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Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

Ainda tenho a falar de Cartagena, lugar generoso em histórias e inspiração, mas, ao voltar, criei uma pequena esquina no caminho e um breve assunto surgiu num passeio saudosista pelo centro de São Paulo, com direito a um guia amoroso e narrativas pitorescas.

Alguns poderiam chamar nosso trajeto de ‘clichê’ ou coisa assim, já que caminhamos por pontos como a Praça da Republica, o Largo do Paissandú e a Av. Ipiranga (com avenida São João). Claro que mais clichê que citar Caetano, impossível, mas não resisto. Aliás já se tornou um cacoete meu cantarolar Sampa ao passar por ali. E, claro, me peguei com um assobio embutido, louco para ser transformado em canto, mas que engoli – o que o prolongou perseverantemente no meu cérebro a ponto de ritmar meus passos por intermináveis instantes. Iniciamos pela tradicional Xavier Toledo, passamos pelo teatro Municipal, descemos à Praça Ramos de Azevedo, também conhecida como a praça dos gatos. Para minha decepção, um único representante apareceu ao longe. Diante da bela Fonte dos Desejos não pude evitar a imagem de Anita Ekberg deliciando a vista dos inúmeros transeuntes com um banho dirigido por Fellini. Chegamos à igreja Nossa Senhora do Rosário no Largo do Paissandu, o que pra mim foi o ponto alto do trajeto. Não tanto pela minha já conhecida devoção, mas pelos detalhes que dali extraí. O singelo templo é hiper adornado, dando a impressão de que mãos e olhares ansiosos por agradar à padroeira local juntaram ali, com o andar do tempo, um considerável grupo de elementos vistosos e de santos de comprovada influência na esfera celeste. De algumas imagens confesso ter sentido um quase medo, tão feias me pareceram numa grosseira artesania barroca, com cabelos humanos e olhos de vidro nadinha compassivos. Muito mais, sim, assustadores, como aqueles que em nada me lembraram as belas representações de Jesus. Este, especialmente, estava meio desolado num abandono de quaisquer traços da vaidade católica, comum ao apresentar seus ícones. Estava descabelado, na verdade, e nem a roupa fora feita à sua medida. Talvez nem seja assim e tudo seja fruto da minha tendência ao caráter de ‘impressionável’.

Felizmente já havia feito minhas preces à doce Virgem Maria antes de cruzar meu olhar com o olhar vítreo da dramática imagem, senão, certamente teria minha concentração abalada e o poder da minha oração estaria em risco.

À saída da igreja passamos pela bancada de velas, mas para minha divertida surpresa não eram velas que ardem em belas coreografias de chamas delicadas e recatadas, símbolos da transmutação de desejos terrenos em mensagens que se elevam aos céus como emissoras sagradas. Eram lâmpadas. E, pasmem, com funcionamento pago por tempo de serviço. Um papel fixado trazia a tabela de preços do “Velário Ecológico” com tempos predefinidos:

Moedas R$ 0,25
Vela ligada
Por 15 minutos

Moedas R$ 0,50
Vela ligada
Por 30 minutos

Moedas R$ 1,00
Vela ligada
Por 60 minutos

Vela ligada! Achei isso o máximo. Da esquisitice, da incoerência entre o divino e o mercantil. É certo que também vamos pedir coisas nas igrejas (quero dizer, aos santos e a Deus!), dinheiro até, mas pagar taxas por pedidos… e saber que um interruptor de energia elétrica define o tempo da manifestação de fé…

Saímos da igreja e a bela história de sua construção pelos escravos (ou Homens Pretos, como consta em seu nome), ainda que em dissintonia com o prosaico detalhe, não permitiu que meu estado de contemplação fosse maculado (demais). Logo ali fora, porém, o profano era gritante e não pude deixar de fazer paradoxais relações. A praça era o avesso da Igreja. Ao invés das ‘estátuas’ sagradas no contorno interno da nave, postadas à volta da igreja, pontilhando a grade que a circunda, moças em trajes contemporâneos e muito menos pudicos prestavam-se a outro tipo de devoção. Pusessem-lhes túnicas longas de cores celestiais, retirassem as gritantes cores dos traços fisionômicos retintos pela pesada maquiagem, seriam belas imagens de santas. Madalenas.

E agora, se pareço pecar, perdoe-me aquele que é o Senhor da verdade, mas imediatamente me veio à lembrança a tal da tabela de preços dos minutos de uso do calor da chama.

Melhor e mais poético teria sido ver velas de cera que derretem ao fogo, trazidas pelas mãos crentes que oferecem e pedem com o mesmo ardor as benesses divinas. Já as moças, ficariam ainda mais bonitas como ninfas na Fonte dos Desejos, pois voluptuosas e sensuais como Anita Ekberg, quase todas eram. E Fellini certamente se comprazeria a observar lá do céu. Se é que se encontre lá.

