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Vestido

Vestido

Eu voltei. Como o boêmio que volta cansado, eu também voltei cansada. Parece até que viajei a pé. E voltei como o filho pródigo que atravessa o mundo pelo retorno a si mesmo. Deixei lá fora as roupas sujas de excessos que se desmancharam no sereno sob aquela linda lua cheia.

Nesse mundo de aventuras emocionais por onde andei, vi sacudidos todos os meus sentidos e em algum momento me vi cega. Vi. E voltei do escuro como Jonas volta do ventre da baleia. E voltei a ver como Tobias tira dos olhos as escamas que lhe cegavam.

Esse mundo de aventuras com suas contradições costuma ser cruel. Ele dá mas não entrega. Já eu, a ele entreguei mesmo o que não prometi. Mas não se trata de um sistema de trocas, não foi permuta o que fizemos. Então me devolvi a mim antes que eu lhe desse tudo e faltasse comigo mesma.

Como Ulisses eu voltei. E me encontrei como Penélope, a tecer e desmanchar para então refazer. Unicamente para não me perder. Teci meu próprio sudário e o desfiei para propiciar a volta. E fui Ariadne a enrolar um novelo com o fio da saída. Mas também fui Teseu que retornou depois de matar o minotauro. Eu o matei.

Eu fui a própria lua que nasce e cresce, diminui e some, mas sempre retorna àquele ponto, ao pé do horizonte, e chega ao topo do céu.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Quando sinto que estou precisando me conectar com a serenidade, com o mundo das possibilidades, busco uma leitura sobre o sagrado ou sobre a delicadeza oriental de viver. De ser. São dois caminhos que me apascentam. Imediatamente, ao sentir o primeiro micro sopro de uma folha virada, entro no campo das boas não certezas, da gentil permissão, do simples estar e deixar ser. E, acredite, as possibilidades vêm. Pelo menos por alguns instantes, tempo para que eu me respire novamente. Chegam como pássaros em revoada suave que por aqui permanecerão bicando, minuciosos, os grãos do aromático alpiste reserva que tenho, e que passo a espalhar no chão à minha volta.

Não é incomum eu me sentir recém saída de uma luta, daquelas bem lutadas, vigorosas, que gosto de assistir. Gosto estranho esse, reconheço, principalmente pra quem envolve facilmente um olhar afetivo com um papel de seda e sua transparência frágil. Quem dedica dias a uma renda fina ou compromete o dedo com uma pedra de pequena quilatagem de pura água marinha. É, posso ser aquosa, e também beiro o sangue. Aprecio, por exemplo, um Tarantino, uns goles de vinho tinto encorpado, o sabor marcante da pimenta rosa. Mas isso tem um preço.

Minha sorte é ter garantida, bem ali na estante, uma espécie de poupança em volumes que me falam de coisas outras além do corpo, dos movimentos bruscos, dos pensamentos densos e valores altos em cifrões.

Passadas as primeiras páginas, é como se a poeira de um redemoinho se assentasse e eu pudesse identificar no chão entre folhas ainda verdes, seixos simples de estrada e gravetos finos, a pequena conta de água marinha. Sigo observando, catando o que me interessa, lendo histórias, reparando em possíveis danos. E mais ainda em possíveis restauros. No chão revolvido, assim como entre as páginas do livro, nenhuma diferença faz se a folha arrancada ainda está verde ou já quebradiça de secura. Ali aprendo a silenciar a importância (ou a desimportância) das peças soltas.

O que tenho aqui comigo, no momento, é um pequeno e precioso livro que fala da cerimônia do chá, tradicional no pequeno Japão, nascida na imensidão da China. Não o leio tanto quanto possa parecer, e nem é necessário, pois é daquelas delicadezas marcantes, que se alastram na memória em prazeroso cultivo. É doce entrar, através dele, num aposento sereno de um ritual tão importantemente singelo. E no caminho entre o alpendre de espera e a sala cerimonial leio do autor: “Vamos sonhar com o efêmero, e demoremo-nos um pouquinho mais na formosa tolice das coisas”. De repente isso faz todo o sentido e eu me sinto solta e apta a ser sangue e água. E desejo uma generosa xícara de chá.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Nuvem

Ouço um barulho abafado atravessando o céu. São as nuvens digerindo um avião.

