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Arquivos para a ‘Humor’ Categoria

Como reforçar nas redes sociais a ideia de que a mulher é dona do próprio corpo? A ilustradora mineira Carol Rossetti encontrou no desenho a ferramenta certa para lutar contra o machismo e espalhar ideias que tornam a mulher mais livre, segura e feliz.

Da celulite à opção por não ter filhos e do shortinho ao sexo casual, Carol Rossetti usa desenhos e frases certeiros. Mas o feminismo e o empoderamento da mulher não é o único tópico a ser abordado pela arte da mineira.

Na sequência, a ilustradora também abordou temas como o racismo e a homofobia. E se esses problemas são universais, nada mais justo do que permitir que falantes de outras línguas compreendam essas belas ilustrações, não é mesmo? Para isso, ela contou com ajuda na tradução para o inglês e o espanhol, entre outros idiomas.

Confira algumas das ilustrações e compartilhe essa ideia!

Do Hypeness

Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Lá vem ela vestindo roupa estranha. Vestido vaporoso fora de moda. Será organza?

Louca. Descosturada. Não roga pragas. Roga poemas.

Fala alto em bom som e sabe sussurrar. Canta sozinha e às vezes chora cantando. Será organza ou organdi o tecido que a veste? Vai voar.

Pés descalços, corações tatuados, rubi incrustado no dedo. Mechas de todas as cores nos cabelos que querem chegar aos pés. Estranha. Lembra bordado sobre voile, aquele tecido fino, que mal se vê, com imagem do vôo e com textura de ar. Transparente o tecido sobre a pele clara. Transparente a pele sobre as veias finas. Transparentes as veias sobre o sangue denso.

Poemas, para os domingos, prefere os leves, finos como a crostata que derrete na boca. Sem peso de açúcar, sem falta de açúcar. Nos outros dias, o que vier.

Lá vem ela de chapéu. Abas largas. Ainda melhor ao seu próprio espelho. Tão diferente, tão démodé.

Vem vindo em seus próprios sonhos. Refletida nas pupilas negras, menina dos olhos de si mesma, perdida em um espelho d’água, prestes a se afogar. Tão antiquada de sentimentos.

Segue regras que irá burlar. De loucuras esporádicas alimentada, vagando as ruas, geme poemas, o fantasma só. Parece alma, tão leve o corpo. Nem sei se mora ou se assombra casas, vidas alheias, ou se ilumina umas tantas vidas que se fazem suas.

A roupa, o tecido, o chapéu, as palavras e seus pensamentos, não se usam mais. Mas lá vai ela, chamada no vento por pensamentos, segue alheia a outros mundos, atraindo olhares que se perguntam se voltará.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

 

 Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Feliz Natal!

Gosto muito de resmungar e dezembro é o meu mês favorito para me transformar no Zé Buscapé. Implico com tudo. O ano que passou rápido demais sem que eu pudesse concluir todos os meus planos. Natal cada vez mais comercial e sem sentido. Festas de família, da repartição, abraços indesejados e felicitações falsas. Cheguei a receber o apelido Espírito de Porco Natalino, em casa.Minha decoração natalina resume-se a uma micro-árvore de cristal que sai da gaveta no dia primeiro de dezembro e fica em um cinzeiro, na mesa de centro da sala, até o dia 06 de janeiro.

Ah! Além da rabugice, tenho também a depressão do Natal. Sim, eu e metade do planeta. Choro, sofro e não saio de casa. Bebo piscinas olímpicas de champanha para afogar as mágoas e essas campeãs de natação continuam a me atordoar.Nem sei quando isso começou.
Aliás, não sabia nem o motivo para esse mau humor cósmico misturado a infinita tristeza aparecer sempre na mesma época. Só sei que dura mais de dez anos. E dez anos é muito tempo para não se fazer nada.

Em 2013, porque eu gosto muito do número treze, resolvi tomar uma atitude. Voltei ao projeto de Melhorias do Ser Humano. Acupuntura. Homeopatia. Conversas intermináveis com as amigas, a terapeuta, o irmão e quem estivesse disposto a me ouvir dissecar meu passado.

Ouvi muito. Refleti mais ainda. Decidi que não preciso ser o Senhor Scrooge , muito menos o Grinch.

