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Foto Valéria Pena-Costa

Foto Valéria Pena-Costa

“Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar” *

Talvez venham outras vidas para viver amores deixados pra depois. Como eu, que me comprazo do amor alheio.
Tenho buscado dedicatórias em livros antigos. Quem dera todas fossem bilhetes de amor. É o que eu queria para compor meus velhos álbuns de recordações. Recordações que não são minhas, daquilo que nunca vivi. Uma apropriação do sentimento alheio? Acho que um testemunho.
Alguns sentimentos de afeição ficaram registrados nas primeiras páginas de livros, geralmente em belas caligrafias e boa dose de um caldo doce de romantismo e sempre que encontro essas mensagens imagino rostos, construo vidas. São muito minhas, é claro, sempre idealizadas e mantidas equilibradas das finas linhas das letras cuidadosamente desenhadas por outros. Redesenhadas por mim.

 ”Não se afobe, não
Que nada é pra já.” *

Fico me perguntando se todas as relações se concretizaram e o quanto terão perdurado. Os amores antigos eram pra sempre. Tão pra sempre que muitos continuam existindo nos meus álbuns de recordações. E continuarão. Hei de mantê-los vivos colocando a arte a seu serviço.
Mas sinto uma pitada de melancolia quando penso que muitos deles não passaram de desejo sobrescrito em páginas impares. Sem respostas. Quantos terão esperado por um tempo que não chegou, pela permissão que nunca se deu?
Gosto de garimpar declarações, encontradas, principalmente, em livros de romance, de poesias, de conteúdo que traduz o desejo dos amantes. Quantas ficções foram presenteadas para dar vida a histórias reais, muitas delas impossibilitadas por adversidades da vida? E por que o tempo engoliu amores não realizados? Vou construindo, reconstruindo, possibilitando. Vejo olhares, beijos, famílias, aniversários, casas e sorrisos. Também posso ver choros, desordem, roupas sujas e móveis riscados, imagens que aborto, afinal já tenho trabalho bastante ao construir histórias. Permitir sofrimentos seria dor em dobro. Mas tudo existe dentro dos meus contos de poucas linhas. As dedicatórias, geralmente trazem palavras leves, apresentáveis. Das paixões, cuido eu.
Mas eu diria que o amor não pode esperar em silêncio. Nem em fundos de armários ou de estantes onde será devorado pelo fungo, apagado pela acidez do tempo. Os papéis ressequidos, com sentimentos já sepultados, não duram milênios. Nem esperam outras vidas.
E certamente não existirão muitas Valérias a resgatar amores remotos.

“Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos…”*
* Chico Buarque
Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Bem-vindo a Nova York. Welcome To New York. 2014.  França, EUA. Direção: Abel Ferrara.

Bem-vindo a Nova York.
Welcome To New York. 2014.
França, EUA.
Direção: Abel Ferrara.

Em Bem-vindo a Nova York, o diretor Abel Ferrara explicita escândalo que derrubou presidente do FMI, favorito para vencer a eleição presidencial francesa em 2012

O cineasta francês Abel Ferrara (Olhos de Serpente, Os Chefões) conseguiu trazer para a telona filme de conteúdo raro. O material de base em que se inspirou para construir Bem-vindo a Nova York (Welcome To New York  França – EUA – 2014) trata de episódio recente envolvendo o ex-diretor do FMI e então candidato à presidência da França, Dominique Strauss-Kahn, mundialmente conhecido pelas iniciais do seu nome, DSK. Acusado de violentar a camareira do hotel em que se hospedou em Nova Iorque, foi preso pela polícia americana, dentro do avião que o levaria de volta a Paris. O caso ganhou as manchetes do mundo, especialmente nos Estados Unidos e na França, e destruiu por completo as suas chances na eleição francesa de 2012 em que se apresentava como favorito. Praticamente entregou a faixa presidencial ao segundo na hierarquia do Partido Socialista, François Hollande, que efetivamente disputou e venceu o pleito sem maiores dificuldades, tendo em vista o desgaste do presidente que disputava a reeleição pelo partido gaulista, Nicolas Sarkozy.

