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Arquivos para a ‘Coluna da Carolina Vianna’ Categoria

Foto Carolina Vianna

Cópia

s.f. Reprodução manual ou automática de um texto, documento etc.
Imitação exata de uma obra de arte: cópia de um quadro.
Imitação desonesta de uma obra; plágio:

Diário

s.m. Livro de anotações contendo a narrativa diária de experiências pessoais. Na literatura inglesa, encontra-se grande número de diários importantes.

Gerúndio

s.m. Forma nominal e invariável dos verbos, proveniente do ablativo do gerúndio latino, e caracterizada, em português, pela desinência -ndo: copiando, refazendo, reproduzindo, pondo.

diário-gerúndio*

pensando em hades & tártaro. sobrevivendo ao caos. arrastando os pertences dentro do saco de pim. agarrando o saco. lutando com unhas e dentes. sabendo como é.

vivendo na ilha da fantasia. usurpando mimos do verdadeiro rei. engordando o cão. ludibriando o rei. simulando contrição. ouvindo ultrajes. respirando fundo. retrucando insultos. semeando a discórdia.

disfarçando indecências. escondendo carências. dissimulando intenções. resvalando para a concupiscência. desviando o olhar dos olhos inquisidores da matrona. criando subterfúgios & submergindo. querendo o nada de atreyu.

adquirindo micróbios, germes e doenças na rede de alcance mundial.

sonhando & ansiando & vivendo & respirando & pensando 24×7 no mausoléu & na obra & na arte. procrastinando as famigeradas promessas de fim de ano. fumando.

sendo sereia em terra firme.

 *Fonte de inspiração 

Mardi Gras

O Carnaval que existe hoje vem da sociedade vitoriana. Copiado de Paris por Nice, Nova Orleans e Rio de Janeiro. O Rio criou um estilo próprio a partir do que havia copiado. Acrescentou o desfile das escolas de samba e com isso ganhou pompa e magnitude. Virou uma festa suntuosa e diferente que, por sua vez, foi copiada por São Paulo, Tóquio e, pasmem, Helsinque.

Dizem que a origem dessa festa aconteceu na Grécia. Servia para agradecer aos deuses pela fertilidade do solo, produção e boas colheitas. A palavra vem do latim “carne vale” que significa “adeus à carne”. Era feita de cultos e cânticos.

Hoje em dia poderia ser ad carne, lorem carne, grata carne. (Não entendeu? Google tradutor existe pra isso!)

Pois bem, depois dos gregos vieram os romanos que adoraram a festinha e introduziram vinho e sexo. Tornando-a mais aprazível, ao menos, aos olhos do povo. Uma festança na minha visão! Dionísio, Baco, Saturno e, é claro, Pã se divertindo horrores e tomando bons drink. A igreja, não curtiu nadinha e censurou geral, adotou a festa e baniu os atos pecaminosos.

Isso tudo rolou na visão de alguns historiadores. Encontramos, ainda, a origem do carnaval no Egito com festas dedicadas à Ísis e ao Touro Apis, nos bacanais romanos e , também, com o entrudo português. Enfim, independentemente da origem, sempre foi festa.

Não sou fã número um do carnaval, mas aproveito o feriado para fazer alguma coisa diferente. Mesmo que seja “tirar o atraso” do sono. Já tive catapora, fugi pra Porto Alegre uma vez, outra fui pra Nova Iorque. Duas vezes me joguei na esbórnia: Salvador e Diamantina. No último ano aproveitei os dias extras pra me recuperar de uma cirurgia.

Esse ano vou trabalhar. Sexta, sábado e um pouquinho do domingo. É. Inusitado, não? Vamos fingir que eu estou gostando disso pra não começar a ladainha das reclamações sem fim.

Ainda aproveitarei segunda e terça. Ah, quarta também! Já que os meus princípios não me permitem trabalhar na quarta-feira de cinzas. E se alguém da repartição reclamar, paciência, é só lembrar quem passa o Natal e o Ano Novo lá na seção, ok?

Despeço-me desejando um excelente carnaval. Pra quem vai viajar e pra quem programou uma boa hibernada. Pra quem vai tomar todas, pra quem não bebe nada. Pra quem vai trabalhar e resmungar também. Enfim, pra todos!

Boa festa e juízo.

(pouquinho, né!)

