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Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Hoje saí de casa e encontrei algumas poesias por onde andei.

Em um restaurante, desses detestáveis self-services, fui atendida por um poeminha xoxo e mal educado, desmazelado na aparência e de conteúdo tosco. Quis sair dali às pressas e até evitei a comida, certamente mal feita e fria.

Já na calçada, diante de uma vitrine, levei um esbarrão de uma escrita vulgar com escancarado desejo de ser sedutora – gostosa. Moça com grandes estrofes e pouca sutileza. Com sensualidade exagerada, passou deixando um perfume excessivo e enjoativo no ar. Daqueles cheiros que grudam na gente, mesmo ao contato passageiro. Às vezes penso que grudam só de se olhar.

Passei também por odes decadentes, ainda com traços belos de um passado já muito passado, mas muito nobre.

Fui saudada com breves acenos por orações gentis em versos ligeiros e presenciei uma briga de um grupo de frases feias, adornadas com brilho arranhado de rimas sintéticas e longas métricas de ouro de baixo teor.

No horário do chá, num salão metido a fino, fui apresentada a uma dama com ar esnobe, pretensa erudita. Ainda era jovem, mas seu ar pesado em afetado rebuscamento e insistentes maneirismos lhe dava rugas entre os olhos e olhar de moça velha. Agradeci o chá e saí ainda em jejum.

Pensei que o dia estava perdido em poetagens rançosas.

Caminhei um pouco mais e me sentei, com uma pontinha de desânimo, na varanda de um café, onde pedi café, e abri um livro que me sorrira horas atrás; e então, ao virar uma página, uma pequena poesia dobrou a esquina e passou diante de mim, sorridente e leve, matinal como aquelas moças de propagandas de absorventes. Sempre (mesmo!) tão limpinhas, arejadas e ágeis, essas mocinhas.

Sempre (mesmo!) vestidas com tecidos fluidos, frescos e claros de estampas miudinhas. Uma lindeza de se ver.

Aquele tipo de poesia que olha e sorri, cumprimenta espontânea, pára pra um dedinho de prosa, fala do tempo, de um sentimento, de coisas que viu, e vai pra casa (ou pra onde quer que seja) deixando uma sensação de que crescemos juntas, que lemos os mesmos primeiros livros de escola. Vai indo diante do meu olhar de admiração e desejo de amizade sincera.

Ah, eu queria uma dessas como vizinha, irmã, melhor amiga… Ou filha, ou mãe, madrinha, comadre, ou mesmo cunhada. Sogra não, porque nesse caso eu não poderia falar mal do meu amor nem confidenciar alguma traição esquecida no passado… Deus me livre!

Mas eu queria mesmo encontrá-la novamente, e como acho que tenho idade para ser sua mãe, se ela fosse órfã eu a adotaria… E a registraria com meu sobrenome.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Entre orquídeas e ipês, azaleias e jasmins, há sempre um canto de passarinho, um movimento de formiga, uma abelha em voo lento. Há sempre uma folha seca, uma flor caída, uma pedra largada. Sempre há, também, o meu olhar e minhas mãos, sentindo aqui, colhendo ali.

Costumo levar flores para dentro de livros velhos, onde guardo também folhas rendilhadas que recolho no chão, tão ressecadas quanto as antigas páginas que carregam os textos impressos.

Com o tempo as flores ressequidas parecem tornadas em papeis de seda coloridos e finos, de toque breve e quebradiço, e ainda emitem um sussurro curto quando se quebram – o mesmo das louças partidas.

Visto assim, os canteiros parecem forrados de cacos de louças pintadas. São mosaicos de retalhos ruidosos e leves que voam com o vento.

No interior dos meus livros a vida se dá em ciclos de uma outra forma. As flores prensadas se apegam às páginas e reconstroem suas histórias (é assim que quero ser ao envelhecer). São como ilustrações de passado e acima de tudo são textos poéticos ditados pelo jardim, como notas acrescidas à espera de uma nova edição.

Esse lugar fértil é um autor atento que compõe com habilidade invejável suas crônicas, poesias e contos. Passeio por ele ouvindo histórias, lendo-lhe livros e, ao seu interesse, até falando de mim.

Entre uma sombra e outra há sempre um Drummond aberto e um Borges fechado (onde recosto minha cabeça à espera de ouvi-lo e ao alcance de sonhá-lo).

Meus autores prediletos são tantos que comporiam canteiros exuberantes, e são como iluminuras nesse meu pedaço de terra, nesse canto que me remete ao quintal de onde vim.

Meu jardim me leva a Matos, Campos e Prados.

