta a odisseia de grupo de especialistas em obras de arte que integravam as tropas aliadas, em 1944. Com o fim do conflito já próximo, decidem empreendimento ousado: localizar, resgatar e devolver aos legítimos donos quadros e esculturas valiosas, roubadas pelos nazistas. O acervo incluía Michelangelo, Rodin, Monet, Renoir, Da Vinci. Antes de assumir o poder, Adolf Hitler tentou ser pintor. Foi reprovado, por mediocridade acentuada. Ego transtornado, tão logo consolidou a conquista de parte da Europa, planejou criar o maior espaço cultural do planeta, na cidade alemã de Siegen. Para isso, deu carta branca a Hermann Göring, um dos seus mais próximos. Ele deveria se apoderar do acervo artístico localizado no continente europeu, que seria reunido no maior museu do planeta, a ser criado pelo Terceiro Reich. Emblemática forma de sinalizar o controle sobre a alma de povos que se opunham ao delírio esquizofrênico do predomínio da suposta raça ariana sobre o resto do mundo. Enganam-se os que vierem a pressupor que o filme adentra pelos surrados clichês do maniqueísmo rasteiro. Também sobram alfinetadas para os russos, sutilmente apresentados como os novos bárbaros que iriam instalar na área ditadura que substituiria o nazismo. E crítica afiada até para o trio de generais-comandantes das tropas aliadas, os americanos Eisenhower, Marshall e Patton, que apenas teriam valorizado a missão, quando ela descobriu, por acaso, as milhares de barras de ouro 2

que compunham o lastro econômico do Estado alemão. Teria aquela montanha de dinheiro sido usada pelos Estados Unidos em benefício dos seus interesses geopolíticos justamente para criar, depois da guerra, um programa econômico — o Plano Marshall – objetivando recuperar a economia dos países atingidos pelo conflito? Caridade, com o dinheiro dos vencidos?

Seis homens, uma mulher e um único destino Suspense, drama e aventura se fundirão na movimentada trajetória que George Clooney transformou em filmaço. Também diretor e autor do roteiro, ele contou com elenco de primeira grandeza: Cate Blanchett (que concorre ao Oscar de Melhor atriz, por sua atuação em Blue Jasmine), Jean Dujardin (o francês que recebeu a estatueta de Melhor Ator em 2012 por O Artista), mais os premiados Matt Damon, Bill Murray, John Goodman e Bob Balaban. A história avança com a chegada do grupo à Normandia, poucas semanas depois do histórico desembarque das forças aliadas. Surpreendentemente, são recebidos pelos comandos americanos com certo desprezo, traduzido de forma explícita com a não disposição para colaborar com o tenente Stokes.

Rendição da Alemanha próxima. Tempo escasso. Missão com risco de ser sumariamente encerrada

Precisaram, então, improvisar e descobrir meios heterodoxos para levar adiante a missão. Dividiram-se em grupos que iriam explorar possibilidades em cidades diferentes. O tempo estava contra eles. Tão logo viesse a ocorrer a rendição da Alemanha, a tarefa a que se propunham estaria inviabilizada. O tenente James Granger (Matt Damon) encontra a colaboração de um francês da Resistência, que tinha avião escondido em longínqua propriedade rural. Consegue chegar a Paris, onde localiza Claire Simone (Cate Blanchett), que havia sido secretária do oficial alemão encarregado por Göring de centralizar e despachar para a Áustria o acervo roubado. Embora simpática aos aliados, era uma mulher tensa, desconfiada e, sobretudo, amargurada com a perda do irmão, que acabara de ser assassinado pela SS, a polícia secreta alemã. Enquanto isso, os outros estavam fazendo descobertas periféricas, mesmo enfrentando risco de morte nos encontros com remanescentes do exército germânico. Notícias vindas da frente Leste confirmavam a chegada dos russos a Alemanha. Estava iniciada a contagem regressiva para o término da missão. Queimar etapas àquela altura seria quase impossível. Mas, era a única opção disponível. George Clooney, ex-apoiador de Obama, democrata rebelde 

Desde que se transformou em astro internacional, o americano George Clooney tem mantido postura crítica acentuada em relação à maneira como os Estados Unidos vêm agindo na cena política interna e externa. Colaborador assumido do Partido Democrata e apoiador da primeira eleição de Barack Obama, lentamente foi revendo posições. Transferiu sua produtora para a Itália. Desde então, tem mantido postura crítica acentuada em relação à forma de gestão do país. Sinaliza certa decepção com o próprio Obama. Tudo Pelo Poder, filme que também dirigiu e protagonizou em 2011, pode ser considerado como autópsia dos meios usados pelos democratas. Além de inteligente, George Clooney é refinado, culto e 3  admirado pelo público americano. Trabalha com sutilezas que a arte cinematográfica permite. Dificilmente abrirá área de confronto ao estilo Edward Snowden.

Ir contra a corrente… Será que valeu a pena?

Na sequência final de Caçadores de Obras-Primas, o tempo avança para 1977. Lá está o já aposentado tenente Frank Stokes, na companhia de um neto, visitando museu com algumas das obras resgatadas por seu grupo, trinta e três anos antes. Em pensamento, pergunta e responde: “Será que valeu o sacrifício? Claro que valeu!”. Mais uma sutileza do ator-cineasta e roteirista, que permite inúmeras ilações.

Além Clooney, Caçadores de Obras-Primas tem elenco estelar: Cate Blanchett, Matt Damon, Bill Murray, Jean Dujardin, John Goodman e Bob Balaban.

 Escrito Por J.Jardelino

O Lobo de Wall Street. Título na língua original: The Wolf of Wall Street. 2013. EUA. Direção: Martin Scorsese. Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Kyle Chandler, Rob Reiner, Jean Dujardin.

Filme deverá ser o destaque ou a polêmica no Oscar. Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio, diretor e protagonista, em magníficas performances.