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

"Le Voyage dans La Lune" Georeges Melies, 1902

Batata sabor estrogonofe, viagem turística para a Lua, chip subcutâneo com identidade e cartão de crédito integrados, arquipélagos artificiais, órgãos desenvolvidos em laboratório, amor virtual, sexo online, máquinas de prazer, pílulas para ser feliz, alimentos transgênicos, seleção de características genéticas para a prole. E por aí vai.

O futuro me assusta!

Isolados pela Globalização!

(Igreja Evangélica – Comunidade do Amor)

Não sei o nome da vizinha que mora ao lado, mas mando cartão pra filha do meu amigo virtual que mora na Alemanha e eu nunca vi. Quase não visito minha família, mas curto tudo o que eles dizem no facebook. Odeio dar satisfações, mas digo o que estou fazendo de hora em hora no twitter.

O futuro me distancia!

Nostalgia (sf.)
1. Tristeza e melancolia por sentir saudades da pátria.
2. Saudades de algo relacionado ao passado.
3. Estado de tristeza sem motivo certo.
[F.: Do fr. nostalgie.]

O mundo muda, mas o sentimento gregário do ser humano é atávico. Está impresso em nosso código. Nada é tão estranho quanto a sensação de vazio que essas novas formas de relações sociais nos trazem. Adaptamo-nos a diferentes situações sem grandes dramas, mas o vazio apavora. Somos resilientes. Podemos nos acostumar com o novo. Mas com o isolamento? Nunca! Nós precisamos de gente!

Tá louco o mundo? Por que tudo junto se escreve separado e separado se escreve tudo junto?

(autor desconhecido)

Conectados o tempo inteiro. Sem descanso. Rodeados por milhões de pessoas. Sem amigos. Compartilhando tristezas, alegrias e muito mais informações do que deveríamos.

E continuamos sós.

Eu estou com medo do futuro!

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Arte Blog "A Beleza de Todas as Coisas"

- Posso passar uma semana na sua casa?

- Até pode, mas por quê?

- Vou reformar o banheiro e o pedreiro disse que resolve em uma semana.

- Então traz roupa para duas semanas. Eles, normalmente, demoram mais do que o previsto.

1ª Semana: A empolgação!

Depois de decidir como seria o banheiro novo, baseada nas milhares de revistas de banheiro que havia lido, comprei os materiais de construção. Sonhava acordada com a linda decoração que imaginada.

2ª Semana: O medo.

Na primeira visita à obra, caí na real. Tudo sujo. Destruído. Até o teto o pedreiro conseguiu quebrar ao retirar o box de lá. A cada dia um pedido novo. Falta isso, falta aquilo. Tudo condenado, quebrado, estragado. Ainda na fase da destruição. A nova rotina compreende visitas diárias às lojas de construção. Potencial de VDM* com marcador no nível vermelho escuro.

3ª Semana: O atraso…

Os pedreiros habitam um universo paralelo onde a contagem de tempo é completamente diferente da que conhecemos e que funciona no mundo real. Parecem aqueles médicos que marcam consultas com duração de uma hora, mas o fazem em intervalos de 15 minutos. São duas categorias que pensam ter portais do tempo. Só pode!

- Não era uma semana?

- É, dona Carol, mas tem que ver a fiação, consertar um vazamento e…

- Tá! Quanto tempo?

- Mais uma semana.

4ª Semana: O Festival dos erros!

A bancada de concreto foi destruída pela 2ª vez e, ainda assim, não ficou do tamanho certo. O apoio para a cuba foi furado do lado errado. O blindex ficou menor do que a janela, sobraram pecinhas depois de montar o box, o rejunte manchou, o teto descascou, a porta “deu barriga” após a pintura…

- Deu barriga?

- É. Sozinha.

- Jura???

- É dona Carol, acho que o material não era de boa qualidade.

- Sei… e termina quando?

- Só mais uma semana…

5ª Semana: Tocando o F…-se!

Então, caí no esquema do “Já que…”. Já que o pedreiro era péssimo, troquei por outro no meio do serviço. Já que tem entulho por toda parte, vou trocar também o piso. Já que o apartamento está bagunçado, vou aproveitar para pintar as paredes. Já que estou com ódio de obra, vou fazer uma reforma geral para não ter de passar por isso de novo tão cedo.

10ª Semana: Dúvida cruel.

É sempre assim ou só com os marinheiros de primeira viagem?

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Dragão Chinês

O Ano do Dragão, segundo o horóscopo chinês, começou na segunda-feira passada, 23. Na China, o dragão é visto como símbolo de renascimento por causa de sua capacidade de voar.