Não que seja um passe de mágica ou coisa fácil de solucionar, mas parece que apenas o fato de admitir o problema faz com que ele seja reduzido consideravelmente. E dezembro está suportável. Acredito que poderá, um dia, ser maravilhoso. Mas suportável, por enquanto, está bom.

Desejo, então, pra vocês, leitores do Mulheres no Poder, um fim de ano especial. Cheio de alegrias, amor, harmonia, festas incríveis com muito champanha e comida gostosa, encontros dignos e – pra quem estiver na mesma busca que eu – uma boa reforma pessoal.

Que venha 2014! E… até janeiro.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa, escreve para o Mulheres no Poder, e deseja à todos boas festas!

(...)

(…)

O rapaz, por quem tenho leve apreço e venho declarando amor ultra-romântico, disse-me não. Um “não” categórico daqueles que não deixa pairar uma dúvida sequer. Sem explicações ou justificativas, apenas “não”.

Por quê?, pensei. Mas não muito, pois sei bem o porquê. No entanto, não significa que me conformei. Resolvi, então, demonstrar que a decisão dele havia sido precipitada, afinal, não me conhece tão bem e pode vir a se arrepender de ter me dispensado, assim, facilmente.

O que é amor próprio? Algo completamente desconhecido no meu Universo, não é mesmo?

Dado que o rapaz é pragmático, nada melhor do que uma explicação técnica, com fundamentação teórica, embasada em alguma estatística. Posto isto, enumero:

1 – Bom humor

Sou de riso fácil. Acho graça da vida. Aprendi a rir de mim mesma. Não sei contar piadas, isso é verdade, mas transformo minhas próprias histórias em esquetes de stand-up e em 95% do tempo (olha a estatística!) estou de bom humor.

2 – Refinamento

Sei me comportar, tanto no boteco, quanto na festa de gala. Visto-me bem, sei expressar-me com clareza e, quase nunca, envergonho o alheio. Tenho bons modos, como diria a minha avó. Uso-os, às vezes. Prefiro não revelar essa estatística.

3 – Ingenuidade

Creio. Creio. E creio. Acredito em tudo que me dizem, denotando, até, puerilidade. Talvez, patetice. Não tenho malícia. Não perdi a inocência. Beira o ridículo, visto que já passei dos trinta, mas ao mesmo tempo, pode ser encantador.

4 – Criatividade

No trabalho, no lazer, no ócio, na vida. Sempre criativa. 100% criativa! Dada às artes. Fotografia, teatro, literatura (ainda que chinfrim) e malabarismos na repartição.

5 – Resiliência

Mantenho o equilíbrio emocional. Passo por um arco-íris de emoções e sentimentos, porém torno à condição original em tempo módico. Sem exigir do alheio. Preciso, apenas, de uma boa noite de sono.

6 – Cachinhos grisalhos

Dignos e lindos! Não dá pra dizer mais nada sobre isso. Quem já viu, entende.

Depois de criar a lista, mostrei para o rapaz por quem tenho leve apreço e venho declarando amor além da vida. Ele riu. Disse que eram excelentes qualidades e que qualquer pessoa que me conhecesse encantaria-se comigo. Sugeriu, inclusive, que eu arrumasse um namorado, afirmando que gostava muito de mim e queria ver-me feliz.

Chorei copiosamente por vários dias. Sofri de verdade. Encontrei-o, novamente, dois meses depois, em uma festa de família. Família dele, que fique registrado. O seu irmão, meu atual namorado, nos apresentou. Eu quis rir, mas ele permaneceu sério.

Nunca mais falou comigo.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

 Carolina Vianna é fotografa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Mais do mesmo

Mais do mesmo

Diário gerúndio:

Perdendo muito tempo pensando naquele que levou A Piece of My Heart e nunca devolveu.

Querendo ser Simples.

Ouvindo Joplin, Jagger e, também, Gal. Sendo inconveniente sem autocensura. Sonhando com máquinas futuristas capazes de fazer voltar ao passado. Assistindo Barbarella.

Chorando pelo leite derramado sem nem gostar de leite. Resmungando sem cessar. Imaginando cenas fantásticas com diálogos incríveis que nunca terão a oportunidade de acontecer no mundo real.