Martin Scorsese acerta mais uma vez. O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street - EUA – 2013) funciona como enorme holofote a iluminar obscuras situações e comportamentos entranhados nos porões de Wall Street – o único dinheiro verdadeiro que se observa aqui são as nossas comissões. Quase todo o resto é ficção, assevera experiente corretor a Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) nos seus primeiros dias na Bolsa. De fato, os que colocam suas economias nas mãos daqueles corretores sabem que o terreno ali é movediço, fenômeno que estimula oscilações maníacodepressivas. Naquela atmosfera bipolar, as pessoas se movem quase sempre de forma instintiva. O ambiente realmente se assemelha ao de uma selva, que acolhe fauna variada. Lobos, por exemplo. Mesmo os de segunda classe, como Jordan Belfort. O filme baseou-se em livro que o próprio escreveu. Claro que Scorsese, assessorado pelo roteirista Terence Winter, trabalhou intensamente para transformar o material de base em argumento cinematograficamente atraente. Conseguiu essa façanha ao vencer o primeiro desafio. O desafio da estética. Poderia ter usado linguagem realista, cinema-verdade. E assim atendido às expectativas do pessoal do movimento “Ocupe Wall Street” e simpatizantes. Preferiu o seu jeito, o da gramática cinematográfica, que nem sempre é linear. Decidiu buscar inspiração no estilo de um dos seus mestres, Federico Fellini. O maestro considerava o mundo um circo. E é impossível não perceber a alegoria circense explicitada desde a primeira sequência de O Lobo de Wall Street, com um anão sendo arremessado em direção a alvo cartunesco. A partir de então, não será difícil o espectador distinguir os trapezistas, palhaços, mágicos, até encantadores de serpentes. Jordan Belfort seria espécie rara de simbiose destes.

Respeitável público…!

Jordan Belfort faz as vezes do apresentador, burlesca cartola à mão, que emula a plateia, criando suspense sobre a atração seguinte. Ele quase diz para os seus subordinados: “Agora, algo que vocês nunca viram. Uma ação que vale nesse momento vinte centavos atingirá preço cem vezes maior em menos de quatro horas!”. Com essa retórica, convida o espectador a embarcar em montanha russa alucinante, onde predominarão trapaças e adultérios, temperados por bebedeiras intermináveis e abundante consumo de barbitúricos e cocaína, esta cheirada diretamente dos mais variados

orifícios de belas mulheres de aluguel. Mais: diálogos onde o substantivo “foda” e o verbo “foder” são repetidos a cada minuto. Ainda seguindo pela  trilha felliniana, Scorsese deve ter exibido para o elenco Cidade das Mulheres, (filme-fantasia sobre sonho do personagem de Marcelo Mastroianni), com o objetivo de passar a “atmosfera” pretendida. Esqueceu, no entanto, de puxar o freio de mão na hora em que a câmera de O Lobo de Wall Street foi ligada.

Sem limites

Aos 22, Jordan Belfort é apresentado a Wall Street. Nível cultural e moral raso e ambição na estratosfera, aquele contato foi amor à primeira vista. Vai trabalhar numa das corretoras credenciadas. Mal chegado, a empresa é tragada por um desses tsunamis financeiros periódicos que dizima os especuladores mais ousados. Cai em depressão e começa a examinar possibilidades em anúncios de emprego. Já havia decidido se candidatar ao cargo de reles repositor em loja de ferragens, quando sua primeira mulher lhe aponta para um grupo de “consultores financeiros” outsiders, que funcionavam quase clandestinamente. Eram especializados em tungar trabalhadores sem instrução ou informação. Instantaneamente, Belfort  transforma-se no senhor absoluto daqueles escroques de quinta. Naquela selva de ratos e hienas, ele, mesmo sendo lobo de estirpe inferior, logo é considerado o passaporte para voos mais elevados. Os riscos aumentam e o dinheiro fácil se multiplica. Na primeira oportunidade, Belfort se livra da mulher e compra uma nova, Naomi Lapaglia (Margot Robbie). O seu comportamento torna-se hiperbólico; a partir desse ponto não teria mais limites. É quando finalmente a comissão de valores mobiliários, órgão regulador e fiscalizador do sistema, acende o luz vermelha e envia o sinal para o FBI. Tosco, Belfort cai na primeira armadilha que o agente Patrick Denham (Kyle Chandler) lhe prepara.

Síndrome de Peter Pan

Em paralelo à estética felliniana, O Lobo de Wall Street tem conteúdo psicanalítico marcante. Ao escrever suas memórias, Jordan Belfort praticamente se deita no divã. Sendo uma pessoa apenas instintiva, nível cultural precário, provavelmente não percebeu que, ao narrar suas peripécias, terminou por se revelar por inteiro. Coube com certa folga na ”Síndrome de Peter Pan”, diagnosticada em vários homens jovens no início dos anos 80 do século passado pelo psicanalista americano Dan Kiley. A principal característica daquele desvio ético é o estado de imaturidade emocional, que começa com ansiedade e narcisismo e termina em desespero. Pessoas incapazes de encarar sentimentos e responsabilidades dos adultos. No esforço para dissimular essa anomalia, recorrem ao fingimento e à falsa alegria. Impossível não ligar Jordan Belfort a esse paradigma de comportamento. Uma das sequências finais, quando voltou atrás em acordo que o livraria para sempre das encrencas, atesta que padecia daquele estado molesto. Era um peter pan hipertrofiado, o menino que se recusou a crescer. Nunca lhe impuseram limites. Quando teve oportunidade, avançou nas falcatruas contra gente simples. Apenas teve seu caminho interrompido, quando tentou adentrar na alcateia profissional. Lobos com pedigree não se misturam a tipos como ele. Assim funciona Wall Street. Apenas animais de categoria inferior como Jordan Belfort são capturados. Essa é a linguagem subjacente que Scorsese deixa perpassar durante todo o filme. Aliás, filmaço.

Coadjuvantes que potencializam o resultado

Donnie Azoff (Jonah Hill) funciona muito bem como sócio (e contraponto) de Belfort. Juntos são responsáveis por várias das melhores sequências durante as três horas de filme. O mesmo ocorre, um degrau abaixo, com o ótimo Rob Reiner, no papel do pai do protagonista. E Scorsese ainda se dá ao luxo de incluir ninguém menos que Jean Dujardin, o francês dono da estatueta do Oscar de Melhor Ator pelo desempenho em O Artista (2012). Só ele para dar vida e certo charme decadente ao banqueiro suíço Jean-Jacques Saurel.

Oscar de Melhor Ator mais do que merecido para Leonardo DiCaprio

A estatueta já deveria ter vindo com O Aviador (2004), quando incorporou um Howard Hughes magnífico. Ou oito anos depois, na pele do inescrutável diretor do FBI, J. Edgar Hoover, em J. Edgar (2012). O fato é que a Academia deve a homenagem a Leonardo DiCaprio. O Lobo de Wall Street poderá corrigir essa lacuna. Pode. Deve. Precisa.