Dizem que nos anos do Dragão tanto as fortunas quanto os desastres vem em ondas massivas. Quanto ao elemento água, parece que traz ainda uma dose extra de energia. Bom para projetos, viagens e liderança.

De 1900 pra cá, tivemos 10 anos do Dragão – inclusive – do Dragão Dourado (2000), que só acontece a cada três mil anos e significa algo que não entendi muito bem.

“Ano do Dragão Dourado: É suposto trazer a harmonia completa dos cinco elementos da filosofia chinesa (metal, madeira, água, fogo e terra), o que se refletiria em um sentimento de felicidade para todos!”

Felicidade perene? Plena? Momentos felizes? Ou só uma sensação boa? O único fato que me recordo do ano 2000 é o do meu ingresso no mercado de trabalho. Continuo na mesma empresa até hoje. E até gosto de trabalhar, mas não considero o meu emprego a minha fonte inesgotável de felicidade.

Bom, curiosa por natureza e à toa por preguiça de cumprir com as obrigações do momento, fui buscar os acontecimentos marcantes dos anos do Dragão. E muita coisa aconteceu.

Olha só o quadrinho…

 

2012

Fim dos Tempos (previsão)

2000

Guerra no oriente médio, expansão da internet

1988

Fim da guerra Irã-Iraque, primeiros computadores, constituição brasileira

1976

Crise do Petróleo, maior terremoto da China

1964

Lançamento do chip pela IBM, do primeiro filme dos Beattles e do Golpe Militar no Brasil

1952

Utilização do primeiro coração artificial, construção da bomba H, Gene Kelly Canta na Chuva

1940

Alemanha invade tudo o que consegue,

1928

Tarsila pinta o Abaporu

1916

Código Bevilacqua, Pandemia da Gripe Espanhola (década)

1904

Aleister Crowley escreve o Livro da Lei

 

Nesse ponto, você já pode estar pensando Ela tirou férias e voltou mais louca do que de costume. Qual a relação entre os acontecimentos do quadrinho?

É isso mesmo: Qual é a relação? Não consigo descobrir. Penso que a gente faz o que pode com aquilo que tem. Existem influências externas? Sim, acredito. Elas determinam o curso da vida de alguém? Dificilmente!

Então vem esse ano do Dragão, auspicioso, cheio de boas intenções, mas que não vai mudar a minha vida em absolutamente nada se eu não me mexer também.  As resoluções de Ano Novo estão aí. E o meu, começou no dia 25/01.

E você? Vai fazer o quê?

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Risos. Arte RatoFX

É tão bom quando a gente aprende a rir das merdas que faz. Tá, não só das merdas. Mas da gente mesmo. Das trapalhadas. Mancadas. Burrices. Tolices. Infantilidades. Mediocridades. Mesquinharias. E desse monte de besteira que preenche os nossos dias.

Não levar tão a sério!” Expressão fantástica. Do tipo fácil de entender e dificílima de fazer. Se fosse receita, em site ou livro de culinária, deveria ter 5 estrelinhas no grau de dificuldade. E se o livro fosse escrito por mim teria até um “putaqueopariu!” entre parênteses.

É assim, o povo vai dizendo e a gente vai ouvindo. Num belo dia a coisa acontece. Rola um clique. E você ri. Faz a maior cagada do mundo e ri. E não para. E acha graça mesmo. Não é fachada. O clique é sério.

Não sabe de onde veio. Nem sabe como aprendeu. Nem fica se perguntando se foi osmose, idade ou maturidade. A coisa se introjeta de tal maneira que fica natural. Ri até jogar a cabeça pra trás.

Pensa, no máximo, em uma maneira de consertar. No mínimo, acha melhor ficar quieta por um tempo. Afinal, não sabe se o alheio também já aprendeu a rir de si mesmo.

Quem ri de si mesmo não guarda tantas mágoas. Não se culpa tanto. Não remói. Não se envenena. E não deve ter gastrite nervosa, eu acho.

Quem aprende a rir de si mesmo vive sem tantos atropelos. Sem tantos desassossegos.

Não sente vergonha ao pedir desculpas. E toca a vida numa boa.

Não sei se vive feliz. Porque a felicidade, ao meu modo de ver, não é a constante “k”.

Felicidade, para mim, é o caminho. Ou saber que está no caminho. Mesmo quando se desvia um pouco. Mesmo quando pega um atalho errado. Mesmo quando se perde e dá uma volta enorme para retornar ao tal do caminho.

