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"Ajudando as mulheres a liderar, vencer, governar."
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A NOSSA HISTÓRIA

Monica Torres Maia

Jornalista, Prêmio Rey de España de Imprensa 1999.

monica1

Em maio passado, parei de ler “Marley e eu” quando a doença se inicia. Dodi e Dana ainda circulavam pela casa. A idéia remota de perder qualquer um deles me esfri

ava o peito. Em qualquer momento, mesmo sabendo que a vida deles – muito mais do que a nossa – seria curta demais. Guardei toda a emoção em junho, a três dias de Dodi fazer 12 anos. Ele simplesmente fechou os olhos depois de um câncer fulminante.

Ao seu lado, fiquei olhando o céu aberto. Era hora do almoço impossível de engolir.

Tinha jurado que nunca retomaria a leitura. Não queria ver Marley morrer.

Na última semana, porém, trocando o comando da TV cruzei com o filme, no meio, o labrador ainda pulando e aprontando. Vi um pouquinho, troquei de canal. Mudei de assunto. Peguei um outro livro: “Os animais têm alma?” Passaram mais alguns dias e, mais um vez, cenas surgiram na tela e Marley ainda tinha o corpo em ação. Dessa vez, não consegui parar de ver. Até o fim. Chorando tudo o que segurara nos últimos meses.

Conheci Dodi em 1997, numa clínica em Lisboa, no dia seguinte à volta de Londres. A princesa Diana fora-se num acidente com o namorado e acompanhei os funerais. Essa história de jornalismo nos prega peças – se a morte é o único destino inevitável de todos por que ainda causa tanta comoção? Por que gera tantas manchetes? Não seria mais inteligente noticiarmos os atos exemplares de quem vive? Mas isso é outra conversa. E pode acabar parando no incrível debate sobre a vida – ou as vidas – depois da morte.

Dodi estava magérrimo, internado numa clínica porque engolira comida de lata oxidada aos dois meses de idade. Prenderam-no numa gaiola cercada por outras dezenas de gaiolas repletas de cães de todos os tamanhos e feitios. Um enorme pastor alemão era seu companheiro da cela vizinha. Entramos ali, a enfermeira e a minha super amiga Gisela, que já tinha dois daschunds e fazia campanha para que também tivéssemos. Soltaram o salsichinha e ele veio direto cheirar os meus pés que não tinham vestígio canino, olhou-me com aqueles olhos que me olhariam com extrema doçura o resto do nosso tempo juntos e fez um xixi daqueles.

Pronto! – como dizem os portugueses – eu fora fisgada. Apesar de estar numa situação de trabalho extenuante – meu filho Bruno aos 12 anos, comida, casa, trabalho, transporte, escrita, tudo por minha conta, lá longe de todo o conforto e aconchego da família e do País.

A partir dali, nosso cotidiano e os tênis do Bruno nunca mais seriam os mesmos.

No ano seguinte, Bruno regressou ao Brasil definitivamente. Seis meses antes de eu conseguir fazer as malas. Estava há três anos sem ver a costa das 200 milhas. A saudade rasgava até as pontas dos dedos. Dodi era a alma da casa. E deu o sinal. Procurava Bruno por toda a casa, o dia todo. Começou a freneticamente morder o próprio rabo mostrando que aquele não era mais o nosso lugar. A experiência fora sensacional: cruzara com gentes e mundos diferentes, ficara menos intolerante, me organizara melhor, iniciara o aprendizado de que a porta do peito tinha que ser aberta. A retranca sempre fora o meu jeito favorito de agir.

A franqueza absoluta e o amor incondicional daquele cachorrinho lusitano, filho de alemães, muito mais cheio de humanidade do que de pedigree, estartou o processo – que demoraria até hoje – de virar do avesso o modo de viver.

Dodi agora é luz cor de prata. Dana, a quem ele cobriu de beijos todo tempo, ainda caça-o pelos cantos. Enchemo-na de energia o quanto podemos. Não é a mesma coisa. Ela sabe; nós também. Brinca alegre quando tem a companhia de Bob, um dos 23 filhotinhos que teve com Dodi. Bob nasceu três vezes maior do que qualquer dash que já vi. Quase levou a mãe à cesariana. Dana já estava anestesiada e a nossa querida veterinária Lia já levantara a mão com o bisturi. E Bob que impedia a passagem nasceu… e todos os outros sete a seguir em mais de sete horas de trabalho de parto. Os dois partos anteriores tinham sido um cuspe. Que mãezona! Amamentou todos eles como se fossem um.