Escrito por José Jardelino da Costa Júnior

12 Anos de Escravidão. Título original: 12 Years A Slave. – 2013. Grã-Bretanha, EUA.- Steve McQueen. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong’o, Paul Giamatti, Sarah Paulson.

Elenco afinado tem Michael Fassbender, Chiwetel Ejiofor, Lupita Nyong’o, Paul Giamatti e Sarah Paulson em atuações fabulosas. Drama concorre às principais estatuetas do Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor.

A crise de confiança na monarquia inglesa, provocada pela instabilidade da relação entre princesa Diana e a rainha Elizabeth II foi aparentemente encerrada no acidente que vitimou a primeira. Restaram, no entanto, sentimentos recalcados dos súditos contra a soberana. Anos depois, o cineasta inglês Stephen Frears realizou Rainha, filme magnificamente interpretado pela inglesa Helen Mirren. Recebeu a estatueta do Oscar de Melhor atriz pelo papel e contribuiu para restabelecer o prestígio da instituição monárquica na Grã-Bretanha. A ajuda que deu à realeza mereceu convite especial da própria Elizabeth, para inusual chá de agradecimento, em bucólica tarde no Palácio de Buckingham. Assunto superado, quase ninguém fala mais no caso.

Os Estados Unidos da América do Norte, maior potência do Ocidente, parecem ter despertado para o mea culpa pela escravidão que patrocinaram apenas depois de eleger o primeiro presidente afro-descendente. Ao contrário da Santa Madre Igreja de Roma, que agiu de forma direta através das palavras corajosas do Papa João Paulo II: pediu desculpas formais ao mundo pela perseguição que a Inquisição promoveu contra Galileu.

O grande vizinho do Norte tem suas peculiaridades. Às vezes, age de forma enviesada. O pedido de desculpas pelo patrocínio do comércio de seres humanos foi delegado à poderosa indústria cinematográfica. Com acesso a pesquisas qualitativas que aferem sentimentos — e não apenas opiniões — Hollywood começou a trabalhar desde o ano passado, pelas mãos competentes de Steven Spielberg, um dos seus mais autênticos representantes. Fez um filmaço, Lincoln, cujo foco foi exatamente a aprovação da lei que aboliu a escravidão no país.

Steve McQueen eleva a temperatura na abordagem dos malefícios da escravidão

Lincoln, no entanto, não foi suficiente para amenizar sensação atávica de culpa. O comentário de Manohla Dargis, crítica de cinema do maior jornal americano, o New York Times, sinaliza o sentimento ainda predominante: “É o primeiro filme que torna impossível para nós continuar vendendo mentiras e mistificações, por mais um século“. Não era a Lincoln que se referia, mas a 12 Anos de Escravidão (12 Years A Slave - Grã-Bretanha – EUA – 2013), do cineasta inglês e afro-descendente Steve McQueen, craque quando é preciso focar a câmera na alma dos personagens, esmiuçar traumas, perversões e complexos, para expô-los, quase crus, à análise da plateia. Já tinha conseguido essa façanha com o ótimo “Shame/Vergonha” (2011), quando tratou dos conflitos internos poderosos do publicitário novaiorquino Brandon (Michael Fassbender), viciado em sexo. Realizou trabalho bem diferente do dinamarquês Lars von Trier, autor do recém-lançado Ninfomaníaca, que tratou de tema parecido. Nesse cotejo, conseguiu resultado mais refinado.

História real e cruel, que precisa ser bem contada, para não se repetir, com outros pretextos

12 Anos de Escravidão, é baseado na autobiografia do violinista Solomon Northup, (bem) interpretado por Chiwetel Ejiofor. Casado, duas filhinhas, cidadão livre, cai numa cilada quando fazia concerto em Nova Iorque, nos Estados Unidos de meados do século XIX. Sequestrado, tem seu nome trocado para “Platt”. Na sequência, é vendido como escravo no Estado sulista de Louisiana. Lá, submetido aos maus tratos de sempre. Com a conivência de homens e mulheres de comportamento omisso ou perverso. A câmera do diretor Steve McQueen mostra-se eficiente em captar sofrimentos de alma — não apenas de corpos. E apimenta a narrativa, com a ênfase nos estupros que o senhor branco Edwin Epps (Michael Fassbender, magnífico, em nova aliança com o diretor) comete diuturnamente na jovem e bela escrava Patsey (Lupita Nyong’o). A sequência adquire importância nessa Casa Grande e Senzala americana, porque sublinha o comportamento subalterno e covarde de mulheres da elite, como a bela branca Mistress Epps (Sarah Paulson).

Esta sabe das escapadas do cônjuge na direção da escrava. E, claro, não o enfrenta. Prefere açoitar o objeto de desejo sexual do marido, em atitude de transferência de sentimentos recorrente naqueles tempos atrasados. E, ainda hoje, apenas de maneira menos explícita. Outra atuação soberba: Paul Giamatti, como o notório Freeman.

Alguns portugueses na contramão

O filme-denúncia de Steve McQueen foi bem recebido pelo público e pela crítica em escala mundial, com algumas histéricas exceções em Portugal. No blog CineCartaz, os gajos, em ato-falho quase explícito, reafirmam sentimento atávico de culpa; vários antepassados deles repetiram, aqui no Brasil, comportamentos iguais ou piores aos do casal Epps. Mas, aparentemente, se esqueceram disso. E preferem criticar, de maneira tosca, o filme, com avaliações risíveis: “A montanha pariu um rato — Paulo Pinto“; “Foi só (!!!!) espancamento e chicote… filme booring — Luís Felipe“; “Esse rapaz (o diretor Steve McQueen) sofre de profunda crise de identidade… Há quem diga (Quem, cara pálida?) mesmo que, pela forma como retrata a escravatura, já não sabe sequer se é negro ou branco. Não haverá por aí um psiquiatra disponível? Não precisa ser barato, pois esse filminho esquizofrênico… Luís Telles“. Impossível saber se são jornalistas ou medíocres anônimos. Infelizmente, o comportamento preconceituoso atravessou o Atlântico e contaminou textos de colunista português, a quem grande jornal brasileiro concede generoso espaço.