Aqui planto e colho Florbelas, Rosas e Marguerites. Tenho Carvalhos, Pinheiros e Oliveiras. Por aqui costumam passar Pessoas, Anjos, Santos e Reis.

E entre todas as flores, semeio meus amores. Aqui amores-perfeitos são cultivados.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Uma mesa nova pra escrever e desenhar diante da janela como eu sonhava! Diante do lago, da cidade, do campo de golfe, do palácio presidencial e… Cupins! Descobri agora, no meu primeiro dia de desenho diante da janela, que uma importante peça de madeira da casa está infestada de cupins. Ai, meu Deus, como alguém pode ter a mente tranqüila pra deixar a inspiração fluir quando já no primeiro momento vê uma parte dessa inspiração sendo corroída por esses diabinhos? E pior, ficam ali em plena atividade enquanto eu fico paralisada diante de péssimas previsões: homens que querem meter a mão na carteira da madame, dando altíssimos orçamentos que não condizem com o serviço – e chamam mesmo a gente de madame! Ou, pior ainda, doutora! Geralmente esses são os mais cínicos. Querem dar a entender que se a dona da casa tem uma casa, e se essa casa tem cupins, então tem o que gastar! É a lógica, “ou a senhora mata os bichos ou os bichos matam a senhora”.

Praga… O cupim e o explorador. Acho até que são sócios.

Pois é, e sinto inveja dos cupins. Não cansam nunca do trabalho enquanto eu me esgoto só de pensar em como exterminá-los. Minha mão se recusa a fazer qualquer desenho porque perdeu o pique, está trêmula de surpresa e apavoramento com a fome abissal dos bichinhos que podem, como nos desenhos animados, consumir uma casa inteira em segundos. E eles tocam a vida indiferentes. Nem se dão conta da minha presença ou se dão, me esnobam.

Sinto minha energia ir pro espaço. Um problema a mais eu não preciso, definitivamente. Mas não posso ignorá-lo, também, definitivamente.

Fico os observando. Esses indecentes não param pra descansar um segundo sequer. São extremamente produtivos! Procriam e trabalham fora. Pela agitaçãozinha parecem trabalhar com prazer, posso ver a expressão de contentamento em algumas carinhas que antes eu supunha carrancudas. Imaginava-os com cara de maus. Só faltava agora sorrirem pra mim, acenar, me chamar pelo nome…

Penso tanto neles que começo a não ter coragem de matá-los assim, pura e simplesmente. Ainda que me esnobem descaradamente já fantasiei uma relação amistosa. Mais que isso, afetuosa.

E se eu os tirasse dali e os levasse pra casa do vizinho? Assim eles não ficariam sem lar.

Mas certamente meu vizinho ficaria, então não seria justo.

E se eu os levasse pro meio do cerrado? Ai, não quero imaginá-los comendo meu amantíssimo cerrado, mesmo sabendo que é seu hábitat natural…

Eu poderia construir-lhes uma casinha, daquelas de terra, o cupinzeiro, ali num canto livre do jardim… Mas não, eles são muito vorazes e rapidinho retomariam posição nos meus pilares.

Tenho que matá-los, nunca tive escrúpulos com esse tipo de extermínio. Logo eu que já fui alvo de protestos em passeatas de três crianças indignadas por eu matar formigas e lesmas diante de uma câmera em nome da arte! E eu poderia fazer um novo trabalho.

Matar cupins seria um prazer!

Sinto um choque com essas palavras. Preciso pensar em algo eficaz e ético ao mesmo tempo…

E preciso ser rápida, a Madeira está bem danificada.

Claro, tenho que contratar alguém para fazer o serviço sujo e eu saio de casa no dia. Não vejo, não sofro e não poderei ser acusada por não estar na cena do crime.

Está decidido.

Agora só uma coisa me amola, vejo o homem da dedetização cumprindo com seu ritual profissional: examina de um lado, do outro, como se pudesse enxergar mais profundamente que qualquer outro humano e lentamente vai dizendo, como quem não quer nada, “É… Tá difícil… Já estão muito profundos, têm muitas galerias, provavelmente uma grande colônia. É do tipo que não morre fácil… Vai me dar trabalho! Além do mais o veneno é muito forte. Não gosto de trabalhar com ele. (Dá uma risadinha) Acaba com a saúde! Mas eu vou fazer! O valor é… “

Fico surda de repente. Só um zunido me envolve. É psicossomático. Desenvolvi essa surdez que me aparece toda vez que vou ouvir um orçamento em casa. Já houve situações em que a vista turvou também…

Depois virá o carpinteiro pra reparar o dano… E novo lapso de surdez.