(Penso que sim).

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Nuvem

Ouço um barulho abafado atravessando o céu. São as nuvens digerindo um avião.

As semanas em clima festivo de copa têm engolido meus textos. Não os ouço claramente. Tenho a impressão de que estamos todos dispersos, e ainda mais depois de um feriado.

Climas festivos me picotam como papel a ser jogado de janelas altas de prédios em eventos de rua, confetes em carnaval ou poeira de arrasta-pé. O que sei é que depois do movimento é que minha alma se assenta, aí junto tudo e volto a ser eu, centralizada em mim com vistas para o mundo lá fora. Por enquanto, estou lá fora.

Logo estarei aqui, com pensamento claro como a linha branca deixada pelo avião em dias de céu azul. Espero!

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

Feliz Natal!

Gosto muito de resmungar e dezembro é o meu mês favorito para me transformar no Zé Buscapé. Implico com tudo. O ano que passou rápido demais sem que eu pudesse concluir todos os meus planos. Natal cada vez mais comercial e sem sentido. Festas de família, da repartição, abraços indesejados e felicitações falsas. Cheguei a receber o apelido Espírito de Porco Natalino, em casa.Minha decoração natalina resume-se a uma micro-árvore de cristal que sai da gaveta no dia primeiro de dezembro e fica em um cinzeiro, na mesa de centro da sala, até o dia 06 de janeiro.

Ah! Além da rabugice, tenho também a depressão do Natal. Sim, eu e metade do planeta. Choro, sofro e não saio de casa. Bebo piscinas olímpicas de champanha para afogar as mágoas e essas campeãs de natação continuam a me atordoar.Nem sei quando isso começou.
Aliás, não sabia nem o motivo para esse mau humor cósmico misturado a infinita tristeza aparecer sempre na mesma época. Só sei que dura mais de dez anos. E dez anos é muito tempo para não se fazer nada.

Em 2013, porque eu gosto muito do número treze, resolvi tomar uma atitude. Voltei ao projeto de Melhorias do Ser Humano. Acupuntura. Homeopatia. Conversas intermináveis com as amigas, a terapeuta, o irmão e quem estivesse disposto a me ouvir dissecar meu passado.

Ouvi muito. Refleti mais ainda. Decidi que não preciso ser o Senhor Scrooge , muito menos o Grinch.

Não que seja um passe de mágica ou coisa fácil de solucionar, mas parece que apenas o fato de admitir o problema faz com que ele seja reduzido consideravelmente. E dezembro está suportável. Acredito que poderá, um dia, ser maravilhoso. Mas suportável, por enquanto, está bom.

Desejo, então, pra vocês, leitores do Mulheres no Poder, um fim de ano especial. Cheio de alegrias, amor, harmonia, festas incríveis com muito champanha e comida gostosa, encontros dignos e – pra quem estiver na mesma busca que eu – uma boa reforma pessoal.

Que venha 2014! E… até janeiro.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa, escreve para o Mulheres no Poder, e deseja à todos boas festas!

(...)

(…)

O rapaz, por quem tenho leve apreço e venho declarando amor ultra-romântico, disse-me não. Um “não” categórico daqueles que não deixa pairar uma dúvida sequer. Sem explicações ou justificativas, apenas “não”.

Por quê?, pensei. Mas não muito, pois sei bem o porquê. No entanto, não significa que me conformei. Resolvi, então, demonstrar que a decisão dele havia sido precipitada, afinal, não me conhece tão bem e pode vir a se arrepender de ter me dispensado, assim, facilmente.

O que é amor próprio? Algo completamente desconhecido no meu Universo, não é mesmo?

Dado que o rapaz é pragmático, nada melhor do que uma explicação técnica, com fundamentação teórica, embasada em alguma estatística. Posto isto, enumero:

1 – Bom humor

Sou de riso fácil. Acho graça da vida. Aprendi a rir de mim mesma. Não sei contar piadas, isso é verdade, mas transformo minhas próprias histórias em esquetes de stand-up e em 95% do tempo (olha a estatística!) estou de bom humor.

2 – Refinamento

Sei me comportar, tanto no boteco, quanto na festa de gala. Visto-me bem, sei expressar-me com clareza e, quase nunca, envergonho o alheio. Tenho bons modos, como diria a minha avó. Uso-os, às vezes. Prefiro não revelar essa estatística.

3 – Ingenuidade

Creio. Creio. E creio. Acredito em tudo que me dizem, denotando, até, puerilidade. Talvez, patetice. Não tenho malícia. Não perdi a inocência. Beira o ridículo, visto que já passei dos trinta, mas ao mesmo tempo, pode ser encantador.

