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Novo filme de Clint Eastwood usa Freud para explicar a persona de um dos mais poderosos americanos do século 20

J.Edgar - EUA - 2011

Eastwood em seu filme mais freudiano – Em J.Edgar (J.Edgar – EUA – 2011), o cineasta Clint Eastwood literalmente retira o pano que sempre encobriu a personalidade de um dos mais poderosos americanos do século 20. Ninguém menos do que J. Edgar Hoover, fundador e líder supremo do Federal Bureau of Investigations – FBI, por quase cinco décadas. O enredo coloca sonda no inconsciente do personagem e, a partir dali, acende holofote sobre as fraquezas de quem tentou, sempre, se mostrar duro como um rochedo, por fora. O quarteto principal reúne arquétipos freudianos conhecidos: mãe castradora, Annie Hoover (Judi Dench, magnífica) e filho submisso, Edgar, que reprime e tenta esconder suas inclinações sexuais, por sentir medo da mãe, numa relação edipiana mal resolvida (Leonardo di Caprio, em grande performance, atingiu o que parecia impossível, que foi superar a sua atuação em O Aviador, quando incorporou o lendário magnata Howard Hughes). Há ainda o melhor amigo Clyde Tolson (Armie Hammer, perfeito em seu desempenho), como”libertador” das pulsões sexuais recalcadas, alvo da paixão do outro, devidamente correspondida. E mulher bela e jovem (Helen Gandy, vivida por Naomi Watts, igualmente estonteante na vida real), assexuada declaradamente, que aceita ser a eterna e fiel secretária, depositária inexpugnável dos maiores segredos políticos e sexuais dos Estados Unidos, no período entre 1924 e 1972. Cinebiografia eficiente, que provoca no espectador a sensação de ter assistido narrativa contendo autêntico retrato falado (e filmado) do poderoso chefão da polícia federal americana.

Resumo da história - O filme conta a história de John Edgar Hoover (Leonardo di Caprio), desde os primeiros tempos. Confinado pelo sistema a tarefas burocráticas, ele se mostrou determinado na construção de estrutura que usasse métodos científicos avançados para ajudar na investigação de crimes hediondos. Em paralelo, trabalhou politicamente no sentido de aprovar legislação que permitisse ao recém-criado FBI autorização para atuar em escala nacional, se sobrepondo, quando necessário, às leis estaduais. E, obstinado, conseguiu recursos orçamentários para aquisição de armas e equipamentos tão ou mais sofisticados do que aqueles usados pelo crime organizado. Naqueles primeiros anos, o FBI prendeu, efetivamente, facínoras notórios. E se envolveu intensamente na tentativa de elucidar o sequestro do filho do famoso Charles Lindberg. No entanto, a solução que encontrou, repleta de pontos obscuros, sinalizaria para onde e como J. Edgar iria conduzir a atuação da enorme estrutura sob seu poder, que era constitucional apenas nas aparências. Tal e qual o rei francês Luís quartorze (O Estado sou eu), deveria, sinceramente, achar que o FBI era ele e suas controvertidas convicções. Doravante, apenas valeria sua opinião. Provas? Ele as forjaria com os avançados recursos tecnológicos à sua disposição. Em paralelo, frestas de luz iriam se infiltrar por entre as persianas quase intransponíveis de sua intimidade. E começaram a iluminar pessoa atormentada. A indefinição sexual do início viria a ser substituída pela certeza da homossexualidade. No cargo que ocupava e nos Estados Unidos dos anos 20 e 30 do século passado, ser verdadeiro estava fora de cogitação. Significaria perder o poder, o enorme poder recém conquistado, para onde até então era canalizada a energia sexual reprimida. Além da pressão externa, ele tinha, dentro de casa, força maior ainda, representada pela mãe, conservadora ortodoxa e predadora de sentimentos. Ela daria o empurrão que faltava para que o filho viesse a ser o falso self que efetivamente foi a vida inteira. Recalcado seu lado gay, tratou de castigar quem encontrasse pelo caminho em posições heterodoxas, fossem comunistas, lésbicas ou simples seres humanos com ideias diferentes das suas. Ou ainda homossexuais masculinos. Olhava-se no espelho e sentia inveja daqueles que tinham coragem de nadar contra a corrente. Sua mente carcomida por distúrbios inconscientes transformava aquela inveja em ódio. Com a morte da mãe, às escondidas,cai nos braços de Clyde, seu melhor amigo e conselheiro, sob o olhar cúmplice de Helen, eficiente e fiel secretária.

Filme mostra como os presidentes recém-eleitos eram chantageados

Nos quarenta e oito anos em que esteve no comando do FBI, J.Edgar Hoover serviu a oito presidentes americanos. O enredo estreita o foco em três emblemáticas situações, envolvendo Roosevelt, Kennedy e Nixon. Nas duas primeiras, ele surpreende os interlocutores, com a existência de transcrições de gravações que revelariam detalhes íntimos da vida de Eleonor Roosevelt, que seria bissexual, e do próprio Kennedy, obcecado por sexo e transpirando amantes por todos os poros, Marilyn Monroe incluída. Na vez de Nixon, ele, J. Edgar, é quem se surpreenderia: ao mencionar as famosas gravações, é interrompido pelo presidente, que lhe confirma no cargo sem que ele chegue a pedir. E vai além. Autoriza-o a espionar os inimigos políticos do governo, prática que permaneceria após a morte de J. Edgar em 1972, e desembocaria no famoso Escândalo Watergate.