Sinistra Obsessão

O filme se destaca pela habilidade com que o diretor usou a estética do cinema-verdade, quase documentário, para realçar a personalidade do personagem principal, trajetória polêmica, marcada por rápida e extraordinária ascensão aos cargos mais importantes do universo financeiro contemporâneo, particularizando a presidência do Banco Mundial e do FMI. Enorme poder fez desabrochar temperamento marcado pela obsessão, que o levou a protagonizar escândalos marcados por conduta sexual tosca e brutal. Não satisfeito com as inúmeras prostitutas de luxo que lhe cercavam, notabilizou-se por casos de estupro, todos encobertos pelo dinheiro de sua bilionária mulher. O episódio novaiorquino expôs as vísceras do seu caráter.

Anatomia do complexo de inferioridade de Devereux/DSK

À medida em que a narrativa avança, o diretor vai liberando pistas que indicariam que Devereux padeceria do complexo de inferioridade, por mais paradoxal que isso pareça ao espectador. Em várias partes, ele relata a forma crua com que seu ego foi sendo esmagado. Primeiro pelos professores e chefes. Depois, pela segunda mulher, Simone, estilo destruidor da autoestima de qualquer homem. Sua arma era a isca que oferecia ao marido-vítima: poder e dinheiro. Fraco de caráter, este não teve coragem para reagir. E canalizou a energia represada aos instintos sexuais, que o levaram ao descontrole comportamental acentuado. Na fase em que ocorreu o episódio em Nova Iorque, ele certamente já apresentava dissonância cognitiva. A sua anormalidade no trato com outras mulheres era bipolar. Numa cena, ele flerta com a bela filha de diplomata africano e a conquista. Noutra parte, o instinto-mamute-desgorvernado se manifesta, quando tenta estuprar jornalista que o tinha procurado em busca de entrevista exclusiva com o então poderoso do FMI.

Gerard Depardieu e Jacqueline Bisset transportam-se para personagens reais em soberbas atuações

Viabilizar filme explosivo como aquele exigiu a criação de nome fictício para a figura principal. Nenhuma menção a DSK. Foi o ponto de partida para narrativa que focalizou um certo monsier Devereux, vivido por Gerard Depardieu. Sua atual silhueta de mastodonte serviu como recurso imagético para o diretor relatar, de forma hiperbólica, a conduta transgressora do cinebiografado. Na sequência inicial, o espectador é impactado por cenas de orgia, captadas em ambiente de clausura sádica, luz difusa, realismo quase explícito. Forma direta e crua de sinalizar o que viria durante todos os 125 minutos. O visual do ator traduziu os principais aspectos da conduta de figura repugnante, quase sem a necessidade de diálogos. Transcorrido primeiro terço, com Devereux já preso, surge a enigmática esposa, Simone (Jacqueline Bisset, atriz de enormes recursos cênicos). Mesmo contrariada, adotou o comportamento esperado de mulher rica, poderosa e obstinada, cujo único interesse era o de livrar o marido da situação constrangedora em que se encontrava. Nessa parte, destacam-se os diálogos marido/mulher,extraordinariamente bem filmados e dirigidos. A plateia passa a entender, então, as obsessões de cada um.

Estética em sintonia com a mensagem

A estética do filme privilegiou ambientes fechados quase o tempo todo, a fim de sublinhar o que pode existir de podre entre as quatro paredes de quarto de hotel ou do gabinete dos que manipulam, como depravados monarcas absolutistas, dinheiro e poder.

Depardieu deu entrevista, antes do filme começar

No início, há rápida entrevista com Gerard Depardieu. Exigência do ator para explicar o porquê dele ter aceito o desafio de representar DSK/Devereux. Serve para antecipar a crueza das sequências que protagonizou.

Teoria da conspiração: elite francesa teria contratado serviço de inteligência mercenário para implodir DSK

Três anos depois, os franceses respiram aliviados. Imaginam o transtorno que estaria sendo para a imagem do país, com alguém como DSK ocupando o Palácio do Eliseu, residência oficial do presidente francês. Dois jornalistas parisienses, usando pseudônimos, escreveram que a “Operação DSK” foi encomendada por membros da elite política e financeira da França, depois de constatarem, através de pesquisas, que o ex-presidente do FMI iria mesmo vencer Sarkozy nas eleições presidenciais de 2012. Ao estilo do antigo seriado televisivo “Missão Impossível”, elite de mercenários, formada por ex-agentes de serviços secretos ocidentais, teria armado cilada para DSK. Até a camareira, pivô do escândalo, estaria entre os recrutados especialmente para a missão.