4 – Criatividade

No trabalho, no lazer, no ócio, na vida. Sempre criativa. 100% criativa! Dada às artes. Fotografia, teatro, literatura (ainda que chinfrim) e malabarismos na repartição.

5 – Resiliência

Mantenho o equilíbrio emocional. Passo por um arco-íris de emoções e sentimentos, porém torno à condição original em tempo módico. Sem exigir do alheio. Preciso, apenas, de uma boa noite de sono.

6 – Cachinhos grisalhos

Dignos e lindos! Não dá pra dizer mais nada sobre isso. Quem já viu, entende.

Depois de criar a lista, mostrei para o rapaz por quem tenho leve apreço e venho declarando amor além da vida. Ele riu. Disse que eram excelentes qualidades e que qualquer pessoa que me conhecesse encantaria-se comigo. Sugeriu, inclusive, que eu arrumasse um namorado, afirmando que gostava muito de mim e queria ver-me feliz.

Chorei copiosamente por vários dias. Sofri de verdade. Encontrei-o, novamente, dois meses depois, em uma festa de família. Família dele, que fique registrado. O seu irmão, meu atual namorado, nos apresentou. Eu quis rir, mas ele permaneceu sério.

Nunca mais falou comigo.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

 Carolina Vianna é fotografa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Mais do mesmo

Mais do mesmo

Diário gerúndio:

Perdendo muito tempo pensando naquele que levou A Piece of My Heart e nunca devolveu.

Querendo ser Simples.

Ouvindo Joplin, Jagger e, também, Gal. Sendo inconveniente sem autocensura. Sonhando com máquinas futuristas capazes de fazer voltar ao passado. Assistindo Barbarella.

Chorando pelo leite derramado sem nem gostar de leite. Resmungando sem cessar. Imaginando cenas fantásticas com diálogos incríveis que nunca terão a oportunidade de acontecer no mundo real.

Crendo. Sendo. Fazendo.

Esticando os últimos minutos da fantasia. Prometendo o impossível. Testemunhando o fracasso. Testando limites. Sorrindo sem motivo.

Aprendendo a viver.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

 

 

Loucura?

Loucura?

O rapaz por quem tenho leve apreço, mas venho declarando amor Byroniano, chamou-me de louca. Indaguei logo o motivo. Frases desconexas! – foi a resposta. Não esbravejei dessa vez. Admiti a loucura serenamente. Disse, inclusive, que fazia parte do meu charme.

A aceitação imediata do elogio (?) não significa, porém, que não me pus a pensar novamente no fato. Sim, tema recorrente, bem sei. Mas um momento de reflexão não faz mal a ninguém, sobretudo se vier acompanhado de um bom Cava e brie.

Loucura, por definição, é doidice, demência, insanidade, ato de extravagância ou de imprudência.

Neste exato momento em que escrevo sobre esse tema tão controverso para mim, meu vizinho escuta Habanera e canta com Maria Callas. Mas canta tão alto que incomoda até o gato. Isso poderia ser considerado um ato de extravagância e encaixar-se na descrição de loucura? Talvez. Eu, apenas, o julgo culto, visto que ouve ópera, jazz, blues.

Vez ou outra, danço sozinha em casa. Já tentei dançar com o gato. Mas ele não gosta de Sinatra. Extravagância? Insanidade? Ou excesso de felicidade? Enfim, não foi a dança que levou ao elogio. Voltemos às frases desconexas. Acredito, piamente, em espontaneidade. Tornemos a utilizar o pai dos limitados*. Ele diz: — Espontaneidade: em que há simplicidade, originalidade, naturalidade.

Posto isto, entendo que é óbvio dizer que sou simples, original e natural, portanto, espontânea. Digo o que penso sem rodeios. Outras vezes, não penso, sinto. E digo também! Expresso-me sem censura e com verdade. Mesmo que a existência da verdade seja limitada ao ínfimo momento de sua enunciação. Propago energia verbal.

Talvez o mundo globalizado, preso a padrões rígidos de conduta não admita esse tipo de comportamento. Há quem execre. Há quem, somente, se afaste. No entanto, na briga entre o azul e o amarelo – dizem – há espaço para todos. Então, deve haver quem goste também.

Assim creio. Assim, mantenho-me espontânea, original, simples, natural. Porque no meu ponto de vista, cometo sincericídios. Alguns engraçados, outros nem tanto. Mas loucura? Não, só aos olhos de quem enxerga o mundo em Preto & Branco.

*Burros, mas mamãe ensinou-me que devemos dizer: limitados. E aos sete anos fui apresentada ao eufemismo!

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

 

 Carolina Vianna é fotografa, poderosa, e escreve para o Mulheres no Poder

Faxina

Para esquecer um amor precisa-se de concentração. Deve-se evitar remoer histórias do passado. As fotografias têm destino certo: o lixo. Rasgadas, de preferência. Os presentes podem ser encaixotados até que o laço não exista mais e possam ser usados novamente.

