Arquivos para a ‘Humor’ Categoria

Família Addams
De todas as mortes que soube ou presenciei, a minha foi a mais triste. Classifiquei-as nas seguintes categorias: tristeza, popularidade, efeito surpresa.
A da minha avó ganhou em popularidade. Velório lotado. Parecia até festa. Aliás, era festa. Meu avô contratou um carro de som e patrocinou a bebida até o dia amanhecer. Quando enterraram, os convidados contavam piadas e riam. Já haviam esquecido, há muito, o motivo da reunião.
Em efeito surpresa, minha mãe venceu. Disparado. Talvez essa merecesse ficar fora da competição. Hors Concours mesmo! AVC acrescido de infarto agudo do miocárdio às vésperas de uma visita fora de época.
Aconteceu de madrugada. Teve até ligação de delegado no meu celular para avisar. Jurei que era mentira. Fiz piada com o policial. Não, nunca tive surpresa maior do que essa.
Mas a mais triste, a morte tristíssima digna de moção, foi a minha. Sozinha e em vida. Sem fechar os olhos. Sem estancar a dor. Sem dignidade.
Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Dança
É mais ou menos assim: dois pra lá, dois pra cá.
A gente segue o ritmo da música. Pisa no meu pé, eu não ligo. Te levo. Esse cheiro…
Ah, esse cheiro de shampoo. Sabonete. Não sei.
Pele macia. Voz mansa. Dois pra lá. Corpo grudado. Quente. Seus lábios roçando meu pescoço.
Um arrepio. Dois pra cá.
E eu rezando baixinho pra música não acabar.
Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Trapalhadas…
Por quê? Porque minha vida parece um seriado de comédia pastelão…
Cena 1
Filha acaba com o carro. Convence a mãe a atravessar a cidade para levá-la a uma locadora de veículos porque quer ir a sua formatura no final de semana e não tem carona pra festa. Escolhe o carro. Faz cadastro.
- Senhora, a carteira de motorista, por favor.Procura na bolsa. Descobre que deixou em casa.
[black out]
Cena 2
Aeroporto lotado. Fila gigantesca.
Cenário 1: Balcão da Companhia aérea
- Carteira de identidade, por favor?Repete-se o ato da busca desesperada pelo documento. Não, ele não está lá. Volta para casa. De novo no aeroporto. Não consegue despachar a bagagem. Corre para o embarque.
Cenário 2: Detector de Metais
Apita, volta, apita, volta, passa o detector no corpo. Nada.
- Moça, se apitar com piercing eu não mostro. - Eu é que não quero ver!Risos.
- Passe de novo pela porta. - Ok.PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
- Tire o calça$%&, por favor. - O QUÊ??? A CALÇA??? Como é que eu vou andar no aeroporto sem calça? - O calçado, senhora. O cal-ça-do! - Ah, tá…Enfim, entra no avião, atrasada, sob olhares de reprovação, arrastando uma mala vermelha tamanho “esconderia-um-corpo-facilmente”.
Cenário 3: Duty Free de Buenos Aires
Óculos chiquérrimo. Perfumes. Chocolates. Câmera fotográfica. Compras acima da cota não declaradas por sugestão da vendedora.
- A senhora deixa a caixa aqui e coloca os óculos na cabeça, estilo fashion. - Ok.Nervosismo. Deve estar escrito na minha testa que estou mentindo! Passa correndo pela imigração/alfândega/pessoas-uniformizadas-com-cara-feia.
Cenário 4: Balcão do táxi
- Para onde, senhora? - San Telmo, por favor. - Quantos volumes? - … - Senhora? Olha pra um lado, olha pro outro… - Ai, meu Deus, a mala ficou na esteira. Espera só um minutinho? Imigração/alfândega/pessoas-uniformizadas-com-cara-feia: - A senhora esqueceu a mala??? - É… é… - Fica com meu cartão, vou anotar atrás o endereço da Embaixada do Brasil. Se tiver qualquer problema… - Obrigada, senhor, eu só quero a minha mala mesmo.[black out]
Cena 3
Caribe. Verão. Mar azul claro. Golfinhos. Veleiros. Margaritas. Boites. Jantares. Mergulho. Visualiza?