As semanas em clima festivo de copa têm engolido meus textos. Não os ouço claramente. Tenho a impressão de que estamos todos dispersos, e ainda mais depois de um feriado.

Climas festivos me picotam como papel a ser jogado de janelas altas de prédios em eventos de rua, confetes em carnaval ou poeira de arrasta-pé. O que sei é que depois do movimento é que minha alma se assenta, aí junto tudo e volto a ser eu, centralizada em mim com vistas para o mundo lá fora. Por enquanto, estou lá fora.

Logo estarei aqui, com pensamento claro como a linha branca deixada pelo avião em dias de céu azul. Espero!

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Foto Valéria Pena Costa

Foto Valéria Pena Costa

Costumo falar de coisas leves, mas há dias em que, mesmo no inverno, nuvens aparecem. E com sorte, chovem. Vou fazer chover.

Hoje acordei com duas indagações, síntese de ontem: ‘quem disse que é fácil? Mas tinha que ser tão difícil?’ E tento rir. Sai um risinho seco. Realmente preciso fazer chover.

Ontem visitei extremos de emoções. Na primeira parte do dia agradecia à vida por um certo dom avalizado por pessoas que pontuam meu universo. Pequenas (enormes) estrelas. No fim do dia, o danado, inevitavelmente, escureceu (e mesmo com a presença das estrelas, o escuro me assustou).

Eu quis segurar o sol, mas nada pude fazer para retê-lo. Despediu-se lindo. Antes de ir, abraçou o céu inteiro, afagou o telhado e as paredes da minha casa; alisou todo o céu com as pontas dos dedos alaranjados; pintou a cidade, dos pés à cabeça, de laranja, vermelho e azul; atravessou os arcos da ponte; mergulhou no lago; coloriu minha íris e minha pele e se afastou devagar. Lambeu-me antes de ir. Um carinho inesquecível. E se foi. Ele costuma me afagar assim. Ao chegar, ao se retirar. Me encanta quando vem e deixa-me com saudades.

Quando a noite veio, tinha um humor estranho. Assustou-me, ofendeu-me, até, em um curto mas definitivo instante. Eu quis e tentei me reconciliar com ela, tentei celebrar, festejar. Não foi possível. Precisei fazê-la dormir na tentativa de mudar-lhe os ânimos. Adormecemos juntas.

Acordei tarde, depois de numerosas tentativas do dia de me despertar. As nuvens estavam lá e discutiam com o sol. Negociavam a posse do céu. Eu, daqui, até agora, tento fazer chover para dissipá-las todas.

Desenho, escrevo, falo com gente que amo, recrio o formato do dia. Desconsidero o que não merece ser cultivado. Vou me derretendo assim, um tanto melosa, e essa é minha chuva. Tento desconstruir crenças e impressões em busca de reaprender. E de repente me dou conta de que despedidas são bonitas. No drama da partida, talvez para deixar registros inesquecíveis, o que se vai tenta mostrar o melhor de si. Como o canto do cisne. A oração da extrema unção. Os finais tornam-se bem-vindos. Que sejam pequenos finais como espaços para recomeços. Podas de estações que propiciam reflorescências pródigas (numa mesma planta). Ontem se foi. (Ufa!) Ficam-me os amores e somente o que merece ser mantido na razão e no coração, que hoje em dia já não se dispõem a oferecer abrigo incondicional. Aliviada, já posso me declarar refeita. E reitero também a gratidão. Aquela mesma de ontem. O dia já passou do meio, já me reconciliei com quem amo e refaço planos com reformas imprescindíveis. Havendo ou não uma saída em ‘gran finale’ do dia e do sol, a noite há de ser doce. E estarei envolta pelo meu amor.

(Chovi)

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

SVB – Sociedade Vegetariana Brasileira promove palestra com Melanie Joy, psicóloga e autora do livro “Porque amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas? Uma Introdução ao Carnismo”. A palestra acontece na UnB, na próxima quarta-feira, dia 04/06 às 19h00, e conta com o apoio do Grupo Ética + Animais e do Veganize! + ProAnima.
Entrada franca e tradução simultânea.