Livros ajudam no processo também. Mas cuidado! Não é qualquer livro. Fuja de poesias. Prefira os técnicos, mas não muito chatos. Qualquer um que tenha for dummies no título, servirá.

Aprenda um trabalho manual que requeira atenção. Enfie miçangas numa linha com auxílio de uma agulha. Use uma linha muito fina, fácil de se romper. Você terá a chance de passar horas catando as miçangas no chão sem se distrair com qualquer pensamento indevido.

Não beba! A correlação da bebida com os telefonemas desesperados para o ex-amor de madrugada é altíssima, quase perfeita. Se necessário, utilize comprimidos e durma, durma, durma.

Faça faxina. A alma gosta de limpeza, o coração também. Limpe banheiros, armários, cozinha e tudo o que puder. Quando – enfim – terminar, recomece. Experimente limpar o rejunte da cerâmica usando uma escova de dentes, água e saponáceo. É relaxante.

Encontre um novo amor. Se for muito difícil, engane-se com uma pessoa qualquer fingindo que é um novo amor. Se, ainda assim, não conseguir, aumente suas possibilidades. Entendeu?

Essa receita é válida para amores em geral. Não sei se funciona para esquecer um grande amor. Não foi testada. Falta-me a experiência.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Elementos

Elementos

É preciso escutar as folhas que balançam com a brisa. É preciso ouvir o sibilar do vento. É preciso abrir bem as janelas para o redemoinho entrar. É preciso parar, observar, sentir. Ser vento. Ser livre. Voar.

É preciso chorar até a fonte de lágrimas secar. É preciso suar e purgar aquilo que não mais serve. É preciso enfiar os pés na lama e perceber que a sujeira é composta também de algo limpo. É preciso fundir-se, misturar-se, perder-se. Ser água. Ser parte. Desaguar.

É preciso escolher o que se deseja e plantar. É preciso cuidar da base. É preciso semear, regar, defender. É preciso fincar as raízes no solo, ser firme, ter força. Ser terra. Ser fértil. Alimentar.

É preciso queimar as amarras. É preciso aquecer-se nas chamas. É preciso perder-se no crepitar da fogueira sem objetivos. É preciso deixar-se purificar pela fumaça perfumada do turíbulo. É preciso arder, inflamar, incendiar-se. Ser fogo. Ser transformador. Iluminar.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa, e escreve para o Mulheres no Poder

cor

coração

Tenho um coração bandido que me trai a todo instante. Dispara quando não deve, se entrega quando não pode, congela sem dar explicações.

É de fazer vergonha. Quase sai pela boca e depois faz cara de paisagem. Nem se dá o trabalho de se fazer entender. Coração bipolar, é isso que tenho.

Bandido, leviano, distraído, safado. Parece gato de armazém. Qualquer afago, o menor agrado, já o tem.

Arisco, arredio, desconfiado. Se paira uma dúvida, já se vai.

Fechado, solitário, taciturno? Não. Na verdade, emburrado. Um mimo, um dengo, um charme e já está na pista novamente.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Castelos…

Era uma vez um menino doce que morava num castelo. Esse menino não tinha irmãos, nem convivia com outras crianças, pois só havia adultos no castelo. Os dias dele eram preenchidos pelas mais diversas atividades para que não sentisse falta de companhia ou brincadeiras.

Doce e azulado, assim ele era. De um azul tão claro que parecia fazer carinho em quem o olhava. Transpirava bondade, generosidade e compaixão.

Um dia esse menino tornou-se adulto. E permaneceu azul e doce. Simples e altruísta. Passou, então, a conviver com adultos de outra forma. De igual pra igual, pensava.

Mas o convívio agora era muito diferente do passado. Os adultos não o tratavam da mesma maneira, afinal ele continuara azul quando todos os outros se tornaram cinza com o passar dos anos.

Aquele azul cintilante que outrora inspirara calma passou a irritar os demais. A docilidade os enojava. Eles eram cinza, amargos, ácidos, salgados, picantes. Nunca azuis. Nunca doces.

Sem entender o que acontecia, quis parar de brilhar. Sem sucesso, resolveu evitar o contato com o mundo cinza. Voltou para o castelo. Isolou-se.

Aos poucos, sem contato com qualquer outro ser, sua cor foi mudando. Entendeu, então, como deveria agir para ser aceito. Hoje, é quase todo cinza, pouquíssimo doce. Mantém apenas uma manchinha azulada, brilhante, que raríssimas vezes deixa ser vista.

Carolina Vianna

Carolina Vianna

 

 

 

Carolina Vianna é fotógrafa, diretora de teatro, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder.

Ig
agosto 2014
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