Mas terei que ser forte, pois os cupins já estão me corroendo. E como se não bastasse o dano material, esses atrevidos são pura eficiência! Ai que inveja!

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Foto - Valéria Pena-Costa

Foto – Valéria Pena-Costa

Estou muito bucólica. Tentei de muitas formas escrever e descrever os dias passados no campo de modo um pouco mais “cerebral”, mas só me saem expressões que beiram ao lirismo. Então me dou conta de que estou mesmo é num momento Rococó. Sou a própria moça do balanço daquela pintura de Fragonard. Envolta por flores e folhagens exuberantes, grama verde, sombras doces, cachoeiras e cascatas e os mais variados cantos de passarinhos, como posso querer um texto que não seja essa calda entornada, saída diretamente do canavial que cresce animado ao alcance dos meus olhos? Eu admito, estou impressionada. Não sei quando vou me refazer desse choque de prazer, dessa overdose de romantismo rural que experimento. Não quero me refazer, não quero retomar a vida como era. Eu nasci na fronteira entre o urbano e o rural, com o tempo fui me mudando para cidades maiores e passei a me sentir revestida de concreto e pavimentada com massa asfáltica. Mas isso é antiecológico para a minha alma, e por isso a chuva, quando cai, forma poças sem escoamento e passo a me sentir alagada. Depois crio bolor e, por fim, o musgo me cobre até que volte o sol. Aqui no campo, não. Há vazão para os excessos.

E há muito ainda que me surpreende e me dá prazer.

É delicioso acordar antes do despertador com o canto do galo, machucar o pé num jardim rochoso com caliandras nativas na beira do rio, escorregar em uma pedra limosa da cachoeira, pisar num espinho de juá.

O vagalume ainda existe e não tem quedas de energia, não se apaga quando a chuva chega.

O Canarinho não mora em gaiolas e canta e come muito perto da gente. Canta por que quer, com prazer, e não porque tem que defender a ração de cada dia num cubículo insalubre.

A rolinha faz ninho na pilastra da varanda e enquanto cuida dos filhotes não teme os cachorros nem os donos da casa. Ao contrário, olha pra gente com ar indiferente como quem pergunta: ” Tá olhando o quê, nunca viu uma mãe com a ninhada?” Quase lhe respondi, quando, muito perto dela, me senti indagada: “Não. Assim, nessa serenidade nunca vi. Nem eu fui tão segura quando choquei cada um dos meus três ovinhos.”

Há um constante barulho acetinado vindo das árvores. Um contínuo movimento lento, sem pressa de cidade. E quando venta pra valer, elas têm sua própria chuva de folhas e flores. Chovem folhas do imenso fícus, pingam flores de quaresmeira, dançam os galhos do flamboyant. Quase tempestade. E foi assim que vi substituídos os confetes desse último carnaval.

E embora pareça embriagada, não volto com ressaca. Ao contrário, quero minha metade campestre. Levo comigo re-despertada na alma a memória da minha natureza há muito intocada.

Eu sempre soube que sou quase um bicho do mato ou uma árvore do cerrado.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

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‘Seu’ Manoel é meu vizinho de muro, muro de adobe, de barro. Sua casa é um sítio bucólico com muitas plantas, bichos de terra e passarinhos. No meio do terreno ele cultiva, cuidadosamente, um extenso canteiro de pensamentos onde constantemente desabrocham coloridas palavras.

D. Cecília mora na esquina e a vejo muito na janela. Tem lindos olhos de olhar longo e muitas fotos antigas na parede. Habilidosa, faz rendas de versos ‘pra fora’. Costura suas próprias roupas, sempre bordadas de flores, luas e sentimentos.

Seu Mario é meu queridinho, vive sozinho ali no hotel. Mas diz que nunca se sente só, porque junta muitas lembranças na cabeça, inclusive de fantasmas que vêm constantemente lhe visitar. Não guarda o que acumula e distribui suas valiosidades com a mesma generosidade com que elas crescem em seu coração. Sei que muita gente gostaria de viver ao lado dele.

O Carlos (ele não gosta de ser chamado de senhor), que mora na casa mais alta, costuma sentar-se num banco da praça e observa tudo e todos. Tem um olhar aguçado que engole calmamente as coisas que passam ao seu redor. Quando se recolhe leva consigo os sabores das impressões degustadas e descreve cuidadosamente os ingredientes que sua fina escrita decanta.

E a D. Cora… Ai que velhinha linda! Delicada e leve. Tenho vontade de sentá-la no meu colo e cochichar meu carinho nos seus ouvidos que parecem ser muito sensíveis e nada surdos. Queria que fosse minha avó. Queria costurar na sua velha máquina de pedal, cerzir toalhas de mesa e lavar seus panos de prato. E comeria seus doces e devoraria seus contos.