Magistral sequência em que sombras sugerem Kennedy e Marilyn

entrelaçados Saindo do lugar comum que seria mostrar um casal na cama, em ação, Clint Eastwood mostra a sequência por meio de sombras projetadas na parede de quarto na penumbra. A sutileza é potencializada pelos acordes de um piano que domina a trilha sonora, que também tem como autor o próprio diretor.

Maquiagem prejudica desempenhos, montagem impõe ritmo

diferente à narrativa O excesso de maquiagem para caracterizar o envelhecimento dos personagens de Armie Hammer e Naomi Watts efetivamente prejudicou os desempenhos cênicos dos dois. Não foi o caso de Leonardo di Caprio que, submetido ao mesmo infortúnio, conseguiu sair do invólucro plástico. Para contrabalançar aquele peso negativo, o filme foi editado com sequências temporalmente diferentes, “coladas”, mostrando, ora os personagens nos anos 30, ora no crepúsculo de suas vidas (início dos anos 70), o que permitiu agilidade e leveza à narrativa.

Escrito por José Jardelino da Costa Júnior

 

O Homem Que Amava As Mulheres, considerado síntese da obra do melhor entre os cineastas franceses, fará 35 anos em 2012 e acaba de ganhar edição remasterizada.

O Homem Que Amava As Mulheres (L'homme Qui Aimait Les Femmes - França - 1977)

Resumo da história - Instigante comédia dramática, narrada em flashback, sobre a vida e as conquistas amorosas de Bertrand Morane (Charles Denner), especialista na construção de aviões, barcos e helicópteros. Ele é O Homem Que Amava As Mulheres (L’homme Qui Aimait Les Femmes – França – 1977). Morava em Montpellier, a “cidade francesa com maior número de belas por metro quadrado”. Um apaixonado pela alma feminina. . Todas. Nenhuma o deixava indiferente. Gostava das ruivas “pelo cheiro”, das louras platinadas “pelo artifício”, das jovens porque elas acham que “o mundo lhes pertence”, das viúvas “por estarem disponíveis”,das casadas “por não estarem”. Para ele, engenheiro, “as pernas das mulheres eram compassos que percorrem o globo terrestre em todas as direções, dando-lhe equilíbrio e harmonia”. Na primeira cena que mostra uma de suas conquistas, ele se deixa fascinar apenas pelas pernas de quem sequer consegue ver o rosto. Anota a placa do conversível dela e,obstinado, tenta de todas as formas encontrá-la. Chega a chocar o seu carro aleatoriamente e denuncia à companhia de seguros que o acidente teria sido por culpa da dona do belo par de pernas. Queria , porque queria, saber o seu endereço e a sua identidade. Sucedem-se outras aventuras, até que ele esbarra em Hélène (Geneviève Fontanel), mulher madura e bela, dona de loja de lingeries, que aceita convite para jantar. Logo após, confessa que prefere mesmo os homens mais jovens, embora aprecie a sua companhia. A partir desse momento, Bertrand decide escrever um livro sobre sua vida e as mulheres que dela participaram. As reminiscências adentram no terreno freudiano. O espectador fica sabendo que ele foi desprezado por mãe castradora e promíscua. Mais: a mulher por quem se apaixonou e com quem viveu alguns anos, Vera (Leslie Caron), o abandonara inexplicavelmente. Começam as semelhanças entre a vida do personagem e a do próprio Truffaut (segundo os biógrafos do cineasta, “Vera” teria sido Catherine Deneuve). Ele, Truffaut, sinaliza a conexão entre a fantasia e a realidade, ao aparecer no início do filme. Os originais do livro de Bertrand ficam prontos e uma importante empresa editora decide transformá-los em livro. Escala a diretora Geneviève Bigey (Brigitte Fossey), bonita e cheia de charme, para cuidar do projeto. Ela vai além e termina na cama dele. Fatos imprevisíveis atrapalham a trajetória de Bertrand rumo a mais outra conquista. A história termina com explicação freudianamente plausível sobre os motivos do comportamento compulsivo do personagem. Apenas mais uma vítima de neuroses recalcadas, muito distante, portanto, do estereótipo do sedutor convencido e chato.

O diretor – Ao romper com Jean-Luc Godard, amigo dos primeiros tempos, Truffaut deixou claro o tipo de cinema que queria produzir. Abandonaria as ilações políticas, etéreas, a fim de se fixar em filmes que mostrassem o encanto dos relacionamentos, independentemente de “finais felizes”. Seus trabalhos iriam esmiuçar o jeito de ser de mulheres, homens e suas neuroses. Aprimorou estilo baseado em suas experiências pessoais. O Homem Que Amava As Mulheres é considerado o filme em que melhor exprimiu o seu jeito de lidar com o mundo e com as belas que lhe surgiram no caminho.

