Arquivos para a ‘Coluna da Carolina Vianna’ Categoria
Eu gostei mais de você quando você se foi. Achei coisa digna, a sua partida. Corajosa. A desistência, li por aí, é um ato de bravura.

Platão
A partida é bela. Pra mim, eu penso. Sempre bela. Talvez por ser triste. A tristeza me encanta. Você saiu, partiu, sumiu. Fiquei, então, encantada com isso.
O encantamento alastrou-se, incluiu você e virou amor. Ouvi, um dia, que toda forma de amor vale a pena. Escolhi Platão.
Amor fundamentado no seu ato virtuoso de ir embora com graça. Mas sem gracejos.
Carolina Vianna é fotografa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Foto: sony world photography awards 2008
- Meu filho, arruma seu quarto, arranja um emprego, toma jeito nessa vida! Não dá pra ficar o dia inteiro em casa sem fazer nada! Já cresceu e ainda não sabe o que quer ser na vida??? Assim não dá!!!
- É que eu ando tão triste, mãe. E as coisas não estão…
- Ô meu filho, vem cá… Você está comendo bem? É alguma garota? Te falaram alguma coisa que você não gostou? Você quer que a mamãe faça alguma coisa pra você? Deixa eu te dar um carinho…
Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Caixinha de música
Tenho essa caixinha de música com um trechinho de Carmen gravada.
Isso e um Santo Antônio.
Os dois moram em cima do computador, na estação de trabalho que ocupo na repartição.
Ganhei o Santo de uma colega que me acha muito solitária.
Ensinou-me, na ocasião, que deveria tirar o menino Jesus dele e devolver apenas depois que casasse.
Colei Jesus no Santo Antônio com superbonder.
Não é desprezo é tampouco heresia. Rezo todos os dias pra ele. Só não quero correr o risco daquele menino sumir e a coisa acabar em tragédia. A caixinha foi comprada por mim num ataque de nostalgia. Toda vez que me irrito, ouço a música. É só um trecho, bem pequeno, aliás.
Mas, às vezes, o conforto vem das pequenas coisas. Um santinho, um pedaço de uma música boa, um carinho, um sorriso.
Tenho apreciado isso ultimamente e está me fazendo bem. Ao menos, é o que eu penso.
Novos desafios e possibilidades vêm por aí. Um baita frio na barriga também. Pra não pirar, surtar e nem sair correndo, giro a minúscula manivela e ouço a habanera.
Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Família Addams
De todas as mortes que soube ou presenciei, a minha foi a mais triste. Classifiquei-as nas seguintes categorias: tristeza, popularidade, efeito surpresa.
A da minha avó ganhou em popularidade. Velório lotado. Parecia até festa. Aliás, era festa. Meu avô contratou um carro de som e patrocinou a bebida até o dia amanhecer. Quando enterraram, os convidados contavam piadas e riam. Já haviam esquecido, há muito, o motivo da reunião.
Em efeito surpresa, minha mãe venceu. Disparado. Talvez essa merecesse ficar fora da competição. Hors Concours mesmo! AVC acrescido de infarto agudo do miocárdio às vésperas de uma visita fora de época.
Aconteceu de madrugada. Teve até ligação de delegado no meu celular para avisar. Jurei que era mentira. Fiz piada com o policial. Não, nunca tive surpresa maior do que essa.
Mas a mais triste, a morte tristíssima digna de moção, foi a minha. Sozinha e em vida. Sem fechar os olhos. Sem estancar a dor. Sem dignidade.
Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder
IX