Minha vizinhança é maior, muito maior ainda. Há muita gente que ainda usaria as palavras ‘supimpa’, ‘friúra’, ‘rasto’, ‘quincúncio’, e outros encantos vivendo perto de mim.

Minha casa fica em uma pracinha onde há um grande tanque de areia pra meninada brincar. Tem um parquinho antigo de pintura desgastada nas barras de ferro, mas que ainda atrai enxames de crianças. Tem também bancos em pontos escurinhos que ficam ocupados todas as noites por namorados agarradinhos. Tantas vezes achei que era somente um e ao passar por perto, percebi que eram quase dois… Mas não posso comprovar, porque não olhei.

A praça é rodeada por muitas casas antigas e novas, lares de senhores e senhoras, de filhos, netos e sobrinhos. Há um hotel familiar que serve o melhor café da manhã num perímetro de 460 km, pelo menos. É aquele onde vive Seu Mario. Ali trabalham moços que sabem contar amenidades e novidades da cidade e, se preciso, têm até alguma piadinha leve de balcão. Tudo pra fazer sentir-se em casa quem chega de fora. E quem chega de fora não quer mais sair.

Além dos moços, tem a D. Maria, que não é escritora, mas sabe cantar hinos sacros e declamar orações diante do seus santos. Suas musas. Na cozinha, é um primor. Faz especialmente um pão de queijo impossível de ser esquecido e uma coalhada com gosto de infância em interior. Quem não sabe o que é isso deveria provar essa delícia com uma colherinha de açúcar (nunca adoçante) ali naquele hotel, e terá uma experiência de um realismo fantástico da vida em torno de uma praça de onde se ouve o sino da igreja, os ensaios das fanfarras de colégios de blocos de carnaval. Uma praça por onde passam imensas procissões e até cortejos fúnebres com muita gente a pé, mulheres de véu negro e homens de chapéu. Lá, até estouro de boiada já aconteceu! Ninguém reclama. Nenhum velhinho dali é ranzinza, de não gostar de barulho.

Rezo à vida pra que eu largue por aqui, enquanto é tempo, um pouquinho da minha ranzinzice precoce pra que eu possa aproveitar essas bondades de se conviver. E peço mais ainda, aí é um milagre da vida: que eles, meus vizinhos, vivam e durem muito e me esperem chegar ao ponto em que estão – em todas as formas de idade. Gostaria de não ser vista como “menina” (o que já não sou há muuuuito tempo) ou a caçula da praça (já passei da idade de ser caçula, embora seja um delicioso termo amoroso). Não quero ser a que busca água, atende à porta, leva recados e vai à padaria comprar pão. Sabe por que? Enquanto faço isso, perco maravilhosos momentos dessas companhias, perco chances preciosas de ouvir suas conversas, interpretar seus pensamentos e tentar adivinhar o que sentem, ou pesquisar de onde vem tanta riqueza de saber ser.

Quero ser da turma. Jogar biriba com eles (primeiro eu teria que aprender). Quero, sim, ter a idade que eles têm, alcançá-los. Quero mesmo essa a incrível capacidade de trazer as imagens e expressões da vida para o fundo do olho. Tão fundo a ponto de deixá-los escorregar pelas veias, baterem no ritmo do coração e se espalharem pelo corpo, saindo em forma de movimento ou palavras impressas em papéis (e em ouvidos). Ou em olhares e mãos. Porque às vezes sinto vontade de virar palavras que podem ser tocadas e levadas para mundos desconhecidos.

Na verdade ainda não sei o que eu mais gostaria, ser poeta ou ser a própria poesia.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Desenho de Lucia Pena Costa

Desenho de Lucia Pena-Costa

Contei uma historinha pra uma querida amiga recentemente. Mas tenho mais. Envolvem nomes e atos simbólicos e premonitórios. Aquilo que nos dizem na infância e nos fazem acreditar.

Publiquei um texto e ela comentou com a gentileza e carinho que lhes são próprios: “Danada… é boa na pena”. Respondi com a tal historinha, introduzindo-a com um trocadilho, um dos muitos que meu nome incita: “Tenho a pena no nome”…