O elenco – Charles Denner foi um dos principais atores franceses dos anos 60 e 70. Trabalhou com Louis Malle (Ascensor Para o Cadafalso, ótimo suspense, ao lado de Jeanne Moreau), Godard, Costa-Gavras (Z), Claude Chabrol, Claude Lelouch e com Truffaut. Segundo este, depois que o roteiro de O Homem Que Ama As Mulheres foi concluído, não havia melhor ator para vivenciar a aventura de Bertrand Morane pelos labirintos dos sentimentos femininos. Aos 51, a voz grave e viril de Charles Denner fazia o contraponto ideal com certa vulnerabilidade que costuma despertar o instinto maternal das mulheres. Todas as coadjuvantes estiveram perfeitas, cada uma preenchendo, à sua maneira, lacunas explícitas na autoestima do personagem. Destaque para Brigitte Fossey e Geneviève Fontanel.

Filme viria a influenciar a outros grandes diretores da geração seguinte

O Homem Que Amava As Mulheres, pelo mergulho no inconsciente masculino, iria deixar marcas em trabalhos futuros de Pedro Almodóvar (Carne Trêmula, Abraços Partidos), François Ozon, no filme mais sensível de Clint Eastwood (Pontes de Madisson) e Christophe Honoré (A Bela Junie),entre outros.

Truffaut chegou a planejar retomada ao tema de O Homem que Amava As Mulheres

Em maio de 1984, Truffaut reuniu seu diretor de fotografia preferido, Nestor Almendros (também o responsável pelas magníficas imagens de O Homem Que Amava As Mulheres), e Gérard Depardieu, a fim de discutir adaptação do romance La Varande, que contava a vida amorosa de militar que voltava das guerras napoleônicas, com o rosto desfigurado e a certeza de que a sua vida de sedutor havia acabado. Para surpresa dele, o seu nariz mal refeito dos ferimentos tornar-se-ia elemento fetichista e objeto de desejo das mulheres que passaria a conhecer. Não houve tempo. Em 21 de outubro do mesmo ano, viria a falecer, vencido por câncer no cérebro.

Outro filme, aqui no Brasil também “O Homem Que Amava As Mulheres” (Vie Hérooique, na língua original), relativo àcinebiografia do músico francês Serge Gainsbourg, realizado em 2010, nada tem a ver com o filme de François Truffaut.

José Jardelino da Costa Júnior

9 e 1/2 Semanas de Amor (1986)

Filme do diretor Adrian Lyne traz Kim Bassinger e Mickey Rourke em trama marcada pela obsessão e comportamentos sexuais transgressores

Resumo da história - A natureza da trama vem explicitada logo no título em inglês, 9 e 1/2 Weeks. Ou seja, o limite de tempo que uma relação obsessiva costuma durar, desde que um dos dois seja minimamente saudável, sob o aspecto psíquico. Por razões comerciais, o tradutor brasileiro fez acréscimo (“de amor”) que, de certa forma, desconecta a versão em português da essência verdadeira do filme.

9 e 1/2 Semanas de Amor (1986) representa hábitos dos anos 80, o charme de homens e mulheres bonitas, elegantes, tendo como moldura Nova York, Wall Street e outros símbolos da geração yuppie, enquanto na linguagem subjacente transbordam atitudes marcadas por erotismo transgressor. Liz (Kim Bassinger, aos 30, no auge de seus extraordinários encantos), gerente de uma galeria de arte, certo dia esbarra no olhar de John (Mickey Rourke), charmoso e bem sucedido executivo financeiro. Iniciam romance que será marcado pelos superlativos. Desde os primeiros encontros, ele era o dono de todas as palavras. Sabia o que estava pretendendo e não se incomodava nem um pouco com isso. Quando ela ensaiava alguma coragem para expressar seus sentimentos, ele se fechava dentro de si e apenas pensava nos seus termos. Começa então a demolição da dignidade de Liz.

Em ritmo de videoclipe, com situações aparentemente românticas e trilha sonora envolvente, o diretor Adrian Lyne conduz a relação na direção dos desvios psicológicos que irão acentuar o lado sociopata de John. Liz se submete: olhos vendados, palmadas por “castigo merecido” e outras manifestações do caráter deformado do namorado, turbinado pelos recalques decorrentes de situações vividas na infância que ele queria esconder. Era um homem experiente e dono de grande talento para negócios, mas que, por dentro, nunca havia nascido. Liz começa a perceber o sentimento de medo tomando conta de sua existência. No espelho, viu o seu retrato tenebroso e entendeu finalmente que precisava se proteger do efeito devastador que aquela relação lhe trazia. “Eu quase esperei tempo demais”, pensou, instantes antes de tomar a decisão que lhe resgataria a autoestima.

O diretor - Adrian Lyne iria voltar ao tema (psicopatas) um ano depois de 9 e 1/2 Semanas de Amor, em novo filme que retomou a discussão sobre relacionamentos efervescentes, no início, e sombrios, a partir do momento em que um dos parceiros descobre que foi vítima de idealização inconsequente e se deixou seduzir por pessoas que não eram o que aparentavam. Paixão avassaladora, marcada por imediatos e tórridos encontros sexuais também foi o tema de Atração Fatal (1987), com magistrais interpretações de Michael Douglas e Glen Close. Em ambos os filmes, o diretor teve a habilidade de colocar a câmera como uma sonda no inconsciente dos protagonistas-psicopatas e permitir que o próprio espectador testemunhasse que eles não amam, não trabalham, não vivem. Simplesmente vão à caça.

