"Ajudando as mulheres a liderar, vencer, governar." ✫Desde 2009✫

Arquivos para a ‘Literatura’ Categoria

Livro KALAHARI do poeta português Luis Serguilha

Livro KALAHARI do poeta português Luis Serguilha

Será lançado no próximo dia 19 de agosto o livro KALAHARI do poeta português Luis Serguilha.

O evento ocorrerá na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi no Lago Norte às 19 horas com uma conversa sobre o trabalho do poeta. O debate será com os convidados professor e poeta Antonio Miranda, a poeta e professora Sylvia Cyntrão e o público presente.

Poeta irreverente, inquieto,criador em toda a amplitude do termo, traz um sopro novo à poesia lusa. É impossível rotular seu fazer poético, engavetá-lo numa ou noutra corrente. Serguilha é caso isolado no panorama mais geral da literatura portuguesa do século XXI

Maiores informações entrar em contato com Mônica Lucena

(61) 95591694.

Imagem - Valéria Pena - Costa

Imagem – Valéria Pena – Costa

É ‘Agosto’,

Resto de inverno nos ‘Sertões’.

Cai a tarde e vai chegando ‘A hora da estrela’.

Plantas vivem suas ‘Vidas secas’, próprias da estação.

Ainda à ‘Margem da história’ da primavera que se prenuncia,

Sonham com o momento da ‘Ressurreição’.

Aqui nesse jardim, agora triste,

Nem ‘A linguagem dos pássaros’ encontra eco. Silêncio.

Alguns meses ‘Tantos anos’ de abandono lhe parecem…

É como se estivesse mesmo imerso em uns ‘Cem anos de solidão’,

Sem ‘A mão e a luva’ de um atento jardineiro a lhe afagar a terra,

A lhe trazer, como adubo, punhados de ‘Contos na palma da mão’.

Ninguém soube sequer ‘O nome da rosa’ que aqui floresceu…

Não lhe cortejou um beija-flor a beijar-lhe a boca,

Ninguém lhe deu sequer ‘O espelho’

Que lhe provasse a parte que lhe cabe na ‘A história da beleza’.

Onde esteve seu ‘Pequeno Príncipe’ alado?

Foi-se a florada da rosa, mantida na ‘Inocência’, perdida na incerteza…

Foi embora pra ‘Terras do sem fim’…

‘O tempo e o vento’ trazem,

‘O tempo e o vento’ levam,

‘O tempo e o vento’ são inclementes.

Mas assim como varreram as pétalas secas,

Fizeram pousar aqui suas sementes.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

 

Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Ainda tenho a falar de Cartagena, lugar generoso em histórias e inspiração, mas, ao voltar, criei uma pequena esquina no caminho e um breve assunto surgiu num passeio saudosista pelo centro de São Paulo, com direito a um guia amoroso e narrativas pitorescas.

Alguns poderiam chamar nosso trajeto de ‘clichê’ ou coisa assim, já que caminhamos por pontos como a Praça da Republica, o Largo do Paissandú e a Av. Ipiranga (com avenida São João). Claro que mais clichê que citar Caetano, impossível, mas não resisto. Aliás já se tornou um cacoete meu cantarolar Sampa ao passar por ali. E, claro, me peguei com um assobio embutido, louco para ser transformado em canto, mas que engoli – o que o prolongou perseverantemente no meu cérebro a ponto de ritmar meus passos por intermináveis instantes. Iniciamos pela tradicional Xavier Toledo, passamos pelo teatro Municipal, descemos à Praça Ramos de Azevedo, também conhecida como a praça dos gatos. Para minha decepção, um único representante apareceu ao longe. Diante da bela Fonte dos Desejos não pude evitar a imagem de Anita Ekberg deliciando a vista dos inúmeros transeuntes com um banho dirigido por Fellini. Chegamos à igreja Nossa Senhora do Rosário no Largo do Paissandu, o que pra mim foi o ponto alto do trajeto. Não tanto pela minha já conhecida devoção, mas pelos detalhes que dali extraí. O singelo templo é hiper adornado, dando a impressão de que mãos e olhares ansiosos por agradar à padroeira local juntaram ali, com o andar do tempo, um considerável grupo de elementos vistosos e de santos de comprovada influência na esfera celeste. De algumas imagens confesso ter sentido um quase medo, tão feias me pareceram numa grosseira artesania barroca, com cabelos humanos e olhos de vidro nadinha compassivos. Muito mais, sim, assustadores, como aqueles que em nada me lembraram as belas representações de Jesus. Este, especialmente, estava meio desolado num abandono de quaisquer traços da vaidade católica, comum ao apresentar seus ícones. Estava descabelado, na verdade, e nem a roupa fora feita à sua medida. Talvez nem seja assim e tudo seja fruto da minha tendência ao caráter de ‘impressionável’.