“Aprendi” a escrever e a desenhar com minha mãe, de quem herdei esse sobrenome, ou pelo menos fui muito incentivada por ela, que fazia ambas as coisas muito bem. Passava horas desenhando comigo com um prazer visível, que dava gosto. Me ensinava pequenos truques/técnicas, alguns macetes e mostrava como ela marcante o seu… estilo (não gosto desse termo assim aplicado, mas vá lá). Tentava me ensinar a colorir fazendo ‘bolinhas’ ou pequenos movimentos circulares e leves com o lápis, e isso dava uma gradação e textura lindas ao colorido. Nunca consegui. Ainda bem, cada uma criou seu caminho. Mas tentei, é verdade. Tanto que cheguei a desenvolver uma antipatia ao experimento sem sucesso. Ela insistia. Me dava generosamente algo que acreditava dar certo, um atalho. Mas não foi o meu. Sobre a escrita, também passava longo tempo comigo elaborando ‘composições’ que iam como ‘deveres de casa’ – termos para ‘redação’ e ‘trabalho de casa’, usados quando eu era criança. Me despertava para expressões e palavras novas. Me ensinava a compor a cena e desenvolver a ação. Depois de um tempo passei a acha-la muito sentimental e muito doce, meio piegas, o que ela assumia sem constrangimento. Eu, de novo, fiz outro caminho. Mas também peco por traços dessas características adquiridas, tanto no desenho quanto na escrita e me vigio quando escrevo. Não sou doce como ela era em atitudes e personalidade, portanto não me cabe uma capa açucarada. Alterno inconscientemente e retomo a postura conscientemente. Mas maneirismos nos perseguem e desses, sim, busco me livrar. Intenso exercício de reconhecimento e lapidação.

Minha mãe era prendada, especialmente com os lápis e canetas. E tudo começou, acreditávamos, porque meu avô tinha o (talvez pretensioso) costume de determinar aos filhos, de forma poética, as habilidades que lhes desejasse. Isso me lembra as fadas madrinhas da ‘Bela adormecida’ lhe presenteando dons. Quando os filhos nasciam ele colocava a primeira unha cortada em algum lugar/objeto relacionado ao que lhes destinasse como talento. A de uma tia, colocou em uma máquina de costura e ela costurou primorosamente. De outra, colocou-a entre folhas de um livro para que se apegasse à leitura, e a de um dos tios, dentro de um caderno de contabilidade, visando a maestria matemática. Dos outros eu não sei. Já penso que se fosse eu, queria ter unhas espalhadas, distribuídas em muitas “ferramentas” (mas só valia para uma).

A pequena unha da minha mãe foi colocada em um tinteiro. E ela desenhava e escrevia com gosto. Seu sobrenome também tinha Pena, mas isso é só uma coincidência. Eu poderia falar muitas outras coisas a respeito do seu lindo nome, Lucia, que significa Luz, mas isto também daria contos à parte.

Mas ela cresceu incentivada e acreditou no que ouviu. Ou realmente seria assim com ou sem lascas de unhas mergulhadas em tinta. Amo essa história. E amo outra que é minha.

Um senhor cego visitava semestralmente nossa casa, vindo de uma cidade vizinha, para arrecadar uma pequena contribuição financeira que minha mãe destinava a um certo Instituto de Cegos de Uberaba. Vinha com sua esposa e passavam o dia nessa coleta pré acertada. Muito cerimoniosos, talvez também sem muito tempo, esperavam no alpendre ou no passeio. E enquanto minha mãe ia buscar o dinheiro eu ficava por ali, observando e tentando entender a cegueira. A dele era tão lúcida que não parecia lhe faltar nada. E realmente não lhe faltava, tanto é que se dispunha a ajudar outros se deslocando em longas viagens, sendo o deslocamento, em minha pequena mente, um dos maiores desafios de um deficiente visual.

Nos curtos intervalos de espera ele pacientemente conversava comigo, que tinha uns cinco ou seis anos quando esse diálogo se deu:

- Como é seu nome?
- Valéria
- Valéria de quê?
- Valéria Mundim Pena Costa
- Ahhh, que nome bonito… Então você, Valéria, é um mundo pequeno com uma pena nas costas!

Acreditei!!! Me vi, me esbocei: o globo terrestre com uma pluminha grudada. Me engrandeci. E uma peninha me bastava para voar. Eu voava solta no universo, flutuava como os planetas que passeiam na imensidão. Eu vi. E nunca mais esqueci. Me lembrei disso todas as vezes em que me perguntaram “Valéria de quê?”. Muitas vezes tive vontade de dizer: “mundo pequeno com uma pena nas costas”.

Recorri a isso sempre que me senti presa, diminuta diante de situações que me oprimiram. E também quando tendi a sentir pena de mim. Ou a achar que estava sendo punida fosse lá porquê. Penas. A minha seria para voar.

E com essa asa voei tantas vezes na vida… Às vezes tive até que ser chamada de volta à órbita e em seguida ao solo. Ainda hoje acontece. Mas pensar assim sempre valeu a pena. (rs)

Mais tarde aprendi outra vez que meu nome me daria forças, que foi um presente de uma das fadas e ainda que eu adormecesse por tempos indeterminados eu acordaria, retomaria minhas asas e recomeçaria.