E que tal voos perdidos, polícia e confusão?
- Onde você estava? - Na praia. - Mas deveria ter feito check out hoje! - Não, meu voo é amanhã. - Hoje! A polícia está te procurando!!! - Hein? - Nós reportamos a senhora como turista desaparecida às autoridades! - Hein? O voo é amanhã… - Pegue sua passagem, por favor, senhora. - …. - Senhora?Senta no chão com a passagem na mão e pensa: Ah, não!!! De novo??? Não é possível!
[black out]
Isso e outras. Várias outras. Não acender os faróis no apagão. Bater com a cara em porta de vidro. Trocar o nome das pessoas em todas as situações imagináveis. Sim, todas. Comemorar o próprio aniversário em data errada. Chegar “levemente alterada”, tentar disfarçar e se entregar ao guardar o bifinho – que a mãe ofereceu – no bolso da calça jeans, dizendo que vai comer depois…
Então, Deus:
- Por favor, na próxima vida, menos…
Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa, e escreve para o Mulheresnopoder.
São só dois passos para cair no abismo.
Vertigem.
As pessoas-formiga vagueiam sem saber onde ir. Olho de cima com meu olhar de Deus-Todo-Poderoso como se soubesse da vida. Como se tivesse certezas além da morte. Olho além do horizonte. Sem dor. Sem grandes dramas. Só o tédio a me rodear. E nele me perco. Até não saber nada. E desaparecer.
As pessoas-formiga dormem em suas casas. Aguardam um novo dia. As pessoas-formiga acordam, trabalham, comem e dormem. As pessoas-formiga vivem? Arrastam-se pelos dias enquanto a vida acontece sem que elas percebam.
As pessoas-formiga conhecem as leis e as obedecem. As pessoas-formiga criam as regras. E nunca, nunca mesmo, as desrespeitam. As pessoas-formiga tem objetivos definidos e não descansam antes de os alcançarem.
As pessoas-formiga não ultrapassam limites.
As pessoas-formiga comem sem sentir fome. Dormem sem sentir sono. Vivem sem sentir vida. E morrem sem deixar marcas. Desprezam as sensações. Valorizam a realidade. As pessoas-formiga são práticas e concretas.
- O que é abstrato?
Pergunta a pessoa-formiga.
Silêncio.
Não há resposta.
As pessoas-formiga desconhecem o vazio. Não entendem as dinâmicas complexas da vida. As pessoas-formiga não tem anseios. Não devaneiam. Não se desesperam. E não são tragadas por um mar de inquietações
Só as pessoas-formiga são felizes.
A Carolina Vianna é fotografa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder .
Ligação no meio da noite sempre traz algo inesperado. Na maioria das vezes desagradável, mas como saber, sem atendê-la?
- Sério? A gente não se vê faz tanto tempo que nem lembro mais do seu rosto. Vou pegar uma foto e fazer aqueles envelhecimentos no computador, pro caso de não te reconhecer quando chegar no aeroporto. Tô meio sem jeito, sem saber o que dizer, o que fazer. Acho que perdi o mojo, sabe?
- Não é por aí, meu bem. Eu estou com saudades, você também. Vai dar tudo certo. Acredite!
21h. Em pé no saguão. Segurando a fotografia com as mãos trêmulas. Não, ele não foi meu grande amor. Não foi o maior dos meus casos e nem o abraço que eu nunca esqueci. Teve um papel importante em determinado momento na minha vida. É especial ainda. Carinho. Acho que é isso.
Ele chega com meia-hora de atraso. Uma barriga muito maior do que a esperada. Menos cabelos. O mesmo andar. O mesmo olhar. E o jeito canalha que sempre me divertiu.