Felizmente já havia feito minhas preces à doce Virgem Maria antes de cruzar meu olhar com o olhar vítreo da dramática imagem, senão, certamente teria minha concentração abalada e o poder da minha oração estaria em risco.

À saída da igreja passamos pela bancada de velas, mas para minha divertida surpresa não eram velas que ardem em belas coreografias de chamas delicadas e recatadas, símbolos da transmutação de desejos terrenos em mensagens que se elevam aos céus como emissoras sagradas. Eram lâmpadas. E, pasmem, com funcionamento pago por tempo de serviço. Um papel fixado trazia a tabela de preços do “Velário Ecológico” com tempos predefinidos:

Moedas R$ 0,25
Vela ligada
Por 15 minutos

Moedas R$ 0,50
Vela ligada
Por 30 minutos

Moedas R$ 1,00
Vela ligada
Por 60 minutos

Vela ligada! Achei isso o máximo. Da esquisitice, da incoerência entre o divino e o mercantil. É certo que também vamos pedir coisas nas igrejas (quero dizer, aos santos e a Deus!), dinheiro até, mas pagar taxas por pedidos… e saber que um interruptor de energia elétrica define o tempo da manifestação de fé…

Saímos da igreja e a bela história de sua construção pelos escravos (ou Homens Pretos, como consta em seu nome), ainda que em dissintonia com o prosaico detalhe, não permitiu que meu estado de contemplação fosse maculado (demais). Logo ali fora, porém, o profano era gritante e não pude deixar de fazer paradoxais relações. A praça era o avesso da Igreja. Ao invés das ‘estátuas’ sagradas no contorno interno da nave, postadas à volta da igreja, pontilhando a grade que a circunda, moças em trajes contemporâneos e muito menos pudicos prestavam-se a outro tipo de devoção. Pusessem-lhes túnicas longas de cores celestiais, retirassem as gritantes cores dos traços fisionômicos retintos pela pesada maquiagem, seriam belas imagens de santas. Madalenas.

E agora, se pareço pecar, perdoe-me aquele que é o Senhor da verdade, mas imediatamente me veio à lembrança a tal da tabela de preços dos minutos de uso do calor da chama.

Melhor e mais poético teria sido ver velas de cera que derretem ao fogo, trazidas pelas mãos crentes que oferecem e pedem com o mesmo ardor as benesses divinas. Já as moças, ficariam ainda mais bonitas como ninfas na Fonte dos Desejos, pois voluptuosas e sensuais como Anita Ekberg, quase todas eram. E Fellini certamente se comprazeria a observar lá do céu. Se é que se encontre lá.

(Penso que sim).

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Vestido

Vestido

Eu voltei. Como o boêmio que volta cansado, eu também voltei cansada. Parece até que viajei a pé. E voltei como o filho pródigo que atravessa o mundo pelo retorno a si mesmo. Deixei lá fora as roupas sujas de excessos que se desmancharam no sereno sob aquela linda lua cheia.

Nesse mundo de aventuras emocionais por onde andei, vi sacudidos todos os meus sentidos e em algum momento me vi cega. Vi. E voltei do escuro como Jonas volta do ventre da baleia. E voltei a ver como Tobias tira dos olhos as escamas que lhe cegavam.

Esse mundo de aventuras com suas contradições costuma ser cruel. Ele dá mas não entrega. Já eu, a ele entreguei mesmo o que não prometi. Mas não se trata de um sistema de trocas, não foi permuta o que fizemos. Então me devolvi a mim antes que eu lhe desse tudo e faltasse comigo mesma.

Como Ulisses eu voltei. E me encontrei como Penélope, a tecer e desmanchar para então refazer. Unicamente para não me perder. Teci meu próprio sudário e o desfiei para propiciar a volta. E fui Ariadne a enrolar um novelo com o fio da saída. Mas também fui Teseu que retornou depois de matar o minotauro. Eu o matei.