Dodi, ciumento, sempre meio que desprezou aquelas bolinhas de pelo que se atropelavam pelo quintal. Encarava Dana como se ela tivesse virado marciana e mergulhado numa dimensão que não pertencia. Bob passou a morar com Andrea, minha irmã, adotado compulsoriamente por minha sobrinha Mariana.

Eles são eternos. Porque nos tornaram muito melhores. Nunca tinha visto uma paixão tão fulminante: Dodi e Dana se viram pela primeira vez a 50 metros de distância e saíram correndo enlouquecidamente, um ao encontro do outro, e se encontraram no ar. Fui puxada e obrigada a correr, sem entender direito o que estava acontecendo. E se encontraram outras vezes. Aos seis meses de idade, Dana, finalmente, entrou na nossa casa para nunca mais sair.

Dodi, Dana, Bruno e eu. A história de Marley é a nossa história: vale a pena quando há generosidade e quentura nas veias.

Mercadante, Obama e Joe Anthony

Marcelo S. Tognozzi

marceloUm boa parte da campanha eleitoral deste ano estará focada nas midias sociais. Os políticos que já se envolveram pessoalmente com o Orkut, Twitter, Facebook, Sonic (esta última febre no Nordeste) e outros canais de comunicação deste tipo entenderam rapidamente o significado do verbo compartilhar. Eu tenho uma informação, passo adiante, alguém avalia que ela é relevante e repassa. Assim começa a funcionar a aquilo que tecnicamente chamamos de efeito viral. Ele pode ser positivo ou negativo.

Um grande case de politico que aprendeu a lidar com as midias sociais é o do senador Aloizio Marcadante. Em meados do ano passado, ele conheceu o inferno digital quando anunciou pelo Twitter sua renúncia ao posto de líder do PT no Senado. Poucas horas depois voltou atrás e foi durante criticado. Naquele momento, diante da enxurrada de críticas houve quem avaliasse que Mercadante teria enorme dificuldade de recuperação. Eu mesmo escrevi que ele corria o sério risco de perder apoios e votos diante do alto grau de viralização negativa.

O tempo passou e o senador conseguiu se recuperar a ponto de liderar a última pesquisa Datafolha para o Senado em São Paulo, na qual aparece com 32% das preferências. O que aconteceu? Em primeiro lugar, Mercadante é um caso raro de tuiteiro político que produz  seus próprios posts. Quando não pode digitá-los, os dita. É 100% autor. Esta característica ajudou o senador a reverter o quadro desfavorável criado pelo post da renúncia que não aconteceu, porque ele decidiu compartilhar com seus mais de 30 mil seguidores suas angústias e reflexões. Virou o jogo porque foi sincero e autêntico. Não teve medo de encarar a derrapada. Hoje, quando alguém acessa o seu Twitter ou sua página no Facebook tem a sensação de que ele está compartilhando, falando e ouvindo.

Grande parte dos políticos utiliza assessores para postar material nas midias sociais. Isso é absolutamente normal, porque eles não têm tempo de ficar horas e horas na Web cuidando disso. Apenas em um caso é preciso que o político não abra mão da autoria: o Twitter. O microblog quando não é abastecido pelo dono acaba soando falso.

Mas em qualquer circunstância é preciso tomar cuidado par não cair em armadilhas, como aconteceu com Barack Obama. Quando sua campanha nas midias sociais ainda engatinhava, ele entregou sua página no My Space a um colaborador de Los Angeles chamado Joe Anthony. O tal Anthony conseguiu 160 mil seguidores para Obama, muitos dos quais doaram dinheiro. E quando a assessoria do então candidato Democrata decidiu que o controle do My Space deveria mudar de mãos, Anthony respondeu com um sonoro não. Depois de muita negociação cobrou 50 mil dólares para dar a Obama o que era de Obama. E ainda publicou uma carta na Web criticando a campanha e afirmando que Obama perdera seu voto. Foi uma dura lição sobre os riscos de perder o controle e acabar atingindo a imagem do candidato, porque quem compartilhava informação com os 160 mil seguidores era Anthony e não Obama.

Tudo que vai para as midias sociais numa campanha eleitoral deve ter unidade de linguagem. O que o candidato fala no Twitter deve ter o mesmo sentido no Orkut. Muda a forma, mas não o conteúdo. É preciso ter muito cuidado com o que é compartilhado com o público. E a única forma de evitar riscos é contar com uma equipe profissional, bem treinada, sintonizada com a direção da campanha. No Brasil de hoje, estas ferramentas serão usadas pela primeira vez numa disputa eleitoral e qualquer derrapada pode se transformar numa onda negativa. E o tempo não vai ajudar, como aconteceu com Mercadante. O melhor é não contar com a sorte. Nem com os Anthonys da vida.