Algumas horas depois e somos os mesmos de antes, mas melhores. Sem crises. Sem cobranças Sem grandes dramas. Se houvesse um concurso de noite perfeita, essa seria imbatível, pensei. Mas Murphy não perdoa ninguém.
- Meu bem, eu tenho que ir.
- Ahn?
- É. Tenho que ir embora.
- Você viaja seis horas de avião até aqui pra me ver e não vai nem passar a noite?
- É que… – pra ser sincero – eu não vim te ver. Tinha uma conexão mais longa e te liguei pra matar o tempo.
Surpresa…
Nem sempre tão doce quanto o chocolate.
Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Chuva
A chuva choveu em mim. Num dia desses, qualquer, de solidão e de calma. Molhou meu rosto, meu corpo e atingiu a alma.
Preencheu meus espaços vagos com pingos de possibilidades. Fez-me embebida em esperanças.
Assim, chovida, andei descalça pelas ruas. Acreditando ser água, chovi também. Ensopei quem me seguia. Molhei de alegria aqueles que observavam. Pinguei felicidade. E fui água.
E enquanto era água, era completa. Não por ter companhia. Pois ao me sentir água, a chuva cessou. Mas por pertencer. Era gota em oceano.
Por fim, sequei de tanto desaguar. Mas a chuva tornou a chover em mim. Disse-me que pertencia à ela. Também ao céu, à terra, ao ar e ao mar.
Choveu tanto, tanto, tanto que me desfiz. Virei chuva então. Dissipei minhas gotas displicentemente. Espalhei minha água até evaporar.
Gotas de alma caem nos mortais. Uns choram, outros sorriem. Mal sabem que a chuva é feita de almas.
Dessas que se encantam de tanto amar sem saber. Dessas que se transformam para compartilhar. Dessas que morrem para permitir a sobrevivência alheia.
Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Inveja
Eu tenho inveja da vizinha. E não é pouca, não! Sento-me à mesa, na sala, com um cálice de vinho e a observo pela janela. Ela lava e estende roupas.
Eu programo a máquina para não centrifugar. Protelando, o máximo que posso, o momento em que terei de tirar as roupas do varal, dobrá-las e, então, estender aquelas que acabaram de ser lavadas. Eu tenho inveja da vizinha. Ela não parece ter preguiça.
Eu tenho inveja do vizinho. Ele cozinha todos os dias. Observo-o enquanto escrevo no escuro de sala de jantar. A janela é a minha televisão. Ele faz comida, senta à mesa, janta e depois ainda arruma a cozinha.
Eu peço comida por telefone. Troco jantar por lanche e, até mesmo, por pão líquido. Eu tenho inveja do vizinho. Ele, também, parece não ter preguiça.
Eu tenho inveja do gato do casal de vizinhos. Ele passa o dia na janela. Não trabalha. Não sai de casa. Mia quando está com fome. Ganha carinhos e afagos quando quer.
Ele é um poço de preguiça, assim como eu. Mas ao contrário de mim, não é obrigado a fazer absolutamente nada. Eu tenho muita inveja do gato do casal de vizinhos.
Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.
Num domingo qualquer, fui almoçar na casa de uma amiga. Aliás, minto, convidei-me à casa de uma conhecida. Tipo a amiga do primo da namorada do amigo, entende? Ela é inteligente, bem relacionada e, extremamente, divertida. Eu simplesmente não podia perder a chance.
A conversa estava pra lá de animada. Copos espalhados pela mesa e as pessoas terminando de comer. Tentava, sem muito sucesso, me imiscuir nos assuntos. Particularmente, acho um luxo gente que – levemente alcoolizada – consegue inserir “coaduna” no meio de uma frase. Eufemismo, sim, mas só para os queridos.