Escrito por J. Jardelino

O trabalho de Rosa Gonçalves como empregada doméstica em Santos (SP) no fim dos anos 70 era embalado pelos hits que saíam de um radinho de pilha, apoiado na janela da cozinha.

Um dia, perguntou para a patroa o que significava “She’s my girl”, nome da música de Morris Albert que fazia parte da trilha sonora da novela “Anjo Mau”, em 1976.

“Ela é minha namorada”, foi a resposta.

“Ah, um dia eu vou aprender a falar inglês”, disse Rosa.

“Imagina, inglês é para gente estudada. Você nunca vai aprender inglês”, cortou a patroa.

Rosa solta um gargalhada ao contar a história, em sua casa em Londres. Na cidade onde mora desde 1978, ela virou liderança comunitária e empresária social.

“Olha onde eu vim parar. E falo inglês melhor que muitos no Brasil hoje em dia”


 

O relato de sua vida foi registrado neste ano pelo Clique Brasiliance, um projeto de valorização da história da comunidade brasileira em Londres que colheu depoimentos de onze pessoas que emigraram do Brasil entre os anos 60 e 80.

Entre a roça e a cozinha

Rosa cresceu em Amparo, no interior de São Paulo. Ela conta que aos seis anos foi treinada para ser empregada. “Porque até aí eu sabia fazer o trabalho em casa, mas não na casa dos outros”, diz.

Nesse dia, cozinhou e serviu seu primeiro almoço – matou uma galinha, a cortou em pedaços e refogou com chuchu.

Depois disso, passou anos se revezando entre o trabalho na roça e como doméstica. Aos 18, foi trabalhar para uma família em Santos. A jornada era quase ininterrupta – havia um dia de folga, às vezes apenas uma tarde, por semana.

Em uma ocasião, as crianças a chamaram de “King Kong”, imitando gestos de macaco. “Quando me levantei para sair correndo atrás delas, foram chamar um tio, que quis me bater”, conta ela.

Cerca de dois anos depois, em 1978, ela foi convidada por outra família a se mudar para Londres, onde trabalharia como empregada por dois anos. Mesmo diante do desafio de emigrar para um país totalmente diferente e distante, Rosa achou que era a chance de “andar para a frente”.

O início foi muito difícil, mas ela não teve vontade de voltar.

“Quando eu cheguei aqui eu chorei por seis meses. Uma dor tão grande. Escrevia carta todos os dias. Não mandava todos os dias, então as cartas iam todas numeradas. Mas eu achava que se eu voltasse a vida podia ser pior”, contou.

Ilegal

Depois de um ano, Rosa deixou o emprego de doméstica e passou a ser camareira em um hotel, onde ganhava 35 libras por semana para trabalhar de 7h às 14h, todos os dias da semana. De tarde, fazia diárias em pousadas por 5 libras. Atualizado pela inflação, isso seria o equivalente a uma renda semanal de cerca de 225 libras hoje ou R$ 850.

Seu visto de dois anos venceu e a brasileira continuou ilegalmente em Londres. Quando se recusou a se relacionar com um homem, amigo do dono de uma pousada onde alugava um quarto, foi denunciada para a imigração.

Rosa passou a tarde na cela de uma delegacia de polícia, mas acabou sendo liberada. Era início dos anos 80, época de protestos violentos em Brixton, bairro de forte migração afrocaribenha no sul de Londres.

A tensão racial era alta no período e havia problemas mais sérios para a polícia se preocupar, conta. Depois disso, conseguiu regularizar sua situação.

Líder comunitária

Rosa passou anos morando em quartinhos alugados até que, em 1984, se mudou para um apartamento em Ferrier Estate, uma espécie de conjunto habitacional em Greenwich, no sudoeste de Londres, com prédios de concreto onde viviam cerca de 5 mil pessoas.

Ela gostava do local e de sua diversidade – havia pessoas dos mais variados locais do mundo, ela lembra. Mas Ferrier Estate era considerado decadente e perigoso e o governo local decidiu demoli-lo para dar lugar a um mega empreendimento imobiliário.

Controverso, o processo se arrastou por mais de um década. A ideia começou a ser discutida em 1999, depois de alguns anos começaram as remoções e apenas em 2010 teve início o processo de demolição. O novo condomínio ainda está sendo erguido.

