"Ajudando as mulheres a liderar, vencer, governar." ✫Desde 2009✫

Arquivos para a dezembro 23rd, 2010

As Capitãs da Indústria do Paraná

Este é o oitavo capítulo do livro Capitãs da Indústria do Paraná, da economista e professora Gina Paladino (saiba mais sobre a autora no fim deste post). Todas as quintas-feiras um capítulo é publicado no Mulheres no Poder.

Capítulo 8

JOICE NERVIS RONCAGLIO

O pão de cada dia fez da Queijo e Cia. um sucesso e rendeu prêmio à empresária.

Capitas_da_Industria.p65Joice Nervis Roncaglio é uma mulher perseverante. Apaixonada pelo que faz, a empresária, dona da panificadora Queijo e Cia., uma das maiores de Foz do Iguaçu, está acostumada a longas jornadas de trabalho. Não foram poucas as vezes em que Joice levantou às 4 horas da manhã e só parou de trabalhar às 21 horas.

O esforço, reconhece, valeu a pena. Em menos de 10 anos, passou de produtora de pães caseiros, que vendia de porta em porta, a empreendedora de sucesso. No início de 2005, Joice recebeu o Prêmio Sebrae Mulher Empreendedora, disputado por 700 candidatas. Em junho, desfrutou da segunda parte do prêmio: uma viagem de dez dias à Suíça, onde conheceu novas tecnologias e produtos. E voltou, lógico, com novas idéias. Entre elas, a oferta de produtos diferentes e a abertura de filiais. A dedicação ao trabalho é tão grande que, para conviver com o marido e os três filhos, envolveu a família no negócio. Se não se vêem na padaria, onde todos trabalham, encontram-se sem falta à noite. “Tenho uma cama muito grande. É de propósito. Nela tem que caber cinco pessoas, porque todas as noites nos deitamos ali e conversamos em família”, conta.

O ritmo é o mesmo desde que Joice iniciou a vida profissional, costurando em sua casa, na cidade de Chopinzinho. Quando se casou, montou uma empresa de corte e costura e venda de tecidos. Mais tarde, a empresa se transformou em confecção. Joice começou a produzir camisetas e shorts em escala, com vendedores em algumas cidades e um ponto de venda em Guaramirim (SC). Porém, sem experiência em gestão de negócios, Joice não conseguiu reverter problemas financeiros, e a empresa faliu. Além de ficar sem renda, herdou dívidas que não tinha condições de quitar. “Mas eu tinha que saldá-las, era uma questão de consciência”, afirma. Nessa época, o marido, Almir José Roncaglio, que trabalhava na Caixa Econômica Federal, foi transferido para a cidade de Santo Antônio do Sudoeste, onde ficou por seis meses.

Joice então pediu dinheiro emprestado ao cunhado, pagou tudo o que devia e iniciou novo

negócio. Em sua casa montou uma sala de jogos de videogame com quatro equipamentos, onde também vendia doces para as crianças. “Cheguei a ter um faturamento líquido diário de R$ 80,00 e com isso consegui pagar o meu cunhado. A experiência me fez perceber que era bom vender produtos e serviços baratos e receber à vista”, conta. Em 1995, o marido foi transferido novamente, desta vez para Foz do Iguaçu, onde Joice começou a fazer pães, cucas e bolachas, que vendia em casa, no salão de cabeleireiro de uma amiga e na frente de

escolas. Era o embrião da Queijo e Cia.

“Um dia eu vendi tudo o que tinha, então parei numa padaria perto de casa para comprar pão para os meus filhos. O dono me disse que o padeiro dele não tinha vindo trabalhar e que estava em dificuldades”, lembra. Joice enxergou na conversa uma oportunidade. Ofereceu ajuda, sem cobrar nada. Em troca, queria apenas aprender. “Trabalhei durante 60 dias sem salário, até que um dia o dono da padaria me disse que queria vender seu negócio e ir embora de Foz.” Como não tinha todo o dinheiro para comprar a padaria, procurou seu irmão, Joel Nervis, e propôs sociedade por dois anos. Tempo necessário para levantar dinheiro, comprar a parte do irmão e tocar sozinha o negócio.

Acertada a compra, ela transferiu a padaria para o prédio onde morava, assim poderia trabalhar e cuidar dos filhos. Isto porque seu marido, que tinha saído da Caixa Econômica Federal, estava agora empregado numa fazenda no Paraguai, a 100km de Foz. “Ele vinha para casa uma vez por semana, se não chovesse, ou a cada 15 dias, até mais, se chovesse”, lembra.

Cuidar da família e do negócio apenas iniciando foi difícil. Mas Joice insistiu. “Em 1998 abri a padaria e comecei a trabalhar com mais duas mulheres. No primeiro dia vendi R$ 26,00. Mas não desanimei. Trabalhava duro, das 4h às 21h sem parar. Abria e fechava as portas, atendia, produzia, vendia, comprava, entregava, fazia tudo.” Aos poucos, a padaria foi se firmando. Até chegar a vender R$ 70,00 por dia. “Mais ou menos uns quatro meses depois, convidei minha irmã Jane para vir morar comigo e me ajudar, então, a partir desse período, eu comecei a fazer alguns cursos na área de confeitaria. Quando eu voltava, queria passar para minha irmã o que tinha aprendido, porém ela às vezes não me entendia, e isso gerava alguns conflitos. Também, pudera, ela não entendia nada de confeitaria. Porém, com o passar do tempo, ela se tornou uma excelente confeiteira, e assim fomos formando outras mãos-de-obra. Hoje, ninguém entra aqui como profissional, nós ensinamos aquilo que achamos correto e formamos a profissional à nossa maneira. Minha irmã ficou comigo durante cinco anos, tendo se tornado inclusive minha sócia. Ela faz parte desse sucesso e do sucesso da Queijo e Cia.”