Crendo. Sendo. Fazendo.

Esticando os últimos minutos da fantasia. Prometendo o impossível. Testemunhando o fracasso. Testando limites. Sorrindo sem motivo.

Aprendendo a viver.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

 

 

"XOZODOV"

“XOZODOV”

O episódio é banal. Atendo o celular, como de hábito, sem os óculos. Aperto um olho daqui, estico o braço até onde posso, e eis que identifico a letra “L”. Na bucha, confiante: – Olá Leiloca! E do outro lado. – Aqui não é a Leila, é a Letícia. Ufa, minha nora, peço desculpas com metade do constrangimento. Ela é de casa, sabe que sou mestre nessa façanha. Perdoada, conversamos e desligamos.

Dizem que o pior cego é aquele que não quer ver. Ou o pior cego será o que vê, mas não quer enxergar? Não, certamente o pior cego é aquele que vê, enxerga, mas, ainda assim, teima em fazer vistas grossas.

Vandalismos, a quebradeira do patrimônio público, a insegurança, a afronta ao estado de direito. A cena do linchamento da autoridade policial. A violência dos mascarados – verdadeiros BANDIDOS, que como tal deveriam ser tratados – intimidando as manifestações legítimas e pacíficas. É quase surreal o poder paralisante que essa turba exerce, deixando a polícia, atônita, quase inerte, até mesmo para proteger o oficial que os comandava. É surreal a inércia dos governantes.

Já pus os óculos, mas continuo não enxergando. A visão está embaçada, turva. A minha visão, a nossa visão e, pior, a visão da polícia, a visão do Estado. Preocupante.

É preciso tratar a miopia dos que fazem vistas grossas. Olhar só para o próprio umbigo pensando nas eleições no próximo ano vem desencadeando – a olhos vistos – crescentes distúrbios na ordem e na segurança, difíceis de serem pacificados, quando se quiser puxar a corda.

Se num antigo programa humorístico o marido era cego – daquele cego que não quer ver – e o aconselhavam a voltar para casa para tomar conta da sua bela mulher, está na hora, também, de se colocar um belo par de óculos, com grau suficiente para fazê-los ver no que o país está se tornando. A não ser que a ideia seja exatamente essa.

Não duvidem, quando os gatos saem, os ratos fazem a festa.

O que tem a ver o frango com tudo isso? Nada, absolutamente nada. Foi só para mostrar que sem os óculos e, com os olhos desfocados, cometi o equívoco, como disse banal – e sem consequências – ao trocar os nomes. E cometi outro, embaralhando as letras na hora de escrever no teclado virtual do celular, e um simples frango “cozido”, se tornou, para o meu pessoal me perturbar para sempre, frango “xozodov”. Aqui na minha casa tudo isso pode.

Lá nos Palácios, desvio da atenção e vistas grossas? Jamais!

Katia Dias Freitas

Katia Dias Freitas

Katia Dias Freitas é advogada em Brasília

Contato: katiafreitasadv@gmail.com

Castelos…

Era uma vez um menino doce que morava num castelo. Esse menino não tinha irmãos, nem convivia com outras crianças, pois só havia adultos no castelo. Os dias dele eram preenchidos pelas mais diversas atividades para que não sentisse falta de companhia ou brincadeiras.

Doce e azulado, assim ele era. De um azul tão claro que parecia fazer carinho em quem o olhava. Transpirava bondade, generosidade e compaixão.

Um dia esse menino tornou-se adulto. E permaneceu azul e doce. Simples e altruísta. Passou, então, a conviver com adultos de outra forma. De igual pra igual, pensava.

Mas o convívio agora era muito diferente do passado. Os adultos não o tratavam da mesma maneira, afinal ele continuara azul quando todos os outros se tornaram cinza com o passar dos anos.

Aquele azul cintilante que outrora inspirara calma passou a irritar os demais. A docilidade os enojava. Eles eram cinza, amargos, ácidos, salgados, picantes. Nunca azuis. Nunca doces.

Sem entender o que acontecia, quis parar de brilhar. Sem sucesso, resolveu evitar o contato com o mundo cinza. Voltou para o castelo. Isolou-se.