Foto Reprodução

A palestra da professora Melanie Joy acontece na próxima quarta-feira, dia 04/06, às 19h, na UnB, seguida de sessão de autógrafos e degustação de comida vegana (livre de ingredientes de origem animal). A apresentação tem por tema o carnismo, sistema de crenças que torna os animais invisíveis de forma a sustentar seu consumo sem que as pessoas racionalizem o porquê. O conceito, que foi cunhado pela pesquisadora e ativista, é explorado em seu livro de 2010, sendo lançado agora no Brasil pela Editora Pensamento. “Desvendar o carnismo pode nos tornar cidadãos mais empoderados e testemunhas sociais mais ativas, qualquer que seja a nossa opção alimentar”, afirma Joy.

Melanie Joy, Ph.D., Ed.M, formou-se em Psicologia na Harvard University e atualmente é professora na Universidade de Massachusetts, Boston, onde leciona cursos nos quais examina racismo, heterossexismo, gênero, violência doméstica e trauma psicológico. A Drª Joy é uma antiga defensora dos animais e da justiça social e ambiental. Seu trabalho recebeu aclamação crítica internacional e ela já foi entrevistada para diversas revistas, livros e programas de rádio de canais como a BBC, NPR, PBS, e ABC Austrália. Também escreveu o livro Strategic Action for Animals, sem tradução para o português.

No evento haverá venda de livros, sessão de autógrafos e degustação de comidas e bebidas veganas (100% livres de ingredientes de origem animal).

Dia: Quarta-feira, 04 de junho de 2014 Hora: 19h00
Onde: Universidade de Brasília Local: Auditório 4 do Instituto de Biologia
Campus Universitário Darcy Ribeiro, Asa Norte
Entrada: Franca
Realização: Sociedade Vegetariana Brasileira e Editora Pensamento
Apoio: Grupo de Pesquisa UnB Ética + Animais e Veganize!/ProAnima
Mais informações | Simone Lima: (61) 81548026 sgdelima@gmail.com
 
Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Eu não disse que ia voar mesmo que com os pés quase no chão?

Pois aqui estou, pairando entre o azul do céu e o vermelho da terra. Até mesmo a estrada é gentil e se estende como um tapete novo aos meus pés. E não piso nele.

Olho ao longe sabendo que não alcanço o ponto aonde vou chegar. Me encanta a falsa demarcação do horizonte, a linha imaginaria que separa o aqui do lado de lá. O lado de lá, sempre lá.

Ver a vegetação correndo em sentido contrário, na borda da estrada, me remete a observações de Robert Pirsig no seu ‘Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas’, quando defende ardorosamente as viagens de motocicleta como uma forma de estar em comunhão com o mundo. Para ele estar em um automóvel é como observar a natureza através de uma vitrine (ou algo assim). Já eu, me contento com essa proximidade e me sinto perfeitamente integrada, apesar da velocidade com que nos olhamos, a paisagem e eu. Nos amamos e não importa se não a toco ao passar. Nos fitamos e nos levamos em memória. Imagino que guarda minha expressão, tão impressionada passo por ela.

George Benson me acompanha o pensamento e com uma elegância delicada vai musicando minha viagem de forma a torná-la inesquecível. Mas não só ele. Ouço outra voz que comporá o inesquecível.

De repente tudo toma um ar encantado e me vejo no meio de uma revoada de borboletas amarelas sobre o sem-fundo azul do céu. Sinto-me pessoalmente presenteada e acredito, com menos pretensão do que fantasia, que é pra mim que se apresentam.

E então a voz de Adriana Calcanhoto traz um pouco do que vivo. Pela janela do carro vejo tudo enquadrado – e estou lá. Nas cores de Frida Kalo. A terra é vermelha como os vermelhos de Frida. O céu é azul como o azul improvável que pinta a casa de Frida. O verde é tão verde como os que estampam suas saias rodadas. Ela se deleitaria com esse percurso e se enxergaria em alguns elementos. As árvores tortas têm um quê de seu corpo torturado e belo.

De repente as coisas mal cabem em mim e sinto emoções que brotam como fluido borrifado em sentido ascendente. Estou vaporizando emoções.

E não resisto a uma última citação. É Rilke.

“Quando não há caminhos traçados, nós voamos.”

Apesar das estradas desenhadas sob meus pés, costumo voar tomando rumos inesperados. E assim, por pelo menos uma vez nesse trajeto, me perdi de verdade (não sozinha). E foi bom.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

Foto Valéria Pena-Costa

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Lá vem ela vestindo roupa estranha. Vestido vaporoso fora de moda. Será organza?

Louca. Descosturada. Não roga pragas. Roga poemas.