Publicado na edição de janeiro da Revista Voto

O urro ancestral da faculdade injuriada

Universitários que encurralaram a colega de vestido curto não eram delirantes: eram agressores mesmo

Marilyn-Monroe-pb01

Debora Diniz*
Antropóloga

Vídeos veiculados pelo YouTube mostram a estudante de Turismo Geisy Arruda, da Uniban, em São Bernardo do Campo, sendo xingada e acuada por outros alunos por causa do comprimento do vestido. Ela teve de ser escoltada para fora do prédio por policiais.

O caso não caberia nem em um folhetim vulgar, não fosse o YouTube denunciando a verdade. A “puta da faculdade” é uma história bizarra: uma mulher de 20 anos é vítima de humilhações. A razão foi um vestido rosa e curto que a fazia se sentir bonita. Sem ninguém saber muito bem como o delírio coletivo teve início, dezenas de pessoas passaram em coro a gritar “puta” e ameaçá-la de estupro. A saída foi esconder-se em uma sala, sob os urros de uma multidão enfurecida pela falta de decoro do vestido rosa. Além da escolta policial, um jaleco branco a protegeu da fúria agressiva dos colegas que não suportavam vê-la em traje tão provocante.

Colegas de faculdade, professores e policiais foram ouvidos sobre o caso. O fascínio compartilhado era o vestido rosa. Curto, insinuante, transparente foram alguns dos adjetivos utilizados pelos mais novos censores do vestuário da sociedade brasileira. “A roupa não era adequada para um ambiente escolar”, foi a principal expressão da indignação moral causada pelo vestido rosa. Rapidamente um código de etiqueta sobre roupas e relações sociais dominou a análise sociológica sobre o incidente. Não se descreveu a histeria como um ato de violência, mas como uma reação causada pela surpresa do vestido naquele ambiente.

O que torna a história única é o absurdo dos fatos. Um vestido rosa curto desencadeia o delírio coletivo. E o delírio ocorreu nada menos do que em uma faculdade, o templo da razão e da sabedoria. Os delirantes não eram loucos internados em um manicômio à espera da medicação ou marujos recém-atracados em um cais após meses em alto-mar. Eram colegas de faculdade inconformados com um corpo insinuante coberto por um vestido rosa. Mas chamá-los de delirantes é encobrir a verdade. Não há loucura nesse caso, mas práticas violentas e intencionais. Esses jovens homens e mulheres são agressores. Eles não agrediram o vestido rosa, mas a mulher que o usava para ir à faculdade.

Não há justificativa moral possível para esse incidente. Ele é um caso claro de violência contra a mulher. Ao contrário do que os censores do vestuário possam alegar, não há nada de errado em usar um vestido rosa curto para ir às aulas de uma faculdade noturna. As mulheres são livres para escolher suas roupas, exibirem sua sensualidade e beleza. A adequação entre roupas e espaços é uma regra subjetiva de julgamento estético que denuncia classes e pertencimentos sociais. Não é um preceito ético sobre comportamentos ou práticas. Mas inverter a lógica da violência é a estratégia mais comum aos enredos da violência de gênero.

A multidão enfurecida não se descreve como algoz. Foi a jovem mulher insinuante quem teria provocado a reação da multidão. Nesse raciocínio enviesado, a multidão teria sido vítima da impertinência do vestido rosa. As imagens são grotescas: de um lado, uma mulher acuada foge da multidão que a persegue, e de outro, do lado de quem filma, dezenas de celulares registram a cena com a excitação de quem assiste a um espetáculo. Ninguém reage ao absurdo da perseguição ao vestido rosa. O fascínio pelo espetáculo aliena a todos que se escondem por trás das câmaras. Quem sabe a lente do celular os fez crer que não eram sujeitos ativos da violência, mas meros espectadores.

Pode causar ainda mais espanto o fato de que a multidão não tinha sexo. Homens e mulheres perseguiam o vestido rosa com fúria semelhante. Há mesmo quem conte que a confusão foi provocada por uma estudante. Mas isso não significa que a violência seja moralmente neutra quanto à desigualdade de gênero. É uma lógica machista a que alimenta sentimentos de indignação e ultraje por um vestido curto em uma mulher. A sociologia do vestuário é um recurso retórico para encobrir a real causa da violência – a opressão do corpo feminino. Não é o vestido rosa que incomoda a multidão, mas o vestido rosa em um corpo de mulher que não se submete ao puritanismo.