Aos poucos, sem contato com qualquer outro ser, sua cor foi mudando. Entendeu, então, como deveria agir para ser aceito. Hoje, é quase todo cinza, pouquíssimo doce. Mantém apenas uma manchinha azulada, brilhante, que raríssimas vezes deixa ser vista.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

O fenômeno das fotos infantis no Facebook está em pauta. Vou tentando conhecer opiniões de cada um que se manifesta à minha vista.

Há aquelas ostensivamente desagradáveis, o que aborta meu interesse, já, outras, são formidáveis. Pelo menos quanto à cadência estimulante da leitura.

Valeria Pena-Costa

Valeria Pena-Costa

Vejo defesas poéticas, antipatias arrebatadas, vestígios psicanalíticos em trechos profundos – interpretações para o bem e para o mal, coisas como resgate e regressão, catarse, fuga e negação…

Porém as opiniões que me conquistam disposição e tempo são as que tratam o tema com humor.

Não raro, mesmo que eu discorde do que está posto, reconheço com prazer a qualidade da forma como é dito. Sorrio enquanto leio, converso com os autores pela imaginação. E chego a esperar que escrevam mais, pois dá gosto o jeito com que constroem argumentos pra lá de engraçados e muito bem elaborados. Me agrada a ironia sofisticada, a graça bem construída e a dose de elegância colocada – que em qualquer crítica sempre será fundamental, além de ser mais eficaz que uma simples implicância (isto, sim, birra de criança chata e mimada).

Li comentários espirituosos de amigos que tratam esse “alastramento” de criancice como uma praga por aqui. Também noto pessoas que parecem meio ofendidas pela tal infantilidade contagiante, e confesso que não consigo entender tanto adulto emburrado, saindo do “play” no auge da brincadeira. E não se contentam em sair, o que podiam, certamente, fazer calados. Esses estraga prazeres se afastam pisando duro, chutando areia, fazendo pirraças, botando língua e fazendo caretas para os que querem continuar na diversão.

Há por aí muito grito e sapateio…

Hahahha

E a imaturidade é das crianças…

Mas sobre aqueles com quem desejei esticar conversa é que quero falar um pouco mais. E registro aqui minhas palavras, como se conversasse com algum deles:

“Não há como não curtir seu argumento, admirável amigo*!

Ainda que, ao registrar meu comentário, eu venha a nos impor o constrangimento de uma fotografia da minha hipotética busca pelo tempo perdido (embora eu costume preferir meus momentos atuais).

Mas tenho que defender meu retratinho. Repare como é inocente minha expressão! Esta é uma brincadeirinha que realmente arranca, de uns tantos, boas gargalhadas e faz revelar pontinhas de afeto. Como não gostar de um bebê??? Ainda que feinho!!! rs

Seria, então, um flagrante de carências? Um apelo do querer se fazer admirado a qualquer custo???

Realmente a exposição surfa em ondas de diversas procedências nas redes sociais…

Os guaranis-kaiowás viraram bebês – agora de diferentes etnias.

Os Anonymous e Black blocs se despem temporariamente da expressão – presumida – de um olhar desafiante, e se entregam à doçura pueril de outras máscaras: as tiradas dos álbuns de família (talvez ainda continuemos sem saber quem são…). Voltam a uma época em que os protestos se davam por brinquedos.

No entanto, essa infância é bem mais provisória e em questão de dias vai passar. E reconheçamos que para alguns a militância continua, mesmo por detrás da aparência de inocentes expressões.

Engraçado mesmo é ver um monte de nenéns “politizados”, postando indignações, esbravejando contra governos e desgovernos, falando como vão votar ou como anularão seus votos na próxima eleição. Ou vê-los sábios conselheiros, esotéricos, poéticos, intelectuais… Tão precoces! Que futuro brilhante esses prodígios terão…

Tudo é comovente em bebês, ao mesmo tempo em que pode ser patético.

Doce “patetice”…

E esta celebração anual, aparentemente, veio pra ficar. Como o Halloween (que se aproxima) que a muitos assombrou, invadiu e tomou parte do nosso calendário cultural, o dia das crianças invade o território adulto das redes sociais. Menos mal.

Ao invés de traquinagens, doces sorrizinhos a serem distribuídos em janelas e portas de perfis.