A perspectiva de demolição de sua casa levou Rosa a participar das negociações sobre como as pessoas seriam removidas, para onde seriam levadas e quais seriam seus direitos. Acabou se tornando uma liderança do bairro.

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Foto: Eli Pinheiro da Silva

Foto: Eli Pinheiro da Silva

Pra lá do fim do meu jardim, um pouquinho depois da rua, ali onde meus pés alcançam, eu vi um ipê amarelo. E ao fundo, o sol. Algumas pétalas caiam. Os dois se confundiam. Pensei que o sol chovia. Pingos de lava dourada. Pepitas de ouro caindo no chão.

Mais ouro que em serra pelada, numa terra nua pela delonga da chuva. Cascalho. Seca de cerrado como seca de sertão.

No alto do céu ainda havia uma extensa faixa azul como um xale transparente sobre os ombros dourados do horizonte, da cidade delineada, branca e delicada como um recorte de papel.

Desejei ter os ombros bronzeados do horizonte, a delicadeza distanciada da cidade e gotas de ouro num colar, em forma de flores de ipê. Flores, muitas flores no olhar.

Desejei a transparência azul, solta, somente ela a revestir o corpo como aquele xale que veste sem cobrir.

A terra ainda está árida, se alterna entre a inconstância do frio e o constante calor, mas a chuva se aproxima lenta e todos os dias, lá de longe, bem longe, acena no céu, num pequeno, ínfimo sopro de vapor.

Vai lavar minhas árvores. Vai deixar no chão, pra lá do fim do meu jardim, um tapete amarelo, caminhos desenhados por pequenas enxurradas, um vestígio da estação.

E eu, mais uma vez, sentirei saudades do amarelo dos ipês.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Leite materno

Descobrir como o Brasil tem sido tão bem sucedido com bancos de leite é o gol da pediatra americana Lisa Hammer, que junto com outros profissionais de saúde da Universidade de Michigan (UM), estiveram no Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). Este é um exemplo de inovação reversa, com parceiros internacionais da universidade, fornecendo modelos de sucesso que podem ser implantados no sistema de saúde da UM. O sistema de banco de leite humano brasileiro é o principal responsável por um declínio de 73% na mortalidade infantil nas últimas duas décadas.

Nos Estados Unidos, o sistema de banco de leite fica muito aquém da demanda e basicamente não é regulado. “Aqui o leite materno é vendido por U$ 4 por Oz (0.118 L). É uma barreira significativa e no Brasil essa barreira foi removida”, explica Lisa Hammer, uma das profissionais que estiveram no Instituto. Para a coordenadora de Produto e Qualidade da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano do IFF, Danielle Aparecida da Silva, os EUA têm um modelo que não tem a responsabilidade da amamentação, não tem a prática da amamentação, a não ser o dia a dia, e este foi o grande diferencial. “Saber como grande parte da população amamenta, como manter os níveis elevados e como a amamentação ajudou a diminuir a mortalidade infantil foi o que atraiu a atenção da UM. Consequentemente, eles se interessaram em como trabalhamos o leite humano como um fluido funcional. Eles vieram em busca de como manipular o alimento”, explica.

O Brasil é conhecido internacionalmente pela sua rede bem organizada, com bom custo-benefício, regulamentação dos bancos e ampla aceitação social de práticas de aleitamento materno e doação de leite humano. “Os EUA chegaram até nós por meio do Prêmio Sasakawa de Saúde. Esta premiação veio justo pelo diferencial que temos. Não somos somente um banco de leite, onde a mãe o deposita e nós distribuímos. Também começamos a trabalhar a promoção e o incentivo ao aleitamento materno. Não vemos o leite humano como um medicamento. Conseguimos manter um padrão de qualidade de um alimento funcional e com isso trazemos a tecnologia de alimento e a adaptamos para manter características que não vão servir somente a um bebê, mas a diversas necessidades de vários bebês”, comenta Danielle.

O leite materno doado para um banco passa por um processo de seleção, classificação e pasteurização e é então distribuído aos bebês internados em unidades neonatais. “O alimento vai ajudar no sistema imunológico, no crescimento e desenvolvimento e auxilia também em aspectos probióticos. Ou seja, temos um cuidado maior com esse leite, pegamos todas as características dele para suprir as necessidades de cada bebê”, esclarece a coordenadora.