O elenco - O bem sucedida trajetória no universo da publicidade permitiu que Adrian Lyne selecionasse dois atores com o biotipo desejado por dez entre dez mulheres e homens. Isso era imprescindível para o filme funcionar. Kim Bassinger, linda, transbordava sexo por todos os poros do seu corpo arrasador. Mickey Rourke mostrou olhar, sorriso e gestos do príncipe encantado moderno. Mais: um e outro conseguiram transmitir os mais profundos sentimentos dos seus personagens, apenas com pequenos detalhes de linguagem não-verbal. Ótimas interpretações.

Detalhe (1) – 9 e 1/2 Semanas representou o ponto mais alto da carreira de Mickey Rourke. Tempos depois, enveredou pelas lutas de boxe e literalmente desconstruiu a reputação de sexy symbol.

Detalhe (2) - O filme ainda mantém certo frescor atual e merece ser visto (ou revisto). Na era das mídias sociais, quando as mais fantasiosas idealizações postadas no Facebook adquirem o status da credibilidade, a chance de se entrar na mesma cilada de Liz é real. A médica psiquiatra Ana Beatriz Barbosa da Silva aborda a questão com argumentos sólidos em seu bestseller “Mentes Perigosas” (Editora Objetiva – 2008). O perigo efetivamente existe. Numa nova e promissora relação, de repente, um(a) psicopata pode estar dormindo ao lado.

José Jardelino da Costa Júnior

 

Hoffa - EUA - 1992

Baseado em fatos reais, filme mostra a ascensão e a queda do mais famoso líder sindical dos Estados Unidos.

Resumo da história - O filme conta a história de líder sindical que se achou acima do bem e do mal. Desafiou a justiça e se aliou à máfia. Nascido em bairro pobre de Detroit na segunda década do século 20 (1913), Jimmy Hoffa perderia o pai logo cedo, o que lhe obrigou a abandonar os estudos e conseguir emprego num supermercado para ajudar no sustento da família. Revelou vocação para liderança, logo nos primeiros anos como profissional na área de entregas. Carismático, partiu para estruturar sindicato ligado ao setor, motivo pelo qual foi demitido. A partir de sua experiência como entregador, percebeu que os caminhoneiros eram desunidos. Mesmo sem nunca ter dirigido um caminhão, deu um jeito de se entrosar com o segmento. Não precisou de muito tempo para se tornar líder e estruturar sindicato que, décadas depois, teria um milhão e meio de filiados. Livremente inspirado em fatos reais, no início, o roteiro de Hoffa (Hoffa – EUA – 1992) estreita o foco na época dos primeiros esforços de Jimmy Hoffa (Jack Nicholson) para organizar os motoristas de caminhão. Tarde da noite, em estrada deserta, aborda o veículo do baixinho Bob (Danny De Vitto). O diálogo entre os dois, nessa sequência, revelaria senso de oportunidade e enorme capacidade de argumentação do primeiro: “Não posso fazer greve.” (Bob). “Você não pode é deixar de fazê-la.” (Jimmy). “A vida é uma negociação; toma lá, dá cá. E a negociação coletiva fortalece o trabalhador, como você ou como eu.” (Jimmy).

Ditas há oitenta anos, aquelas frases impactaram o suficiente para fazer Hoffa, em curto espaço de tempo, amado e odiado. A notoriedade e o prestígio, aliadas à confiança nata e surpreendente, lhe produziram deformação psicológica irreversível. Eleito presidente da categoria que tinha força para parar a economia da maior nação do planeta, passou a se considerar poderoso e insubstituível. A disfunção egóica e consequente dissonância cognitiva o levaram para longe do bom senso. Irresponsável, firmou pacto com o chefe de importante ala do crime organizado, Carol D’ Allessandro (Armand Assante). Em seguida, resolveu desafiar o secretário de justiça de então, ninguém menos do que o irmão do presidente John Kennedy, o arrogante Robert. Preso, condenado a treze anos, Hoffa começou a desabar. A cadeia o levou a reprimir anseios em nível quase insuportável. Graças a indulto do presidente Richard Nixon (em conluio com a máfia), foi libertado seis anos depois. Tarde demais. A carga exagerada de sentimentos recalcados pelo confinamento fez dele um histérico. Em seu primeiro reencontro com D’Alessandro, explicita desequilíbrio. E verbaliza, de forma contundente, suspeitas de que estaria sendo traído. Adentraria, daquela forma, em caminho sem retorno e passaria para a História como protagonista de estratégia invertida de marketing político;

Os filmes que vi com Freud

O diretor - Danny De Vitto tem mostrado enorme talento em todos os filmes que dirigiu e atuou. Seu trabalho como diretor se caracteriza pela abordagem de situações que permitem aprofundamento psicológico inusual. Além de Hoffa, dirigiu A Guerra dos Roses (1989), estrelado por Michael Douglas e Kathleen Turner. Narra as etapas do relacionamento entre casal que não consegue se entender. E muito menos decidir pela separação. Levemente inspirado em Cenas de Um Casamento, de Ingmar Bergman (1973), mas com final bem diferente. O roteiro de A Guerra dos Roses aborda questões das quais boa parte dos dramalhões passa ao largo. O psicanalista carioca Waldemar Zusman, em seu livro “Os Filmes Que Eu Vi Com Freud” (Imago Editora – 1994), destaca que “as ambições e as rivalidades (do casal protagonista) tiveram impulso de crescimento de tal ordem que acabaram por liquidar a corrente de afetos (que sustentava a relação)”. E arremata: “É algo que se assemelha ao parasita que destrói a planta de que ele próprio se nutre”. Ou seja, principalmente como diretor, Danny De Vitto é um craque;

Na foto em p&b, o fato como ele aconteceu de verdade: Jimmy Hoffa, dedo em riste, desafia o ministro da justiça, Robert Kennedy.