Fez um trato com o marido: ele ficaria no Paraguai até que o faturamento diário alcançasse R$ 300,00, daí voltaria para Foz e entraria no negócio. A meta foi alcançada em 2000, e Almir passou a ajudar na administração da empresa. Com isso, Joice pôde investir um pouco mais em si mesma e retomar os estudos, paralisados no 2.º grau. Participou de seminários e treinamentos especiais para panificadores e empresários. Em 2001 fez o Empretec, um curso para empreendedores oferecido pelo Sebrae. “Foi aí que começou e crescimento da Queijo e Cia. em Foz do Iguaçu”, conta. Em julho deste ano começou a fazer o curso superior de Gestão de Negócios. A empresária conta que participa de todas as feiras e congressos do ramo da panificação e faz todos os cursos que acha necessários para ela e para sua empresa.

O investimento em capacitação gerencial é um importante diferencial nos negócios, acredita. “Quando criei a Queijo e Cia. Jurei para mim mesma que jamais quebraria de novo. Eu tinha que me aperfeiçoar cada vez mais para conseguir manter meu negócio vivo e crescente”, explica.

Com certeza conseguiu. Das duas ajudantes iniciais, hoje a panificadora conta com 24 funcionários, além de Joice, o marido e os filhos. Ela cuida da área de produção, vendas e eventos. O marido Almir José Roncaglio é responsável pela área administrativa e financeira da empresa. O filho Paulo Henrique, de 18 anos, trabalha na padaria das 7h às 12h e, quando o caixa da manhã está de folga, chega às 5h45 para abrir a padaria. Daniel, de 15 anos, estuda pela manhã e trabalha no negócio da família das 17h às 20h. E Jéssica Laís, de 12 anos, passa as tardes na padaria, ora ajudando no balcão, ora no caixa ou lavando louças. Na parte física, também houve grandes mudanças. Na primeira padaria as áreas de produção e de vendas somavam 90m2. Atualmente, a Queijo e Cia. funciona em uma casa de 450m2, em uma área nobre de Foz, com salão para lanches e outro para festas com capacidade para 70 pessoas. A quantidade de venda diária é muito grande. “Desmanchamos 4 mil quilos de farinha por mês”, calcula Joice. E os planos são crescer ainda mais. Para melhorar o controle de todo o negócio, o plano é informatizar totalmente a empresa até o final de 2005. O serviço de disk-entrega deve passar de um moto-boy para seis até dezembro e chegar a 10 em 2006. Joice quer tornar a Queijo e Cia. líder em eventos em Foz. Por isso, planeja uma grande reforma no próximo ano, além da abertura de mais dois pontos de venda na cidade.

Depois de consolidar seu negócio em Foz do Iguaçu, o objetivo é conquistar novos mercados. Aos 39 anos, a empresária demonstra ter energia suficiente não só para planejar, mas também para executar o projeto de expansão da empresa. E já escolheu as cidades onde quer ver funcionando sua Queijo e Cia.: Curitiba, em 2007, e Cascavel, em 2008.

Gina Paladino

Gina Paladino

Sobre a autora – Gina Gulineli Paladino é economista formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Fez cursos de pós-graduação no Brasil, França, Japão e Suíça. Dedicou boa parte da sua vida profissional ao planejamento e à gestão de programas e projetos nas áreas de ciência, tecnologia, indústria, inovação, empreendendorismo e cooperação universidade-empresa. Publicou livros sobre parques tecnológicos, incubadoras de empresas e empreendimentos inovadores na Europa. Foi professora de graduação e pós-graduação, coordenadora de Ciência e Tecnologia da Sercretaria de Ensino Superior, Ciência e Tecnologia do Paraná, diretora da Incubadora Tecnológica de Curitiba (INTEC), coordenadora de Administração Estratégica do Instituto Euvaldo Lodi (IEL Nacional), em Brasília, diretora e conselheira da Associação Nacional de Parques Tecnológicos e Incubadoras de Empresas (ANPROTEC), em Brasília, correspondente da Agência de Notícias da Confederação Nacional da Indústria (CNI) na Europa, diretora executiva do Instituto Euvaldo Lodi (IEL Paraná), em Curitiba , superintendente das Áreas de Pequenas Empresas Inovadoras e Subvenção e Cooperação da Diretoria de Inovação da FINEP (Agência Brasileira de Inovação), no Rio de Janeiro e atualmente é assessora da Presidência da Federação das Indústrias do Estado do Paraná – FIEP.

Ig
dezembro 2010
D S T Q Q S S
« nov   jan »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  
Curta!
Mulheresnopoder