Prestígio em ascensão rumo à consolidação do status de autor

Com 12 Anos de Escravidão, Steve McQueen se afirma na cena planetária do Cinema com as credenciais de futuro autor. Suas obras até agora têm conseguido transmitir o sentido de várias das múltiplas facetas da condição humana.

Parafraseando o psicanalista carioca Waldemar Zusman (Os Filmes Que Eu Vi Com Freud - Editora Imago), os trabalhos dirigidos por McQueen “são extraordinários campos de objetivação e observação dos funcionamentos mentais”.

Escrito por José Jardelino da Costa Júnior

Intersection, Uma Escolha, Uma Renúncia. Título na língua original: Intersection. 1993. – EUA. Direção: Mark Rydell.

Richard Gere, Sharon Stone e Lolita Davidovich juntos pela primeira e única vez num filme. Cineasta Mark Rydell estrutura roteiro inteligente, com final que ninguém adivinha.

Desde o êxito da narrativa em flashback que marcou a estética inovadora de Cidadão Kane (1941), o recurso voltou a ser aplicado com sucesso pelo mestre absoluto Billy Wilder em dois outros magníficos filmes, um suspense (Pacto de Sangue, 1944) e um drama (Crepúsculo dos Deuses, 1950). Estruturar o filme de forma a que um trecho do final apareça logo nos primeiros minutos potencializa a atenção do espectador; este fica colado na poltrona e ansioso por saber o porquê da situação que acaba de assistir. A tática exige muito do diretor. Alguns segundos a mais ou a menos podem fazer a diferença. E fazem mesmo. O cineasta americano Mark Rydell (Num Lago Dourado) reafirmou seu talento ao montar um dos seus melhores trabalhos, Intersection, Uma Escolha, Uma Renúncia (Intersection - EUA - 1993) todo com idas e vindas, três anos para trás, ou retorno ao presente. Conseguiu movimentar bem a trama, apenas sinalizando o tempo através da cor dos cabelos do protagonista Vincent Eastman (Richard Gere).

Bela refilmagem do filme francês Les Choses De La Vie

A estética bem construída precisou de conteúdo. E teve. Aliás, conteúdo ligado aos mais profundos sentimentos dos protagonistas. Na verdade, um triângulo do qual ainda fazem parte ninguém menos que Sharon Stone, em sua primeira performance depois de Instinto Selvagem, e a sexy Lolita Davidovich. Quem pensar que irá encontrar o trivial, o folhetim novelesco, terá enorme surpresa. A primeira grande qualidade do filme é a sua imprevisibilidade. Ninguém advinha o final. A segunda grande característica de Intersection está no tema. Existe uma palavra que resume tudo o que o protagonista faz e porque: dilema. Para a plateia, era mais do que óbvia a decisão que ele deveria tomar. Para ele, não. E o diretor apenas permite que o espectador vá encaixando as peças do quebra-cabeças da trajetória de Vincent aos poucos. Serve menu degustacion cinematográfico em que cada fase do roteiro representa surpresa com sabor diferente. Poucos filmes podem receber o adjetivo de “marcante”. Intersection é um deles. Mérito do chef cinematográfico Mark Rydell.

Entre dois amores

Intersection apresenta trecho relevante da vida do arquiteto Vincent Eastman. Havia se casado com a bela Sally (Sharon Stone), também arquiteta. O escritório que montaram juntos obteve êxito muito acima das melhores expectativas dos dois. “Eu planejo e você cria”, afirmava ela para o marido, contabilizando e organizando bem a retaguarda dos negócios. Ainda tinham uma filha. No filme, Meaghan (Jennifer Morrison) já é pósadolescente, promissora no balé clássico. Família perfeita, como avaliou o sócio Neal (Martin Landau). Acostumado com as linhas retas e curvas previamente planejadas, Vincent se descobre interessado em outra mulher, a jornalista Olivia Marshak (Lolita Davidovich), que havia conhecido num

leilão. Do flerte inicial, paixão intensa, velocidade de fórmula 1. O clima com a esposa esfria. Ambos percebem atmosfera não identificada invadir relacionamento que sempre havia funcionado bem. A obsessão por Olivia toma conta de Vincent e o faz supor que sua esposa não lhe tinha mais afeto. Certo dia, quando lhe conta oficialmente que existe outra, assiste, com enorme surpresa, Sally, sempre racional e aparentemente fria, desabar, sob forma de ataque histérico. Estava criado o dilema de Vincent.

Entregava-se à nova relação? Ou voltava para a mulher e tentava reconciliação? Para complicar ainda mais sua posição, a filha, claro, tomou partido da mãe. Vincent teria que passar por algumas situações, inclusive noite mal dormida dentro do próprio carro para dar um mergulho dentro de si e descobrir o que efetivamente lhe traria felicidade. Os primeiros sinais de que estaria próximo da conclusão que mudaria sua vida começam a aparecer em seu olhar. De repente, numa parada em longínqua estrada, ele encontra garotinha de cinco anos que ajudava o avô a entregar pães caseiros. Esta lhe oferece um doce. Ele aceita. Olha pra menininha, sorri. E toma a decisão de sua vida. O avô ainda lhe bate no ombro para perguntar se ele estava perdido. “Não mais”, é a resposta de Vincent, que vem junto com o sorriso de quem acaba de saber o que será melhor para si. Mas, a vida não funciona como no seu escritório de arquitetura; linhas previamente traçadas podem encontrar obstáculos inesperados e intransponíveis.

Desfecho inteligente, um dos melhores já apresentado pelo Cinema.

A sequência final é magistral. Mark Rydell constrói epílogo repleto de imagens que emocionam e adentram nos sentimentos da plateia. A forma como resolve a equação da vida de Vincent é uma das mais bem elaboradas da história do cinema romântico.

Elenco magistral

O trio protagonista esteve perfeito. Cada um muito bem situado com relação ao personagem que interpreta. Richard Gere é Richard Gere. Dispensa apresentações. Sharon Stone surpreende em performance dramática que é oposto do seu personagem-fatal em Instinto Selvagem, aqui elegantérrima ao estilo channel. E Lolita Davidovich ruiva, sexy, insinuante.