O elenco - Jack Nicholson dispensa apresentações. Em Hoffa, além da magnífica performance, teve em seu favor extraordinário trabalho de caracterização para ter o rosto parecido com o do Jimmy Hoffa original. Convence de tal forma que a sensação dominante é a de que o lendário líder sindical deve ter sido daquele jeito mesmo. O personagem de Danny De Vitto (Bob) é fictício. Como confidente e melhor amigo, serve para sublinhar aspectos marcantes da intimidade de Hoffa. Armand Assante, então já com quinze anos de carreira, mostrou porque é considerado bom ator. Se o papel for de gangster, ainda melhor. Boa surpresa: Kevin Anderson, que interpretou Robert Kennedy. Além da semelhança física com o irmão do presidente, protagonizou com Jack Nicholson autêntico duelo de gigantes, nas sequências de tribunal em que Hoffa seria condenado;

Detalhe (1) - Habilidoso, Danny De Vitto optou pela narrativa em flashback, ao estilo de Cidadão Kane (1941). Com isso quebrou simetria que poderia levar sono ao espectador e introduziu o elemento suspense na história. Esteve atento para a fotografia e todos os movimentos de câmera. Não economizou no uso de gruas e travellings, de forma produzir conjunto de imagens perfeito, que potencializou o efeito dramático de cada sequência;

Detalhe (2) - A reconstituição de época foi outro ponto forte de Hoffa. Realizado em 1992, o filme, com unidades de produção em Pittsburgh, Detroit, Chicago e Los Angeles, cobre período que vai dos anos 30 até meados da década de 70. Na parte em que Hoffa é libertado da prisão, se vê ao longe, em amplo estacionamento, cartaz de Laranja Mecânica (1971) polêmico filme de Stanley Kubrick. Bela homenagem de De Vitto ao mestre.

Por José Jardelino da Costa Júnior

O Último Magnata (The Last Tycoon - EUA - 1976)

Direção de Elia Kazan e presença de Robert Mitchum, Theresa Russell, Ray Milland, Donald Pleasence e Anjelica Huston dispensam adjetivações.

Resumo da história - Dirigido por Elia Kazan, O Último Magnata (The Last Tycoon - EUA – 1976) completa 35 anos e ganha novas cópias em blu-ray e DVD. Baseado no romance homônimo de F. Scott Fitzgerald, o filme consegue passar a essência dos sentimentos de um dos maiores escritores de língua inglesa do século 20. O roteiro foi livremente baseado na trajetória de Irving Thalberg, poderoso da MGM nos primeiros tempos do cinema americano. Retrata ambientes e situações emolduradas pela glamour, riqueza e enorme poder, entrelaçadas pelos mais sombrios aspectos da conduta humana. Arrogância, hipocrisia, frustração, tristeza, melancolia estão presentes no cotidiano de Monroe Stahr (Robert De Niro), líder supremo de um grande estúdio. Para vivenciar o luto provocado pela morte prematura da mulher que amava, pauta sua vida na tarefa de administrar conflitos de talentos e exercer, de forma enérgica, o poder de decidir o presente e o futuro de todos os que giram em torno daquela atmosfera, que era dourada apenas para quem a via de fora. É nesse ambiente hostil que ele reencontra a bela Cecília (Theresa Russell), filha do maior acionista, Pat Brady (Robert Mitchum). Recém passada dos dezoito, ela aproveita as férias de estudante para ficar algumas semanas em contato direto com Stahr, por quem nutria, desde menina, paixão e desejo. Ele não lhe retribui os sentimentos. O pai, magoado com a frustração da filha, passa a criar dificuldades para a gestão de Stahr. O ponto alto da discórdia chega sob forma de tentativa de barrar produção de filme de arte, sem grandes perspectivas de bilheteria. Confrontado, Stahr leva o assunto ao conselho de administração e recebe sinal verde. Começa então surda queda de braço entre os dois poderosos. Inesperadamente, surge a misteriosa Kathleen Moore (Ingrid Bouting). Aparentemente só e desprotegida, ela é quase uma sósia da esposa. Nessa condição, provocará avassaladora paixão em Stahr, com direito a românticos passeios noturnos em direção a uma casa de praia que ele estava construindo, ainda sem telhado. Tendo o céu estrelado por testemunha, viverá o doce delírio de ter reencontrado o amor.

Ela percebe a transferência de sentimentos e se transforma em mulher apreensiva. O receio de ter encontrado o homem certo na hora errada fará com que repense a situação. Enquanto isso, o estúdio começa a enfrentar turbulências diante da criação dos primeiros sindicatos, especialmente o dos roteiristas. Pat Brady aproveita e culpa Stahr pelas dificuldades recentes. E insinua que a nova namorada estaria influenciando suas decisões. Stahr reage e, ao seu modo, parte em busca de solução. Identifica o líder do movimento sindicalista, um certo Brimmer (Jack Nicholson), e planeja cooptá-lo durante jantar a dois em sua mansão. Substimou o convidado. Depois da sobremesa, ao invés de conhaques e charutos, partem para o confronto explícito ao estilo das brigas de saloon predominantes nos faroestes baratos que eram moda na época. Além da ressaca, o dia seguinte mostraria a Stahr realidade que não era mais a sua. Tenta encontrar alívio nos braços de Kathleen. Encontra uma mulher diferente, que lhe revela passado desalentador. Seu mundo havia caído.