Parece confuso. Às vezes é. Às vezes não.

Mas quem ri de si mesmo vive de maneira mais simples. E eu, sempre que posso ou consigo, prefiro ser simples. E leve! Em todos os sentidos.

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Arte RatoFX

A repartição pode ser um lugar agradável, desde que você tome alguns cuidados.

Preste atenção.

No início, assemelha-se à selva. Você deve adentrar com cautela. Evitar contato com os animais peçonhentos, por exemplo, as cobras. Ao avistá-las, fuja imediatamente.

Faça o reconhecimento do território. Guarde bem os trajetos que percorrer em sua cabeça. Sem barulho. Não atraia atenção durante esse período. Observe. O silêncio, na selva, pode salvar sua vida.

Você poderá encontrar, também, araras, papagaios, maritacas, onças pintadas, macacos gordos, leões, jacarés, formigas, escorpiões e, quem sabe, um jabuti.

Talvez não veja todos. Talvez se depare com outros diferentes. Isso não importa. Permaneça alerta! Você está na selva.

Desconfie das trilhas mais fáceis, podem ter armadilhas. Não se jogue em águas calmas, verifique antes a existência de peixes perigosos.

Com o passar dos anos você se acostuma à selva e passa a enxergá-la como um zoológico. Você se sente no Simba Safari com todos os bichos transitando soltos. Agora você já enrola a cobra no pescoço e tira fotos pra colocar na rede social. Convive melhor com os animaizinhos e até os defende. Levanta bandeiras e tudo mais. Eles parecem tão domesticados, tão inofensivos.

No zoológico da repartição os animais relacionam-se razoavelmente bem. Cada um no seu território, é claro. Ora defendem seu terreno, ora dividem. Alguns somam forças para a sobrevivência. Outros, como os lobos solitários, andam eternamente à espreita de um deslize para aproveitar a oportunidade de algo melhor. E tem ainda aqueles que, vez ou outra, atacam deliberadamente o espaço alheio. É. Eles não estão mais em total condição de selvageria, mas mantem seus instintos.

O lugar passa a ser prazeroso, alegre, divertido. Não é mesmo? Então escolha seu bando de acordo com seus hábitos ou qualquer característica que julgue mais interessante. Se preferir, não se junte a ninguém. Você já passou pela selva, sobreviveu, está no zôo e é feliz.

Enfim, feliz na repartição!

Mas não se assuste se passar por um espelho d’água e notar que cresceram pelos, garras ou plumas em você. Esse é o preço!

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Arte RatoFX

A ideia surgiu de uma conversa. Pra dizer a verdade, foi inspirada em uma ação similar. Tá, tudo bem! Foi copiada. No sentido, não na integralidade. Pensei naquilo por mais de uma semana.

Sim, sinto falta de companhia. Às vezes, fico carente. Mas não é coisa grave que necessite de alguém o tempo todo. Um contato esporádico pode resolver isso. Isso e a questão física, é claro! Essa é a mais complexa.

Poderia fazer entrevistas. Ou um leilão. Não, leilão lembra bailão que lembra peão que lembra música sertaneja. Eu não gosto de música sertaneja. Não muito.

Perco o foco. Licitação, leilão, não. Nenhum ão! Muita formalidade. Um site na internet talvez. É mais descontraído, casual… Casual! Essa é a palavra.

Casual: adj. Que depende do acaso; fortuito; ocasional

Fortuito é um luxo! Devaneio de novo e me perco nas palavras. Voltando à ideia inicial. Sim, decidi. Vou fazer! A forma não será rígida. Traço um perfil, decoro um questionário e aplico quando tiver interesse. Assim, no meio da conversa, com intuito de passar despercebido. Quando chegar em casa faço o placar e pronto, escolho o que quero. Fácil!

Foi o que pensei.

- O que você gosta de fazer?

- Ah… Gosto de sair, mas também curto ficar em casa. Bebo de vez em quando, cozinho, saio com a galera pra balada.

- Você tem muitos amigos?

- Eu faço o tipo popular, saca?

- Hmm.. acho que sei.

- Tudo me diverte, menas pessoas chatas, sabe? Gente que tá sempre insatisfeita, reclamando. Tipo mimimi. Isso eu não topo

Saca já estava difícil, mas menas? Bah! Menas, nem o Lula, companheiro! Menas, não dá. Não é preconceito. É crivo! Parti, então, para uma abordagem mais direta. No meu ponto de vista, é óbvio!