Eu fui a própria lua que nasce e cresce, diminui e some, mas sempre retorna àquele ponto, ao pé do horizonte, e chega ao topo do céu.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Quando sinto que estou precisando me conectar com a serenidade, com o mundo das possibilidades, busco uma leitura sobre o sagrado ou sobre a delicadeza oriental de viver. De ser. São dois caminhos que me apascentam. Imediatamente, ao sentir o primeiro micro sopro de uma folha virada, entro no campo das boas não certezas, da gentil permissão, do simples estar e deixar ser. E, acredite, as possibilidades vêm. Pelo menos por alguns instantes, tempo para que eu me respire novamente. Chegam como pássaros em revoada suave que por aqui permanecerão bicando, minuciosos, os grãos do aromático alpiste reserva que tenho, e que passo a espalhar no chão à minha volta.

Não é incomum eu me sentir recém saída de uma luta, daquelas bem lutadas, vigorosas, que gosto de assistir. Gosto estranho esse, reconheço, principalmente pra quem envolve facilmente um olhar afetivo com um papel de seda e sua transparência frágil. Quem dedica dias a uma renda fina ou compromete o dedo com uma pedra de pequena quilatagem de pura água marinha. É, posso ser aquosa, e também beiro o sangue. Aprecio, por exemplo, um Tarantino, uns goles de vinho tinto encorpado, o sabor marcante da pimenta rosa. Mas isso tem um preço.

Minha sorte é ter garantida, bem ali na estante, uma espécie de poupança em volumes que me falam de coisas outras além do corpo, dos movimentos bruscos, dos pensamentos densos e valores altos em cifrões.

Passadas as primeiras páginas, é como se a poeira de um redemoinho se assentasse e eu pudesse identificar no chão entre folhas ainda verdes, seixos simples de estrada e gravetos finos, a pequena conta de água marinha. Sigo observando, catando o que me interessa, lendo histórias, reparando em possíveis danos. E mais ainda em possíveis restauros. No chão revolvido, assim como entre as páginas do livro, nenhuma diferença faz se a folha arrancada ainda está verde ou já quebradiça de secura. Ali aprendo a silenciar a importância (ou a desimportância) das peças soltas.

O que tenho aqui comigo, no momento, é um pequeno e precioso livro que fala da cerimônia do chá, tradicional no pequeno Japão, nascida na imensidão da China. Não o leio tanto quanto possa parecer, e nem é necessário, pois é daquelas delicadezas marcantes, que se alastram na memória em prazeroso cultivo. É doce entrar, através dele, num aposento sereno de um ritual tão importantemente singelo. E no caminho entre o alpendre de espera e a sala cerimonial leio do autor: “Vamos sonhar com o efêmero, e demoremo-nos um pouquinho mais na formosa tolice das coisas”. De repente isso faz todo o sentido e eu me sinto solta e apta a ser sangue e água. E desejo uma generosa xícara de chá.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Nuvem

Ouço um barulho abafado atravessando o céu. São as nuvens digerindo um avião.

As semanas em clima festivo de copa têm engolido meus textos. Não os ouço claramente. Tenho a impressão de que estamos todos dispersos, e ainda mais depois de um feriado.

Climas festivos me picotam como papel a ser jogado de janelas altas de prédios em eventos de rua, confetes em carnaval ou poeira de arrasta-pé. O que sei é que depois do movimento é que minha alma se assenta, aí junto tudo e volto a ser eu, centralizada em mim com vistas para o mundo lá fora. Por enquanto, estou lá fora.

Logo estarei aqui, com pensamento claro como a linha branca deixada pelo avião em dias de céu azul. Espero!

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Foto Valéria Pena Costa

Foto Valéria Pena Costa

Costumo falar de coisas leves, mas há dias em que, mesmo no inverno, nuvens aparecem. E com sorte, chovem. Vou fazer chover.

Hoje acordei com duas indagações, síntese de ontem: ‘quem disse que é fácil? Mas tinha que ser tão difícil?’ E tento rir. Sai um risinho seco. Realmente preciso fazer chover.

Ontem visitei extremos de emoções. Na primeira parte do dia agradecia à vida por um certo dom avalizado por pessoas que pontuam meu universo. Pequenas (enormes) estrelas. No fim do dia, o danado, inevitavelmente, escureceu (e mesmo com a presença das estrelas, o escuro me assustou).