Choro
Foi por meia-hora, acho. Não mais do que quarenta minutos, isso eu tenho certeza. Entre o trajeto do trabalho e o carro. Ali, bem no meio do estacionamento. Horário de rush. Já havia escurecido. Os carros enfileiravam-se e as pessoas buzinavam.
Larguei tudo o que carregava no chão. Sentei no meio-fio e me dispus a chorar. Alminhas apressadas evitavam olhar. As coisas esparramadas no chão. Não tive forças para recolher de imediato. Toda a energia concentrada no ato de chorar.
Li em uma pesquisa, não sei se confiável ou não, que é feliz quem despende toda a sua atenção naquilo que faz, enquanto o faz. Acreditei. E por trinta minutos da minha vida me concentrei em chorar.
Choro de raiva, desânimo, tristeza, manha, infelicidade. Choro de tudo. De agruras próprias e humanitárias. Choro doído, sofrido, de mágoa e desesperança.
Duas doses e meia de sofrimento real resultando em choro cowboy. Natural, sem firulas nem três pedrinhas de gelo pra diluir. Choro puro!
Enfim, recolhi os pertences no chão, enfiei tudo no porta-malas e tomei o rumo de casa. No meio do engarrafamento, uma lágrima desavisada insistiu em cair. Contive-a sem dó. Afinal, é mais feliz quem presta atenção no que faz e o momento era de dirigir.
Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

= )
“Coloque o cinto e acenda os faróis. Tenha uma boa noite e volte sempre.” Ouvi isso e me senti no primeiro mundo. Aquele que juram que existe. Onde as pessoas são educadas, honestas e generosas porque se sentem motivadas para isso. Nem esperam algo em troca.
Saiu assobiando. Ou cantarolando. Não me recordo. A sinceridade, a recomendação e a alegria dele deixaram-me atordoada.
Era um vigia. Guardador de carros? Não sei se existe nomenclatura para essa recém-surgida profissão.
Era uma pessoa, oras! Uma pessoa que, com uma frase, abalou meus pensamentos e me tirou do conformismo-classe-média-acomodada-demais-para-acreditar.
Não penso que educação é relacionada a dinheiro e, muito menos, espero boas maneiras apenas dos engravatados, mas estava num momento expectativa-perdida. Aquele sorriso iluminou minha noite. Brilhou como uma lua cheia de esperança e derramou seu brilho na minha crença sobre a humanidade.
Sim, há salvação! Pensei. E pensei também em descer do carro, dar um abraço nele, desejar que Deus abençoasse toda a família. Siiiiim, quase dei meu cartãozinho visa vale recheado em vez da moedinha-que-sobrou-do-cigarro-com-sorriso-obrigatório.
Aí, refleti. Ele é normal, e eu – infelizmente -perdi o contato com pessoas assim.
Normais, são as pessoas que devolvem os carrinhos de supermercado para o lugar correto, aqueles que dizem bom-dia-boa-tarde-boa-noite. Normais, são os que insistem na utilização de por-favor/obrigada(o).
Eles vivem no primeiro mundo. Mas o primeiro mundo não é um País, Estado, ou Cidade. É um estado. Assim, com letra minúscula e que significa só o modo de ser e estar. Não compreende o ter.
Soberanos são aqueles que ignoram o ter e à ele sobrepõem o ser.
Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder

Dança
É mais ou menos assim: dois pra lá, dois pra cá.
A gente segue o ritmo da música. Pisa no meu pé, eu não ligo. Te levo. Esse cheiro…
Ah, esse cheiro de shampoo. Sabonete. Não sei.
Pele macia. Voz mansa. Dois pra lá. Corpo grudado. Quente. Seus lábios roçando meu pescoço.
Um arrepio. Dois pra cá.
E eu rezando baixinho pra música não acabar.
Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder
Alma fria. Coração vazio. Encontro-me à espreita de uma nova emoção. Horas vagas.

O Resto…
Tardes inúteis. Nada toca. Não há sentido.
Direita, esquerda? Pra quê? O sentido se foi. Levou o sorriso, a alegria. Mente frívola. Coração oco.
Protesto em vão. Requeiro dignidade quando nada mais resta. Restam os restos. E os restos sou eu.
Em tantos cantos sobra amor, mas como amar o que é sobra?
O que sobra é a sombra do que se foi um dia.
Nada vale.
Vale de ilusões.
Sobejos inúteis em busca de função.
Carolina Vianna é fotógrafa, poderosa e escreve para o Mulheres no Poder