A rede brasileira também fornece educação e treinamento para os funcionários de bancos de leite, realiza pesquisas sobre a metodologia do leite doado e o controle de qualidade humana, divulga informações sobre bancos de leite e colabora com o governo nacional na concepção de políticas de saúde pública. A Universidade de Michigan foi a primeira faculdade de medicina americana interessada na colaboração com a rede de banco de leite brasileiro, e se uniu ao Brasil para saber mais sobre este sistema exclusivo e quem sabe implantá-lo nos EUA.

A delegação incluiu médicos, enfermeiros, nutricionistas, consultores de lactação e estudantes de saúde pública da UM. Eles trabalharam diretamente com os colaboradores para adquirir experiência prática e desenvolver projetos internacionais com foco em aleitamento materno, leite humano e nutrição infantil. Esta semana experimental deve começar a definir o cenário para uma parceria internacional, que potencialmente será que um exemplo de como a colaboração global pode melhorar a saúde infantil em todo o mundo.

Do EBC

Custo chega a quase R$ 20 trilhões; para cada morte em um campo de batalha, nove pessoas são assassinadas em desavenças interpessoais, diz estudo

Arte RatoFX

Arte RatoFX

A violência doméstica, principalmente contra mulheres e crianças, mata muito mais que guerras e é um flagelo muitas vezes subestimado que custa à economia mundial mais de 8 trilhões de dólares por ano (cerca de R$ 20 trilhões), informaram especialistas nesta terça-feira.

O estudo, que seus autores dizem ter sido uma primeira tentativa de estimar os gastos globais da violência, exortou a Organização das Nações Unidas (ONU) a prestar mais atenção aos abusos em casa, que recebem menos destaque que conflitos armados como os da Síria ou da Ucrânia.

“Para cada morte civil em um campo de batalha, nove pessoas… são mortas em desavenças interpessoais”, escreveram Anke Hoeffler, da Universidade Oxford, e James Fearon, da Universidade Stanford, no relatório.

Das brigas domésticas às guerras, eles estimaram que em todo o mundo a violência custe 9,5 trilhões de dólares por ano, sobretudo na perda da produção econômica, o que equivale a 11,2 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

Nos últimos anos, cerca de 20 a 25 nações sofreram com guerras civis, o que devastou muitas economias locais e custou cerca de 170 bilhões de dólares por ano. Os homicídios, a maioria de homens e não relacionados com brigas domésticas, custaram 650 bilhões de dólares.

Mas estas cifras se apequenam diante dos 8 trilhões de dólares anuais do custo da violência doméstica, cuja maioria das vítimas são mulheres e crianças.

O estudo afirma que cerca de 290 milhões de crianças sofreram alguma forma de violência disciplinar em casa, de acordo com estimativas baseadas em dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Com base nos custos estimados, que vão de lesões a serviços de assistência infantil, o estudo calculou que o abuso não-fatal de crianças drena 1,9 por cento do PIB em nações ricas e até 19 por cento do PIB na África subsaariana, onde as modalidades severas de disciplina são comuns.

Bjorn Lomborg, chefe do Centro de Consenso de Copenhagem, que encomendou o relatório, disse que a violência doméstica é frequentemente subestimada, assim como acidentes de carro atraem menos atenção que acidentes de avião, embora muito mais pessoas morram no primeiro caso.

‘Não se trata só de dizer ‘isto é um problema sério’”, disse ele à Reuters. “É uma maneira de encontrar soluções inteligentes”. O Centro emprega estudos de mais de 50 economistas, inclusive três prêmios Nobel, e procura soluções de baixo custo para combater desde a mudança climática até a malária.

O estudo pretende ajudar a ONU a selecionar metas para 2030 para alcançar os Objetivos do Milênio estabelecidos para o período 2000-2015, que incluem a redução da pobreza e a melhoria dos depósitos de água potável. Os novos objetivos poderiam incluir o fim dos espancamentos como forma socialmente aceita de disciplina infantil e a redução da violência doméstica contra mulheres.

Rodrigo Soares, professor da Escola de Economia de São Paulo-FGV, disse ser bom ressaltar o grande número de mortes causadas pela violência doméstica, embora a falta de dados faça com que seja “um pouco ambicioso demais” estimar os custos globais.