Aprendi que valeria a pena…

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

 

Convite de lançamento do livro Sob os Escombros

Convite de lançamento do livro Sob os Escombros

 

 

 

Cinthia Kriemler

A escritora Cinthia Kriemler

 

 

A autora Cinthia Kriemler lança seu novo livro de contos, Sob os Escombros, no Carpe Diem, dia 20 de fevereiro as 20h. Participe!

Launa - Gabriela de Andrade Rodrigues

Launa – Gabriela de Andrade Rodrigues

Launa

Cecília é uma jovem condenada a viver numa instituição de detenção penal para incapazes mentais. Bissexual, polígama e ativista política, ela sobrevive num cotidiano repetitivo e sem sentido até o último ano de cumprimento de sua pena. As transformações começam quando, com suas colegas de cárcere e seu amigo Inácio, constrói a utopia de uma sociedade solidária e receptiva ao sexo feminino. O tempo passa até um trágico incidente acontecer e transformar suas vidas novamente. Prestes a desistir, Cecília encontra Launa e a possibilidade de uma estranha realidade. Dividida entre a lucidez e a loucura, ela recorre à escrita para se entender e fazer conhecer.

Autora: Gabriela de Andrade Rodrigues

É licenciada em Artes Plásticas e escritora, permeando diversas expressões literárias como romance, conto, poesia e crônica. Em 2014, publicará seu primeiro romance “Launa” e participará do lançamento de um CD infantil realizado a partir de suas histórias, ambos executados pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal. Sua pesquisa sobre educação anarquista em cultura visual se encontra em processo de publicação pela Editora UnB, também prevista para este ano. E por fim, possui um artigo sobre pedagogias queer e libertária publicado na Revista Educação e Pesquisa (FE/USP).

https://www.facebook.com/livrolauna

www.launa.com.br (em construção)

Arte - Valéria Pena Costa

Arte – Valéria Pena Costa

A Rolinha cantou:
Fogo apagou, fogo apagou!
O Sabiá pousou
E o mundo sorriu
Já que o fogo apagou,
A flor se abriu
Beija-flor a beijou
Bem-te-vi viu!
Sabiá me contou
(O Sabiá já sabia!)
A Rolinha cantou:
O fogo alastrou!
Foi a maior euforia!
Foi a maior cantoria!
Foi a maior “voaria”!
Beija flor apaixonado!
Era esse o fogo alastrado.
Justo ele, que mal pousa,
Quem diria!

——- E mais um ano bate asas, lá vamos nós nesses voos que o tempo tem nos proporcionado – ou imposto. Que o outro venha com festas e cantorias. Este se encerra e já o vejo como um “embrulho de Dezembro”, já que Dezembro tem cara de embrulho de presente. E passamos adiante. Temos um próximo a desembrulhar. Nada de rasgar o papel com estampa de calendário com pressa e ansiedade. Vamos abrir devagar, vendo cada surpresa que o pacote contém. Adeus ano velho! Mas ainda vamos indo nesses últimos dias, bem devagarinho, escorregando suavemente, nos soltando com carinho, que nesse finzinho não estou querendo voar. Quero ver tudo passando lentamente já que no último instante darei um salto pro lado de lá. Não será um molhar de ponta de pé pra experimentar o clima do novo ano não, será um mergulho de espírito inteiro, com corpo e tudo. Em janeiro não estaremos de volta porque não há voltas. Estaremos juntos lá adiante, no outro ano, o próximo! O que não nos permite regresso… Em fevereiro nos reencontramos. O ‘onde’, pode ser aqui mesmo, nesse espaço virtual, sem tempo e sem lugar marcado. Mas está marcado! Até lá. (O blog volta em fevereiro, aquele mês lindo em que nasci ‘com festa e cantoria’!!!!)

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Valeria Pena Costa

Valeria Pena Costa

Tenho fascínio por cacos. De louça, porcelana, cristal, vidro… Desde que brilhem e produzam o som de uma delicadeza que se estilhaça.

Só não saio quebrando pequenos tesouros que guardo porque não desejo dilapidar meu patrimônio de emoções. Também não acredito na veracidade de cacos produzidos. Há que ter a presença do inusitado e ser o registro da surpresa da perda impossível de ser evitada, do instante e da beleza que se estabelece ao alcance dos dedos que recolhem com cuidado os pedacinhos de lembrança.