O diretor - Elia Kazan é representante legítimo da primeira geração dos grandes cineastas de Hollywood. Um gigante, que esteve no comando de produções memoráveis (Sindicato dos Ladrões, Uma Rua Chamada Pecado, Viva Zapata!). O Último Magnata, com o qual encerrou sua carreira, não é o melhor de sua filmografia. No entanto, será sempre marcado pela contemporaneidade. A maneira como esse texto de F. Scott Fitzgerald foi traduzido para a gramática cinematográfica pode ser considerada uma façanha. Definitivamente, não é tarefa das mais fáceis conduzir uma câmera pelos subterrâneos da indústria que há mais de um século conquista corações e mentes.

O elenco - Além dos já citados Robert De Niro, Jack Nicholson, Robert Mitchum, Theresa Russel e Ingrid Bouting, O Último Magnata ainda contou com outros astros e estrelas, como Anjelica Huston, Jeanne Moreau, Ray Milland, Tony Curtis e Donald Pleasence. Elenco de craques que dispensam adjetivações.

Detalhe (1) - A partir dos anos 50, a vida de Elia Kazan seria marcada por episódio controvertido, cuja repercussão o acompanharia pelas décadas seguintes. Ele teria delatado colegas e roteiristas a uma CPI encarregada de identificar comunistas infiltrados nas entranhas da indústria do cinema. Era o auge da guerra fria, com os Estados Unidos governados pelo ex-general e herói da Segunda Guerra, Ike Eisenhower. Nesse ambiente, um obscuro senador, Joseph McCarthy, condutor das investigações, encontrou espaço e bandeira política com a qual tentaria marcar sua trajetória. Mandou prender inocentes e arrebentou com muitas carreiras. Acabou atropelado pela vaidade e pela acusação de ter se utilizado de métodos pouco éticos. A dúvida, no entanto, permaneceu. Na cerimônia de 1999, a Academia concedeu a Elia Kazan o Oscar pelo Conjunto da Obra. A platéia se dividiu entre aplausos e vaias indignadas, fato inédito em situações do gênero.

Detalhe (2) - O Último Magnata marca sequência inesquecível. Duelo de gigantes, astros de primeira grandeza desde o início de suas carreiras: Robert De Niro e Jack Nicholson. Nunca mais outra vez eles atuaram num mesmo filme.

Detalhe (3) - O personagem de Jack Nicholson não existe no romance original de F. Scott Fitzgerald. Foi introduzido por razões desconhecidas a pedido do diretor, que o havia recusado para o papel principal. Ironicamente, o ator voltaria a viver, desta vez como protagonista, outro líder sindical, em Hoffa (1992), sobre a vida do lendário Jimmy Hoffa. Dirigido por Danny De Vitto, também coadjuvante, Jack Nicholson esteve, como sempre, soberbo;

Detalhe (4) - A investida no modus operandi da indústria do cinema, fio condutor da narrativa de O Último Magnata, não esteve muito longe das disputas de bastidores que cercaram a escolha do elenco. Al Pacino, convidado, recusou-se a viver o personagem de Monroe Stahr. Dustin Hoffmann, por outro lado, seria o escolhido se a direção tivesse ficado a cargo de Mike Nichols, que o havia dirigido em A Primeira Noite de Um Homem (1968);

Detalhe (5) - F. Scott Fitzgerald morreu antes de terminar de escrever o romance em que o filme se baseou, que teve o final e a edição a cargo do seu amigo, Edmund Wilson. Parte da construção do personagem de Monroe Stahr, melancólico pela perda prematura da mulher, é auto referente. Zelda, esposa e sua única grande paixão, morreu aos 34, internada em sanatório especializado no tratamento de alcólatras.

Viúva do diretor veio a São Paulo, para a Mostra de Cinema.

A 35a. Mostra do Cinema de São Paulo, em exibição, apresenta documentário sobre Elia Kazan, dirigido e narrado pelo seu colega e admirador Martin Scorcese. A viúva do diretor, Frances Kazan, está na cidade. Veio especialmente para a homenagem ao marido, falecido em 2003.

Por José Jardelino da Costa Júnior

 

Amor a Toda Prova (Crazy, Stupid, Love -EUA - 2011 )

Julianne Moore, Steve Carrell, Ryan Gosling, Marisa Tomei e Kevin Bacon em comédia marcada por roteiro, diálogos e direção irrepreensíveis.

Resumo da história - Comédia romântica com ingredientes diferentes, temática moderna, situações entrelaçadas e desfecho imprevisível. É essa a impressão que platéia mais exigente vai ter de Amor A Toda Prova (Crazy, Stupid, Love -EUA – 2011). O filme trata do fim de um casamento de 25 anos. O interesse (e não o amor) se extingue.

Toda a família, especialmente os filhos adolescentes e o círculo de amigos mais próximo, também será afetado. Evitando o terreno açucarado das produções do gênero, Amor A Toda Prova tem algo a mais. Tem, sobretudo, roteiro bem construído, que mistura situações cômicas do tipo pastelão, com abordagem adequada das questões envolvendo relacionamentos.