Fala alto em bom som e sabe sussurrar. Canta sozinha e às vezes chora cantando. Será organza ou organdi o tecido que a veste? Vai voar.

Pés descalços, corações tatuados, rubi incrustado no dedo. Mechas de todas as cores nos cabelos que querem chegar aos pés. Estranha. Lembra bordado sobre voile, aquele tecido fino, que mal se vê, com imagem do vôo e com textura de ar. Transparente o tecido sobre a pele clara. Transparente a pele sobre as veias finas. Transparentes as veias sobre o sangue denso.

Poemas, para os domingos, prefere os leves, finos como a crostata que derrete na boca. Sem peso de açúcar, sem falta de açúcar. Nos outros dias, o que vier.

Lá vem ela de chapéu. Abas largas. Ainda melhor ao seu próprio espelho. Tão diferente, tão démodé.

Vem vindo em seus próprios sonhos. Refletida nas pupilas negras, menina dos olhos de si mesma, perdida em um espelho d’água, prestes a se afogar. Tão antiquada de sentimentos.

Segue regras que irá burlar. De loucuras esporádicas alimentada, vagando as ruas, geme poemas, o fantasma só. Parece alma, tão leve o corpo. Nem sei se mora ou se assombra casas, vidas alheias, ou se ilumina umas tantas vidas que se fazem suas.

A roupa, o tecido, o chapéu, as palavras e seus pensamentos, não se usam mais. Mas lá vai ela, chamada no vento por pensamentos, segue alheia a outros mundos, atraindo olhares que se perguntam se voltará.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

 

 Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Este é o ano dos livros escritos por mulheres. Não sou eu quem digo, mas uma campanha organizada pela escritora e artista Joanna Walsh, que tem o objetivo de incentivar a leitura de escritoras no mundo inteiro. Fazendo uso da hashtag #readwoman2014, diversos meios de comunicação estrangeiros estão se movimentando para elaborar listas, dicas, dar espaço a novas e antigas autoras, que, muitas vezes, ficam à margem do noticiário literário. É só dar uma olhada em um levantamento divulgado pelo The Guardian, o qual mostra que, em 2012, na New York Review of Books, só 22% dos livros resenhados foram de escritoras. Pouco, né? O número se repete com pequena variação em todos os mais importantes suplementos literários do mundo.

“E eu com isso”? Cara leitora e amiga, ao que tudo indica, o livro no Brasil é das mulheres. Sim, nós, brasileiras, lemos mais do que os homens. Segundo pesquisa do Instituto Pró Livro, cerca de 52% dos leitores deste nosso Brasil de meu Deus são mulheres. Portanto, se somos nós que escolhemos as linhas das histórias que levamos na sacola de praia, no busão ou antes de dormir, por que não dar mais chances para nossas companheiras escritoras? Vejam: essa campanha – que foi endossada pelo bimestral norte-americano The Critical Flame – não quer que a gente pare de ler homens. Imagina ter de largar os autores xodós!? Não ia dar certo, é só questão de equilíbrio. Dar uma mexidinha nessa engrenagem – que parte dos editores, passa pela divulgação e chega aos leitores -, que acaba deixando a mulherada de lado. Trata-se de encorajar mais palavras femininas na nossa imaginação. Para mulheres e também homens. Ou você se lembra quando foi a última vez que deu um livro de uma escritora para seu marido/irmão/pai?

Como já sabemos, existe um montão de autoras sensacionais. De todo o tipo de literatura: fantástica, suspense, leve, pesada, cabeça. Em todos os gêneros também: não-ficção romance, contos, crônicas. Como aderi à campanha do #readwomen2014, compartilho com os leitores e leitoras do Sem Retoques meus livros de cabeceira escritos por mulheres. Elegi 15 e, claro, muitos ficaram de fora. Espero que gostem.

Do Blog Sem Retoques,

por Marilia Neustein

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Hoje saí de casa e encontrei algumas poesias por onde andei.

Em um restaurante, desses detestáveis self-services, fui atendida por um poeminha xoxo e mal educado, desmazelado na aparência e de conteúdo tosco. Quis sair dali às pressas e até evitei a comida, certamente mal feita e fria.

Já na calçada, diante de uma vitrine, levei um esbarrão de uma escrita vulgar com escancarado desejo de ser sedutora – gostosa. Moça com grandes estrofes e pouca sutileza. Com sensualidade exagerada, passou deixando um perfume excessivo e enjoativo no ar. Daqueles cheiros que grudam na gente, mesmo ao contato passageiro. Às vezes penso que grudam só de se olhar.