Não há nada que justifique o uso da violência para disciplinar as mulheres. Nem mesmo a situação hipotética de uma mulher sem roupas justificaria o caso. Mas parece que uma mulher em um vestido insinuante provoca mais fúria e indignação que a nudez. O vestido rosa seria o sinal da imoralidade feminina, ao passo que a nudez denunciaria a loucura. A verdade é que não há nem imoralidade, nem loucura. Há simplesmente uma sociedade desigual e que acredita disciplinar os corpos femininos pela violência. Nem que seja pela humilhação e pela vergonha de um vestido rosa.

*Artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo

Marina ponto com

Marcelo S. Tognozzi

marceloA campanha de Marina Silva estreou na Internet em abril. A grande mídia ainda nem sequer especulava se a ex-ministra sairia ou não do PT  de Lula rumo ao PV de Fernando Gabeira e seus seguidores já pediam voto. Abrigada no Movimento Marina Silva Presidente (www.marinasilvapresidente.ning.com) a campanha passou a distribuir eletronicamente cartazes, logomarca, fotos, arte para ser impressa em camisetas e tudo o mais para colocar o bloco na rua em grande estilo, incluindo o jingle MahatMarina de R. Arthur. No início de agosto, antes mesmo de Marina anunciar oficialmente sua saída do PT, já havia um cartaz com o V do Partido Verde. O Movimento virou uma grande rede social, na qual os participantes também podem criar seus próprios materiais de campanha e disponibilizá-los.

“Ela pode fazer campanha pela Internet, porque a lei que regulamenta o assunto ainda não foi votada pelo Congresso. Só o TSE poderia tirá-la do ar e assim mesmo não creio nesta possibilidade, porque o presidente do Tribunal já declarou ser favorável a dar o tratamento de território livre para a Internet”, opinou Walter Costa Porto, ex-ministro do TSE e um dos maiores especialistas em legislação eleitoral. O Movimento Marina Silva Presidente já conta com 8 mil membros efetivos e um sem número de simpatizantes. Grupos (ou tribos) lá instalados são 131.

Pela segunda vez em menos de um ano o PV surpreende fazendo bom uso da Internet. A primeira foi na campanha de Fernando Gabeira a prefeito do Rio, de excelente qualidade técnica. E isso acontece justamente no momento em que os políticos se recusaram a dar um tratamento digno à rede, tentando amordaçá-la no remendo de lei relatado pelo deputado Flávio Dino (PCdoB-MA). A qualidade do trabalho dos apoiadores de Marina se traduz em dois aspectos: o primeiro, é a agilidade na distribuição do material de campanha; o segundo, é a fidelização dos apoiadores, que podem participar e dar idéia, exatamente como fez a campanha vitoriosa de Barak Obama.

Estes dois aspectos, aliados à simplicidade e boa navegabilidade do site, podem fazer a diferença em favor de Marina na conquista de novos eleitores. Uma militância espontânea, coisa cada vez mais rara hoje em dia e ainda mais com característica de rede, é ouro puro. Esta iniciativa já está sendo desdobrada no Twitter, no Orkut, no Facebook e outras redes sociais mantendo o nome da candidata em evidência.

A Internet é um meio barato e eficiente de fazer campanha. Não é coisa de candidato rico, nem de candidato pobre. É coisa de candidato criativo para dizer o mínimo. Um bom site não custa caro e as redes sociais têm plataforma pronta, a espera de um bom conteúdo. Sem requerer orçamentos astronômicos ou gastos exorbitantes, a Internet é desprezada por uma maioria de políticos acostumados ao “voto é dinheiro” e “eleição é negócio”.

A era da campanha de papel, que durante tanto tempo fez a felicidade do setor gráfico, está chegando ao fim. O Twitter e o SMS substituirão o velho santinho de guerra e o You Tube movido a câmeras de celular vai obrigar as produtoras a reverem seus conceitos. A interatividade está tornando as campanhas permanentes. Entender isso significa sobrevivência, manutenção do poder. Dentro de no máximo uma década só haverá voto.com.

Publicado na edição de setembro da Revista Voto.

Uma viagem ao insólito

Monica Torres Maia

Jornalista. Prêmio Rey de España de Imprensa 1999.

monica1Insólito. Cada momento assim poderia ter sido um desastre. Contrariar regras tende, simplesmente, a bagunçar tudo. Ou um pedaço importante do círculo cotidiano. Mas se for contar instante por instante, essa é a melhor definição da maioria deles – insólito. Claro que estou falando de regras conhecidas, estabelecidas, ditas receitas de equilíbrio e conseqüente bem-estar. Tudo planejado.