Escrito por José Jardelino da Costa Júnior

Blue Jasmine. Título na língua original: Blue Jasmine. Ano da produção: 2013. País de origem: EUA. Direção: Woody Allen. Elenco: Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins

Blue Jasmine. 2013.
País de origem: EUA.
Direção: Woody Allen. Elenco: Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins

Diretor e autor do roteiro, Woody Allen esculpe em ex-socialite símbolo da decadência consumista

Woody Allen surpreende com visita inesperada a modelo de comportamento cada vez mais repetido nos tempos consumistas de agora. Em Blue Jasmine (Blue Jasmine – EUA – 2013) sugere que a protagonista destrua seu estilo interesseiro e lhe propõe novo jeito de pensar e de agir. Embute crítica mordaz a certa elite apegada aos velhos hábitos e costumes. Parece até que o diretor chega a sussurrar nos ouvidos de Jasmine (Cate Blanchett). Nas circunstâncias do roteiro, a ruptura com os valores que ela mais prezava. Deveria abrir espaço para atitudes diferentes. A oportunidade para isso estaria na mudança da sofisticada Nova Iorque. Dali para uma São Francisco despojada, suburbana até, vez que seria nos arredores da cidade que Jasmine iria se instalar. O destino era morar com a irmã de criação Ginger (Sally Hawkins), simplória, classe média baixa. E, paradoxalmente, feliz, naquela atmosfera distante de qualquer pessoa, objeto ou hábito considerado minimamente sofisticado.

A socialite e a proletária

Jasmine acostumara-se a viver no centro da elite novaiorquina, que reside no quadrilátero formado pela Quinta Avenida, Madison e Park, entre as ruas 53 e 70. Entre jantares beneficentes hipócritas e relacionamentos falsos, ela exercita a sua convivência diária com estilo marcado pelo culto à futilidade. Ali, os deuses têm nomes consagrados. Louis Vuitton, Salvatore Ferragamo, Mouton Rothschild, Porsche, BMW, Channel e outros. É casada com o milionário Hal (Alec Baldwin), especialista em consultoria financeira, especialmente com o dinheiro dos outros. Típica socialite, como tantas que habitam o circuito elizabeth arden (Londres/Paris/Nova Iorque), certo dia descobre que o marido está apaixonado por mulher vinte cinco anos mais jovem. Padecendo simultaneamente dos complexos de inferioridade (por conta de sua origem simples) e de Cinderela, ela desaba. Seu ego entra em queda livre quase interminável, o que agudiza seu estado psicológico. Traços esquizofrênicos apareceriam depois, quando começa a falar sozinha. A irmã, do seu jeito direto e sincero, tentará ajudá-la. Enorme desafio, tendo em vista a estrutura psicanalítica de uma e de outra.

Woddy Allen de Jasmine supera o Woody Allen de Meia-Noite Em Paris

Diretor volta aos temas densos, que caracterizaram a influência de Ingmar Bergman sobre sua obra (Setembro, Interiores). A diferença: esse retorno é por via menos pesada. Ao contrário, os diálogos e as situações foram propositalmente construídos para ter — e têm — aspecto suave e levemente irônico. Com Blue Jasmine, Woody Allen continua a evoluir, porque o seu jeito de trabalhar não negligencia a possibilidade de surpresas. Sabe que aquele é o caminho de que o Cinema se alimenta para dar passos além do lugar comum. Quem pensava que ele não superaria sua própria performance com o excelente Meia-Noite Em Paris, enganou-se. Agora, conseguiu resultado que rivaliza com cineastas mitológicos como Billy Wilder (Crepúsculo dos Deuses, Farrapo Humano, Se Meu Apartamento Falasse) e Orson Welles (Cidadão Kane, Soberba). E, certamente, contribuirá para que Cate Blanchett venha a ser séria concorrente à estatueta de Melhor Atriz, no Oscar 2014.

Escrito por J.Jardelino

Gravidade. Título na língua original: Gravity. Ano da produção: 2013. Países de origem: EUA, Reino Unido. Direção: Alfonso Cuarón. Elenco: Sandra Bullock, George Clooney.

Gravidade. Título na língua original: Gravity.
Ano da produção: 2013. Países de origem: EUA, Reino Unido. Direção: Alfonso Cuarón. Elenco: Sandra Bullock, George Clooney.

Gravidade, filme do diretor Alfonso Cuarón, mistura drama, ficção científica e suspense psicológico, com ótimo resultado.

Sandra Bullock volta a se reinventar como atriz e tem desempenho soberbo.

George Clooney vai muito além das exigências do roteiro para o protagonista masculino.

A mistura bem equilibrada de três gêneros — ficção científica, drama e suspense — confere qualidades raras a Gravidade (Gravity – EUA – Reino Unido – 2013). O diretor Alfonso Cuarón soube usar os 100 milhões de dólares que a produção consumiu para realizar filme que prende a atenção da plateia, do primeiro ao nonagésimo minuto; aliás, uma das virtudes do filme é exatamente essa: não se percebe o tempo passar. A narrativa linear e a existência de praticamente um único cenário são enriquecidos por fotografia soberba e efeitos especiais magníficos.

Mergulho nos confins da alma humana

Perda de tempo entrevistar astronautas, a fim de checar as possibilidades trazidas pela história, como fizeram alguns críticos. Trata-se de obra de ficção. Como tal, tem as licenças para navegar, como de fato navega, pela imensidão incomensurável da alma humana e destacar a maior das aflições: a solidão. Diante da imensidão do espaço, a protagonista divaga e regride aos tempos de mãe de filha recém-nascida. As circunstâncias se agravam com a perspectiva do desconhecido e provocam situação de desassossego intensa o suficiente para fazê-la desistir de viver. Paradoxalmente o delírio a salva, quando lhe permite conexão com quem provavelmente já estava morto. Nessa parte, propositalmente, o roteiro inocula o bacilo da dúvida no espectador. Um espírito de luz, salvador? Ou simplesmente o desejo de viver que faz o ser humano superar limitações e encontrar respostas para intrincados dilemas. Seria possível a uma engenheira-médica, em sua primeira viagem espacial, pilotar equipamentos russos, com manuais de instrução escritos no alfabeto cirílico. Ou chineses, com modus operandi expresso em mandarim? Nesse trecho de Gravidade, o diretor Alfonso Cuarón se permite várias sequências ao estilo do mestre Stanley Kubrick, nos minutos finais do maior de todos os filmes de ficção científica, 2001, Uma Odisseia no Espaço, que, em verdade, é um excepcional exercício filosófico sobre a condição humana (ver bloco de texto no final).

Alô, astronautas! Aqui é Houston. Vocês têm problemas. Enormes.