Do Terra

Foto Valeria Pena-Costa

Foto Valeria Pena-Costa

Quarta-feira, primeira chuva depois de um longo estio. Alívio para tudo o que é vivente, com frescor e umidade no ar. Preencho o dia com urgências pela necessidade de terminar a contento um trabalho especialmente importante. Setembro chegou e prometi (a alguém) estar presente nesse mês e o trabalho é, eu diria, a confirmação simbólica dessa presença. Setembro passará, a instalação permanecerá. Desse modo, lá estarei eu.

Algo não deu certo como eu previa e até agora não consegui desenvolver um mecanismo de um dos principais elementos, não consigo entrar em contato com a pessoa que executa meus projetos. Mas tenho um plano B, ir atrás de um outro técnico e usar outro objeto. Vou buscá-lo no ateliê e resolvo testá-lo lá mesmo por precaução. Ao ligá-lo na energia (elétrica) imediatamente percebo um erro e agora penso que o queimei. Saio de casa às pressas e vou atrás de conserto. Outro choque, o técnico… Bem, há uns nove meses que ele não está mais entre nós. Além do meu sincero sentimento de pesar, saio com a certeza de que preciso de um plano C. Vou pensando pelo caminho do qual me desvio atraída pelo típico aroma quente do fermento assado e me deixo seduzir pela aparência e por um nome nas prateleiras da padaria: ‘Bolo Mármore’. Decido levá-lo para meus filhos que certamente gostarão como eu. Vou para o estacionamento revirando a bolsa em busca de moedas para o simpático flanelinha e, decepcionada, percebo que não tenho nada ali, nem notas, nada. A não ser alguns pesos colombianos que ficaram como resíduos da ultima viagem e que eu poderia oferecer como souvenir, mas não ficaria bem. Penso em lhe oferecer o bolo, mas meu ‘mármore’ não… Constrangida peço-lhe desculpas por não lhe recompensar “a vigilância” e, à espera de uma cara contrariada, recebo uma encantadora expressão acompanhada de um “não tem problema, querida, vá com Deus”. E despede-se num um amplo sorriso com a falta de um ou dois dentes em posições de evidência. Mas a expressão era tão agradável que somente fixei na lembrança os olhos sorridentes. E a palavra “querida” pronunciada em um tom atencioso de carinho respeitoso. Quem recebeu uma gratificação fui eu. E voltei mais leve pra casa. Um pouco mais adiante, ali pelo meio do caminho, ao entrar numa curva fechada, meu carro deslizou no asfalto escorregadio das primeiras águas, péssima combinação com pneus ‘calvos’. Vi, num ínfimo momento, a aproximação da alta encosta da pista com detalhes da vegetação irregular, e cheguei a notar, também num átimo, uma grande falha esbranquiçada no asfalto como o desenho de um retalho arrancado e a aproximação da guia do canteiro que me separava da outra pista. Não entendo como pude ver essas coisas pois também sentia cada meia volta que o carro fazia, indo e vindo, enquanto eu o segurava e o redirecionava. Foi um instante de hiper consciência. Sentia internamente que eu dançava com ele numa pista encerada. (Quase) Rodopiávamos. Surpreendida, assustada, ao invés de bradar um nome de santo, que seria usual, exclamei um longo, lento e bem pronunciado palavrão. Nada de irritação, somente uma reação involuntária de exaltação da surpresa. Mais gíria que palavrão. Uma palavra sonora, até bonita, de sílabas fortes, bem definidas e de expressão prazerosa. Olhei pelos retrovisores e vi que não vinha carro atrás. Sorte! Ou proteção.

Concluo que estou passando por um período de fortes emoções. Um pessimista diria, “tenho entrado em cada enrascada!”, mas num momento de teimosia otimista eu digo: “tenho saído de cada enrascada!”. Eu que sou da fé e do sagrado creio em proteção. E assim vou passando e volto pra casa ilesa. Venho trazendo a lembrança de um inesperado sorriso desconhecido, um delicioso Bolo Mármore e a certeza de que emoções boas estão a caminho (sem derrapadas na pista de vinda, espero). Aqui sou recebida afetuosamente por dois gatinhos lindos que me oferecem olhares doces e o pelo macio pra que eu os afague e sinta a brandura da vida. Os mecanismos, ainda não sei como, arranjarei. Eu sei. Haverei de assegurar a arte e a presença marcada no mês de setembro. Certo como a Primavera.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

Magia Ao Luar. - Magic in the Moonlight. 2014.EUA. Direção: Woody Allen.