A verdade é que agarrei cada instante insólito sem economia de mãos. Como naquele dia de 1996 quando recebi um fax do escritório de Marcello Mastroianni. Estava às voltas com textos a escrever, panelas, máquina de lavar, teclados de computador, esperando o meu filho de 11 anos retornar da escola. Morávamos na pequena Cascais, em Portugal. Era correspondente de um jornal brasileiro. Num piscar de olhos largara tudo para trás – o Brasil, o aconchego da família, as facilidades do Terceiro Mundo. Não pensei duas vezes em atravessar o Atlântico com um companheiro pré-adolescente, que precisava de toda a minha atenção, e ir encontrar a 12 mil quilômetros de distância as dificuldades de um país estrangeiro onde as empregadas domésticas custavam ouro e eu não conhecia ninguém próximo. Da decisão à mudança passaram bólidos dois meses. Desembarquei no aeroporto de Lisboa às 6 da manhã, sob chuva fina, num 29 de fevereiro. Num vôo que deveria ter feito escala na cidade do Porto, mas que, prenunciando o que estava por vir, simplesmente seguiu direto para a capital portuguesa sem qualquer explicação. A carga de trabalho que sempre foi alta, de pelo menos dez horas diárias, dobrou de cara. Até o singelo feijão com arroz passou a ficar por minha conta. Preso ao ombro, o telefone usado nas apurações impregnou-se de temperos, enquanto mexia a colher de pau.

E, mesmo assim, o insólito foi, mais e mais, assumindo o comando. Há uns cinco meses, pedira aquela entrevista ao diretor italiano Roberto Faenza, com quem Mastroianni fizera o então recente “Afirma Pereira”. Insistira, insistira, e nada. Estava acostumada ao ritmo do fechamento e das fontes de informação do continente americano. Naquela ponta da Europa aprenderia, a duras penas, que o especial surge quando bem quer. Sem profundidade rasa.

Então, adrenalina ausente, o fax apareceu na minha varandinha cercada de pinheiros: Marcello Mastronianni esperava para uma entrevista no dia seguinte, às 21h, em Melgaço. Corri para o mapa. Melgaço? Ficava na fronteira com a Espanha, lá em cima, depois de muitas tortuosas e íngremes estradinhas Portugal a fora. Enquanto isso, o purê de batata começava a ferver e o meu filho atravessava a porta e atirava a mochila no sofá. Dinheiro contado, pensava como chegaria rápido. Comecei a conversa com ele; não poderia deixá-lo sozinho, a aventura seria nossa. “Mas, mãe, tenho prova na quinta de manhã!”. O que era 12 horas depois do início da entrevista.

Bem, levei sete horas para avistar Melgaço, suas edificações medievais e o delicioso Alvarinho que só provaria meses depois. Umas três horas antes de o encontro acontecer. Numa edificação muito antiga, acho que do século XVII, no meio de um parque outonal. A lua explodia quando encostei o carro próximo ao horário acertado. “Marcello Mastroianni? Mãe, você está brincando…” Incrédulo entre edredons e travesseiros, no banco de trás, arrastado àquele lugar improvável, Bruno queria mesmo é estar entre os colegas.

Desci lentamente as escadas. Do outro lado, de repente, veio ele. De bengala, amparado, grisalho, aos 72 anos. Emocionei-me. Inevitável (Imparcialidade não existe nem na ficção). E lá estava, sobreposto, mais inteiro do que o correr dos anos, aquele “Belo Antonio” de 1960, de Mauro Bolognini. A lua parecia ficar cada vez mais cheia, enquanto a conversa só corria pelas veias. “Garofano?” Foi a sua lembrança imediata e risonha ao brasileiro “Gabriela, Cravo e Canela”. Os olhos davam a impressão de sombras de catarata; o brilho, porém, era intenso. Discorria, entusiasmado, sobre os projetos futuros como se fosse um rapazinho. Filmava “Viagem ao Princípio do Mundo”, de Manoel de Oliveira, seu último trabalho. Mastroianni morreria três meses depois, em Paris, ao lado da única filha.

Bruno conseguiu fazer a prova no dia seguinte. Moído. Dormira mal a maior parte do tempo no carro. Chegamos a Cascais de madrugada. Minhas pernas tinham câimbras. A matéria, algumas horas depois, saiu sem sentir. Meu filho, cada vez mais, navegava numa estrada diferente. Fortalecia-se. Punha na bagagem um rol de imprevisibilidades que o tornariam muito interessante. Cumprindo todos os deveres, sem drogas, sem dor, buscando sua carreira com prazer. Insólito.

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