Gravidade começa com longos planos-sequência do espaço sideral e focaliza dois astronautas flutuando no infinito em 3D. Ali está o experiente Matt Kowaski (George Clooney), em sua última missão antes da aposentadoria. Ao seu lado, estreante em viagens espaciais, a cientista Ryan Stone (Sandra Bullock). A missão de ambos: fazer reparos no Telescópio Espacial Hubble. Súbito, são informados pelo controle em terra que míssil russo destruiu um satélite e os destroços do equipamento estavam em rota de colisão com a estação orbital deles. Perigo real e imediato. Tentam voltar à nave, que é gravemente atingida. A partir desse ponto, a ficção científica é mesclada com ação rocambolesca e suspense psicológico bem urdidos. Precisavam chegar a uma estação espacial russa evacuada e dali para outra, chinesa. Era a única possibilidade de conseguir regressar à Terra. No final, a condição de náufraga da doutora Ryan é enfatizada com ela expressando enorme emoção no contato com alguns punhados de areia, em praia desconhecida.

Sandra Bullock em plena forma.

Literalmente. Sandra Bullock repete em Gravidade sua performance em Um Sonho Possível (2009). Afastou-se (temporariamente) das comédias românticas previsíveis e outros papéis meio insossos em filmes de detetive. Mostra, agora, seu lado como atriz que consegue exprimir (muito bem) todas as emoções de sua personagem. Carrega o filme praticamente sozinha. Como bônus, La Bullock ainda exibe, aos 49, corpo de matar de inveja muitas com menos de 25. A atriz está no auge da forma. Lato sensu.

George Clooney revive performance de Marlon Brando no primeiro Superman

Pauline Kael, a mais influente crítica de cinema do século 20, costumava afirmar que os filmes estrelados por Cary Grant já nasciam marcados pelo êxito. A saga continua no século 21, com o “sucessor” de Grant, George Clooney. Detalhe: na escalação inicial do elenco de Gravidade, o protagonista masculino escolhido foi Robert Downey Jr (Chaplin, Sherlock Holmes 1 e 2). Ainda na fase de pré-produção, durante as adequações do roteiro, o cineasta Alfonso Cuarón percebeu que o ator não teria o perfil adequado para o protagonista masculino. “Era um personagem que ‘exigia’ George Clooney. Mesmo com participação limitada a pouco mais de 30 minutos, ele faria a diferença.”. Foi exatamente o mesmo que aconteceu em 1978, quando da primeira produção da nova série de longas de Superman. Marlon Brando atuou por apenas 10 minutos, no papel de Jor-El, o pai verdadeiro do herói, no planeta Kripton. Recebeu 4 milhões de dólares e garantiu o êxito do primeiro e dos outros filmes que se seguiram, estrelados por Christopher Reeve.

Gravidade e 2001

Evidente que há grande diferença entre o inglês Stanley Kubrick e o mexicano Alfonso Cuarón. Do mesmo tamanho do abismo que separa 2001 de Gravidade. No entanto, será justo registrar semelhança entre um dos propósitos dos dois filmes. A sequência marcante de Gravidade ocorre no momento em que a personagem de Sandra Bullock se vê, sozinha, em módulo russo abandonado e sem combustível. O diretor Alfonso Cuarón jogou a câmera em seu rosto, em close impressionante, que revelou transformação no semblante dela, em poucos segundos. Saiu do medo (provocado pela solidão) para a sensação de bem estar, firmeza, confiança. Como se estivesse vislumbrando algo que a plateia não vê. Exatamente como Kubrick fez com o personagem David Bowman (Keir Dullea), nos minutos finais de 2001. Neste, o diretor introduziu o enigmático monolito negro, a simbolizar possível inteligência superior que comandaria o destino da raça humana. Em Gravidade, a única pista que Cuarón fornece está no olhar fascinado da doutora Ryan (Bullock). Qual seria o objeto de sua visão? Pergunta não respondida e, por isso, instigadora das mais diversas interpretações.

Escrito por J.Jardelino

Cartaz do filme Rush – 2013 Direção: Ron Howard Elenco: Daniel Brühl, Chris Hemsworth, Olivia Wilde, Alexandra Maria Lara

Filme do cineasta Ron Howard sobre Nick Lauda e James Hunt larga rumo ao Oscar 2014. Roteiro prende a atenção até de quem nunca teve interesse em corridas sobre corridas

O cineasta Ron Howard, autor de Uma Mente Brilhante e Frost/Nixon, acaba de acrescentar à sua filmografia outro filme de traços marcantes: Rush – No Limite da Emoção (Rush – EUA – Alemanha – Reino Unido – 2013). A produção tem personalidade. A estética é valorizada por imagens cuidadosamente esculpidas pelo diretor de fotografia Anthony Dod Mantley para remeter a 1976. Externas marcadas por cores fortes, levemente ”estouradas”, levam a plateia para a atmosfera do embate que marcou os dois personagens principais. O cenário era a Fórmula Um dos tempos em que não era preciso apenas ser veloz. Sobreviver e vencer exigia coragem e talento excepcionais. Computadores ainda em fase embrionária deixavam o comando dos carros nas mãos e nos pés dos pilotos. Cada período daquela década fez brotar duplas de exímios protagonistas. Rush esmiuça a rivalidade entre o austríaco Nick Lauda (Daniel Brühl) e o inglês James Hunt (Chris Hemsworth). Antes deles, nosso Emerson Fittipaldi e sua Lotus preta patrocinada pelos cigarros ingleses John Player Special e o “escocês voador” Jackie Stewart, piloto principal da equipe Tyrrel-Ford, duelaram na primeira metade daquela década e produziram lances inimagináveis. Na sequência de Lauda/Hunt, outro brasileiro, Nelson Piquet, e o seu voraz perseguidor, o imprevisível inglês Nigel Mansell. Depois, já na década seguinte, outra dupla de heróis corajosos e inesquecíveis: Ayrton Senna e Alain Prost.

Fatores externos produziram lances originais e surpreendentes

A disputa entre Nick Lauda e James Hunt rendeu um bom filme por conta dos fatores extra-pista. Rivalidade muito além dos quase trezentos quilômetros por hora. Um era oposto do outro. Antropologicamente, a raiz germânica do austríaco Nick Lauda fez dele um piloto-engenheiro. Conhecia cada detalhe do carro que ajudava a projetar. Sob o aspecto psicanalítico, era quase um estóico. Raramente se deixava levar pela emoção. Do outro lado, James Hunt, inglês com inequívocos traços irlandeses, instintivo e dono de coragem apenas explicável por provável ascendência celta. Um e outro fizeram da temporada de 1976 uma das mais imprevisíveis e perigosas da história da Fórmula Um.