Magia Ao Luar.
- Magic in the Moonlight. 2014.EUA.
Direção: Woody Allen.

Atuação de Colin Firth conecta a plateia às melhores performances do diretor nos filmes em que dirigiu a si

Com o seu novo trabalho, Magia Ao Luar (Magic in the Moonlight - EUA - 2014), Woody Allen retoma a atmosfera do melhor dos seus filmes recentes, Meia-Noite Em Paris. A genialidade do cineasta consegue essa proeza sem perder os traços que têm marcado a essência de sua filmografia. Com certeza, o espectador observará em todos os 97 minutos do filme críticas ao modus vivendi dos célebres e poderosos nessa segunda metade do século 21. Faz isso, como sempre, de forma sarcástica e humor bem dosado, sublinhado pelos diálogos inteligentes e elenco bem entrosado, cem por cento afinado com os objetivos da trama.

Conteúdo marcante e estética valorizada por magníficas paisagens da Riviera Francesa

Em Magia Ao Luar, o ícone a ser desconstruído encarna numa jovem e bela médium, Sophie (Emma Stone). O encarregado da missão é o bem sucedido mágico londrino Stanley (Colin Firth), personalidade carregada por racionalismo neurótico, que o aproxima das performances do próprio cineasta, nos filmes em que também foi protagonista. Stanley é convidado para viajar à Riviera Francesa dos anos 20 do século passado por milionário, cujos vizinhos estavam absolutamente dominados pelos encantos e poderes de Sophie. Além do conteúdo marcado por deliciosa crítica aos ídolos de ocasião, Magia Ao Luar ainda traz como bônus paisagens que se assemelham a belos afrescos renascentistas ou aos melhores trabalhos de Auguste Renoir. As locações contribuem para sublinhar atmosfera pós-belle èpoque, especialmente o local mágico referido no título, um planetário construído em estilo retrô. O que ali acontece traz as primeiras pistas de como será o desenlace da história.

Colin Firth vive o personagem que seria do próprio Woody Allen 

Magia Ao Luar mostra, mais uma vez, o talento de atores ingleses que conseguem incorporar os trejeitos do diretor. Kenneth Branagh já havia atingido performance semelhante no ótimo Celebridades (1999), joia da filmografia de Woody Allen. Agora, o desafio coube ao multifacetado Colin Firth, o astro de O Discurso do Rei (com o qual recebeu a estatueta do Oscar de Melhor Ator em 2011). O seu desempenho se caracteriza por linguagem não verbal, marcada por tiques e atos falhos, reveladores de processos inconscientemente vivenciados pelo seu personagem. Façanha que apenas atores donos de notáveis recursos dramáticos conseguem.

Resultado: situações caricatas indescritíveis. Impossível não relaxar e se deixar envolver por inúmeras sequências de bom humor.

Aos 79, Woody Allen mostra-se conectado a estilo que não para de evoluir e encantar novas plateias

Um dos poucos autores cinematográficos em atividade, Woody Allen surpreende de novo. O olhar de sua câmera continua focado em novos horizontes. Agora com recursos digitais que permitem molduras que vão muito além do lugar comum, os caminhos do seu cinema de vanguarda incorporam-se ao inconfundível estilo que fascina desde Um Assaltante Bem Trapalhão (1969), o primeiro filme do diretor.

Escrito por J.Jardelino 

Arte RatoFX

Arte RatoFX

Meninas de 11 a 13 anos que já receberam a primeira dose da vacina contra o papiloma vírus humano (HPV) devem receber, a partir de hoje (1º), a segunda dose. A imunização será feita em escolas públicas e particulares e também em unidades de saúde.

De acordo com o Ministério da Saúde, mais de 4,3 milhões de meninas nessa faixa etária já receberam a primeira dose em março deste ano. A segunda é essencial para garantir a proteção contra o HPV.

A vacina protege contra quatro subtipos do HPV (6, 11, 16 e 18). Os subtipos 16 e 18 são responsáveis por 70% dos casos de câncer de colo de útero, enquanto os subtipos 6 e 11 respondem por 90% das verrugas anogenitais.

Meninas que ainda não tomaram a primeira dose também podem procurar os postos de saúde. Para receber a segunda, basta apresentar o cartão de vacinação ou documento de identificação. A terceira dose será aplicada cinco anos após a primeira.