- Não é que eu tenha medo de relacionamento ou compromisso. Só acho que não é o momento, entende?

- Claro.

- Então fico só. De tempos em tempos aparece uma ou outra pessoa. Coisa casual.

- Pra tirar o atraso, né?

- O quê?

- Olha, gata, que tal pularmos esse nhenhenhem do jantar e irmos direto lá pra casa?

Não era exatamente o que eu estava esperando. Não sou muito exigente, mas isso foi tosco. Rude. E depois? Me joga na parede e me dá umas bofetadas? Ah, assim não quero. Bruto, só no sentido “não refinado”. Mal-educado, nem pensar!

Mudei a tática. Gênero: romântico. Perfil: princesa. Mulher fresquinha perde. Vestido florido, arranjo no cabelo (escovado, é claro), sapatinho de boneca. Mais tons de rosa em uma só pessoa do que na casa da Barbie inteira. Creperia. Suquinho e salada. Sugestão dele. Acatada com boa vontade de Amélia.

- Você não gosta de fazer as unhas?

- Err.. Não tive tempo essa semana.

- A sobrancelha também não, né?

- Não. Marquei salão para amanhã.

- Qual salão você frequenta?

- Fica naquele Shopping perto do meu trabalho.

- A-DO-RO o cabelereiro de lá!!! Ele é um gênio da tesoura!

- É… (amiga)

Definitivamente é melhor começar à distância. A primeira conversa, agora, é por e-mail. Regra estabelecida! Nada de encontros às escuras. Chega de enrascadas.

Tentei, por fim, um site de relacionamentos. Existem aos montes. É possível enunciar os atributos desejados, listar suas principais características e escolher aquilo que você pensa que combina.

Usei imagem fidedigna. Fui discreta, mas sincera. Quando supus ter encontrado o par compatível, a surpresa final!

- Olha, Dona, vi que você se interessou por mim e já que vamos nos encontrar preciso te dizer uma coisa… pra beijar e dormir de conchinha é mais caro, tá?

E foi assim, meninas, que eu virei lésbica!

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

 

 

Queima de fogos

Faltando mais ou menos um mês para o Natal e pouco mais para o Réveillon parece que o ano já acabou. Ao menos quando o assunto é trabalho. Os planos feitos agora tem previsão de início para depois do carnaval. Serão mais de dois meses sobrevivendo em um lugar onde as horas não passam. As decisões são lentas. As pessoas estão em férias ou se programando para isso. E só se pensa em festas e comida. Sim, esse lugar é o fim de ano.

É sempre assim. A partir do meio de novembro começam os almoços, as confraternizações, amigos secretos e outras reuniões sociais cujos nomes não me lembro agora. Então as pessoas são simpáticas e apresentam aquele discurso anual, próprio para essas festividades. No próximo ano serei mais próximo e etc. E no ano seguinte encontram-se na mesma festa e repetem o discurso.

E a bondade súbita? É caixinha de Natal, lista para o copeiro, gorjeta para o vigia do estacionamento, cesta para o porteiro, bônus para a faxineira e por aí vai. No resto do ano, nem bom dia, nem dois dedos de prosa, nem cinco minutos de atenção. Isso me lembra a Tia Maria. Era copeira na repartição. Todo ano ganhava dinheiro e algum presente dos funcionários. Um dia, dirigiu-se à mesa do meu chefe para agradecê-lo. Quando ela saiu, ele estava com os olhos marejados. Ela agradeceu o cartão. Disse que nunca havia recebido um.

Tem a caridade também. Só em novembro e dezembro é que existem crianças órfãs, velhinhos sem parentes e pessoas que necessitam de assistência. No resto do ano, essas pessoas não são enxergadas. Ninguém tem frio. Ninguém tem fome. Ninguém precisa de carinho e cuidados. Só no Natal!

Além disso, abraços apertados, acertos de contas e sorrisos amarelos. Uma infinidade de contatos físicos indesejados com aquela pseudo-parentada e agregados que só aparecem nessa época. Ouvi uma vez que hóspede é igual peixe, depois de três dias fede. Sem mais comentários para esses que surgem apenas para comer e nem te ligam no seu aniversário.

Por fim, as famigeradas promessas para o Ano Bom que já começam a ser quebradas no dia primeiro de janeiro. Não beber tanto, maneirar na comida, emagrecer, fazer exercícios, parar de fumar, gastar menos.