Muito além de mero filme sobre corridas

Aos fatos reais, o diretor Ron Howard acrescentou pinceladas épicas. Eram pilotos de equipes arrojadas. Mas, poderiam ser gladiadores ou samurais. Em cada disputa, a genialidade do cineasta retirava o foco das pistas, pneus, motores e cockpits e lançava a câmera para dentro do olhar dos rivais. E avançava ainda mais, trazendo para a análise do espectador os sentimentos armazenados no inconsciente de Lauda e Hunt. Usou a Formula Um como embalagem. Quando aberta, duas almas não-gêmeas, em disputa irracional pelo primeiro lugar em podium egóico.

Velocidade, romances, decepções, reviravoltas

O combustível que acende de vez a rivalidade dos dois estava mesmo longe das pistas. Inquieto, Hunt encontra a bela Suzy Miller (Olivia Wilde) e lhe propõe casamento de imediato. Realizada a conquista, começa a desprezála, até que ela o abandona e cai nos braços de ninguém menos que o ator Richard Burton, que havia se separado, mais uma vez, de Elizabeth Taylor. Publicamente humilhado, Hunt parte para cima de Lauda e, de corrida em corrida, começa a se aproximar do austríaco, que liderava o campeonato.

Veio o Grande Prêmio da Alemanha e o acidente em que Lauda quase morre. Hospitalizado, não tirou os olhos da televisão. Obcecado pelo rival que já o havia ultrapassado no ranking, encontrou forças para recuperação inesperada, a tempo de encarar Hunt na última corrida, o Grande Prêmio do Japão. No conjunto de sequências finais, o diretor Ron Howard, craque, mostra tudo o que sabe. Cada minuto, uma eternidade, cada tomada, revelação de fragmentos das sensações dos contendores. Super closes nos olhares de um e de outro. Era uma corrida de Formula Um, mas poderia ser duelo ao estilo dos cowboys vividos por Clint Eastwood. Com uma única testemunha: o impassível Monte Fuji, ao fundo.

Russel Crowe iria interpretar Richard Burton

O australiano Russel Crowe iria viver em Rush o ator que inspirou sua carreira no cinema, Richard Burton. Os dois, inclusive, se parecem fisicamente, tanto quanto George Clooney e Cary Grant. Problemas de agenda não permitiram que o roteiro abrisse brecha efetiva para o romance da então esposa de Hunt, Suzy Miller, com o ex de Elizabeth Taylor.

Rush larga na pole position para o Oscar 2014

O filme reúne atributos para ser um dos favoritos ao próximo Oscar: um cineasta genial (Ron Howard), diretor de fotografia idem (Anthony Dod Mantley), dupla de protagonistas excepcional e duas coadjuvantes femininas, Olivia Wilde e Alexandra Maria Lara (Marlene Lauda), com alguma coisa no jeito de olhar e de sorrir, lembrando a letra inesquecível de ”Something” do beatle George Harrisson. E roteiro que, mesmo baseado em fatos reais, sai do lugar comum e encanta.

Escrito por J.Jardelino

A Família Título na língua original: The Family/Malavista Ano da produção: 2013 Países de origem: EUA, França Direção: Luc Besson

A Família
Título na língua original: The Family/Malavista-  2013
 EUA, França Direção: Luc Besson

Sátira sobre a máfia tem o cineasta Luc Besson como roteirista e diretor e se passa na região da Normandia

Elenco de estrelas em grandes performances: Robert De Niro, Michelle Pfeiffer e Tommy Lee Jones

O experiente cineasta e roteirista francês Luc Besson (Joana D’Arc) extrai de clichês de filmes sobre a máfia hilariantes situações, em comédia extraordinariamente bem elaborada. Roteiro ancorado no carisma de Robert De Niro, Michelle Pfeiffer e Tommy Lee Jones provoca boas risadas em ininterruptos 111 minutos. Sátira inteligente, diretamente conectada a ícones do porte de M.A.S.H. e de Máfia no Divã. O enredo desconstrói sequências antológicas de produções do gênero e leva a plateia para passeio em montanha russa de refinado bom humor. Além do elenco estelar, o que faz A Família (The Family/Malavista – EUA/França – 2013) funcionar bem são os diálogos inesperados que temperam acontecimentos absolutamente improváveis em pequena cidade francesa na Normandia. Junte-se a isso, o choque de costumes e os cacoetes excêntricos dos personagens. O resultado: diversão com algo a mais. Aliás, muito mais.

Encrenca à vista: família de mafioso novaiorquino vai morar em pequena cidade da Normandia

O mafioso Giovanni Manzoni (De Niro), a mulher Maggie (Michelle Pfeiffer) e os casal de filhos adolescentes, Belle (Dianna Agron) e Warren (John D’Leo) entram no programa da justiça americana de proteção a testemunhas, ganham novas identidades e novo lar, do outro lado do Atlântico, exatamente em bucólica cidade da região francesa da Normandia. Tudo sob a supervisão do veterano agente do FBI, Stanfield (Tommy Lee Jones). Decidem mudar de vida, mas levam na bagagem cacoetes do passado recente, o que significa usar o modus operandi da máfia para resolver questões corriqueiras. Uma vez instalados, voltam a ser o que sempre foram. Maggie, sentindo-se rejeitada por ser americana, reage de forma bem humorada, não sem antes explodir a mercearia onde a rejeição ocorreu. Warren adapta-se rapidamente ao liceu onde é matriculado. Sentese à vontade e em poucos dias já domina várias atividades ilícitas dentro dos muros escolares. Belle, linda, decide seduzir o professor de Matemática. E Giovanni, surpreendentemente, descobre-se escritor, ao achar velha máquina de escrever no porão da casa que passam a ocupar. A nova atividade intelectual não o impede de recaídas, sempre que contrariado, seja por reles encanador ou pelo poderoso dono de indústria de fertilizantes que polui a água potável do lugar. Ao introduzir os personagens e seus trejeitos, Luc Besson vale-se de cirúrgicas doses de humor negro, ao melhor estilo da Família Adams. Primeira sequência de gargalhadas. Enquanto isso, em Nova Iorque, os ex-companheiros denunciados por Manzoni, contratam assassino cruel para ir no encalço dos delatores. Tensão à vista. Mas, lentamente esmagada por roteiro carregado de boas porções do mais puro e requintado deboche. A trama avança para o final, com a exacerbação das caricaturas de cada um dos personagens. O nível de qualidade das situações se mantém, no entanto. Besson tem firmeza. Sabe onde deve chegar. E chega bem.