A história ainda agrega, na segunda metade, dois jovens que se encontram, discutem a situação e. . . Cal Weaver (Steve Carrell), corretor com situação econômica consolidada, tem uma vida aparentemente perfeita, ao lado da inteligente, bem sucedida e bela mulher, Emily (Julianne Moore), e dos filhos. Súbito, descobre que a esposa está tendo um caso com o contador (Kevin Bacon) da empresa da qual é vice-presidente. Descobre-se, então, aos quarenta e tantos, cem por cento desconectado do que aconteceu (e acontece) fora do seu então inexpugnável “lar perfeito”. Passa a sofrer intensamente com a descarga de afetos acumulados, que lhe traz abulia (incapacidade de tomar decisões) e o leva ao campo dos sintomas neuróticos graves, representados pela busca de compensação por algo que não pode ser vivido. Instintivamente pauta sua conduta por ações impulsivas. Deixa a racionalidade de lado e passa a ”pagar todos os micos” nos bares para solteiros que começa a frequentar.

Descobre, então, Jacob Palmer (Ryan Gosling), muito bem sucedido na abordagem às mais belas mulheres, que decide lhe ajudar. Cal tentará seguir os passos de Jacob e gerará boas risadas na platéia, com humor cotidiano de ótima qualidade, ao estilo de Um Convidado Bem Trapalhão (1968 – com Peter Sellers dirigido por Blake Edwards, extraordinários até hoje!). Situações engraçadas ainda rondarão os personagens coadjuvantes, particularizando o filho adolescente e o seu objeto de desejo sexual (a jovem babá de sua irmã menor), o melhor amigo de Cal, e ainda a professora da escola dos seus filhos (Marisa Tomei, sempre ótima). No final,também haverá a solução do dilema da bela e recém-formada advogada Hannah (Emma Stone). O eixo da trama, no entanto, continuará na situação de Emily e Cal e fugirá de soluções maniqueístas e piegas. Simplesmente, ambos resolverão as questões psicológicas que os afligem.

Cal superará o delírio de inferioridade, enquanto Emily resolverá sua neurose compulsiva, representada pelo sentimento exagerado de culpa por ter acabado o casamento.

Os diretores - A dupla que assina a direção veio diretamente da condição de roteiristas de sucesso. Glen Ferrara e John Requa, com a ajuda do protagonista Steve Carrel, ele um dos produtores, basearam sua performance de diretores estreantes, óbvio, em roteiro bem concatenado.

As situações, cedo ou tarde, são explicadas e, numa ótica moderna, com soluções plausíveis. Fizeram um filme eficiente, de narrativa convencional,sem nenhuma extravagância desnecessária. No livro “Conversas com Almodóvar” (Jorge Zahar Editor, 2008), o mestre espanhol declara sua admiração por Alfred Hitchcock, Billy Wilder e Charles Chaplin, por estes terem, em várias de suas obras-primas, mixado gêneros aparentemente antagônicos. E revela que foi aquele um dos segredos na construção do soberbo Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (1988), metade drama, metade comédia. A dupla diretora deste Amor A Toda Prova foi por esse caminho e se deu bem.

O elenco - Outro mérito do filme esteve na escolha do cast. Além do ótimo Steve Carrel, Julianne Moore, vai das lágrimas aos (belos) sorrisos, com absoluta segurança e muito charme. Ultrapassou a marca dos cinquenta, como Michelle Pfeiffer, Sharon Stone e a nossa Cristiane Torloni, com sex appeal de fazer inveja às atrizes mais moças na faixa dos de vinte/trinta anos. O elenco de apoio, particularizando Ryan Gosling, mais Marisa Tomei, Emma Stone e Kevin Bacon (longe dos papéis de psicopata que marcaram sua carreira), esteve perfeito.

Detalhe (1) - Os diálogos foram outro ponto alto do filme. Quando Jacob tira a camisa em frente a garota por quem iria se apaixonar, ela, surpreendida pela “barriga-de-tanque”, exclama, meio sem jeito. “Não é possível! Isso só pode ser photoshopping. . .”.

Detalhe (2) - Surpreendeu a ausência de merchandisings. Mesmo nas várias sequências em bares, não há destaque especial para nenhuma marca conhecida. Algo inédito na Hollywood do século 21. Até Jean-Luc Godard, em seu iconoclasta Weekend à Francesa (1967), sucumbiu à prática, ao aceitar generosa oferta da Shell.

 Por José Jardelino da Costa Júnior

O Retrato de Dorian Gray
Em linguagem cinematográfica contemporânea, filme traz ótima atuação de Colin Firth, fotografia e produção de época bem cuidadas.