Passei também por odes decadentes, ainda com traços belos de um passado já muito passado, mas muito nobre.

Fui saudada com breves acenos por orações gentis em versos ligeiros e presenciei uma briga de um grupo de frases feias, adornadas com brilho arranhado de rimas sintéticas e longas métricas de ouro de baixo teor.

No horário do chá, num salão metido a fino, fui apresentada a uma dama com ar esnobe, pretensa erudita. Ainda era jovem, mas seu ar pesado em afetado rebuscamento e insistentes maneirismos lhe dava rugas entre os olhos e olhar de moça velha. Agradeci o chá e saí ainda em jejum.

Pensei que o dia estava perdido em poetagens rançosas.

Caminhei um pouco mais e me sentei, com uma pontinha de desânimo, na varanda de um café, onde pedi café, e abri um livro que me sorrira horas atrás; e então, ao virar uma página, uma pequena poesia dobrou a esquina e passou diante de mim, sorridente e leve, matinal como aquelas moças de propagandas de absorventes. Sempre (mesmo!) tão limpinhas, arejadas e ágeis, essas mocinhas.

Sempre (mesmo!) vestidas com tecidos fluidos, frescos e claros de estampas miudinhas. Uma lindeza de se ver.

Aquele tipo de poesia que olha e sorri, cumprimenta espontânea, pára pra um dedinho de prosa, fala do tempo, de um sentimento, de coisas que viu, e vai pra casa (ou pra onde quer que seja) deixando uma sensação de que crescemos juntas, que lemos os mesmos primeiros livros de escola. Vai indo diante do meu olhar de admiração e desejo de amizade sincera.

Ah, eu queria uma dessas como vizinha, irmã, melhor amiga… Ou filha, ou mãe, madrinha, comadre, ou mesmo cunhada. Sogra não, porque nesse caso eu não poderia falar mal do meu amor nem confidenciar alguma traição esquecida no passado… Deus me livre!

Mas eu queria mesmo encontrá-la novamente, e como acho que tenho idade para ser sua mãe, se ela fosse órfã eu a adotaria… E a registraria com meu sobrenome.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Entre orquídeas e ipês, azaleias e jasmins, há sempre um canto de passarinho, um movimento de formiga, uma abelha em voo lento. Há sempre uma folha seca, uma flor caída, uma pedra largada. Sempre há, também, o meu olhar e minhas mãos, sentindo aqui, colhendo ali.

Costumo levar flores para dentro de livros velhos, onde guardo também folhas rendilhadas que recolho no chão, tão ressecadas quanto as antigas páginas que carregam os textos impressos.

Com o tempo as flores ressequidas parecem tornadas em papeis de seda coloridos e finos, de toque breve e quebradiço, e ainda emitem um sussurro curto quando se quebram – o mesmo das louças partidas.

Visto assim, os canteiros parecem forrados de cacos de louças pintadas. São mosaicos de retalhos ruidosos e leves que voam com o vento.

No interior dos meus livros a vida se dá em ciclos de uma outra forma. As flores prensadas se apegam às páginas e reconstroem suas histórias (é assim que quero ser ao envelhecer). São como ilustrações de passado e acima de tudo são textos poéticos ditados pelo jardim, como notas acrescidas à espera de uma nova edição.

Esse lugar fértil é um autor atento que compõe com habilidade invejável suas crônicas, poesias e contos. Passeio por ele ouvindo histórias, lendo-lhe livros e, ao seu interesse, até falando de mim.

Entre uma sombra e outra há sempre um Drummond aberto e um Borges fechado (onde recosto minha cabeça à espera de ouvi-lo e ao alcance de sonhá-lo).

Meus autores prediletos são tantos que comporiam canteiros exuberantes, e são como iluminuras nesse meu pedaço de terra, nesse canto que me remete ao quintal de onde vim.

Meu jardim me leva a Matos, Campos e Prados.

Aqui planto e colho Florbelas, Rosas e Marguerites. Tenho Carvalhos, Pinheiros e Oliveiras. Por aqui costumam passar Pessoas, Anjos, Santos e Reis.

E entre todas as flores, semeio meus amores. Aqui amores-perfeitos são cultivados.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

Ig
julho 2014
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