E, sobretudo, a mim soa como uma versão lúdica do ‘Namastê’ (“A divindade que habita meu coração saúda a divindade que habita seu coração”):

‘A criança que habita meu coração brinca com a criança que habita você!’

Não gostar por que? Se incomodar com o quê? Que hostilidade será aquela?

Quem não gosta de criança, cachorro e passarinho, alguma coisa estranha deve esconder…

A gente até releva tanta baboseira que corre solta por aí, e se sente também compreendida naquelas que venha a postar.

É como se ecoasse, pela própria rede, o velho apelo:

‘Perdoe-os, eles (ainda) nem sabem o que fazem…’

Namastê, amigo!

E a diversão continua…

* Somos amigos, pelo menos, virtuais.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Texto e foto de Valéria Pena-Costa 
Valéria é Artista plástica  atualmente às voltas – e encantada! – com a recém assumida condição de “do lar”. Mineira em Brasília.

 

A Família Título na língua original: The Family/Malavista Ano da produção: 2013 Países de origem: EUA, França Direção: Luc Besson

A Família
Título na língua original: The Family/Malavista-  2013
 EUA, França Direção: Luc Besson

Sátira sobre a máfia tem o cineasta Luc Besson como roteirista e diretor e se passa na região da Normandia

Elenco de estrelas em grandes performances: Robert De Niro, Michelle Pfeiffer e Tommy Lee Jones

O experiente cineasta e roteirista francês Luc Besson (Joana D’Arc) extrai de clichês de filmes sobre a máfia hilariantes situações, em comédia extraordinariamente bem elaborada. Roteiro ancorado no carisma de Robert De Niro, Michelle Pfeiffer e Tommy Lee Jones provoca boas risadas em ininterruptos 111 minutos. Sátira inteligente, diretamente conectada a ícones do porte de M.A.S.H. e de Máfia no Divã. O enredo desconstrói sequências antológicas de produções do gênero e leva a plateia para passeio em montanha russa de refinado bom humor. Além do elenco estelar, o que faz A Família (The Family/Malavista – EUA/França – 2013) funcionar bem são os diálogos inesperados que temperam acontecimentos absolutamente improváveis em pequena cidade francesa na Normandia. Junte-se a isso, o choque de costumes e os cacoetes excêntricos dos personagens. O resultado: diversão com algo a mais. Aliás, muito mais.

Encrenca à vista: família de mafioso novaiorquino vai morar em pequena cidade da Normandia

O mafioso Giovanni Manzoni (De Niro), a mulher Maggie (Michelle Pfeiffer) e os casal de filhos adolescentes, Belle (Dianna Agron) e Warren (John D’Leo) entram no programa da justiça americana de proteção a testemunhas, ganham novas identidades e novo lar, do outro lado do Atlântico, exatamente em bucólica cidade da região francesa da Normandia. Tudo sob a supervisão do veterano agente do FBI, Stanfield (Tommy Lee Jones). Decidem mudar de vida, mas levam na bagagem cacoetes do passado recente, o que significa usar o modus operandi da máfia para resolver questões corriqueiras. Uma vez instalados, voltam a ser o que sempre foram. Maggie, sentindo-se rejeitada por ser americana, reage de forma bem humorada, não sem antes explodir a mercearia onde a rejeição ocorreu. Warren adapta-se rapidamente ao liceu onde é matriculado. Sentese à vontade e em poucos dias já domina várias atividades ilícitas dentro dos muros escolares. Belle, linda, decide seduzir o professor de Matemática. E Giovanni, surpreendentemente, descobre-se escritor, ao achar velha máquina de escrever no porão da casa que passam a ocupar. A nova atividade intelectual não o impede de recaídas, sempre que contrariado, seja por reles encanador ou pelo poderoso dono de indústria de fertilizantes que polui a água potável do lugar. Ao introduzir os personagens e seus trejeitos, Luc Besson vale-se de cirúrgicas doses de humor negro, ao melhor estilo da Família Adams. Primeira sequência de gargalhadas. Enquanto isso, em Nova Iorque, os ex-companheiros denunciados por Manzoni, contratam assassino cruel para ir no encalço dos delatores. Tensão à vista. Mas, lentamente esmagada por roteiro carregado de boas porções do mais puro e requintado deboche. A trama avança para o final, com a exacerbação das caricaturas de cada um dos personagens. O nível de qualidade das situações se mantém, no entanto. Besson tem firmeza. Sabe onde deve chegar. E chega bem.