Resumo da história – Final dos tempos de prosperidade que marcariam os quase sessenta anos de poder da rainha Vitoria. O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray - Reino Unido – 2009) se passa no início do século 20, época de efervescentes mudanças comportamentais na Inglaterra. A nobreza, tecnicamente falida, se entregara ao ócio, representado por festas, caçadas, corridas e jantares monótonos. Nesse ambiente nihilista, surge, vindo do interior, rapaz cuja aparência lembrava as mais perfeitas esculturas gregas. Além da beleza, Dorian Gray (Ben Barnes) acabara de ficar rico por conta de enorme herança do avô materno. A ingenuidade campestre logo seria substituída pelo afã de aproveitar o melhor da vida mundana que a metrópole oferecia. Encontraria no antigo círculo de relações do avô os companheiros para os dias e (especialmente) as noites unicamente dirigidas ao prazer. Entre os novos amigos, lorde Henry Wotton (Colin Firth) e o pintor Basil Hallward (Ben Chaplin). Narcisista em alto grau, Dorian percebe o quanto é admirado por mulheres e homens. Pede que Basil lhe pinte retrato de corpo inteiro. Fascinado pelo rapaz, o artista consegue aquele que seria o melhor quadro de sua já famosa carreira, onde predominava olhar que misturava brilho intenso e certa atmosfera sinistra. Ao contemplá-lo, lorde Henry provoca Dorian: “Se eu fosse você, fazia uma troca. Imutalizava sua aparência, trocando de lugar com o retrato. Este passaria a absorver as rugas e os cabelos brancos”. Por lapso de tempo fugaz, Dorian se constataria dividido entre as duas tragédias da vida. A primeira seria realizar todos os seus desejos; a segunda, não realizá-los. Intensamente apaixonado pela sua própria imagem ainda irretocável, Dorian toma a decisão que impulsionaria a narrativa. Consegue o inacreditável e para de envelhecer. Ao mesmo tempo esconde o retrato. Apenas ele teria acesso à pintura que, com o passar dos anos, iria ostentar os sinais do tempo. E também os ferimentos que Dorian iria adquirir em suas andanças por orgias e desatinos. Sem os freios da consciência, o seu nível de perversidade atingiria o auge, com a decisão de assassinar Basil, porque o pintor insistia em ter o quadro de volta. Atormentado por imaginárias perseguições, decide passar um tempo longe da Inglaterra. Anos depois, retorna e surpreende com sua aparência. Havia mantido o viço dos primeiros anos em Londres, enquanto os outros tinha envelhecido. Lorde Henry mantém-se próximo dele, embora incrédulo. A incerteza logo se tranformaria em agonia. Sua jovem e bela filha Emily (Rebecca Hall) viria a se apaixonar por Dorian. Levado pelo desejo de protegê-la, acabaria por descobrir verdade de consequências trágicas.

O diretor e o elenco – O filme funciona bem em suas duas dimensões. Na primeira, vertical, há boa sintonia de propósitos do diretor Oliver Parker com os protagonistas, sobretudo. Nada sobra e nada falta nessa interação. Na outra dimensão, a horizontal, o elenco está bem afinado, por causa dos papeís distribuídos de forma competente. Como resultado direto, ótimas performances do trio principal masculino e, o tempo todo, diálogos que refletem a essência do texto de Oscar Wilde: inteligentes, improváveis e sarcásticos.

Detalhe (1) – O epílogo do pacto faustiano de Dorian gera inúmeras tomadas repletas de efeitos especiais. É o ponto fraco do filme. Há outros — poucos — que também tentam levar a produção para o terreno das sagas dos vampiros modernosos. O resultado adolescentiza a sequência final e quase compromete um trabalho que conseguiu a façanha de traduzir para a linguagem cinematográfica contemporânea o estilo de um dos grandes escritores clássicos, Oscar Wilde, e aquela considerada por muitos como sua principal obra.

Detalhe (2) – Um único sentimento, o do medo, marcante em todas as etapas do roteiro, faz a ação avançar de forma inesperada. Dorian tem medo de envelhecer, lorde Henry (intelectualmente arrogante), de se tornar medíocre, e Basil, do resultado de sua própria obra. O que fez o filme acontecer, então, foi um conjunto de medos que ilude os protagonistas e os empurra na direção de situações imaginárias desconectadas da realidade. Exatamente como na obra original de Oscar Wilde.

Detalhe (3) – A fotografia capta a atmosfera noturna interna e externa da mesma Londres onde teria vivido Sherlock Holmes. Os muitos filmes feitos na Inglaterra, desde a década de 30 com o famoso personagem de Conan Doyle, aperfeiçoariam as técnicas de criação de fantásticos ambientes marcados pelo domínio absoluto das sombras. Inspiração direta no movimento expressionista alemão, que, uma década antes, havia revelado o magistral F.W. Murnau, autor de filmes únicos (A Última Gargalhada, M. O Vampiro de Dusseldorf). Precocemente morto, deixou legado que iria influenciar a criação do gênero noir e a carreira de ícones como Billy Wilder, Alfred Hitchcock, Orson Welles, John Ford, John Huston.

Detalhe (4) – O Retrato de Dorian Gray já havia sido filmado em Hollywood (1945), com o carismático George Sanders vivendo o personagem agora interpretado por Colin Firth. Este claramente se inspira no antecessor, reforçando círculo virtuoso que explicita os vínculos de atores atuais muitíssimo bem sucedidos com antecessores notáveis. Basta observar George Clooney/Cary Grant, Russel Crowe/Richard Burton, Kevin Spacey/Jack Lemmon, Nicholas Cage/James Stewart, Catherine Zeta-Jones/Elizabeth Taylor, Sharon Stone/Kim Novak, Denzel Washington/Sidney Poitier, entre muitas e muitas outras “duplas” de hoje/ontem.

José Jardelino da Costa Júnior