Outra grande qualidade do filme está no produtor. Ninguém menos que Martin Scorsese

A presença do cineasta Martin Scorsese garante qualidade de origem à produção. Desde a escolha do elenco, capitaneado pelo amigo de várias empreitadas bem sucedidas, Robert De Niro, passando por Luc Besson, o filme atinge a todos os objetivos a que se propõe. E ainda de dá ao luxo de homenagear o produtor. Numa das sequências, Manzonni, visto pela população da cidadezinha como escritor e intelectual, é convidado para debate sobre filme americano no salão de cultura local. Na telona: Bons Companheiros.

Outra homenagem: Sergio Leone, o cineasta italiano que lançou Clint Eastwood na cena mundial

A sequência da chegada de trem com assassinos de aluguel é diretamente inspirada nos faroestes que Sergio Leone realizou nos desertos espanhóis. Mais: a música que serve como trilha daquela seguência é exatamente um grande sucesso da banda Gorillaz, curiosamente chamado de “Clint Eastwood”. Jeito carinhoso de tratar lenda que está viva e em plena atividade (Clint) e outra (Leone), responsável por um dos mais belos filmes sobre a imigração italiana para os Estados Unidos e consequente surgimento da máfia, Era Uma Vez na América, cujo personagem principal foi vivido por Robert De Niro.

Filme foi realizado na Hollywood francesa, recém inaugurada, nos subúrbios de Paris

Chama-se “Cité du Cinéma” o complexo cinematográfico de 6 hectares, onde A Família foi realizado. Inaugurado no ano passado, em Seine-Saint- Denis, subúrbio de Paris, o empreendimento demandou investimento de 180 milhões de euros. Foi idealizado por Luc Besson e aproveitou instalações de antiga central elétrica. Representa enormes possibilidades para o cinema francês da geração pós-Truffaut e Godard.

Essência lacaniana na construção dos personagens

A contribuição do pensamento do psicanalista Jacques Lacan para o trabalho dos roteiristas franceses continua marcante. Em A Família, não foi diferente. Giovanni e Maggie são dois “simpáticos” psicóticos, porta-vozes, cada um, do “seu real”. Warren inspira-se na trajetória paterna para fazer o que faz na escola. E Belle assume narcisismo caricato, autoestima ancorada em estonteante beleza, tão frágil quanto uma Vênus de vidro.

 Escrito por J. Jardelino

Além do Arco-Íris – 2013 – França – Direção: Agnès Jaoui

Novo filme da cineasta francesa Agnès Jaoui constrói personagens reais, vibrantes, amorosos, engraçados, tristes e cínicos. E lança sobre eles potente carga de otimismo.

Em Além do Arco-ÍrisAu bout du conte – França – 2013), a cineasta Agnès Jaoui trabalha em terreno que lhe é familiar. Dirige, atua (interpretando a personagem Marianne) e escreve o roteiro em co-autoria com o marido, Jean-Pierre Bacri, outro protagonista (vivendo o insensível Pierre). O título do filme já indica para onde ele direciona sua câmera: as experiências diárias de pessoas normais. Naquele grupo, cabem neuroses de todos os tipos, além de sentimentos representados por fantasias em relação ao futuro e recalques de origens diversas. Com esse material de base, Agnès Jaoui materializa história caracterizada por saborosas doses de otimismo. Segredo raro, que torna os seus filmes originais e os personagens, vários deles, inesquecíveis.

Conto de fadas, com anjos, príncipes, princesas, reis e rainhas diferentes

Bela mulher, rica e jovem, Laura (Agathe Bonitzer), aos vinte quatro, sonha com príncipe encantado, que se materializa no inseguro Sandro (Arthur Dupont), carente como filho e talentoso como músico. Sua trajetória lhe traz insegurança no jeito de falar e outros fragmentos da infância, que poderão comprometer a relação amorosa recém-iniciada. Surge, então, diante de Laura, o cínico Wolf (Benjamin Biolay). Noutro trecho, o espectador é apresentado a Pierre, que encarna o egoísmo e insipidez. No enterro do pai, não demonstra qualquer emoção. Seu jeito de ser trouxe sequelas para a autoestima do filho (Sandro). Em paralelo, vive situação inusitada: vidente previu a data exata de sua morte, que seria em quatorze de março, dali a poucos dias. Passa, então, a transpirar ansiedade por todos os poros. O terceiro núcleo de personagens inclui Marianne (Jaoui), tia de Laura, separada, com ex-marido Éric (Laurent Poitrenaux), ainda apaixonado por ela, e filha adolescente em crise existencial.

A diretora escolheu para si o papel estruturador de todas as histórias, que se entrelaçam. Para Marianne, a vida é linda. Será ela o ponto irradiador de mensagens que ajudarão cada um a entender e aceitar o porquê dos caminhos, nem sempre retilíneos, de suas trajetórias. Não por acaso, a primeira sequência focaliza teatro infantil, onde Marianne interpreta fada- madrinha. O filme se encerra exatamente no mesmo ambiente do início, entre fábulas sobre princesas e príncipes. Eles até existem na vida real. Apenas com um detalhe: sem o “Foram felizes para sempre.” No seu lugar, Agnès Jaoui afirma, sorriso no olhar, que a vida continua.

Uma diretora francesa no clube dos deuses

Aos 48 anos, a francesa Agnès Jaoui está no ápice de sua carreira. Como atriz e também cineasta. Dirigir bem a si é façanha que apenas alguns poucos, na história do Cinema, conseguiram. Ela entra para o clube only for men frequentado por gênios do presente e do passado, como Charles Chaplin, Lawrence Olivier, François Truffaut, Robert Redford, Clint Eastwood, Dustin Hoffmann. Sua marca registrada é o olhar feminino que descontrai o cotidiano dos seus personagens, por mais complicadas que sejam suas vidas.

Escrito por J.Jardelino

Ig
abril 2014
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