Eu quis segurar o sol, mas nada pude fazer para retê-lo. Despediu-se lindo. Antes de ir, abraçou o céu inteiro, afagou o telhado e as paredes da minha casa; alisou todo o céu com as pontas dos dedos alaranjados; pintou a cidade, dos pés à cabeça, de laranja, vermelho e azul; atravessou os arcos da ponte; mergulhou no lago; coloriu minha íris e minha pele e se afastou devagar. Lambeu-me antes de ir. Um carinho inesquecível. E se foi. Ele costuma me afagar assim. Ao chegar, ao se retirar. Me encanta quando vem e deixa-me com saudades.

Quando a noite veio, tinha um humor estranho. Assustou-me, ofendeu-me, até, em um curto mas definitivo instante. Eu quis e tentei me reconciliar com ela, tentei celebrar, festejar. Não foi possível. Precisei fazê-la dormir na tentativa de mudar-lhe os ânimos. Adormecemos juntas.

Acordei tarde, depois de numerosas tentativas do dia de me despertar. As nuvens estavam lá e discutiam com o sol. Negociavam a posse do céu. Eu, daqui, até agora, tento fazer chover para dissipá-las todas.

Desenho, escrevo, falo com gente que amo, recrio o formato do dia. Desconsidero o que não merece ser cultivado. Vou me derretendo assim, um tanto melosa, e essa é minha chuva. Tento desconstruir crenças e impressões em busca de reaprender. E de repente me dou conta de que despedidas são bonitas. No drama da partida, talvez para deixar registros inesquecíveis, o que se vai tenta mostrar o melhor de si. Como o canto do cisne. A oração da extrema unção. Os finais tornam-se bem-vindos. Que sejam pequenos finais como espaços para recomeços. Podas de estações que propiciam reflorescências pródigas (numa mesma planta). Ontem se foi. (Ufa!) Ficam-me os amores e somente o que merece ser mantido na razão e no coração, que hoje em dia já não se dispõem a oferecer abrigo incondicional. Aliviada, já posso me declarar refeita. E reitero também a gratidão. Aquela mesma de ontem. O dia já passou do meio, já me reconciliei com quem amo e refaço planos com reformas imprescindíveis. Havendo ou não uma saída em ‘gran finale’ do dia e do sol, a noite há de ser doce. E estarei envolta pelo meu amor.

(Chovi)

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

SVB – Sociedade Vegetariana Brasileira promove palestra com Melanie Joy, psicóloga e autora do livro “Porque amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas? Uma Introdução ao Carnismo”. A palestra acontece na UnB, na próxima quarta-feira, dia 04/06 às 19h00, e conta com o apoio do Grupo Ética + Animais e do Veganize! + ProAnima.
Entrada franca e tradução simultânea.

Foto Reprodução

A palestra da professora Melanie Joy acontece na próxima quarta-feira, dia 04/06, às 19h, na UnB, seguida de sessão de autógrafos e degustação de comida vegana (livre de ingredientes de origem animal). A apresentação tem por tema o carnismo, sistema de crenças que torna os animais invisíveis de forma a sustentar seu consumo sem que as pessoas racionalizem o porquê. O conceito, que foi cunhado pela pesquisadora e ativista, é explorado em seu livro de 2010, sendo lançado agora no Brasil pela Editora Pensamento. “Desvendar o carnismo pode nos tornar cidadãos mais empoderados e testemunhas sociais mais ativas, qualquer que seja a nossa opção alimentar”, afirma Joy.

Melanie Joy, Ph.D., Ed.M, formou-se em Psicologia na Harvard University e atualmente é professora na Universidade de Massachusetts, Boston, onde leciona cursos nos quais examina racismo, heterossexismo, gênero, violência doméstica e trauma psicológico. A Drª Joy é uma antiga defensora dos animais e da justiça social e ambiental. Seu trabalho recebeu aclamação crítica internacional e ela já foi entrevistada para diversas revistas, livros e programas de rádio de canais como a BBC, NPR, PBS, e ABC Austrália. Também escreveu o livro Strategic Action for Animals, sem tradução para o português.

No evento haverá venda de livros, sessão de autógrafos e degustação de comidas e bebidas veganas (100% livres de ingredientes de origem animal).

Dia: Quarta-feira, 04 de junho de 2014 Hora: 19h00
Onde: Universidade de Brasília Local: Auditório 4 do Instituto de Biologia
Campus Universitário Darcy Ribeiro, Asa Norte
Entrada: Franca
Realização: Sociedade Vegetariana Brasileira e Editora Pensamento
Apoio: Grupo de Pesquisa UnB Ética + Animais e Veganize!/ProAnima
Mais informações | Simone Lima: (61) 81548026 sgdelima@gmail.com
 
Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Eu não disse que ia voar mesmo que com os pés quase no chão?