Quando menina, garimpava no quintal. Cavoucava a terra antiga à expectativa de descobertas seculares no desejo de estabelecer pequenos sítios arqueológicos que me contassem capítulos de histórias e mistérios. Descobri tesouros. Sobre tempo de existência, poderia ser reconstituído a partir do testemunho da peça encontrada, claro, ou da infinita capacidade criadora e alcance da imaginação que não tem espaço delimitado em cronologias numa única vida. Nas escavações eu vivia entre séculos de percepções nunca passíveis de comprovações sujeitas à razão. Eram minhas verdades, minhas viagens, minhas inúmeras vidas revisitadas e revividas em cacos e vestígios arqueológicos caseiros, de fundo de quintal.

Procurei e encontrei tantas louças e porcelanas coloridas naquele quintal até o ponto de constatar que nada mais havia a ser descoberto, nenhum metro quadrado da terra intensamente vermelha a ser revirado. Expunha meus achados, depois de lavá-los cuidadosamente, em fileiras sobre uma mureta e admirava cada fragmento coletado. Eram pedacinhos de flores, bordaduras douradas, azuis-da-prússia sobre fundos brancos que retomavam a alvura e revelavam a estampa sob a corrente de água do tanque rústico que me cabia inteira em cada uma de suas duas grandes cubas. Eram surpresas e surpresas a cada limpeza. Eu esperava ansiosa pelas primeiras cores reveladas pela água – e sempre me encantava. É verdade que não tive critérios para classificar o valor dos cacos, senão o gosto próprio pelas cores, desenhos e suposição de raridade (o que já definem sólidos critérios), mas raridade ali, no meu mundo doméstico, e devo confessar que me encantava com todos, até mesmo com vulgares louças azuis sem estampa e registro de ascendência, ou seja, sem sobrenome e provavelmente sem estirpe. Quero dizer que loucinhas-gente-do-povo também me cativavam.

Concluo que meu entusiasmo estava mais no momento do achado, na possibilidade de descobrir testemunhos de história e passagens de outras mãos e pés antes dos nossos, da família, naquele território tão íntimo que antes eu supunha ter sido eternamente nosso, desde a Gênesis bíblica.

Campo santo da minha infância, depois desprezado e hoje novamente sacralizado pelo inventário de lembranças.

Me sentava no chão e com as pernas abertas em v cavava a terra na área delimitada nesse ângulo. A terra revolvida se depositava naturalmente no meu corpo e ainda posso sentir sua umidade e friagem sobre minhas pernas. Posso sentir também seu cheiro doce. Sensações potencializadas pela lembrança da textura e da cor. Era uma terra robusta e, passada a primeira camada seca levemente granulada, eu alcançava rapidamente a umidade e uma consistência mais pesada, mas que não escorre facilmente entre os dedos. A partir dessa camada as maiores descobertas eram possíveis. Classificava e identificava o terreno pelas referências de localidade e a depender do sol, a proximidade às raízes das árvores eram os pontos prediletos. Assim eu tinha meus endereços de explorações: o “pé de manga da torneira”, o “pé de manga da parte de cima”, a jabuticabeira, ou algum ponto do muro…

Encontrei muita “coisa boa” sob o pé de manga da torneira quando preparava a terra pra fazer meu canteiro oficial (dessa forma legitimei como meu dois metros quadrados de quintal). O canteiro era “meu”, portanto um território inviolável. Realmente nunca foi invadido, seja pelo respeito ou pelo desinteresse do resto da família. Certamente eu era também protegida pela minha poderosa vizinhança já que minha mãe era minha lindeira de posse e tinha um canteiro bem grande, espécie de matriz mesmo, que quase rodeava o meu . Tínhamos as mesmas plantas, e ali nos igualávamos, já que mudinhas de filha crescem tanto e ao mesmo tempo que mudas de mãe. As flores, nesse caso, eram irmãs e desabrochavam nas mesmas estações.

Sobre os cacos eu pesquisava a procedência com minha mãe que reconhecia alguns, presumia outros e reconstituía possíveis histórias mesmo dos que desconhecia. Alguns eram realmente muito antigos – sob minha ótica e alcance de referência de tempo. Uma louça de vinte anos, era uma peça anciã. Uma que pudesse alcançar os quarenta, verdadeira antiguidade, e a partir daí, eram objetos dignos de compor o acervo de qualquer grande museu de história natural. lugares que eu desconhecia mas concebia a meu modo. Sobre isso, minhas referências eram os livros didáticos de história e alguns outros, muito antigos, que eu folheava com tanto interesse que chegava a saborear seus cheiros que permanecem comigo (eu poderia compor uma biblioteca inteira catalogada por cheiros). Cheiro antigo, seco, odor de folhas e tintas velhas, uma certa acidez amadeirada. Aromas às vezes mais rígidos, segundo a capa, outras vezes mais vibrantes, segundo as cores das imagens.