Papo-cabeça. Filosofia. Existencialismo. Novos males do século. Ou o velho Mal no novo século. Sexo. Amor. Depressão. Comportamento. Tudo ao mesmo tempo. Com e sem direção. Se não fosse um bando de intelectuais, poderia chamar de balbúrdia.
Lá pelas tantas, uma das convidadas lança uma pergunta: Ereção é obrigação ou merecimento?
Empate. Dois prá lá, dois pra cá. A provocadora aguardou a polêmica para, então, defender seu ponto de vista.
Merecimento! Merecimento, sim. Afinal, não é justo que o homem tenha um trabalho de horas e horas em preliminares para deixar a parceira no clima e seja obrigado a chegar pronto.
Pior ainda se for a primeira vez. Não precisa nem ser A Primeira Vez. Uma experiência inicial com a mocinha já serve. Em fração de segundos a racionalidade vai pro espaço e leva junto a você-sabe-o-quê.
O coitado tem de dar conta de deixar a digníssima à vontade e com vontade, conseguir a famigerada ereção e garantir a performance. Corre o risco, também, de se tornar o alvo de chacotas da turma no dia seguinte. É preciso apenas um deslize.
Por outro lado, alguém contrapôs, a mulher também chega pronta. Pode ser que não esteja pronta imediatamente para o ato, mas se esforçou aos montes até chegar na cama.
Se esforçou? Indagaram.
- Claro que sim! É preciso muito empenho para ficar linda e, sobretudo, sentir-se linda.
A mulher quando vê uma possibilidade, mesmo remota, do encontro ter um Grand Finale já começa a preparação dias antes.
Faz depilação, sobrancelhas, unhas, compra roupa nova, discute a ideia com o terapeuta, faz acupuntura para reduzir a ansiedade, liga para as amigas, lê revistas femininas com dicas quentes de sexo.
E mais. Escolhe lingerie sexy, experimenta em casa, inventa poses na frente do espelho. Faz tudo isso sabendo que as minúsculas peças não vão durar mais do que dois minutos no corpo.
Portanto, ereção, meu bem, é obrigação!
Daí pra frente virou algazarra. O academicismo deu lugar às experiências pessoais. Atropelos, acertos e risadas. O assunto ficou sem conclusão, mas rendeu uma das tardes mais divertidas que tive até hoje.
E você… o que acha?
Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

...
Tem certas imperfeições que a gente não confessa pra ninguém. Esses defeitinhos causariam grande estrago na auto-estima caso fossem revelados para as amigas, analista e, até mesmo, Deus. É verdade. Tem coisas que não dá pra compartilhar nem com Ele.
Mulher é bicho esquisito, dizem por aí. E, parece-me, que mais suscetível e dada a esses acanhamentos. Imagine, então, uma mulher declarar que ronca ou tem chulé?
Praticamente impossível. Cena de filme, eu pensaria, baseado em fatos completamente inverídicos.
Pois é esse o caso. Ré confessa. Eu tenho bromidrose nos pés. Enfeitei, não é mesmo? Procurou no Google? É isso. Chu-lé!
Suor excessivo. Suor excessivo causado por nervosismo, às vezes.
E se a confissão terminasse por aqui o vexame era mínimo, mas não. Nada na minha vida tem proporções mínimas.
Bar da moda, pretinho básico, meia 7/8, scarpin escândalo. Visualizou? Figurino perfeito, devo admitir.
A imagem no espelho era tão agradável que resolvi ser generosa. Esticada de happy hour para danceteria. O mundo merecia me ver!
Nem meia-hora de Rebolation e surge um pretê interessante. Aprovado em todos os quesitos.
Carona com direito a beijinhos de despedida.
- Aceita um cafezinho? - A essa hora? - Você está com sono? - Nadinha… - Então… Sobe?Aceitei. Preciso descrever as cenas seguintes? Acho que não.
Talvez… talvez apenas uma.
- Deixa eu tirar esse seu sapatinho pra você ficar mais à vontade… - NÃO!!!!! - Ahn? - É… é fetiche!