Pois aqui estou, pairando entre o azul do céu e o vermelho da terra. Até mesmo a estrada é gentil e se estende como um tapete novo aos meus pés. E não piso nele.

Olho ao longe sabendo que não alcanço o ponto aonde vou chegar. Me encanta a falsa demarcação do horizonte, a linha imaginaria que separa o aqui do lado de lá. O lado de lá, sempre lá.

Ver a vegetação correndo em sentido contrário, na borda da estrada, me remete a observações de Robert Pirsig no seu ‘Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas’, quando defende ardorosamente as viagens de motocicleta como uma forma de estar em comunhão com o mundo. Para ele estar em um automóvel é como observar a natureza através de uma vitrine (ou algo assim). Já eu, me contento com essa proximidade e me sinto perfeitamente integrada, apesar da velocidade com que nos olhamos, a paisagem e eu. Nos amamos e não importa se não a toco ao passar. Nos fitamos e nos levamos em memória. Imagino que guarda minha expressão, tão impressionada passo por ela.

George Benson me acompanha o pensamento e com uma elegância delicada vai musicando minha viagem de forma a torná-la inesquecível. Mas não só ele. Ouço outra voz que comporá o inesquecível.

De repente tudo toma um ar encantado e me vejo no meio de uma revoada de borboletas amarelas sobre o sem-fundo azul do céu. Sinto-me pessoalmente presenteada e acredito, com menos pretensão do que fantasia, que é pra mim que se apresentam.

E então a voz de Adriana Calcanhoto traz um pouco do que vivo. Pela janela do carro vejo tudo enquadrado – e estou lá. Nas cores de Frida Kalo. A terra é vermelha como os vermelhos de Frida. O céu é azul como o azul improvável que pinta a casa de Frida. O verde é tão verde como os que estampam suas saias rodadas. Ela se deleitaria com esse percurso e se enxergaria em alguns elementos. As árvores tortas têm um quê de seu corpo torturado e belo.

De repente as coisas mal cabem em mim e sinto emoções que brotam como fluido borrifado em sentido ascendente. Estou vaporizando emoções.

E não resisto a uma última citação. É Rilke.

“Quando não há caminhos traçados, nós voamos.”

Apesar das estradas desenhadas sob meus pés, costumo voar tomando rumos inesperados. E assim, por pelo menos uma vez nesse trajeto, me perdi de verdade (não sozinha). E foi bom.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Lá vem ela vestindo roupa estranha. Vestido vaporoso fora de moda. Será organza?

Louca. Descosturada. Não roga pragas. Roga poemas.

Fala alto em bom som e sabe sussurrar. Canta sozinha e às vezes chora cantando. Será organza ou organdi o tecido que a veste? Vai voar.

Pés descalços, corações tatuados, rubi incrustado no dedo. Mechas de todas as cores nos cabelos que querem chegar aos pés. Estranha. Lembra bordado sobre voile, aquele tecido fino, que mal se vê, com imagem do vôo e com textura de ar. Transparente o tecido sobre a pele clara. Transparente a pele sobre as veias finas. Transparentes as veias sobre o sangue denso.

Poemas, para os domingos, prefere os leves, finos como a crostata que derrete na boca. Sem peso de açúcar, sem falta de açúcar. Nos outros dias, o que vier.

Lá vem ela de chapéu. Abas largas. Ainda melhor ao seu próprio espelho. Tão diferente, tão démodé.

Vem vindo em seus próprios sonhos. Refletida nas pupilas negras, menina dos olhos de si mesma, perdida em um espelho d’água, prestes a se afogar. Tão antiquada de sentimentos.

Segue regras que irá burlar. De loucuras esporádicas alimentada, vagando as ruas, geme poemas, o fantasma só. Parece alma, tão leve o corpo. Nem sei se mora ou se assombra casas, vidas alheias, ou se ilumina umas tantas vidas que se fazem suas.

A roupa, o tecido, o chapéu, as palavras e seus pensamentos, não se usam mais. Mas lá vai ela, chamada no vento por pensamentos, segue alheia a outros mundos, atraindo olhares que se perguntam se voltará.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

 

 Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Ig
agosto 2014
D S T Q Q S S
« jul    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  
Curta!
Mulheresnopoder