Outra grande qualidade do filme está no produtor. Ninguém menos que Martin Scorsese

A presença do cineasta Martin Scorsese garante qualidade de origem à produção. Desde a escolha do elenco, capitaneado pelo amigo de várias empreitadas bem sucedidas, Robert De Niro, passando por Luc Besson, o filme atinge a todos os objetivos a que se propõe. E ainda de dá ao luxo de homenagear o produtor. Numa das sequências, Manzonni, visto pela população da cidadezinha como escritor e intelectual, é convidado para debate sobre filme americano no salão de cultura local. Na telona: Bons Companheiros.

Outra homenagem: Sergio Leone, o cineasta italiano que lançou Clint Eastwood na cena mundial

A sequência da chegada de trem com assassinos de aluguel é diretamente inspirada nos faroestes que Sergio Leone realizou nos desertos espanhóis. Mais: a música que serve como trilha daquela seguência é exatamente um grande sucesso da banda Gorillaz, curiosamente chamado de “Clint Eastwood”. Jeito carinhoso de tratar lenda que está viva e em plena atividade (Clint) e outra (Leone), responsável por um dos mais belos filmes sobre a imigração italiana para os Estados Unidos e consequente surgimento da máfia, Era Uma Vez na América, cujo personagem principal foi vivido por Robert De Niro.

Filme foi realizado na Hollywood francesa, recém inaugurada, nos subúrbios de Paris

Chama-se “Cité du Cinéma” o complexo cinematográfico de 6 hectares, onde A Família foi realizado. Inaugurado no ano passado, em Seine-Saint- Denis, subúrbio de Paris, o empreendimento demandou investimento de 180 milhões de euros. Foi idealizado por Luc Besson e aproveitou instalações de antiga central elétrica. Representa enormes possibilidades para o cinema francês da geração pós-Truffaut e Godard.

Essência lacaniana na construção dos personagens

A contribuição do pensamento do psicanalista Jacques Lacan para o trabalho dos roteiristas franceses continua marcante. Em A Família, não foi diferente. Giovanni e Maggie são dois “simpáticos” psicóticos, porta-vozes, cada um, do “seu real”. Warren inspira-se na trajetória paterna para fazer o que faz na escola. E Belle assume narcisismo caricato, autoestima ancorada em estonteante beleza, tão frágil quanto uma Vênus de vidro.

 Escrito por J. Jardelino

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Então, ele me traiu. Pior do que isso. Traiu e deixou que eu descobrisse. É! Deixou mesmo. Quem quer fazer escondido, faz e pronto. Ainda teve a audácia de brigar comigo, acredita? Falou que mexer em celular, revistar carteira e procurar mensagens suspeitas no notebook era invasão de privacidade, pode?

Fiquei perplexa duas vezes. A primeira, quando encontrei os indícios. Aliás, a confirmação. A segunda, com a briga. Invasão de privacidade uma ova! Terminou o namoro antes que eu pudesse rodar a baiana. O que só aumentou meu ódio, devo confessar.

Mas já tinha anotado todos os dados daquelazinha. E tinha planos de vingança… Sórdidos!

Passadas três semanas, o assunto ainda fervilhava na minha cabeça. Resolvi mandar um e-mail para a bonitinha. Marquei encontro pra conversar. Ah! Usando o endereço de e-mail dele, é óbvio. A pessoa é tão banal que esqueceu de trocar a senha.

Enfim nos encontramos. Eu, toda digna, cara a cara com a perua. E não é que a vagabunda era bonita mesmo?

Não gritei, nem fiz o barraco que estava pensando. Ela tinha uma voz tão doce, tão suave. Um jeito especial que parecia entender a minha dor. Conversamos por horas a fio. Até entendi porque ele havia me traído. Ela era realmente especial.

Essa é minha história de amor. A mais bonita história de amor de todos os tempos. Estamos juntas há quinze anos.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Ig
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