Em 2015, a vacina será oferecida para meninas de 9 a 11 anos e, em 2016, para meninas de 9 anos. O ministério reforçou a importância do uso do preservativo como proteção contra as demais doenças sexualmente transmissíveis e da realização do exame conhecido como papanicolau em mulheres a partir dos 25 anos.

O HPV é um vírus transmitido pelo contato direto com a pele ou mucosas infectadas por meio de relação sexual. Ele também pode ser transmitido da mãe para o filho no momento do parto. Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que 290 milhões de mulheres em todo o mundo estão infectadas, sendo 32% delas pelos subtipos 16 e 18.

Em relação ao câncer de colo de útero, estudos apontam que 270 mil mulheres no mundo vivem com a doença. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer estima o surgimento de 15 mil novos casos este ano.

Da Agência Brasil

Gatos

Gatos

Era um gato, eram dois, eram três. O primeiro, assim como apareceu, se foi; o segundo veio e o terceiro busquei. Três encantos, suaves passos, majestosas expressões. Equilíbrio invejável, doçura infinita. Com eles aprendo a arte da serenidade e da concentração.

Há quem não goste de gatos, mas entendo que somente quem não os conhece muito bem. São amigos, nos recebem na porta, nos esperam na janela, nos acariciam com lambidas. Pedem carinhos, imploram por atenção. Conquistam, os lindos felinos de olhos marcantes e pelos macios que agradam as mãos.

Meus bichanos se deitam em mim em lentos e alongados cochilos. Viro cama, almofada e cobertor. Brincam estridentes comigo, viro presa, bolinha e mordedor. Fico arranhada, mas feliz. Prefiro mil vezes as mãos mastigadas, o pescoço mordido, a pele marcada que um corpo intacto pela distância dos meus bichinhos.

Recentemente ambos estiveram fora, internados, contrariados pela distância. Eles e eu. A pequeninha esteve tão frágil quanto uma pecinha de porcelana e o maior esteve tão inconformado como uma pequena fera enjaulada. E eu sofri. Eu que nunca tinha tido gatos antes não sabia o quanto poderia ser intenso esse sentimento que hoje conheço.

Ziggy tem cinco meses e chegou aqui bem pequeno, parecia uma miniatura de coleção. Tinha um olhar redondo de gato miúdo e meigo, daqueles que informam que aquela vidinha ainda está vaga e tem espaço infinito pra afeto. Amélie tem dois meses (supostos) e foi pelo miado que a encontrei. Eu passava pela calçada e ouvi um chamadinho fino, como quem me dizia “oi, olhe pra mim”! Ela sabia que se eu olhasse seria amor imediato, como de fato foi. Estava numa gaiolinha e, tão pequena, subia pela grade lateral como se quisesse escapar. Segui adiante, fui cumprir uma obrigação, mas aquele “miiiuu” me seguiu e fisgou meu coração. Voltei com a certeza de que a levaria pra casa. Adotei. Seus olhinhos, menos redondos do que os do Ziggy, são tão charmosos quanto os de gatinhas de desenhos e animações.

Quando ela estava doentinha, eu a segurei por longo tempo encostada em meu colo e como respirava bem fraquinho senti vontade de emprestar pra ela meu coração. Ficou molhadinha de lágrimas e entendeu perfeitamente que tomava um banho de amor. Assim, contrariando expectativas científicas, resistiu e tem vindo passar as noites em casa enquanto, durante o dia, ainda volta pra clínica para cuidados especiais. Está uma fofura e já “sorri e conversa” com a gente. Ainda não pode ter contato com o “irmão” que mia longamente na porta do quarto, provavelmente dizendo que a quer logo de volta nas suas brincadeiras desajeitadas e em longas lambidas que lhe alongam o pelo.

Estou ansiosa para que tudo volte logo ao normal. Fiz até promessa pra São Francisco, com direito a velas e orações. Rezaremos, os três, muitas ladainhas e talvez entoemos miados e cantos no dia de devoção do nosso amoroso protetor. Ele já sabe o quanto é grande a minha gratidão. E hoje, mais que nunca, ao seu exemplo, sou irmã do sol e da lua, das plantas e das pedras e de cada bichinho que povoa essa imensidão chamada Vida.

Valéria Pena-Costa

Valéria Pena-Costa

 

 

Valéria Pena-Costa, Artista plástica . Mineira em Brasília.

 

 

 

Ig
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