Foi num livro desses, um livrinho miúdo da espessura de um dedo adulto, que conheci Praga. Claro que o nome ainda a ser dissociado então na minha ingenuidade, das ervas e bichos daninhos, modificou-se e cresceu em meu conceito, e pelas folhas já de um tom sépia tornou-se ainda mais carregado de dignidade acrescida pelas imagens austeras de castelos e velhas catedrais. Sempre me passou pela cabeça o quanto de cacos fascinantes eu poderia encontrar ali caso cavoucasse as antigas raízes dos imensos jardins desta e de outras cidades tão mais velhas que meus tataravós (isto representava ser muito velho mesmo!).

Em minhas escavações, em que passei a me imaginar nas terras da Bohemia, encontrei outros tipos de tesouro e um deles tenho aqui comigo, o maior em significância e valor: uma delicada e sofisticada faca com cabo de osso, ou marfim, cuja lâmina traz uma pequena inscrição ‘Paris’. Me lembro do encontro. Me deparei com a solidez de um objeto e fui desenterrando. Não acabava, não conseguia tirá-lo já que estava muito incrustado na terra endurecida e seca já que não ficava sob uma árvore, mas num local bastante insolado. Eu cavava e não identificava o objeto contido no torrão rígido, até que a arranquei e a levei à torneira. Ainda revivo a emoção. O tom marfim apareceu, arredondado nas bordas, uma fina bordadura metálica arrematando o encontro entre cabo e lâmina me encantou, e o metal já bastante manchado e gasto no ponto do corte (já sem corte) revelou a pequena inscrição. Exultei. Sai correndo a mostrar o tesouro pra minha mãe e ela falou sobre possibilidades de origem e perda. Pra minha indignação disse que “os meninos”, meus irmãos mais velhos, costumavam levar facas pra brincar no terreiro. Como? Aquele tipo de faca? Que descaso minha mãe tinha com as coisas da casa! Mas para ela, os filhos é que contavam, o resto, ou era ferramenta, ou brinquedo. Nada de tesouros em seu enxoval que não pudesse ser usado e brincado até o último suspiro pela meninada pra quem não tinha distração que bastasse. Só podia ser isso… Eu mesma fui proprietária temporária de uma bela colcha de cetim adamascado que me servia de véu a tapete e se esfarrapou em um canto qualquer como invólucro de outros trapos de nobre linhagem.

Um dia julguei não ter mais espaço no quintal que não tivesse sido escavado. Ainda fiz, durante um período, algumas verificações, explorando cantos que pareciam virgens, e nada mais. Então, só se eu aprofundasse muito, mas não cogitei fazê-lo. Ultimamente tenho pensado em retomar essa empreitada. Não me lembro, mas meus cacos devem ter sido devolvidos à própria terra, já que eu não os colocaria num lixo por maior desinteresse que tenha se estabelecido. Também não os guardei tanto, afinal a diversão era cavar e encontrá-los, e, depois de lavados e admirados, não tinham muito mais serventia, não havia nenhum conjunto de fragmentos suficientes à reconstituição de alguma peça. Assim eu os colecionava por um período, mas não havia justificativa para mantê-los já que intuía que minha coleção nem cresceria. Depois, o que acentuou a perda de interesse foi passar a encontrar cacos bastante ordinários, de louça grosseira demais para meu gosto. Que nem a simplicidade doce dos finos caquinhos azuis traziam mais, coisas que não constituíam mesmo mais surpresas nem encantos estéticos. Foi aí que encerrei minha carreira de arqueóloga. O grande tesouro foi a faca, e nunca tinha esperado encontrar uma peça como aquela. Os cacos então perderam o sentido.

Mas agora o retomo. Retomo meu interesse pelos fragmentos sem pares. Pedaços de cores enterradas no chão. Agora, quando tenho a idade que tinha minha mãe naquela época, pretendo retomar a brincadeira. Coisa que ela não fazia por falta de tempo e com interesses e urgências mais sérios, de gente grande (mas sou levada pelo meu coração a acreditar que espalhava aqueles caquinhos no quintal para que pudesse encontrá-los). Sou adulta, tenho idade de mãe que cuida de coisas sérias e tenho assuntos urgentes a tratar, e um deles é esse: garimpar e encontrar vestígios do passado. Ainda que não possa reconstituí-lo.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Texto e foto de Valéria Pena-Costa 
Valéria é Artista plástica  atualmente às voltas – e encantada! – com a recém assumida condição de “do lar”. Mineira em Brasília.
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