Que tal sair um pouco do plano material? Que tal trocar promessas por objetivos? Desses alcançáveis. Um por ano, quem sabe. Não tenho a pretensão de converter ninguém em Madre Teresa de Calcutá, mas essas transformações são benéficas para o próprio indivíduo que as executa. Acho que é por aí.

Para alguns, pode parecer que tudo isso que falei não está tão próximo. Mas essa é a intenção. Alertar enquanto ainda há tempo de mudar.

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Mas parece que muita gente por aí não gosta. Foi retirada de circulação a foto em que apareciam o papa Bento XVI e o imã Mohammed Al Tayeb – pasmem! – beijando na boca. O Vaticano informou que já solicitou aos seus advogados que empreendessem as medidas legais com o objetivo de impedir a utilização das imagens.

Benetton: fotomontagens da nova campanha estampam fachada da loja em Paris (Martin Bureau/AFP)

Um dia antes…

Tarde da noite, desocupada, lia notícias na internet. De repente, deparo-me com a seguinte chamada de matéria: Beijo na boca de Obama em Chávez e Hu Jintao não agrada Casa Branca. Meu Deus, pensei, o Barack endoidou de vez! Não beijou só um, mas dois caras! E logo quem?

Tentei ler a notícia, mas o portal não apresentava a matéria. Formou-se, é claro, uma complexa teoria da conspiração na minha cabeça. Essa Casa Branca, hein? Já conseguiu interferir até nos sites brasileiros. Bah!

Depois de umas três tentativas, finalmente, consegui ver a foto. Aliás, as fotomontagens. É a campanha da Fundação UNHATE (contra o ódio?). E quem criou a Fundação? A Benetton, é claro.

So they are back in the game!

Pode até parecer incrível para os outros. Mas eu acreditei. Achei até pertinente. Pensei que estivessem selando algum acordo de paz de maneira mais esfuziante.

Coisas de quem não assiste televisão e não lê jornais, não é mesmo? É verdade. Olha, eu nem fazia ideia de que imã poderia ser algo diferente de enfeite de geladeira. Confesso!

Bom, voltando ao primeiro beijo. Não o meu. O que comentei a princípio. A foto foi tirada de circulação porque os fiéis sentiram-se ofendidos. E a Benetton – fantástica, na minha visão – lançou a campanha em Paris, mas no mesmo dia realizou ações na Itália e em Tel Aviv.

As palavras do porta-voz da Santa Sé foram: “Trata-se de uma grave falta de respeito com o papa, uma ofensa aos sentimentos dos fiéis, uma demonstração evidente de como no âmbito da publicidade é possível violar todas as regras elementares do respeito para atrair atenção“.

Não sei se estou muito permissiva, mas ver o papa beijando o imã na boca não me chocou. Também não me chocou, a reação da Igreja e dos muçulmanos. Muito menos, a reclamação dos envolvidos, afinal eles é que estão expostos num beijo gay em outdoors espalhados pelo mundo.

O que me espantou é que todos os comentários foram feitos apenas sobre as imagens. Não encontrei nenhuma matéria que falasse sobre o discurso da campanha. Ninguém disse: Poxa, cagou nas fotos, mas a mensagem é legal. Nada. Sobre isso? Silêncio absoluto.

Pode?

Então, no meu senso íntimo, vivi por alguns minutos uma outra versão da história. Na qual a campanha cumpria seu propósito da forma idealizada, como explicou o assessor de imprensa da grife.

‘Unhate’ pretende contrastar a cultura do ódio e promover a aproximação de pessoas, religiões e culturas, além da compreensão pacífica das motivações dos outros”

Os líderes mundiais fariam gracejos sobre as fotos, aproveitariam o mote para reforçar a necessidade das pessoas combaterem o ódio em seus lares, emprego, enfim, onde tiver gente. Estimulariam a luta contra a homofobia. Rechaçariam a intolerância religiosa.

O papa faria um pronunciamento. Protestaria um pouco, mas no final de seu discurso, ressaltaria a importância de não nos odiarmos, de não cultivarmos esse sentimento, de aceitarmos diferentes culturas, opiniões e etc. E faria uma oração por todos os povos.

E teríamos um tijolinho na estrada da paz mundial. Sonho de candidata à Miss Universo, eu sei. E nem me envergonho. Foi bom fechar os olhos e imaginar tudo isso. Quem tiver curiosidade ou estiver num momento Pollyanna, como eu, pode clicar aqui para conhecer a Fundação UNHATE.

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, Poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.